O ‘estado da arte’ da psicologia evolucionária – parte 2 (bases teóricas)

Dando continuidade à postagem anterior com a parte 1 desta série, aqui iniciarei a expor o conteúdo do paper “Evolutionary Psychology: Controversies, Questions, Prospects, and Limitations”, escrito por Confer, Easton, Fleischman, Goetz, Lewis, Perilloux e Buss em 2010, e recomendado pelo Jerry Coyne em seu blog, de modo que um conhecido crítico da psicologia evolucionária realmente reconheceu o valor desta disciplina enquanto ciência, com a indicação deste paper, que nos permite ter uma visão do “estado da arte” desse ramo. Abordarei as primeiras páginas do paper (p. 110-112), que contém sua introdução e a discussão do arcabouço teórico da psicologia evolucionária.

A psicologia evolucionária tem como objeto o estudo do comportamento humano como um produto de mecanismos psicológicos evoluídos que dependem de inputs (estímulos) internos e ambientais para o seu desenvolvimento, ativação e expressão no comportamento manifesto (CONFER ET AL, p. 110).

O objetivo do paper é clarificar alguns dos princípios dessa disciplina e afastar vários mal entendidos a respeito dela, bem como prover um arcabouço conceitual que facilite a integração da pesquisa nessa área com a pesquisa e teoria da psicologia mainstream, tendo em vista que, apesar de o campo da psicologia evolucionária ter crescido bastante, alguns dentro da psicologia mainstream ainda continuam não familiarizados com seu panorama teórico e os mal entendidos ainda são comuns (CONFER ET AL, p. 110).

A base fundamental da psicologia evolucionária é a teoria da seleção natural, desenvolvida por Charles Darwin, que postula a maior frequência de uma determinada característica herdável nas gerações futuras do que suas alternativas, desde que aquela ajude mais na sobrevivência e reprodução do organismo, no sentido de que as variantes com traços que levam a menos efeitos benéficos não persistirão, porque se reproduzirão em taxas mais baixas.(CONFER ET AL, p. 110)

Como resultado desse processo, existem três produtos: 1) adaptações: traços herdados que, seguramente, resolvem problemas relativos à sobrevivência e reprodução melhor do que as alternativas concorrentes durante o período de tempo em que elas evoluíram (exemplo: medo de cobras perigosas); 2) subprodutos: características sem valor funcional que persistem, porque elas estão inerentemente ligadas às adaptações (exemplo: medo de cobras que não são perigosas); 3) ruído: variações em uma dada característica relacionadas com eventos ambientais randômicos ou mutações genéticas (exemplo: taxas baixas aleatórias de medos, como medo do sol ou da luz solar). (CONFER ET AL, p. 110)

Esse arcabouço teórico, já bastante desenvolvido para o estudo da fisiologia e da anatomia, é transposto para o estudo da psicologia e do comportamento: tal como adaptações fisiológicas resolvem problemas específicos associados com sobrevivência e reprodução (exemplo: o sistema imunológico para defesa contra doença), adaptações psicológicas também evoluíram da mesma forma (exemplo: preferências por pistas estatisticamente confiáveis de fertilidade em potenciais parceiros), e são definidas como circuitos de processamento de informação que pegam unidades delimitadas de informação e transformam-na em outputs (resultados) funcionais, designados para resolver um problema adaptativo específico (CONFER ET AL, p. 110-111).

Um exemplo bem assentado empiricamente são de adaptações para sentir certos medos, já tendo sido demonstrado que um intenso medo de cobras existe em humanos e em outros primatas, e que cobras e aranhas embutidas em arranjos visuais complexos automaticamente chama atenção mais rápido do que objetos não perigosos fazem, de modo que sugere a possibilidade de que o medo de serpentes seja realizado por um circuito neural especializado (CONFER ET AL, p. 111). Perigos evolucionariamente antigos aparecem, de modo sistemático, em maior frequência em listas de medos e fobias comuns do que os perigos evolucionariamente modernos, como armas e carros, mesmo que armas e carros sejam mais perigosos à sobrevivência no ambiente moderno; e os resultados funcionais das adaptações para sentir medo, tais como lutar e fugir, servem para resolver os problemas adaptativos posto por ameaças evolucionariamente recorrentes à sobrevivência (CONFER ET AL, p. 111).

