A aquisição econômica como propósito final da vida e o “espírito do capitalismo”

Na obra “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, Max Weber afirma que o “espírito do capitalismo” seria uma postura, no extremo, muito próxima de responder “sim” à pergunta “É a aquisição econômica o propósito final da vida?”:

“De fato, o summum bonum dessa ética, o ganhar mais e mais dinheiro, combinado com o afastamento estrito de todo prazer espontâneo de viver é, acima de tudo, completamente isento de qualquer mistura eudemonista, para não dizer hedonista; é pensado tão puramente como um fim em si mesmo, que do ponto de vista da felicidade ou da utilidade para o indivíduo parece algo transcendental e completamente irracional. O homem é dominado pela geração de dinheiro, pela aquisição como propósito final da vida. A aquisição econômica não mais está subordinada ao homem como um meio para satisfação de suas necessidades materiais.” (WEBER, p. 49)

Um personagem infantil que, em grande medida, incorpora esse “espírito”, seria o Tio Patinhas. Veja o quadrinho abaixo (pode clicar, para aumentar a imagem):

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(vide fonte das imagens nas referências)

Tradução livre do quadrinho: “Ele [Patinhas] ama ele [o dinheiro], porque ele trabalhou tão duro para consegui-lo! Ele ama ele ainda mais porque ele trabalhou duro para mantê-lo! / Ele sabe exatamente onde conseguiu cada moeda que ele tão cuidadosamente acumula! Juntas, elas contam a história de sua vida”

Contudo, tanto Patinhas, como o “espírito do capitalismo” descrito por Weber, precisa de uma atenção mais criteriosa. A aquisição econômica empreendedora representa uma virtude e uma eficiência em agir em um certo caminho, desde que feito legalmente (WEBER, p. 49) e está relacionada com a noção de dever em relação à carreira (WEBER, p. 50), “uma obrigação que se supõe que o indivíduo sinta, e de fato sente, em relação ao conteúdo de sua atividade profissional, não importa qual seja, particularmente se ela se manifesta como uma utilização de suas capacidades pessoais ou apenas de suas posses materiais (capital)” (WEBER, p. 50).

Esse espírito, contudo, não é uma falta de escrúpulos na obtenção do dinheiro para fins egoístas, e tal conduta predatória seria muito comum em países cujo desenvolvimento burguês-capitalista é mais atrasado em relação aos padrões ocidentais (WEBER, p. 52). O moderno capitalismo se distinguiria dessa atitude indisciplinada pela nova racionalidade aplicada à vida econômica: “utilização racional do capital em empresas estáveis e a organização racional capitalista do trabalho” (WEBER, p. 53).

Por outro lado, o capitalismo se opõe ao tradicionalismo. Tradicionalismo seria a postura pela qual a aquisição econômica é um simples meio para a manutenção de determinado padrão de vida “tradicionalmente mantido”, de tal maneira que a intensidade dos recursos despendidos na atividade econômica seja limitada ao suficiente para alcançar isso. “O homem não deseja ‘naturalmente’ ganhar mais e mais dinheiro, mas viver simplesmente como foi acostumado a viver e ganhar o necessário para isso” (WEBER, p. 54).

Em contraste, o espírito do capitalismo preconiza que a aquisição econômica, legalmente feita, não encontre nenhum limite na necessidade de manter-se um padrão de vida específico. Ao contrário, a criação de riquezas, o aumento da produtividade, os ganhos em eficiência, a redução do desperdício e o crescimento econômico são encarados como fins em si mesmo, objetivos valiosos por si só.

É como se, para o tradicionalismo, a riqueza devesse aumentar apenas até o ponto em que satisfaça o padrão de vida tradicional, a partir daí mantendo-se estável, enquanto, para a atitude capitalista, a riqueza deve aumentar sempre e constantemente, de preferência exponencialmente.

