Introduzindo libertarianismo e suas variantes III: hard-line x bleeding heart

[para ver um “dossiê” mais completo sobre libertarianismo bleeding heart, vide aqui]

 

A postagem anterior “Introduzindo libertarianismo e suas variantes II: libertarianismo de esquerda x de direita” tratou de uma divisão que, na forma como ali exposta, assumiu forma após a 2ª guerra mundial. A tradição libertária é anterior, sendo que aquela mais de direita era denominada de liberalismo clássico, enquanto a de esquerda era muito conhecida a partir de discursos anarquistas, como o mutualismo.

Contudo, aqui pretende-se abordar uma divisão que não é completamente consonante com a dicotomia “esquerda x direita”. É aquela entre “hard-line (linha-dura) x bleeding heart (coração ferido)”. Enquanto o “hard-line” seria “de direita”, o “bleeding heart” pode estar mais próximo da direita ou da esquerda, ou mesmo poderia ser designado como de centro*. Ambos trabalham em cima da tradição libertária, mas dividem-se sobre como o libertarianismo está justificado e o tipo de libertarianismo que assim se justifica, notadamente quanto à consideração da vulnerabilidade socioeconômica.

A questão da justificação é resumidamente: “sabendo que livres mercados beneficiam pessoas pobres e oprimidas em alguma medida, isso faz parte ou não da justificativa para ser libertário?

O libertarianismo hard-line, ou axiomático, responde que “não”. Esse libertarianismo advém do período pós-guerra e buscou axiomatizar essa filosofia política em torno de direitos de não interferência absolutos, que dariam razões morais suficientes para sustentar uma política minarquista (o Estado mínimo: dá conta apenas da segurança, defesa externa e tribunais) ou anarco-capitalista (o mercado capitalista provê segurança interna e externa, e tribunais), independente de seus efeitos benéficos ou maléficos sobre pessoas pobres e oprimidas e mesmo aceitando-se que, de fato, há efeitos benéficos.

Na versão de Rothbard, isso ocorre em torno do conceito de “auto-propriedade” e derivados “direitos de propriedade” a partir do “primeiro uso” (homesteading) sobre as coisas e transferências voluntárias. É uma posição muito adotada no Instituto Mises (http://mises.org/), inclusive no brasileiro (http://www.mises.org.br/). Outros expoentes são Ayn Rand (objetivismo)** e Robert NOZICK, que afirmou “O Estado mínimo é o Estado mais amplo que se pode justificar. Qualquer outro, mais amplo, constitui uma violação dos direitos das pessoas” (p. 191).

BRENNAN, no ensaio “Neoclassical Liberalism: How I’m Not a Libertarian”, coloca que ele não seria um libertário caso este termo seja caracterizado de uma maneira restritiva (a “hard-line”): 1) direitos de propriedade e outros direitos como absolutos ou quase absolutos; 2) uma concepção de direitos e justiça fundamentada no conceito de “auto-propriedade”; 3) rejeição da justiça social de qualquer forma; 4) rejeição da liberdade positiva como realmente sendo uma liberdade e uma valiosa forma da mesma, para ser socialmente promovida.

Por outro lado, libertários “bleeding heart” (coração-ferido) é um conceito que tem surgido agora no século XXI, com o blog “Bleeding Heart Libertarians” fundado em 2011 (http://bleedingheartlibertarians.com/), que busca resgatar, na tradição libertária, uma abordagem sensível à questão da vulnerabilidade socioeconômica (pobreza, opressão, etc.) tanto para a justificação das instituições libertárias quanto para potenciais “revisões” nas instituições libertárias de proteção às liberdades individuais de não interferência (inclusive alguns defendendo um Estado maior que o Estado mínimo).

Para ZWOLINSKI, fundador daquele blog, no ensaio “What is Bleeding Heart Libertarianism? Part One: Three Types of BHL”, considera o BHL (Bleeding Heart Libertarianism) como dividido em três: Contingent BHLs;  Anarchist Left BHLs; Strong BHLs.

Contigent BHLs (BHL contigente) é um grupo com visões padrões da direita libertária: o Estado deve estar constrangido à proteção da liberdade negativa (por motivos utilitaristas ou deontológicos). O que os associaria aos “bleeding heart” seria a crença de que instituições libertárias são benéficas aos pobres e vulneráveis, e que isso deva ser celebrado, entretanto, isso não tem um papel justificatório essencial, já que a justificação em torno de direitos e/ou consequencialista é suficiente.

