O ‘estado da arte’ da psicologia evolucionária – parte 1 (introdução)

Para qualquer um que se interesse por psicologia evolucionária, e que busca ser um “leigo informado” (= não especialista) nesse assunto, pode ser desanimador constatar que é muito difícil encontrar material suficientemente imparcial sobre o assunto. Isso porque o próprio status científico dessa disciplina é contestado por muitos, e ocorre uma polarização entre aqueles “pró” e “contra” a psicologia evolucionária.

De um lado, temos figuras como Steven Pinker, um campeão da psicologia evolucionária: “A quarta ponte da biologia para a cultura é a psicologia evolucionista, o estudo da história filogenética e das funções adaptativas da mente. Essa área oferece a esperança de compreendermos o projeto ou propósito da mente – não em algum sentido místico ou teleológico, mas no sentido do simulacro de engenharia que impregna o mundo natural. (…) A seleção natural é o único processo físico que conhecemos capaz de simular engenharia, pois é o único processo no qual o grau em que algo funciona bem pode ter um papel causal no modo como esse algo veio a existir” (PINKER, p. 81-82).

De outro, temos pessoas como David J. Buller, que são críticos do status científico dessa disciplina e denominam a maior parte do trabalho em andamento nela como “psicologia evolutiva pop”: “E embora alguns estudos da psicologia evolutiva sustentem alegações despretensiosas com uma cuidadosa pesquisa empírica, uma variante dominante, a psicologia evolutiva pop, ou PE Pop, oferece ao consumo popular alegações completas e abrangentes sobre a natureza humana.” (BULLER, p. 43)

Levando em conta esse contexto, seria interessante trazer aos leitores do blog algum material mais imparcial sobre o assunto, e que trouxesse, não tanto a discussão sobre seu status científico, mas sim o que de fato essa disciplina tem desenvolvido de modo mais promissor.

Só não pensei que encontraria semelhante material como referência no blog de um dos que, até então, era considerado um dos mais fortes críticos da psicologia evolucionária: Jerry Coyne, biólogo renomado e autor do livro “Why Evolution is True”, que escreve no blog de mesmo nome.

Na postagem “Is evolutionary psychology worthless?”, Coyne pondera que, apesar de já ter feito críticas de teorias infundadas/distorções populares/excessos especulativos nessa seara, nunca chegou ao ponto de considerar que essa disciplina fosse de nenhuma utilidade, ao contrário, há coisas boas nela e cada vez mais está ficando melhor.

Coyne demonstra aceitar o status científico da psicologia evolucionária, pois comenta que a disciplina tem amadurecido no sentido de uma concentração crescente em evidências e testabilidade, ao invés de “contar histórias”.  Uma boa psicologia evolucionária é aquela que cumpre os parâmetros de evidência de papers sobre o significado evolucionário do comportamento em outros animais, sendo capaz de fazer inclusive predições e retrodições (= hipóteses que conferem sentido para dados previamente intrigantes ou inexplicáveis), ao invés de tentar explicar algo de uma forma que não possa ser testada ou ficar satisfeito em contar uma história sem encontrar maneiras de testá-la.

Daí que Coyne cita Steven Pinker e Frans de Wall como cientistas que fizeram um ótimo trabalho de apresentação da psicologia evolucionária em obras populares, e, em âmbito acadêmico, menciona um paper, que é o material que eu tanto procurava: “Evolutionary Psychology: Controversies, Questions, Prospects, and Limitations”, escrito por Confer, Easton, Fleischman, Goetz, Lewis, Perilloux e Buss em 2010.

Coyne afirma que esta é uma exposição imparcial sobre o estado da psicologia evolucionária moderna, como funciona, que tipos de parâmetros ela usa, respostas a algumas críticas comuns, e, para os críticos, exemplos de hipóteses dessa disciplina que foram falsificadas. Assim, Coyne conclui que, se você tiver lido esse paper e ainda assim descartar a disciplina inteira como inútil ou como mera tentativa de justificar os preconceitos sociais dos cientistas, então suas opiniões possivelmente são baseadas mais em ideologia do que em investigação científica criteriosa.

E ele elenca, a partir do paper, alguns domínios em que a psicologia evolucionária é muito promissora: o “evitar” do incesto e os mecanismos psicológicos para evitá-lo; medo humano inato de criaturas ou características que podem causar dano, como aranhas e altura, acompanhada de ausência de medo inato aos perigos mais modernos; a “seletividade” diferencial de homens e mulheres quando escolhem parceiros sexuais/afetivos; a evolução da ovulação oculta em humanos como contraposta à dos outros primatas; a causa do dimorfismo sexual; a causa das diferenças físicas e fisiológicas entre os grupos étnicos humanos; a coevolução gene-cultura, como na evolução da tolerância à lactose; evolução da moralidade usando estudos comparativos com outros primatas; evolução da linguagem; conflito entre pais e filhos, e casos em que parentes são favorecidos sobre não parentes; o porquê de gostarmos de comida que faz mal para nós, e o porquê de não gostarmos de certas comidas ou odores; a variância no número de filhos entre os sexos em várias sociedades (“offspring number between males and females in various societies”); e o uso de odores e de ajustes no sistema imunológico em relação à escolha/procura de parceiros (“as cues for mates”).

Após ter descoberto esse paper, e de tê-lo lido (há uns meses atrás), devo dizer que Coyne está muito correto em apreciar esse material, ele apresenta o “estado da arte” da psicologia evolucionária e é uma leitura indispensável para todo interessado no assunto (ainda que, por ser de 2010, talvez apresente certa defasagem em alguns aspectos).

Nos demais posts dessa série, estarei apresentando o que esse paper esclarece acerca da psicologia evolucionária, as controvérsias que a envolvem, as questões que enfrenta, as perspectivas com as quais se depara e os limites de sua abordagem.

Referências:

PINKER, Steven.Tábula Rasa: a negação contemporânea da natureza humana. Tradução: Laura Teixeira Motta. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

BULLER, David J. Equívocos da Psicologia Evolutiva Popular. In: Scientific American Brasil, edição especial – Antropologia 1, edição 52, p. 42-49.

COYNE, Jerry. Is evolutionary psychology worthless? 10/12/2012 –> http://whyevolutionistrue.wordpress.com/2012/12/10/is-evolutionary-psychology-worthless/

CONFER, Jaime C; EASTON, Judith A.; FLEISCHMAN, Diana S.; GOETZ, Cari D.; LEWIS, David M. G.; PERILLOUX, Carin; BUSS, David M. Evolutionary Psychology: Controversies, Questions, Prospects, and Limitations. In: American Psychological Association, Vol. 65, No. 2, 2010, p.110 –126 –> http://homepage.psy.utexas.edu/homepage/group/busslab/pdffiles/evolutionary_psychology_AP_2010.pdf

4 respostas em “O ‘estado da arte’ da psicologia evolucionária – parte 1 (introdução)

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