Do ponto de vista tradicionalista, um produtor trabalharia poucas horas, suficientes para, com seus clientes habituais e modo de negociação costumeira, adquirir o suficiente para manter aquele padrão de vida (diga-se de passagem, muitas vezes bastante precário para os padrões de vida que hoje valorizamos). Já do ponto de vista capitalista, é preciso organizar o trabalho de tal maneira que a produtividade aumente e o modo de realizar os negócios deve ser voltado para a captura da clientela e a diminuição dos custos e preços. Dessa forma, “a antiga atitude prazerosa e confortável para com a vida cedeu lugar a uma rígida frugalidade, da qual alguns participaram e chegaram ao topo, pois que eles não queriam consumir, mas ganhar, enquanto outros, que quiseram conservar o modo de vida antigo, foram forçados a cortar seu consumo” (WEBER, p. 59).

Do ponto de vista da ciência econômica, é interessante explorar de que maneira o “espírito do capitalismo” poderia afetar o crescimento econômico dos países. Para tanto, é preciso especificar em uma linguagem mais exata o que seria o “espírito do capitalismo”. Heng-fu Zou desenvolveu um modelo de crescimento econômico que incluía essa “atitude capitalista” como uma variável. Nesses modelos, supõe-se que o agente médio tenha uma função de utilidade definida sobre o consumo, enquanto o modelo de Zou segue a ideia de Mordecai Kurz no sentido de incluir, além de consumo, o estoque de capital, e tal função de utilidade com base tanto em consumo como em acúmulo de capital seria uma abordagem matemática apropriada para modelar o “espírito do capitalismo” (ZOU, 1993, p. 6).

Já Shawn F. Dorius e Wayne Baker, usando um método de análise comparativa entre países, concluíram que, apesar de outros fatores cruciais também afetarem o desenvolvimento econômico, sociedades nas quais valores capitalistas estão surgindo muito provavelmente experienciam crescente nível educacional, aumento das taxas de poupança, diminuição do consumo e das taxas de fertilidade, expansão industrial e crescimento da renda  (DORIUS; BAKER, p. 29).

Para Dorius e Baker, isso sugere que a estratificação global existente não é tão rígida ao ponto de cancelar os efeitos positivos do trabalho duro, frugalidade e poupança sobre o desenvolvimento econômico e, na medida em que o espírito do capitalismo envolve valorizar esses pontos e se engajar em comportamentos racionais nos quais se acredita como causadores de mobilidade ascendente, pode-se concluir que tal atitude tem englobado o mundo inteiro  (DORIUS; BAKER, p. 29).

Portanto, Tio Patinhas é uma expressão (bastante exagerada) da atitude que tem levado à melhoria constante dos padrões de vida e ao aumento exponencial de oportunidades, inclusive para as pessoas mais pobres. Como destacado na postagem “Custos de oportunidade arcados pelos pobres na opção entre redistribuição e produção”, o acúmulo de capital por alguns e seu investimento produtivo em uma economia de livre mercado saudável, ainda que sinalizem a existência de desigualdade econômica dentro da sociedade, são relacionados com o aumento do bem-estar absoluto dos mais pobres, de seu nível absoluto de renda e de opções.

Referências:

WEBER, Max. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. Tradução: Pietro Nassetti. São Paulo: Editora Martin Claret, 2003.

ZOU, Heng-fu. The Spirit of Capitalism, Savings, Asset Prices and Growth. Preliminary version, 1993 –> http://aefweb.net/WorkingPapers/w502.pdf

DORIUS, Shawn F; BAKER, Wayne. The Spirit of Capitalism, Economic Development, and National Wealth.Population Studies Center Research Report 12-771, 2012 –> http://www.psc.isr.umich.edu/pubs/pdf/rr12-771.pdf

Daqui do blog: “Custos de oportunidade arcados pelos pobres na opção entre redistribuição e produção”. 25/05/2013 –>  https://libertarianismoedarwinismo.wordpress.com/2013/05/25/custos-de-oportunidades-arcados-pelos-pobres-na-opcao-entre-redistribuicao-e-producao/

