O que é o modelo padrão das ciências sociais? (tabula rasa nas ciências sociais)

Aqui no blog defendo que visões “tabula rasa” sobre a natureza humana (“a idéia de que a mente humana não possui estrutura inerente e de que a sociedade, ou nós mesmos, podemos escrever nela à vontade”; PINKER, p. 21) não podem ser aceitas à luz do avanço do conhecimento científico. A mente humana não é tabula rasa. Entretanto, a visão “tabula rasa” ainda é muito forte nas ciências sociais, em uma versão específica que Tooby e Cosmides denominaram de “Modelo Padrão das Ciências Sociais” (Standard Social Science Model).

Em “The Psychological Foundations of Culture”, constante da obra clássica na disciplina da psicologia evolucionária “The Adapted Mind” (1992), John Tooby e Leda Cosmides (p. 23) defendem que existe um conjunto de suposições e inferências sobre os seres humanos, suas mentes e sua interação coletiva que tem provido os fundamentos conceituais das ciências sociais há aproximadamente um século e serve como garantia intelectual para o isolacionismo das ciências sociais (já comentado aqui no blog, vide referências) – seria o Modelo Padrão das Ciências Sociais.

Tooby e Cosmides descrevem dez passos que motivam esse Modelo, onze proposições acerca de seu tratamento em relação à cultura e três críticas principais. Apresentarei aqui resumidamente, portanto, a caracterização feita desse Modelo e as críticas principais.

Segundo Tooby e Cosmides, existem dez considerações que motivam o Modelo Padrão das Ciências Sociais:

1 – A unidade psíquica da humanidade e a rejeição do racialismo: infantes de todos os grupos humanos tem essencialmente o mesmo design e potencial humano básico e a variação genética humana não explica o porquê das diferenças drásticas existentes entre grupos humanos em pensamento e comportamento. (p. 25)

2 – Enquanto infantes são os mesmos em toda parte, adultos diferem profundamente em sua organização comportamental e mental. (p. 25)

Dedução com base em “1” e “2” –> como uma “constante” (a herança biológica humana observável em infantes) não pode explicar uma “variável” (diferenças intergrupais na complexa organização mental e social adulta), o Modelo conclui que a “natureza humana” (estrutura evoluída da mente humana) não é a causa da organização mental dos adultos humanos, de seus sistemas sociais, sua cultura, mudança histórica, etc. (p. 25-26)

3 – Os comportamentos adultos complexamente organizados estão ausentes em infantes. O equipamento psicológico “inato” dos infantes é visto como altamente rudimentar, incluindo uma habilidade para aprendizado. Assim, os infantes precisam adquirir a organização mental adulta de alguma fonte fora deles mesmos. (p. 26)

4 – A fonte citada em “3” é o mundo social na forma do comportamento e das representações públicas de outros membros do grupo local. Assim, o material da organização mental ou é inato (que seria biológico e visto já no infante) ou é cultural, que contém tudo quanto seja complexamente organizado e que é fornecido pelo mundo social (exceto o fornecido pelo ambiente físico e aprendizado não social). (p. 26)

5 – Os elementos culturais e sociais que moldam o indivíduo precedem a ele e são externos a ele. Assim, o indivíduo é uma criação/efeito/resultado do mundo social e a organização mental adulta é socialmente determinada. Logo, a direcionalidade do processo causal é unilateral (o impacto do indivíduo sobre a cultura é praticamente desprezível), onde o mundo sociocultural determina o indivíduo. (p. 26)

6 – O que existe de distintivo no ser humano é usualmente referido como “cultura”. Cultura é descrita de várias maneiras: comportamento, tradições, conhecimento, símbolos significantes, fatos sociais, programas de controle, sistemas semióticos, informação, organização social, relações sociais, relações econômicas, mundos intencionais, ou realidades socialmente construídas. A característica que une todas essas definições é que cultura é externa ao indivíduo. (p. 27)

Obs: os seis primeiros passos descrevem o caminho da mente “sem forma” do infante (que contribui principalmente com sua capacidade de ser socializada) para uma mente inteiramente humana. A seguir, se torna importante responder a questão sobre quem criou a cultura. (p. 27)

