A evolução por seleção natural como decorrência lógica de observações – parte I: fatos simples

Um bordão muito usado por discursos contrários ao darwinismo, notadamente os religiosos e criacionistas “científicos” (pseudociência, mas não discutiremos isso agora), é o de que a evolução, ou macroevolução, seria “apenas uma teoria”, já que não pode ser observada. Apenas um nível micro seria observável, pequenas mudanças que em nada se comparam às grandes mudanças evolucionárias (nível macro) preconizadas pelos paleontólogos e biólogos evolucionários. Assim, o falante do bordão se considera justificado na descrença quanto ao darwinismo e à ocorrência da evolução.

No recente e polêmico “De Frente com Gabi” onde Marília Gabriela entrevistou o pastor Silas Malafaia (em 03/02/2013), este pastor usou o bordão de forma bem explícita: “O que que é ciência? Tem que ter observação. Por que a evolução é teoria? Porque você não pode comprová-la na observação.” (cf. 21:57 à 22:07 no vídeo a seguir –> http://www.youtube.com/watch?v=Myb0yUHdi14)

Esse bordão é falso, de uma perspectiva tanto do significado da expressão “teoria” para a comunidade científica, como do próprio sentido do que é “ciência” tal como discutido na filosofia da ciência. Mas não discutiremos isso aqui. Antes, veremos se evolução por seleção natural tem alguma coisa a ver com “observação”. A evolução não é comprovada pela observação, como alegado na entrevista mencionada?

Robert Foley, um antropólogo evolucionário da universidade de Cambridge, discorda. Em seu livro “Os Humanos Antes da Humanidade”, ele comenta que evolução pode ser tanto “o processo ao longo do tempo, e (…) o mecanismo específico que causa essas mudanças. Esse mecanismo é passível de verificação e, de fato, já o foi muitas vezes; portanto, não há razão para afirmar que a teoria não pode ser verificada. (…) Na prática, a teoria da seleção natural é empiricamente verificável e construída sobre uma série de observações concretas” (p. 42).

Esse mecanismo é a seleção natural: “sucesso reprodutivo diferencial”, ou seja, havendo diferentes tamanhos de prole em uma população de organismos reprodutores, é a seleção natural que determina esse “índice diferenciado de reprodução e sobrevivência” (p. 43). Mas o mecanismo apenas opera nas seguintes condições:

1) “os organismos têm que se reproduzir” (p. 43);

2) “deve haver algum modo de hereditariedade – isto é, que a prole deve se parecer com seus pais mais do que se parece com a população em geral. (…) Se as informações que determinam as características do genitor podem ser transmitidas para a prole, então os traços que propiciam a sobrevivência e o potencial reprodutivo dos pais irão ocorrer com maior frequência em cada geração subsequente, dependendo do número de filhos” (p. 43);

3) “deve haver uma variação interna à população” (p. 43). Sem variação, todos os indivíduos serão iguais, e suas proles também, de modo que não haveria características diferenciadas, geneticamente transmissíveis, que pudessem dar vantagens para alguns indivíduos e suas proles se reproduzirem mais ao longo do tempo, em comparação aos demais da população;

4) “competição” (p. 44) na obtenção de recursos (finitos) que propiciam a reprodução, isso porque “se os recursos necessários para sustentar a população fossem infinitos, não haveria reprodução diferenciada. Um indivíduo poderia ter todos os filhos possíveis, e, portanto, não haveria mudanças de uma geração a outra, apenas uma expansão constante e contínua” (p. 44). Aliás, um mundo de recursos infinitos é teoricamente impossível, pois o tempo também é um recurso e é necessariamente limitado. Assim, concorrendo por recursos e apresentando diferentes índices de reprodução bem-sucedida, qualquer característica hereditária que forneça uma vantagem na aquisição desses recursos aumenta o índice reprodutivo do indivíduo e é repassada para sua prole.

Todas essas condições estão sujeitas à fácil verificação empírica: “É possível observar a reprodução dos organismos, os mecanismos de hereditariedade já foram compreendidos, a ocorrência da variação pode ser bem estabelecida, e já o foi em boa parte, e a natureza finita dos recursos o mundo é praticamente um truísmo” (p. 44).

Conclusão de Robert Foley: a seleção natural é “uma necessidade lógica derivada de um certo número de observações simples” e, se as condições elencadas acima existirem, “a seleção natural será, necessariamente, a consequência“! Assim, “a evolução é o resultado dessas condições, e os padrões evolucionários variarão na medida em que essas condições elencarem”. (p. 44)

Acrescente-se que não há razão para sustentar que apenas mudanças pequenas podem ser resultado da seleção natural, uma vez que, como as condições mencionadas variam muito (e em diferentes medidas) considerado o tempo geológico, os resultados encontrados necessariamente devem ser bem diferentes (a menos que se suponha uma regra biológica do tipo “a variação nos genes nunca excederá uma estrutura (platônica?) essencial que subjaz/perfaz o design básico do organismo”, que é completamente artificial, subjetiva e não explica em nada os fatos observados na genética).

Logo, a seleção natural é um mecanismo observável e seus efeitos em larga escala ao longo do tempo e do espaço para produzir modificações estruturais muito grandes nos organismos não encontram impedimentos no modo como se observa que a genética funciona.

Referências:

FOLEY, Robert. Os Humanos Antes da Humanidade: uma perspectiva evolucionista. Tradução: Patrícia Zimbres. São Paulo: Editora UNESP, 2003.

Uma resposta em “A evolução por seleção natural como decorrência lógica de observações – parte I: fatos simples

  1. Pingback: Temas tratados no 1º ano do blog | Tabula (não) Rasa & Libertarianismo Bleeding Heart

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s