“O Homem Reversível” (Alan Moore), curvas temporais fechadas e o Biocosmos

Neste ano de 2013, a Mythos Editora lançou a “Juiz Dredd Megazine”, publicando histórias em quadrinhos publicadas originalmente na “2000 AD” (revista  de quadrinhos britânica). Os títulos que estão sendo publicados nesta revista são: “Juiz Dredd”, “Distorções Temporais”, “Área Cinzenta”, “Áquila” e “Nikolai Dante”. Realmente uma muito bem-vinda iniciativa da Mythos, preenchendo uma lacuna no mercado brasileiro de HQs, que diz respeito às HQs britânicas e à própria ausência de publicação das histórias do Juiz Dredd no Brasil.

Mas eu não quero falar do “Juiz Dredd” (que inevitavelmente levaria para discussões políticas), e sim do título “Distorções Temporais”. Esse título é apresentado em cada edição da seguinte maneira:

“Esqueçam tudo o que pensam que sabem sobre a noção de tempo, terráqueos. Não tenham certeza absoluta de nada que diga respeito à História humana ou ao futuro desconhecido – a linha do tempo pode ser quebrada, virada do avesso ou até desviada na direção errada. Estas histórias mirabolantes deformam o próprio tecido da cronologia… nas mãos de Alan Moore.”

Sim, Alan Moore foi quem fez o roteiro dessas histórias! E por isso mesmo, vindo das mãos de quem escreveu Watchmen (uma HQ obra-prima) e V de Vingança, as histórias sob esse título são excelentes.

Particularmente, neste mês, edição nº 5 da “Juiz Dredd Megazine”, a história me impressionou bastante. Intitulada de “O Homem Reversível”, publicada originalmente na 2000 AD em 1983, traz uma narrativa, contada em primeira pessoa, de um homem que viveu sua vida “de trás para frente”.

Literalmente “de trás para frente”, uma vez que sua vida é como uma fita de VHS sendo rebobinada. O primeiro quadrinho traz ele (Lamron Namron, um senhor já aposentado) desacordado, uma lembrança de trevas e de vozes. O segundo quadrinho traz ele caído no chão, com uma casquinha de sorvete na mão desacordado. O terceiro quadrinho já apresenta ele “descaindo”, ou, como ele mesmo fala, “De repente, uma coisa estranha aconteceu. Fui jogado para trás e colocado de pé contra a minha vontade. Notei que a casquinha tinha de algum jeito ido parar na minha mão”! Já o quarto quadrinho é ele andando “para trás”, “descomendo” a casquinha, ou, como ele nos narra, “Eu também estava andando pra trás. O sorvete parecia sair da minha língua e encher a casquinha.” E assim continua sendo narrada sua vida, indo da morte e maturidade, em direção à juventude e ao nascimento, que porá um “fim” à sua vida.

A história é muito interessante, porque nos leva a pensar como seria vivenciar uma vida de trás pra frente. Segundo o próprio personagem, seu corpo parecia agir sem seu comando, “como se ordenado por uma parte da minha mente a qual eu não tinha acesso”, de tal forma que ele só podia assistir. E a interpretação que ele faz da sua própria vida, que ele assiste, é muito curiosa.

Por exemplo, o dia de sua aposentadoria, na verdade, é interpretado como o dia em que ele cansou da aposentadoria e arranjou um emprego em um escritório, sendo que o ato do gerente de presentear o aposentado com um relógio de ouro (em uma lógica temporal normal) é visto como o ato do gerente roubar o relógio de ouro dele (na lógica temporal “de trás pra frente”).

Outro exemplo é que seu relacionamento com sua esposa vai melhorando ao longo do tempo e sua saúde também. Como ele diz: “Os anos passaram. Eu me sentia mais saudável a cada dia. Minha visão melhorou e eu pude entregar meus óculos pro oculista. A vida doméstica era feliz. Eu também estava ficando mais ligado a Egdam, embora quando nos conhecemos tudo que ela falava parecia me irritar.”

Também a interpretação da experiência de falecimento dos entes queridos é transformada. Ao invés de vivenciar sua mãe adoecendo, indo para um hospital e depois, falecendo e sendo enterrada, o personagem vivencia o desenterro de um caixão em um triste funeral e a ida a um hospital, onde é apresentado à sua mãe idosa, que “depois” deixa o hospital. “Passados alguns anos” (na lógica temporal invertida), outro caixão é desenterrado em um funeral e o personagem conhece seu pai!

Bem, eu não irei relatar aqui detalhe por detalhe da história, mas ela certamente nos faz pensar no que seria a vida, se vivenciada “de trás pra frente”, onde, ao invés do passado causar o futuro, pareceria que o futuro causa o passado. Ao invés da sucessão de atos decorrentes do nascimento e da juventude levarem à idade adulta e à morte, a morte e a idade adulta levam à juventude e ao nascimento.

Eu nunca li nada sobre física que falasse de uma possibilidade tão excêntrica, de um “rebobinar”. Contudo, é possível que um certo “sujeito” tenha ido do seu início até o seu fim (na lógica temporal normal), mas que seu fim no futuro tenha provocado seu início no passado! E este sujeito é ninguém menos que o próprio Universo.

Bem, certamente o leitor deve estar querendo saber como isso poderia ser possível. A resposta está no conceito de “curva temporal fechada”. Mas, antes de entrar no mesmo, façamos uma digressão sobre a “hipótese do Biocosmos egoísta”.

