O ‘estado da arte’ da psicologia evolucionária – parte 3 (falseabilidade/testabilidade)

Dando continuidade às duas postagens anteriores desta série, aqui exporei o que o paper “Evolutionary Psychology: Controversies, Questions, Prospects, and Limitations”, escrito por Confer, Easton, Fleischman, Goetz, Lewis, Perilloux e Buss em 2010, e recomendado pelo Jerry Coyne em seu blog, tem a nos informar acerca de um problema que diz respeito ao próprio status científico da psicologia evolucionária: se suas hipóteses apresentam ou não falseabilidade e/ou testabilidade (apenas serão científicas se forem falseáveis/testáveis). Esse questionamento é abordado nas páginas 112-114 do paper.

A lógica do teste de hipóteses na psicologia evolucionária é a mesma daquela nas demais ciências: o pesquisador formula uma hipótese sobre um mecanismo psicológico evoluído primeiro, e, então, gera predições testáveis sobre os atributos ou características do design daquele mecanismo que não tenham sido previamente descobertas ou documentadas (CONFER ET AL, p. 112).

(Note que, ao dizer “características de design”, é no sentido padrão da biologia evolucionária para atributos ou partes componentes de uma adaptação que tenham sido selecionados, “projetados” por uma história passada de seleção natural, sem envolver qualquer projeto intencional; CONFER ET AL, p. 112)

Confer e os demais citam como exemplo desta metodologia a pesquisa sobre “memória adaptativa”: a hipótese de que os sistemas evoluídos de memória seriam pelo menos em alguma medida “domínio-específicos”, ou seja, sensitivos a certos tipos de conteúdo ou informação, e a memória humana seria, então, especialmente sensitiva aos conteúdos relevantes para a aptidão (fitness) evolucionária, como sobrevivência (comida, predadores, etc.) e reprodução (encontrar parceiros, etc.). (CONFER ET AL, p. 112)

Fazendo experimentos envolvendo cenários onde se designavam tarefas para a memória, envolvendo uma tarefa de “priming” (que é o efeito experimental relativo ao acesso mais rápido a uma palavra se precedida há pouco tempo por outra que compartilhe determinadas características linguísticas; vide FRANÇA; LEMLE; PEDERNEIRA; GOMES, p. 284), com uma tarefa surpresa adicional de recordação, os proponentes dessa hipótese constataram que palavras previamente avaliadas como possuindo relevância para a sobrevivência foram lembradas em taxas mais altas que as palavras avaliadas com relevância em uma variedade de condições para cenários de controle (CONFER ET AL, p. 112). Com experimentação adicional, a hipótese foi sendo cada vez mais corroborada, levando a que seus proponentes concluíssem que processamento de sobrevivência é um dos melhores procedimentos de codificação já identificados pela pesquisa em memória humana. (CONFER ET AL, p. 112) Se esses resultados não tivessem sido alcançados, a hipótese teria sido falseada.

Outro exemplo deriva de uma coleção que hipóteses derivadas da “teoria de gerenciamento do erro” (error management theory), que foram testadas e estiveram sob o risco de serem falseadas. A teoria de gerenciamento do erro propõe que, em um mundo incerto no qual os sinais observáveis estão apenas probabilisticamente relacionados ao verdadeiro estado da realidade que indicariam, existem duas maneiras de errar, que seriam ou inferir que um estado existe quando ele não existe (falso positivo) ou inferir que um estado não existe quando ele existe (falso negativo), contudo, como os custos de incorrer em cada tipo de erro foram frequentemente assimétricos (diferenciados) nas circunstâncias evolucionariamente relevantes de sobrevivência e reprodução, a seleção natural favoreceria vieses cognitivos que errassem na direção menos custosa. (CONFER ET AL, p. 112-113)

Exemplo: O custo de falhar em detectar uma cobra a partir de algum sinal observável poderia levar à morte, enquanto o custo de erroneamente inferir uma cobra que não existe resulta em um gasto trivial de energia ao evitar desnecessariamente uma situação que não causaria dano algum. (CONFER ET AL, p. 112) Então, a seleção natural favoreceria que você errasse na direção de inferir erroneamente a cobra (ou outro agente perigoso), ao invés de errar na direção de inferir erroneamente que não existe nenhuma cobra.