[Autor não identificado, fonte da imagem] Rolling in it, loving it –> http://ideologystop.net/ScroogeMcDuck.html

3 respostas em “A aquisição econômica como propósito final da vida e o “espírito do capitalismo”

  1. Ao subscritor, como pensar um “espírito do capitalismo” e seu respectivo uso “racional” na América Latina, sobretudo em um país marginal e terceiro mundista como o Brasil? Em que níveis de concretude prática poderia se pensar em mecanismos de “aumento do bem-estar absoluto dos mais pobres”, a partir da ascendência daqueles que manejam e controlam os sistemas de produção?
    Como pensar esse “espírito” em um país marcado pela desigualdade social, na qual sua presitentA elege o aforismo “país rico é país sem pobreza” como linha de frente de seu governo?
    E, ainda: o que poderia se entender, em termos práticos, por “melhoria constante dos padrões de vida e ao aumento exponencial de oportunidades, inclusive para as pessoas mais pobres”?
    Gostaria de ver um desenrolar destes pontos, pois me pareceram um pouco dúbios (é claro, em vista da limitação de um post de blog).
    Forte abraço.

    • Adrian, realmente, este ponto toquei tangencialmente apenas, porque me concentrei em definir e ilustrar o próprio “espírito do capitalismo”. Mas respondendo: 1) O aumento da desigualdade relativa pode ser acompanhado do aumento absoluto da renda das classes mais baixas da sociedade. A desigualdade relativa é o percentual da tua participação na “renda” produzida economicamente. Em um cenário de crescimento econômico, a diminuição da tua participação percentual pode ser acompanhada de ganhos na tua renda. Dá uma olhada no meu outro post que mencionei.. 2) Com mais acúmulo de capital e mais investimento produtivo, torna-se possível que as pessoas mais pobres tenham acesso a muito mais desenvolvimento de suas habilidades, produtos, serviços e outras benesses do que teriam em um cenário “tradicionalista”, onde o objetivo maior é manter um status quo no padrão de vida. Por exemplo, uma pessoa pobre hoje nos EUA vive muito melhor do que muita gente de classe média em países subdesenvolvidos, ou mesmo do que pessoas ricas do passado. 3) Penso que o maior problema da América Latina seja devido ao conluio entre governantes e empresas (e, em alguns casos, sindicatos) para impedir um cenário de interação econômica mais livre, competitivo e amigável à iniciativa. Um exemplo seria a burocracia pesada do Brasil. Mas os países ricos também tem alguns “pecados” aí, cito alguns: 1) ao impedirem a imigração livre para seus países, eles impedem que as pessoas mais pobres do terceiro mundo possam buscar oportunidades nesses lugares com maiores chances, e forçam as pessoas a terem que esperar que o capital é que venha até elas para oferecer um péssimo negócio (mobilidade do capital sem mobilidade do trabalho é ruim); 2) ao subsidiarem seus agricultores e/ou imporem rígidos padrões de qualidade à importação de produtos agropecuários do terceiro mundo, eles impedem que o terceiro mundo tenha uma vantagem comparativa nesse âmbito, mesmo que o terceiro mundo produza produtos agropecuários bem mais baratos; 3) ao apoiarem regimes muito rígidos de propriedade intelectual, que impedem que o terceiro mundo copie mais livremente as inovações e de modo mais barato para atender uma demanda mais pobre em seus países. Aliás, isso me lembra um dos fenômenos que mais mostram como pessoas honestas e trabalhadoras são criminalizadas no Brasil e têm suas posses não protegidas pelo Estado: o caso dos vendedores informais/ambulantes. São pessoas que estão tentando ganhar sua vida, mas que podem, do dia para a noite, perder seu investimento, quando a polícia faz operações para executar as leis que tem a respeito. Apesar desse cenário pouco amigável, a economia informal gerou R$730 BILHÕES de reais no Brasil em 2012, para você ver como os mais pobres geram riqueza movidos pelas possibilidades de lucro que encontram.

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