Desigualdade cognitiva em um mercado meritocrático e estratificação cognitiva da renda – Parte I: evidências analisadas

No presente texto, comentarei acerca de um conjunto de fatos documentados nos EUA que sugerem o incremento da desigualdade de classes e a formação de uma elite cognitiva, tendo em vista a desigualdade cognitiva da população em um mercado meritocrático e/ou que premia o capital humano. Em postagem futura, que complementará esta, serão apresentadas duas perspectivas de avaliação desse assunto, ambas consistentes de um ponto de vista libertário, com a diferença de que uma seja mais conservadora e a outra mais progressista.

A mais conservadora é aquela de Richard Herrnstein e Charles Murray, em “The Bell Curve” (A Curva do Sino), publicado em 1994. A mais progressista é a de Brink Lindsey, em “Human Capitalism” (Capitalismo Humano), publicado em 2012. Murray e Lindsey são libertários declarados.

Herrnstein e Murray fizeram uma análise estatística empírica da correlação das diferenças de QI na sociedade americana com uma série de variáveis, chegando a conclusão de que a variância (quantidade da diferença entre as pessoas) na medida de seu QI tem repercussões muito profundas ao nível socieconômico e cultural.

Já na introdução, eles trazem seis hipóteses básicas, amparadas nos testes cognitivos clássicos: 1) Há um fator geral (“g”) de habilidade cognitiva sobre o qual os seres humanos diferem entre si; 2) Todos os testes parametrizados de aptidão acadêmica ou de realização medem esse fator geral em algum grau, mas testes de QI expressamente projetados para medi-lo, o fazem mais precisamente; 3) Quando as pessoas usam as palavras “inteligente” ou “esperto” na linguagem comum, isso corresponde, em um primeiro grau (to a first degree), às pontuações em testes de QI; 4) Pontuações de QI são estáveis, mesmo que não o sejam perfeitamente, ao longo de grande parte da vida da pessoa; 5) Testes de QI apropriadamente administrado não são demonstravelmente tendenciosos contra grupos raciais, étnicos, sociais ou econômicos específicos; 6) Habilidade cognitiva é substancialmente herdável, aparentemente não menos que 40% e não mais que 80% [complementaria aqui: …. da diferença entre as pessoas em QI pode ser explicada pela diferença genética entre elas. Baseio tal complemento na explicação apresentada por Steven Pinker acerca do método da genética comportamental. Cf. referências].

A parte I do livro, “The Cognitive Elite”, aborda o incremento na estratificação da sociedade americana, em que os americanos mais inteligentes (ou seja, com maior QI) são selecionados para as faculdades e as ocupações mais seletivas e ter uma alta pontuação em testes de QI seria um preditor muito confiável do sucesso potencial de um profissional ou funcionário. A elite cognitiva emergente é composta por pessoas que ganham mais dinheiro, vivem em áreas diferentes, mandam seus filhos para igrejas, escolas, lojas, etc. diferentes, em relação aos de capacidade cognitiva mais baixa. Conclusão: tendência da elite à separação física do resto da sociedade.

Na parte II, “IQ and Social Problems”, apontam uma propensão de pessoas que incorrem em comportamentos anti-sociais ou de alguma outra forma indesejáveis para terem uma habilidade cognitiva abaixo da média: baixo QI é um forte preditor de pobreza, inclusive mais do que as condições socioeconômicas em que as pessoas cresceram; incrementa a chance de abandonar a escola antes de completar o ensino médio e diminui a chance de conseguir um diploma universitário; está associado com pessoas que estão desempregadas, muitas vezes feridas, ou ociosas (isto é, retiraram-se elas mesmas da força de trabalho); se correlaciona com altas taxas de divórcio, baixas taxas de casamento e altas taxas de nascimentos ilegítimos; incrementa a chance de crônica dependência do bem-estar governamental; e incrementa o risco de comportamento criminoso. Além disso, baixo QI nas mães correlaciona-se com bebês de baixo peso, pobre habilidade motora e desenvolvimento social da criança, e problemas de comportamento em crianças de 4 anos para cima, e as pessoas com QI baixo votam menos e se importam menos com questões políticas. A parte III, “IQ and Race”, aborda as desigualdades étnicas nas pontuações de QI.