Anarchist Left BHLs (BHL anarquistas de esquerda): apesar das crenças muito semelhantes às da direita libertária em torno da propriedade e da auto-propriedade, são diferenciados da mesma por crenças empíricas acerca da medida na qual o capitalismo contemporâneo é produto e depende do Estado injusto, e sobre a medida em que classes pobres e trabalhadoras ficariam melhor em uma sociedade sem Estado. Em relação às diferenças filosoficamente significativas, uma possibilidade é a de que libertários de esquerda entendam que instituições libertárias são pertinentes para, além de restringir o tamanho ou escopo adequado do governo, tirar conclusões acerca das relações sociais adequadas (p. ex. oposição às corporações hierárquicas).

Strong BHLs (BHL fortes) – As instituições libertárias dependem, em parte, para sua justificação moral quanto à medida na qual servem aos interesses dos pobres e vulneráveis. No ensaio “What is Bleeding Heart Libertarianism? Part Two: Strong BHL”, detalha essa posição em três aspectos: 1º Justificativo: inclui o atendimento às necessidades dos mais vulneráveis socioeconomicamente como parte da justificação para o libertarianismo; 2º Revisionista: aceita os desafios colocados por situações nas quais as instituições libertárias possam não servir ao atendimento daqueles interesses, porque, mesmo que esses casos sejam menos comuns do que se supõe e a fé na intervenção do governo para corrigir problemas sociais seja muitas vezes injustificada, parece improvável que o equilíbrio de razões morais complexas e conflitantes das quais resultam instituições e políticas adequadas sempre irá está em favor de instituições libertárias: “But it strikes me as not at all implausible that some form of state-based redistribution to the poor will survive the justificatory challenge, along with some forms of public good provision”; 3º Histórico: é parte legítima da tradição libertária ao longo de sua história e seria bem mais representativo do que as versões mais recentes (e conhecidas) de Rothbard e Ayn Rand.

Assim, libertários bleeding heart são uma nova proposta, que, resgatando aspectos já historicamente existentes na tradição libertária, busca justificar o libertarianismo em parte por razões de “bem-estar e justiça sociais” e rever políticas e instituições libertárias a partir dessas razões adicionais a serem consideradas, com o intuito de defender a compatibilidade entre liberdades econômicas abrangentes e justiça social. Como diria BRENNAM, em entrevista, quando defrontados com a escolha entre “expansive economic liberty or social justice”, devemos afirmar “Justice demands both, thank you”!

UPDATE:

*Para uma discussão mais abalizada da relação entre libertarianismo bleeding heart e libertarianismo de esquerda, na qual se conclui que o libertarianismo bleeding heart está à esquerda, no âmbito libertário, vide esse texto mais recente do blog: https://libertarianismoedarwinismo.wordpress.com/2013/06/11/libertarios-bleeding-heart-sao-libertarios-de-esquerda-conversa-que-tive-com-roderick-long/

**Uma observação importante a ser feita é que Ayn Rand não era exatamente libertária, mas existe certa dúvida sobre como ela se encaixa no espectro político.

Referências:

BRENNAN, Jason. Neoclassical Liberalism: How I’m Not a Libertarian. —> http://bleedingheartlibertarians.com/2011/03/neoclassical-liberalism-how-im-not-a-libertarian/

BRENNAM, Jason. Em entrevista intitulada “On the ethics of voting”, feita por Richard Marshall. —> http://www.3ammagazine.com/3am/on-the-ethics-of-voting/

ZWOLINSKI, Matt. What is Bleeding Heart Libertarianism? Part One: Three Types of BHL. —> http://bleedingheartlibertarians.com/2011/12/what-is-bleeding-heart-libertarianism-part-one-three-types-of-bhl/

ZWOLINSKI, Matt. What is Bleeding Heart Libertarianism? Part Two: Strong BHL  –> http://bleedingheartlibertarians.com/2011/12/what-is-bleeding-heart-libertarianism-part-two-strong-bhl/

NOZICK, Robert. Anarquia, Estado e Utopia. Tradução: Fernando Santos. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2011.

4 respostas em “Introduzindo libertarianismo e suas variantes III: hard-line x bleeding heart

  1. Pingback: Guia básico para o liberalismo neoclássico (versão “forte” do libertarianismo bleeding heart) | Tabula (não) Rasa & Libertarianismo Bleeding Heart

  2. Pingback: Justiça social, no estilo de livre mercado | Mercado Popular

  3. Pingback: Temas tratados no 1º ano do blog | Tabula (não) Rasa & Libertarianismo Bleeding Heart

  4. Pingback: Justiça social, no estilo de livre mercado | liberdade br

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s