Vida e mente como sistemas físicos – ou: ausência de descontinuidades entre vida, mente, qualias e a Natureza física

Paul M. Churchland, um proeminente filósofo da mente, em seu livro “Matéria e Consciência”, questiona uma concepção muito comum, segundo o qual existem dois abismos na natureza, com os quais a evolução teria de lidar:

“o abismo entre a não-vida e a vida, e o abismo entre a inconsciência e a consciência. Essas duas distinções, tão enraizadas em nosso senso comum, trazem em si um certo grau de compreensão equivocada. De fato, nenhuma das distinções corresponde a uma descontinuidade bem definida e intransponível que possamos encontrar na natureza” (CHURCHLAND, p. 267).

Após rejeitar uma definição de vida baseada na capacidade de auto-replicação (e que também não implicaria em descontinuidade), Churchland usa a célula como modelo para a caracterização da vida:

“Uma célula é em si mesma um pequeno sistema autoorganizador semifechado, no interior do sistema semifechado mais amplo da biosfera terrestre. A energia que flui através da célula serve para manter, e para aumentar, sua ordem interna. Na maioria das células, o fluxo de energia é químico – elas ingerem moléculas ricas em energia e pirateiam a energia que elas próprias depois liberam – mas as células capazes de fotossíntese fazem uso direto do fluxo solar para impulsionar seus processos metabólicos” (CHURCHLAND, p. 267-268).

Abstraindo os aspectos concretos da célula, define uma coisa viva como “todo sistema físico semifechado que explore tanto a ordem que ele já possui quanto o fluxo de energia que por ele passa, de forma a manter e/ou aumentar a ordem interna” (CHURCHLAND, p. 268).

Essa definição teria consequências interessantes e mesmo problemáticas. Ao conseguir abranger os organismos multicelulares (pois plantas e animais também são sistemas semifechados, compostos de sistemas semifechados menores, em suas células), também consegue abranger uma cólmeia, e uma colônia de cupins, e mesmo uma cidade onde vivem seres humanos! Por outro lado, alguns sistemas muito simples poderiam ser considerados vivos, como a chama brilhante de uma vela (apesar da pequena ordem interna e automanutenção débil, pode satisfazer as condições da definição).

Churchland se pergunta se tais consequências são razões para rejeitar a definição. Muito pelo contrário, segundo ele, “uma lição mais sábia a extrair disso é a de que os sistemas vivos se distinguem dos não-vivos apenas por graus. Não há um abismo metafísico a ser transposto: apenas uma encosta suave a ser escalada, uma encosta medida em graus de ordem e grau de auto-regulação” (CHURCHLAND, p. 268). Tudo é apenas ordem física, em uma escala contínua de diferentes graus de ordem e auto-regulação.

Isso também é aplicável à questão da inteligência consciente. Rejeitando uma definição de inteligência como a “posse de um conjunto complexo de respostas apropriadas paa o meio ambiente em contínua mudança” (CHURCHLAND, p. 269; e que também não implica descontinuidades metafísicas!), e objetivando uma que abarque criatividade e desenvolvimento próprios à inteligência, Churchland faz a seguinte definição:

Tem inteligência todo sistema que explora tanto as informações que ele próprio já contêm quanto o fluxo de energia que o atravessa (isso inclui o fluxo de energia que passa por seus órgãos sensoriais), de forma a aumentar as informações que ele já contém. Um sistema desse tipo pode aprender, e esse parece ser o elemento central da inteligência” (CHURCHLAND, p. 269).

E daí emerge uma analogia muito precisa entre a inteligência e a vida: “se a posse de informações pode ser compreendida como a posse de uma certa ordem física interna que tem certa relação sistemática com o meio ambiente, então as operações da inteligência, concebida abstratamente, revelam-se afinal apenas como uma versão sofisticada das operações características da vida, exceto pelo fato de que estão ligadas ao ambiente de modo ainda mais intrincado” (CHURCHLAND, p. 269).

A hipótese seria compatível com o uso de energia pelo cérebro: embora o cérebro responda por apenas 2% da massa corporal, quando altamente ativo consome 20% do gasto de energia do corpo em repouso, e, de outra feita, também é um sistema semifechado, com uma intensidade curiosamente alta (CHURCHLAND, p. 269-270). Dessa forma, “a vida inteligente é apenas vida, com uma alta intensidade termodinâmica e uma aliança especialmente estreita entre a ordem interna e a ordem externa” (CHURCHLAND, p. 270).

Quanto ao problema dos qualia, não pretendo abordá-lo no contexto da definição de mente acima com base no materialismo eliminativo defendido pelo próprio Paul Churchland (“a estrutura psicológica de nosso senso comum não pode obter uma redução interteórica, porque a estrutura psicológica de nosso senso comum é uma concepção falsa e radicalmente enganosa das causas do comportamento humano e da natureza da atividade cognitiva. (…) Dessa forma, devemos esperar que o antigo acarbouço seja simplesmente eliminado, e não reduzido por uma neurociência amadurecida”, CHURCHLAND, p. 79), mas remeto o leitor ao representacionalismo defendido por Christopher S. Hill, em “Consciência”.

