Macacos pagos desigualmente: aversão à desigualdade em primatas não humanos

Está circulando um vídeo, onde o primatólogo Frans de Wall expõe, em uma palestra, a gravação de um experimento feito com dois macacos-capuchinhos, no qual, pela mesma tarefa, cada um recebe um pagamento diferente por parte do cientista humano, sendo que um recebe uma uva (recompensa melhor) e outro uma azeitona (recompensa pior).

Ocorre que o macaco que recebe a azeitona, vendo que o outro recebe a uva, começa a rejeitar a azeitona, atirando-a para longe quando a recebe. Inclusive, quando recebe a pedra (objeto da tarefa), ele tenta checar se há algo errado com a pedra, e fica claro que o macaco esperaria receber a mesma recompensa que o outro (a uva), mas que fica contrariado ao receber um pagamento desigual.

Recomendo muito que o vídeo seja assistido antes de se prosseguir a leitura. Seja no facebook (https://www.facebook.com/photo.php?v=459681287463034), seja no youtube (https://www.youtube.com/watch?v=NQIzuwAeARg). O vídeo é intitulado “Dois macacos pagos desigualmente”.

Algumas pessoas, entretanto, erroneamente criticam o experimento, considerando que ele não prova que os macacos tenham um senso de justiça, ou que você não poderia extrapolar um resultado alcançado com primatas não humanos para seres humanos, uma vez que estes seriam mais complexos e “sociais”.

Sem querer fazer uma revisão completa das críticas e das respostas às críticas ao vídeo, cabe destacar que as objeções, em geral, advém de mal entendidos sobre o que o experimento pretende, e de como a ciência funciona, e inclusive de como a ética pode ter se originado.

No seu livro “Invariances”, Robert Nozick pontua que, segundo a Teoria dos Jogos, em situações que envolvem interação entre mais de um agente e o resultado da ação de um depende da ação feita pelo(s) outro(s), para cada indivíduo existe uma ação sua que é seu “nível de segurança”, isto é, uma ação cujo resultado garante que o agente consiga pelo menos o melhor resultado entre os piores resultados das ações disponíveis ao mesmo (NOZICK, 2001, p. 244).

Por exemplo, se eu tenho uma ação “A” que pode produzir os resultados “3” ou “8”, e outra ação disponível, “B”, que pode produzir os resultados “4” ou “7”, e o resultado que minha ação terá depende do comportamento de uma outra pessoa, meu nível de segurança reside na ação “B”, que me garante pelo menos o recebimento de “4”, ou seja, independente do comportamento da outra pessoa, eu não receberei menos que “4”.

Então, prossegue Nozick que, em muitas situações de interação entre pessoas, existe alguma combinação de suas ações em que ambas ficarão melhor do que seus potenciais níveis de segurança naquela situação e que isso abre espaço para cooperação em benefício mútuo (NOZICK, 2001, p. 244). No exemplo acima, supondo que se ambos agissem da forma “A”, cada um obteria o resultado “8”, então uma capacidade de cooperar bem desenvolvida permitiria que eles tirassem um benefício maior de suas ações.

Dessa forma, a coordenação do comportamento por meio de normas éticas poderia surgir, por intermédio da evolução por seleção natural, desde que essa forma de regular o comportamento capacitasse os indivíduos a obterem melhores resultados no sentido evolucionário, maiores que seus níveis de segurança, e que não fossem alcançáveis por intermédio de outras formas de coordenação de comportamento, como o condicionamento pavloviano e o condicionamento operante.

Portanto, é interessante procurar pelos elementos que tornariam possível a emergência da capacidade, distintivamente humana, de criar regras morais e de atuar em conformidade com elas. Um deles, sem dúvida, é a capacidade para cooperação, isto é, a “sociabilidade”.

Só que a sociabilidade não é distintivamente humana e, entre os primatas, a sociabilidade é uma “plesiomorfia”, isto é, um traço mantido desde os primórdios desse ramo, e não uma característica singular dos homínídeos e dos humanos (FOLEY, 2003, p. 218). Segundo Robert Foley, a sociabilidade faz parte do cerne da adaptação dos primatas, sendo que, das aproximadamente 150 espécies de macacos e de macacos antropóides, apenas uma única não vive em algum tipo de ambiente social, e ainda assim isso é controvertido (caso do Orangotango), de modo que se conclui que “a tarefa de explicar as origens da sociabilidade e da sociedade cabe mais aos primatologistas que aos antropólogos, uma vez que à época do surgimento dos hominídeos ela já se encontrava bem estabelecida” (FOLEY, 2003, p. 218).

Tendo acrescentado a “sociabilidade” ao conjunto do quebra-cabeças evolutivo que levará ao surgimento da moralidade humana e do senso de justiça humano, pode-se perguntar que tipo de capacidades permitem que o indivíduo aufira mais vantagens de seu comportamento cooperativo, agregando assim mais valor evolutivo ao instinto mais geral para ser sociável.

Uma delas, certamente, é aquela que o vídeo traz: capacidade de comparar sua porção com a porção do outro + capacidade de comparar sua atividade com a atividade do outro, atividades estas ligadas de alguma maneira ao recebimento da porção + capacidade de reagir à subtração indevida de sua porção.

Sem isso, em determinados contextos, a estratégia parasitária de sempre pegar uma porção maior para si em detrimento daquela dos outros poderia passar a predominar e, assim, inviabilizar evolucionariamente determinadas formas de cooperação específicas, dentre elas a caçada em comum, uma vez que a persistência evolucionária desta depende de que o indivíduo consiga se beneficiar mais de estar dentro do esquema de caçada conjunta do que fora dele.