Já Lindsey, em seu livro, tem como tese central a de que o desenvolvimento econômico tem estimulado e está dependente do desenvolvimento cognitivo, uma vez que, quanto mais rico e avançado o país, mais complexa a economia, mais conhecimento e know-how estão distribuídos no sistema, e a divisão do trabalho se torna mais especializada e intrincada. A complexidade social resultante demanda mais de nossas habilidades mentais e incentiva um investimento maior em “capital humano”, para incrementar habilidades cognitivas de um modo que nunca foi a norma no passado. Conclusão: capitalismo agora é um “capitalismo humano”: sistema social em que realização e status dependem grandemente de possuir o conhecimento e habilidades corretas.

Se o crescimento econômico nos torna mais inteligentes, por “inteligente” entenda-se uma maior fluência e capacidade de lidar com formas altamente abstratas de pensamento. Afinal, abstração é uma estratégia mental para abordar a complexidade: categorias e regras gerais são atalhos para evitar a sobrecarga de informação. Isso também é usado nas relações sociais: por exemplo, na conduta esperada de membros de categorias profissionais, ou na permuta de desejos concretos do momento por satisfações futuras imaginadas.

Com isso as diferenças de classe são incrementadas em uma direção de estratificação cognitiva. As ocupações da elite, que exigem maior sofisticação analítica, habilidades pessoais robustas, alta motivação e planejamento meticuloso geralmente serão preenchidas por pessoas mais niveladas e afinadas com essas habilidades, às quais receberão, assim, ambiente profissional propício para seu aprimoramento. Esses trabalhadores de elite tenderão a passar tais habilidades aos seus filhos: tanto em casa diretamente, como pela influência das comunidades nas quais eles se congregam.

Já as ocupações da classe trabalhadora, em contraste, não requerem muita fluência com abstração e eles tenderão a ser preenchidas com pessoas que sejam menos adaptadas para lidar com complexidade. Tais trabalhadores criarão famílias e comunidades em que a capacidade de lidar com abstração não se apresenta como proeminente. Isso significa que as diferenças nas demandas cognitivas entre os locais de trabalho resultam em diferenças culturais muito significativas ao longo das divisões de classe.

Há um aspecto histórico que faz essa desigualdade atual entre as classes ser diferente da existente no passado: a composição da elite no passado tinha muitos aspectos não meritocráticos, relacionado à “ser da família, raça, e sexo certos”, mas, atualmente, tais barreiras caíram e a meritocracia se tornou muito forte. Logo, a elite começou a concentrar-se mais intensamente na preparação de seus filhos para um mundo cada vez mais competitivo (satirizado como “helicopter parenting”), enquanto o resto da sociedade (por razões complicadas expostas no livro) virou-se na direção oposta – com o aumento dramático na “maternidade solteira” e divórcio levando a um ambiente de família e comunidade para o desenvolvimento do capital humano que é muito menos favorável do que antes.

Assim, o aumento da procura por trabalhadores altamente qualificados no mercado de trabalho, e a subsequente maior remuneração que se está disposto a pagar aos mesmos, conduziram ao incremento na desigualdade de renda (ainda que não seja o único fator). A família continua a ser importante para o sucesso socioeconômico, mas a razão não é a de “quem você conhece”, e sim “o que você sabe”. Em resumo, a situação atual nos EUA é de uma sociedade de classes meritocrática.

Referências:

LINDSEY, Brink. Human Capitalism –> http://bleedingheartlibertarians.com/2012/10/human-capitalism/

LINDSEY, Brink. Human Capitalism ‘s Inconvenient Implications –> http://bleedingheartlibertarians.com/2012/10/human-capitalisms-inconvenient-implications/

BEATTY, Brian. Review of “The Bell Curve” –> http://www.intelltheory.com/bellcurve.shtml

PINKER, Steven.Tábula Rasa: a negação contemporânea da natureza humana. Tradução: Laura Teixeira Motta. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

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