Qualias são um desafio para uma tentativa de tratar a mente como um sistema puramente físico, uma vez que se tratam de experiências conscientes subjetivas, qualitativas, tais como a dor e a percepção das cores. Contudo, para Christopher Hill, existem dois tipos de qualias: 1) aqueles revelados pelas formas perceptuais comuns de consciência são propriedades de aparência, ou seja, propriedades de objetos exteriores dependentes dos pontos de vista, incluindo aqui qualias emocionais imagísticos e perceptuais; 2) aqueles revelados por consciência do corpo, como a dor, independem de ponto de vista ou de perspectiva, e são formas de atividade do corpo, incluindo-se aqui qualias emocionais somáticos (HILL, p. 354).

Dessa forma, “qualia são ou aparências de objetos exteriores ou propriedades de vários tipos de distúrbios do corpo” (HILL, p. 354), e, por isso mesmo, há bons motivos para pensarmos que sejam redutíveis a propriedades físicas, mas de que forma?

Em uma concepção mais inclusiva de “propriedade física”, abrangendo também as propriedades reconhecidas na química e na biologia, os qualia seriam idênticos a propriedades físicas (por exemplo, os qualia somáticos como propriedades biológicas). Contudo, em uma interpretação mais restrita, que se restringe àquelas propriedades mencionadas nas leis fundamentais da Física,

“temos bons motivos para duvidar da teoria de que as aparências podem ser associadas a propriedades físicas intrínsecas de objetos exteriores. Pelo contrário, elas são propriedades relativas a ponto de vista, dependentes de fatores contextuais, como localização e celeridade do observador, e da intensidade e distribuição espectral da fonte de luz. Além disso, é provável que elas possam ser definidas apenas pela aplicação de transformações bastante excêntricas nos dados do input [entrada] – as quais são de importância apenas para organismos com mecanismos inferenciais espécie-específicos [isto é, específicos da espécie] e necessidades informacionais espécie-específicos” (HILL, p. 355-356).

Logo, nesse caso de interpretação restritiva das propriedades físicas, “os qualia se realizam por propriedades físicas – ou, em outros termos, (…) as instanciações de qualia são constituídas por instanciações de propriedades físicas” (HILL, p. 356) e, em sendo assim, seria falso o fisicalismo de identidade, mas verdadeiro o fisicalismo de realização.

Hill usa o exemplo da dor, como distúrbio físico que envolve dano real ou potencial. Dano deve ser compreendido em termos de funcionamento adequado: é uma condição física que inibe esse funcionamento onde ocorra. Já funcionamento adequado deve ser entendido em termos de seleção natural: ocorre quando um componente do organismo estiver cumprindo a tarefa que lhe foi atribuída. E se um componente de um organismo é selecionado ou não, é uma questão puramente física e tem a ver com modificações na constituição física do material genético com o decorrer do tempo (HILL, p. 356-357). Dessa forma, a dor é uma instanciação de propriedades físicas.

Com isso devemos concluir que temos uma forma sofisticada de definir a vida e a mente que, estando embasadas no funcionamento real conhecido tanto de sistemas vivos quanto de sistemas inteligentes conscientes, retiram toda descontinuidade entre a não-vida e a vida, e entre a consciência e a inconsciência, e que temos uma teoria muito plausível dos qualia como sendo, em última instância, ou propriedades físicas, ou instanciações de propriedades físicas, e, portanto, simplesmente sendo a forma como um sistema físico sofisticado manipula as informações já possuídas e o fluxo de energia que a perpassa para aumentar as informações que possui. Logo, temos boas razões para crer que a mente deve ser encarada dentro de um quadro unificado da Natureza física, apresentado pelo naturalismo científico, como decorrência de um mecanismo físico de seleção natural.

Ou, como resumiu exemplarmente John R. Searle em entrevista à revista libertária Reason, o mundo consiste em entidades que nós consideramos conveniente chamar de partículas, e o que existe são apenas partículas em campos de força, tudo o mais sendo consequências, ou organizações, ou efeitos dessas partículas!*

*Obs: Apesar de defender isso, discordo daqueles que, com base nisso, rapidamente negam o livre-arbítrio como simples ilusão. Para mim, assim como Searle, há uma fronteira ainda aberta em termos de resolver a disparidade entre nossa compreensão científica em termos de física, com nossa autocompreensão experienciada em termos de liberdade psicológica. Eu sou um compatibilista, considerando que sempre haverá esse paradoxo: ao mesmo tempo que somos sistemas físicos determinados por leis físicas, temos um liberdade psicológica real em algum sentido, obtida pela sua vantagem evolucionária. Nossa razão tem limites, e aqui acredito me deparar com um. [UPDATE 25/05/2014: Atualmente, eu tendo mais ao representacionalismo, não o compatibilismo em sentido mais estrito. Veja este outro texto para entender]

Referências:

CHURCHLAND, Paul M. Matéria e Consciência: uma introdução contemporânea à filosofia da mente. Tradução: Maria Clara Cescato. São Paulo: Editora UNESP, 2004.

HILL, Christopher S. Consciência. Tradução: Alzira Allegro. São Paulo: Editora UNESP, 2011.

SEARLE, John. Reality Principles: An Interview with John R. Searle, feita por Steven R. Postrel e Edward Feser, edição de fevereiro de 2000 da Reason Magazine –>
http://reason.com/archives/2000/02/01/reality-principles-an-intervie/2

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