7 – A causa da cultura não está no indivíduo, mas deve ser encontrado externamente a ele, no mundo social. (p. 27-28)

8 –  A geração da organização complexa da vida humana decorre de um conjunto de processos emergentes cujos determinantes são realizados no nível do grupo. O nível sociocultural é distinto, autônomo e auto-causado, de modo que fenômenos socioculturais são causados por outros fenômenos socioculturais. (p. 28)

9 – Dessa forma, nega-se que a “natureza humana” (arquitetura evoluída da mente humana) possa ter qualquer papel como gerador da organização complexa da vida humana, mesmo que seja uma condição necessária para esta. Logo, a natureza humana não tem nenhum conteúdo substantivo e apenas incorpora “a capacidade para a cultura”. Ou seja, um material indeterminado que os fatores sociais moldam e transformam. Contudo, tendo em vista certas tendências no estudo do cérebro, a noção pura de tabula rasa foi permutada para uma de procedimentos cognitivos “rasos”/vazios. A mente seria um computador de propósito geral, originalmente sem conteúdo, de modo que o input ambiental/cultural é quem determina todo o conteúdo posterior e “instala os programas”. Dessa forma, a natureza humana não é objeto legítimo de estudo, pois é vazia de conteúdo. (p. 28-29)

10 – Psicologia é a disciplina que estuda o processo de socialização e o conjunto de mecanismos que estão compreendidos na “capacidade para cultura” dos antropólogos. O conceito central nesta disciplina é o de aprendizado. Uma teoria psicológica está de acordo com o Modelo Padrão se qualquer mecanismo, componente ou processo psicológico proposto seja livre de conteúdo, independente de conteúdo, de propósito geral, de domínio geral, etc. (os termos técnicos variam) Os mecanismos devem ser capazes de absorver qualquer tipo de mensagem cultural ou input ambiental igualmente bem. A psicologia falará, então, de leis gerais do aprendizado ou do funcionamento cognitivo. E a relação entre psicologia e biologia é a de que a seleção natural removeu sistemas geneticamente determinados de comportamento e inseriu mecanismos de aprendizado de propósito geral ou processos cognitivos independentes de conteúdo, para garantir uma flexibilidade adaptativa ao comportamento humano. (p. 29-30)

A partir daí, é possível examinar a visão sobre a cultura nesse Modelo como organizada de acordo com as seguintes proposições:

1- Grupos humanos particulares são caracterizados tipologicamente como tendo uma cultura: práticas comportamentais, crenças, sistemas ideacionais, sistemas de símbolos significantes ou substância informacional de algum tipo que é abrangentemente distribuída ou quase universal no grupo. Culturas são mais ou menos entidades delimitadas, enquanto elementos culturais podem se difundir entre as fronteiras. (p. 31)

2 – Os elementos comuns são mantidos e transmitidos pelo grupo, uma entidade que tem continuidade intergeracional. (p. 32)

3 – As linhas separadas dessa substância informacional, a cultura, transmitida de geração em geração, é a explicação para as similaridades dentro do grupo e as diferenças entre os grupos. As similaridades são consequências da cultura herdada por todos aqueles que exibem a similaridade. (p. 32)

4 – A menos que outros fatores intervenham, a cultura é precisamente replicada de geração em geração. (idem)

5 – Esse processo é mantido através de aprendizado, um processo unitário e bem entendido, que age para fazer a criança igaual aos adultos de sua cultura. (idem)

6 – O processo de aprendizado, desde a perspectiva do grupo, é um processo organizado ao nível de grupo denominado socialização, imposta pelo grupo à criança. (idem)

7 – O indivíduo é um recipiente mais ou menos passivo de sua cultura e produto dela. (idem)

8 – Tudo que é organizado e com conteúdo nas mentes dos indivíduos veio da cultura e é socialmente construído. Os mecanismos evoluídos da mente são livres de conteúdo e independentes de conteúdo, logo, todo o conteúdo se origina do ambiente social, e, às vezes, do ambiente não social. (idem)