A psicologia evolucionária, de outro lado, sugere que a mente humana é um conjunto complexo e integrado de muitas adaptações psicológicas funcionalmente especializadas, que evoluíram como soluções para numerosos e qualitativamente distintos problemas adaptativos, tendo em vista que isso é uma premissa sobre adaptações compartilhada pelos biólogos evolucionários para entender animais não humanos e que soluções para um problema, como o da seleção de alimento, podem falhar em resolver outro, como a escolha de parceiro ou de habitat (CONFER ET AL, p. 111).

Apesar da especialização, e em face da integração dos mecanismos psicológicos, estes podem interagir para produzir comportamento adaptativo: por exemplo, se a pessoa se defronta simultaneamente com os problemas adaptativos de “sentir fome” e “risco de vida por causa de um leão ameaçador”, o medo do leão temporariamente suspenderá a sensação de fome até que a ameaça de morte iminente tenha passado (CONFER ET AL, p. 111).

Cabe esclarecer dois pontos: 1) a lista de problemas adaptativos inclui, além de evitar cobras, escolher comida que satisfaça as necessidades alimentares e favorecer parceiros férteis, também problemas de investimento parental, parentesco, amizade, cooperação em coalizão, agressão seletiva, negociação em hierarquias de status, entre muitas outras; 2) adaptações psicológicas não são módulos separados no sentido de Fodor, ou seja, separação por encapsulamento de informação, sendo que, ao contrário, eles frequentemente compartilham componentes e interagem entre si. (CONFER ET AL, p. 111)

Mas a psicologia evolucionária também é aberta às diferenças científicas em determinadas questões, tal como a importância e significado das diferenças individuais, a existência e funções de mais mecanismos psicológicos de domínio geral (não especializado) tal como a inteligência fluida, e a importância da seleção de grupo (CONFER ET AL, p. 111).

A base incontroversa e definidora da psicologia evolucionária é a necessidade, para uma ciência psicológica madura, de explicação dos mecanismos psicológicos enquanto funções evoluídas, para saber o porquê de sua existência (explicação remota, última), complementando assim a compreensão sobre os detalhes de como os mecanismos funcionam (explicação próxima), e possibilitando que ambos os níveis de análise se informem mutuamente, para conferir maior completude às explicações dentro da psicologia, levando-se em conta a interdependência de ambos os questionamentos (CONFER ET AL, p. 111-112).

Por fim, é preciso salientar que a psicologia evolucionária usa todos os métodos padrão de investigação disponíveis para teste de hipóteses por psicólogos, incluindo experimentos de laboratório, técnicas observacionais, questionários, técnicas fisiológicas, dispositivos de gravação mecânica (mechanical recording devices), métodos genéticos e técnicas de imageamento do cérebro, mas também acresce métodos não muito comuns na psicologia, como análise comparativa entre espécies, registros etnográficos, registros arqueológicos, dados paleontológicos e dados de “história da vida” (life-history data). (CONFER ET AL, p. 112).

Referências:

COYNE, Jerry. Is evolutionary psychology worthless? 10/12/2012 –> http://whyevolutionistrue.wordpress.com/2012/12/10/is-evolutionary-psychology-worthless/

CONFER, Jaime C; EASTON, Judith A.; FLEISCHMAN, Diana S.; GOETZ, Cari D.; LEWIS, David M. G.; PERILLOUX, Carin; BUSS, David M. Evolutionary Psychology: Controversies, Questions, Prospects, and Limitations. In: American Psychological Association, Vol. 65, No. 2, 2010, p.110 –126 –> http://homepage.psy.utexas.edu/homepage/group/busslab/pdffiles/evolutionary_psychology_AP_2010.pdf

Daqui do blog: “O ‘estado da arte’ da psicologia evolucionária – parte 1 (introdução)”, 28/06/2013 –> https://libertarianismoedarwinismo.wordpress.com/2013/06/28/o-estado-da-arte-da-psicologia-evolucionaria-parte-1-introducao/

3 respostas em “O ‘estado da arte’ da psicologia evolucionária – parte 2 (bases teóricas)

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