(Um adendo aqui: isso pode ser importante inclusive para explicar a origem evolucionária da religião; vide ATRAN; HENRICH, 2010, p. 20)

Hipóteses produzidas a partir dessa teoria, quanto aos vieses adaptativos selecionados, desde os domínios da percepção acústica e visual, até o de inferências sobre a motivação sexual e homicida de outras pessoas:

a) “Descent illusion hypothesis” (em uma tradução livre, seria algo como “hipótese da ilusão [na visão] descendente”): Prediz que as pessoas podem fazer estimativas assimétricas quanto à distância, dependendo se avaliam a partir do topo ou a partir da base de uma estrutura alta, tendo em vista os perigos associados com cair de alturas elevadas. Testes com base nessa hipótese mostram que as pessoas percebem distâncias vistas do topo de estruturas altas 38% maiores do que percebem a mesma distância quando vistas da base, confirmando a predição. (CONFER ET AL, p. 113)

b) “Auditory looming bias” (em uma tradução livre, algo como “viés de iminência/proximidade auditiva”): seres humanos superestimam a proximidade de sons se aproximando em relação aos sons que estejam se distanciando, por conta dos perigos historicamente maiores associados com objetos e predadores se aproximando, e não se afastando. (CONFER ET AL, p. 113)

c) “Commitment skepticism bias” em mulheres (em uma tradução livre, algo como “viés de ceticismo quanto ao comprometimento”): mulheres subestimam os níveis de comprometimento romântico (comparado aos homens) que são baseados em sinais tais como declarações de amor. (CONFER ET AL, p. 113)

Não passa despercebido aos autores do paper que a ciência de confirmar e falsificar hipóteses é mais complexa do que os exemplos sugeririam. As hipóteses geralmente estão embutidas dentro de um panorama teórico mais amplo. Por exemplo: teoria do fitness inclusivo de Hamilton –> teoria do investimento parental, que determina que o sexo que investe mais na prole será o mais seletivo na hora de escolher parceiros –> hipótese de que, em espécies com investimento paternal, fêmeas usam pistas acerca da disposição de investir como um critério para seleção de parceiro –> predição evolucionária de que mulheres preferem, como potenciais parceiros, homens que expressam uma boa vontade de investir nelas e em suas proles. (CONFER ET AL, p. 113)

Assim como no restante da psicologia, a avaliação de cada hipótese da psicologia evolucionária, assim como das mais amplas teorias dentro do qual estão embutidas, reside no peso cumulativo da evidência empírica. (CONFER ET AL, p. 113)

Apesar de ser um domínio científico relativamente jovem, centenas de estudos empíricos foram conduzidos para testar hipóteses, tendo confirmado algumas, falseado outras, e deixado outras ainda em aberto. Entre as hipóteses já confirmadas, por múltiplos métodos, em múltiplas amostras, por diferentes investigadores, são citadas: (CONFER ET AL, p. 113)

a) adaptações anti-caronistas (anti-free-rider) em grupos cooperativos (caronista é quem se aproveita dos benefícios, sem pretender arcar com os custos);

b) adaptações de detecção de trapaçeiro (cheater) em troca social;

c) superioridade feminina na memória de posicionamento espacial como parte de uma adaptação de coleta extrativista (gathering);

d) atributos funcionais das estratégias de relacionamentos (de cunho sexual) de curto prazo;

e) táticas de trapaça em relacionamentos (de cunho sexual) diferenciadas em relação aos sexos;

f) adaptações anti-predação em crianças.

Mas e quanto às hipóteses que foram falseadas, que falharam em testes empíricos? Exemplos: (CONFER ET AL, p. 113)

a) Teoria do altruísmo de parentesco em relação à homossexualidade masculina, segundo a qual a homossexualidade é uma adaptação que envolve substituir (por parte daqueles cujas perspectivas de relacionamento heterossexual sejam nada promissoras) o esforço direto por conseguir uma parceira sexual pelo investimento em parentes, tal como o filho de seus irmãos e irmãs;

b) Hipótese de que homens têm uma preferência evolucionária pela virgindade em relacionamentos (de cunho sexual) de longo prazo;

c) E pelo menos uma versão da hipótese do “macho competitivamente em desvantagem”, acerca de estupro.