Os macacos-capuchinhos praticam caçada conjunta, segundo o próprio Frans de Wall em seu livro “Eu, Primata”: “(…) os selvagens capuchinhos caçam esquilos gigantes. Apanhar presa tão ágil, que pode chegar a um quarto do peso de um macho capuchinho médio, é dificílimo no espaço tridimensional da floresta, tão difícil quanto a caçada de macacos por chimpanzés. Incapazes de capturar um esquilo sozinhos, os caçadores capuchinhos precisam de ajuda.” (DE WALL, 2005, p. 254).

Ele prossegue dizendo que o experimento feito (este que vocês assistiram), buscou replicar a questão central da cooperação nesse tipo de situação: “fornecer compensações não só para quem fizer a captura, mas para todos os participantes” (DE WALL, 2005, p. 254).

Ele então narra o experimento, inclusive destacando a primeira parte do mesmo que não aparece no vídeo que está sendo divulgado: “Pusemos dois macacos de lado a lado e fizemos a troca 25 vezes seguidas. Trocávamos alternadamente com um e com outro. Quando ambos recebiam pepino, isso era chamado de equidade. Nessa situação, os macacos fizeram troca o tempo todo e comeram alegremente a comida. Mas, quando demos uvas a um deles e continuamos a dar pepino ao outro, as coisas tomaram um rumo inesperado. Chamamos a isso desigualdade. As preferências alimentares dos nossos macacos refletem os preços no supermercado; portanto, uvas são a melhor recompensa. Ao notar o aumento do salário do seu parceiro, os macacos que haviam ficado perfeitamente satisfeitos em trabalhar por pepino de repente entraram em greve. Não só mostraram relutância em participar, mas também ficaram agitados, jogaram os pedregulhos para fora da jaula de testes e até algumas fatias de pepino. Um alimento que normalmente não recusariam tornou-se menos do que desejável: tornou-se repulsivo!” (DE WALL, 2005, p. 254).

O próprio De Wall acrescenta que a “aversão à desigualdade” encontrada entre esses macacos não é tão sofisticada quando o senso de equidade humano mais desenvolvido: “Admito que nossos macacos apresentaram uma forma egocêntrica dessa reação. Em vez de acatar o nobre princípio da equidade geral, zangaram-se por receber menos na troca. Se a equidade geral fosse a preocupação deles, os macacos que se viram em vantagem teriam trocado algumas uvas com o outro ou recusado totalmente as uvas, coisa que nunca fizeram. Alguns dos afortunados ganhadores de uva até suplementaram sua refeição com as fatias de pepino rejeitadas pelo vizinho. E se mostraram alegres, em contraste com seus pobres parceiros, que, no fim do teste, estavam emburrados num canto.” (DE WALL, 2005, p. 256-257)

Frans de Wall publicou, junto com Sarah F. Brosnan, os resultados desse experimento em um paper denominado “Monkeys reject unequal pay”, em 2003, cujo “abstract” esclarece que, durante a evolução da cooperação, se tornou crítico para os indivíduos comparar seus próprios esforços e recompensas com aqueles dos outros, e ser capaz de reações negativas quando as expectativas são violadas, por meio de um mecanismo de aversão à desigualdade, sendo que o experimento deles demonstraria que um primata não humano reage negativamente à distribuição desigual de recompensas, efeito este inclusive amplificado quando o outro macaco recebe a recompensa sem fazer nenhum esforço (DE WALL; BROSNAN, 2003, Abstract).

E adivinhem quem é outro primata que também faz caçadas conjuntas, inclusive tendo-as feito durante o seu passado evolucionário? O ser humano. Em nosso passado pré-histórico, caçador-coletor, uma dieta com quantidade substancial de carne fez significativa contribuição às necessidades energéticas de um cérebro mais pesado, e “as vantagens da cooperação na busca de carne levaram à formação de grupos altamente organizados” (WILSON, 2013, p. 63).

Assim, a constatação sobre a aversão à desigualdade em macacos capuchinhos, e de seu valor evolucionário, pode ser extrapolada em relação ao ser humano, tendo em vista seu benefício evolucionário no Ambiente de Adaptação Evolucionária pré-histórico e caçador-coletor.

Logo, a capacidade humana para regular seu comportamento em conformidade com normas éticas que reflitam um senso de equidade foi construída evolutivamente, tendo sido antecedida por pré-adaptações, uma delas sendo provavelmente a aversão à desigualdade, que tornaram possível que aquela capacidade de normatização ética, e que dependia de um processamento cognitivo superior aos dos primatas não humanos, pudesse emergir entre os hominídeos e ser proveitosa para o sucesso evolucionário humano.

Referências:

DE WALL, Frans. Eu, primata: por que somos como somos. (original: Our inner ape – a leading primatologist explain why we are who we are) Tradução: Laura Teixeira Motta. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

DE WALL, Frans B. M.; BROSNAN, Sarah F.  Monkeys reject unequal pay. In: Nature 425, 297-299, 18/09/2003 –> http://www.nature.com/nature/journal/v425/n6955/abs/nature01963.html

NOZICK, Robert. Invariances: the structure of the objective world. The Belknap Press of Harvard University Press, 2001.

FOLEY, Robert. Os Humanos Antes da Humanidade: uma perspectiva evolucionista. Tradução: Patrícia Zimbres. São Paulo: Editora UNESP, 2003.

WILSON, Edward O. A Conquista Social da Terra. Tradução: Ivo Korytovski. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

Vídeo “Macacos Pagos Desigualmente” no facebook –> https://www.facebook.com/photo.php?v=459681287463034

Vídeo “Macacos Pagos Desigualmente” no youtube –>  https://www.youtube.com/watch?v=NQIzuwAeARg

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