Integração conceitual: a inconsistência com as ciências naturais como critério para rejeitar idéias nas ciências humanas

No livro “The Adapted Mind: evolutionary psychology and the generation of culture”, um volume fundamental na literatura da psicologia evolucionária com ensaios de vários pesquisadores, a introdução feita pelos organizadores Leda Cosmides, John Tooby e Jerome H Barkow é dedicada à noção de “integração conceitual” das ciências.

Integração conceitual, ou integração vertical, é o princípio segundo o qual várias disciplinas dentro das ciências sociais e comportamentais seriam feitas mutuamente consistentes umas em relação às outras e consistente com o que é conhecido nas ciências naturais (COSMIDES e outros, p. 4). Esta integração já existe entre as ciências naturais: por exemplo, leis da química são compatíveis com as leis da física (idem).

Uma teoria é conceitualmente integrada quando é compatível com dados e teoria de outros campos relevantes do saber científico (COSMIDES e outros, p. 4): por exemplo, químicos não propõem teorias que violem o princípio da conservação da energia, elementar para a física (ibidem).

Enquanto as ciências naturais tem sido entendidas como contínuas, o mesmo não ocorre nas ciências humanas: biologia evolucionária, psicologia, psiquiatria, antropologia, sociologia, história e economia existem em grande medida isoladas uma em relação às outras e a formação em um desses campos não acompanha regularmente um entendimento compartilhado dos fundamentos dos demais (COSMIDES e outros, p. 4).

A integração conceitual é uma característica que garante um crescimento poderoso no conhecimento ao permitir que investigadores usem conhecimento desenvolvido em outras disciplinas para resolver problemas em sua própria: por exemplo, evidência sobre a estrutura da memória e da atenção pode ajudar antropólogos culturais a entender por que alguns mitos e idéias se espalham mais facilmente e rapidamente do que outros (COSMIDES e outros, p. 12).

A força das ciências naturais não advém do empirismo por si só, mas empirismo unido com o poder da inferência, tendo em vista um processo de feedback positivo: quanto mais é conhecido – quanto mais pode ser simultaneamente trazido à análise – tanto mais pode ser deduzido, explicado e mesmo observado (COSMIDES e outros, p. 13).

Segundo Edward O. WILSON, em “Sociobiology”, o método da inferência forte (strong inference), como sumarizado por John R. Platt, segue os seguintes passos:

1. Elaboração de hipóteses alternativas;

2. Elaboração de um experimento ou estudo de campo crucial, com diferentes resultados possíveis, cada um dos quais, tanto quanto possível, excluirá uma ou mais das hipóteses;

3. Realização do experimento, de modo a obter um resultado claro (clean result);

1′. Renove o procedimento, fazendo sub-hipóteses ou hipóteses sequenciais para refinar as possibilidades que permaneçam; e assim por diante. (WILSON, P. 28)

Segundo John R. SEARLE, no ensaio “Explicações Intencionais nas Ciências Sociais”, “não temos nada na sociologia ou na história que se compare ao rico aparato teórico que desenvolvemos na física, por exemplo” (p. 217) e em grande medida “as ciências sociais não foram teoricamente muito além de um tipo de senso comum sistematizado” (ibidem), e a essa constatação nem mesmo a economia é uma exceção, pois, apesar de ser uma disciplina matemática formalizada, “normalmente, o que o economista faz é reunir muitas suposições de senso comum, como o fato de que os consumidores tentam se dar bem e os negociantes tentam ganhar dinheiro, e então idealiza essas suposições (…) e elabora as implicações sistemáticas” (ibidem).

Levando em consideração o que foi exposto acima, a inconsistência com as ciências naturais pode ser usada como critério para rejeitar idéias nas ciências humanas, tendo em vista que a força da ciência não advém de comprovar o que é verdadeiro, mas de demonstrar conclusivamente que determinadas hipóteses são falsas, pela inferência dedutiva de sua falsidade via experimentação conclusiva. É o falsificacionismo de Popper:

“é possível, através de recurso a inferências puramente dedutivas, (com auxílio do modus tollens, da lógica tradicional), concluir acerca da falsidade de enunciados universais a partir da verdade de enunciados singulares” (POPPER, p. 43)

Para dar um exemplo muito simples: o enunciado universal “todo gato é preto” pode ser considerado falso desde que constatemos a verdade do enunciado particular “o gato G é branco”.

Desse modo, o processo de elaboração de experimentos pauta-se em uma tentativa de demonstrar a falsidade das hipóteses formuladas, e o conhecimento que temos sobre o mundo expande-se quando excluimos, do rol de possibilidades lógicas sobre como o mundo funciona, aquelas possibilidades que demonstramos conclusivamente que sejam falsas. Se determinada idéia já foi descartada no âmbito das ciências naturais, basear alguma idéia nas ciências humanas com base naquela só poderia nos levar para falsas conclusões.

Logo, a integração conceitual e a consistência entre ciências naturais e ciências humanas são objetivos que só tem a contribuir para o status científico das ciências humanas e a expansão de nosso conhecimento nesse âmbito. No mínimo, impedirá de permanecermos na situação lamentada por COSMIDES, TOOBY e BARKOW, em que encontramos biólogos evolucionários postulando processos cognitivos que possivelmente não resolveriam o problema adaptativo sobre consideração, psicólogos propondo mecanismos psicológicos que nunca poderiam ter evoluído e antropólogos fazendo suposições implícitas sobre a mente humana que nós já sabemos serem falsas (COSMIDES e outros, p. 4).

Referências:

COSMIDES, Leda; TOOBY, John; BARKOW, Jerome H.  Introduction: evolutionary psycology and conceptual integration. In: COSMIDES, Leda; TOOBY, John; BARKOW, Jerome H. (org.). The Adapted Mind: evolutionary psychology and the generation of culture. Oxford University Press, 1992.

WILSON, Edward. O. Sociobiology: the new synthesis. The Belknap Press of Harvard University Press, 1975.

SEARLE, John R. Explicações Intencionais nas Ciências Sociais. In: Consciência e Linguagem. Tradução: Plínio Junqueira Smith. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010.

POPPER, Karl. A Lógica da Pesquisa Científica. Tradução: Leonidas Hegenberg e Octanny Silveira da Mota. São Paulo: Cultrix, 2007.

5 respostas em “Integração conceitual: a inconsistência com as ciências naturais como critério para rejeitar idéias nas ciências humanas

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