No paper, há uma digressão um pouco maior sobre a hipótese já refutada acerca da homossexualidade masculina como uma forma de direcionar o investimento que seria em relação aos próprios filhos para os filhos de parentes consanguíneos. Em um teste direto envolvendo amostras de homens heterossexuais e homossexuais, pareados por idade, educação e etnia, foram analisados generosidade em relação a membros da família, investimento financeiro e emocional, tendências “avunculares” (relacionadas com a situação de ser “tio”) tal como dar presentes ou dinheiro para sobrinhos ou sobrinhas, e sentimentos gerais de proximidade em relação aos parentes genéticos. Os resultados foram conclusivos no sentido de que não havia nenhuma evidência de qualquer predição-chave feita pela hipótese do “altruísmo de parentesco em relação à homossexualidade masculina”. Testes subsequentes também não acharam nenhuma diferença significativa entre homossexuais e heterossexuais nesses quesitos. Com base na atual evidência empírica, a hipótese foi refutada. (CONFER ET AL, p. 113-114)

Dessa forma, o ponto-chave dessa seção do paper é demonstrar que as hipóteses da psicologia evolucionária formulam predições específicas e precisas sobre características de design que não se sabe se existem antes que um teste empírico seja feito, de tal forma que tais hipóteses são passíveis de serem falseadas empiricamente. Claro que as hipóteses, como em qualquer campo da ciência, irão variar quanto à sua qualidade, precisão e grau de embasamento em fundamentos teóricos bem estabelecidos, e qualquer hipótese mal feita merece crítica científica. Contudo, a ideia de que as hipóteses da psicologia evolucionária sejam, em regra, apenas um “contar histórias” é completamente errado, conforme se depreende dos exemplos citados acima. (CONFER ET AL, p. 114)

Referências:

COYNE, Jerry. Is evolutionary psychology worthless? 10/12/2012 –> http://whyevolutionistrue.wordpress.com/2012/12/10/is-evolutionary-psychology-worthless/

CONFER, Jaime C; EASTON, Judith A.; FLEISCHMAN, Diana S.; GOETZ, Cari D.; LEWIS, David M. G.; PERILLOUX, Carin; BUSS, David M. Evolutionary Psychology: Controversies, Questions, Prospects, and Limitations. In: American Psychological Association, Vol. 65, No. 2, 2010, p.110 –126 –> http://homepage.psy.utexas.edu/homepage/group/busslab/pdffiles/evolutionary_psychology_AP_2010.pdf

ATRAN, Scott; HENRICH, Joseph. The Evolution of Religion: How Cognitive By-Products , Adaptive Learning Heuristics, Ritual Displays, anda Group Competition Generate Deep Commitments to Prosocial Religions. Biological Theory 5(1) 2010, 18–30. Konrad Lorenz Institute for Evolution and Cognition –> http://www2.psych.ubc.ca/~henrich/pdfs/BIOT_a_00018.pdf

FRANÇA, Aniela I.; LEMLE, Miriam; PEDERNEIRA, Isabella L. e GOMES, Juliana N. (dezembro de 2005). Conexões conceptuais: Um estudo psicolinguístico de priming encoberto. Linguística. Rio de Janeiro, v. 1, n. 2, pp. 283-298 –> http://www.letras.ufrj.br/poslinguistica/revistalinguistica/wp-content/uploads/2012/09/artigo-6-conexoes-conceptuais-um-estudo-psicolinguitico-de-priming-encoberto.pdf

Daqui do blog: “O ‘estado da arte’ da psicologia evolucionária – parte 1 (introdução)”, 28/06/2013 –> https://libertarianismoedarwinismo.wordpress.com/2013/06/28/o-estado-da-arte-da-psicologia-evolucionaria-parte-1-introducao/

Daqui do blog: “O ‘estado da arte’ da psicologia evolucionária – parte 2 (bases teóricas)”, 12/08/2013 –> https://libertarianismoedarwinismo.wordpress.com/2013/08/12/o-estado-da-arte-da-psicologia-evolucionaria-parte-2-bases-teoricas/

3 respostas em “O ‘estado da arte’ da psicologia evolucionária – parte 3 (falseabilidade/testabilidade)

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