9 – As características de uma cultura particular são o resultado de processos emergentes ao nível do grupo, cujos determinantes operam nesse nível e cujo resultado não é dado pelo conteúdo da biologia humana, da natureza humana ou de sua arquitetura psicológica inata. Esses processos emergentes geram, portanto, a organização mental e social da espécie humana. (idem)

10 – Ao discutir cultura, é possível negligenciar com segurança a consideração da psicologia como qualquer outra coisa que não seja uma “caixa preta” que serve para aprendizado, provendo a capacidade para a cultura. Aprendizado é uma explicação poderosa e suficientemente especificada para qualquer aspecto da vida humana organizada que varia de indivíduo para indivíduo e de grupo para grupo. (idem)

11 – Aspectos evoluídos, biológicos ou inatos do comportamento e psicologia humanos são negligenciáveis, pois foram superados pela capacidade genérica para a cultura. A própria psicologia individual ganha forma e conteúdo da cultura. (idem)

Daí Tooby e Cosmides estabelecem três críticas principais contra esse Modelo:

1 – Conceitos falhos em termos de teoria do desenvolvimento: Mecanismos psicológicos ou módulos (estruturas complexas que são funcionalmente organizadas para processar informação de modo específico, não genérico) podem desenvolver-se em qualquer momento do ciclo de vida. Logo, o que está ausente na criança não necessariamente estará presente no adulto por aprendizado, assim como a presença de dentes na criança, mas não no recém-nascido, obviamente não acontece por aprendizado, mas por processos inatos de desenvolvimento da dentição. (p. 33)

2 – Análise falha sobre os conceitos de inato e adquirido: A idéia de que é possível partir o comportamento dicotomicamente em traços “geneticamente determinados” e “ambientalmente determinados” é profundamente mal informada, já que “fatores biológicos” e “fatores ambientais” não são categorias mutuamente excludentes. Logo, há um grave mal entendido acerca da biologia e o modo como esta explica comportamento. (p. 33)

3 – O Modelo Padrão das Ciências Sociais requer uma psicologia impossível: Uma conclusão convergente com base em psicologia cognitiva, biologia evolucionária, inteligência artificial, psicologia do desenvolvimento, linguística e filosofia é a de que uma arquitetura psicológica que consistisse em nada mais que mecanismos de propósito geral livres de conteúdo não poderia realizar com sucesso as tarefas que a mente humana realizar, ou resolver os problemas adaptativos que os humanos evoluíram para resolver – desde a aquisição da linguagem até a seleção de parceiros sexuais. (p. 34)

Conclusão: a visão alternativa proposta por Tooby e Cosmides é a de que a arquitetura psicológica humana contém muitos mecanismos evoluídos que são especializados em resolver problemas adaptativos evolucionários que persistiram em um longo lapso temporal e que esses mecanismos têm formatos representacionais, procedimentos, etc. que são especializados para conteúdos específicos. Assim, esses mecanismos psicológicos tendem a impor certos tipos de organização conceitual e de conteúdo sobre a vida mental humana e, portanto, moldam fortemente a natureza da vida social humana e aquilo que é transmitido culturalmente através de gerações. (p. 34)

Referências:

PINKER, Steven.Tábula Rasa: a negação contemporânea da natureza humana. Tradução: Laura Teixeira Motta. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

TOOBY, John; COSMIDES, Leda. The Psychological Foundations of Culture. In: COSMIDES, Leda; TOOBY, John; BARKOW, Jerome H. (org.). The Adapted Mind: evolutionary psychology and the generation of culture. Oxford University Press, 1992.

Daqui do blog: “Integração conceitual: a inconsistência com as ciências naturais como critério para rejeitar idéias nas ciências humanas” –> https://libertarianismoedarwinismo.wordpress.com/2013/03/23/integracao-conceitual-a-inconsistencia-com-as-ciencias-naturais-como-criterio-para-rejeitar-ideias-nas-ciencias-humanas/

4 respostas em “O que é o modelo padrão das ciências sociais? (tabula rasa nas ciências sociais)

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