James N. Gardner criou essa tese, sendo que eu já tive acesso e li ao seu livro “O Universo Inteligente”, um dos quais ele explica essa hipótese, originalmente formulada no livro “Biocosm”. Em síntese, essa ideia pretende que o arquiteto do universo seja a própria vida inteligente – mas uma vida inteligente que induz a criação de universos bebês a partir de seu próprio universo, e que existe em seu próprio universo porque este tem leis e constantes físicas afinadas para a vida (e vida altamente inteligente) vir à existência por meio de processos naturais.

Nesse sentido, Gardner afirma que, “no ápice do processo evolutivo cósmico, daqui a bilhões e bilhões de anos, a vida e a mente altamente evoluídas terão um papel central na reprodução do nosso cosmos. Assim, pressuponho também, as leis e constantes físicas peculiarmente favoráveis à vida e que prevalecem em nosso universo terão um papel-chave no processo da replicação cósmica: servirão a uma função equivalente à do DNA na biosfera terrestre, fornecendo uma receita para o nascimento e o crescimento de um novo universo bebê favorável à vida, assim como um plano que permitirá ao Big Bebê se reproduzir e gerar a própria progênie cósmica favorável à vida na plenitude do tempo futuro. (…) se estiver correta, a hipótese significa que essas leis e constantes favoráveis à vida gerarão previsivelmente vida e inteligência avançada (…). Isso implica que a biofavorabilidade do nosso cosmos não é, na verdade, um acidente aleatório astronomicamente improvável, mas uma bioassinatura em escala cósmica, análoga à presença de oxigênio livre na atmosfera da Terra, que é uma bioassinatura em escala terrestre.” (GARDNER, p. 179)

Uma decorrência dessa ideia, em termos de insights éticos, é que existe toda uma biosfera no universo, para muito além do planeta Terra, da qual somos apenas uma pequena parte, e, potencialmente, toda essa “comunidade transterrestre de vidas e inteligências espalhadas por bilhões de galáxias e incontáveis parsecs” poderá exercer um papel em uma missão de importância cósmica: “ajudar a formar o futuro do universo e transformá-lo, de uma coleção de átomos sem vida, numa imensa mente transcendente. (…) Através da qualidade e do caráter de nossa contribuição para o progresso da vida e da inteligência (…), moldamos não apenas a nossa vida e a da nossa prole imediata, mas também a vida e a mente de cada geração de criaturas vivas até o final dos tempos. Ajudamos assim a moldar o destino final do próprio cosmos.” (GARDNER, p. 182)

Apesar do uso dessa linguagem mais poética e ética, para explorar possíveis implicações do papel ético da vida no universo, não se trata de uma ideia pseudocientífica, uma vez que Gardner apresentou originalmente a hipótese em artigos científicos submetidos à revisão por pares em revistas científicas renomadas (GARDNER, p. 138) e apontou três implicações falseáveis (ou seja, que podem ser demonstradas falsas por meio de testes empíricos realistas) da hipótese do Biocosmos: “a descoberta de inteligência extraterrestre; a descoberta da capacidade de adquirir autonomia e inteligência, por parte de formas de vida artificiais que existem e evoluem em ambientes de software; e a emergência da capacidade de alcançar e então superar os níveis humanos de inteligência, por parte de avançados computadores que se autoprogramam” (GARDNER, p. 142).

A essa altura, o leitor pode estar pensando: “Ok, ok, talvez o nosso universo tenha sido criado por seres altamente inteligentes em outro universo. Mas e quem criou o primeiro universo?” Bem, e seu eu te disser que o universo poderia ter sido criado (no passado) pela própria vida inteligente que emergirá dele (no futuro)?

Gardner explora essa possibilidade, citando a proposta pioneira de J. Richard Gott III e Li-Xing Li no artigo “Can the Universe Create Itself?” (1997). Estes físicos fizeram uso de “uma propriedade notável da teoria da relatividade geral de Einstein (que) é permitir soluções com curvas temporais fechadas, ou CTCs (close timelike curves) – configurações hipotéticas de tempo e espaço onde a gravidade é suficientemente forte para dobrar o continuum espaço-tempo numa configuração em loop que possibilita a eventos futuros influenciar o passado” (GARDNER, p. 189).

Citando suas próprias palavras no artigo: “Neste artigo, consideramos… a noção de que o Universo não surgiu do nada, mas criou a si mesmo. Uma das notáveis propriedades da teoria da relatividade geral é permitir, em princípio, soluções com CTCs. Por que não aplicá-las ao problema da primeira causa? (…) se houvesse uma região de CTCs no início do universo, perguntar qual foi o primeiro ponto do Universo seria como perguntar qual é o ponto mais oriental na Terra. Não há um ponto mais oriental – você pode dar voltas e voltas ao redor da Terra indo sempre para o leste. Para cada ponto, há pontos a leste. Se o Universo tivesse uma região primordial de CTCs, não haveria uma primeira causa. Cada evento teria eventos em seu passado. E no entanto o Universo não teria existido eternamente no passado.” (GOTT; LI, 1997. In: GARDNER, p. 189)

Gardner foi ainda mais longe. Ele explora uma alternativa para a teoria inflacionária padrão, denominada de “cenário de universo cíclico ekpirótico modificado”, segundo o qual o universo se expande após um Big Bang e se contrai até um Big Crunch, a partir do qual ocorrerá novamente um Big Bang e assim por diante, mas de tal maneira que “a informação e causação poderiam concebivelmente transpor o limiar do Big Crunch/Big Bang e assim semear um novo universo (ou um novo ciclo cósmico)” (GARDNER, p; 196), bem como a ideia de “um processo evolutivo cosmológico que culminaria em que o universo seria transformado num computador de capacidade máxima” (GARDNER, p. 195).

Com isso, ele associa esse “cenário de universo cíclico ekpirótico modificado” e a ideia de  “capacidade computacional máxima do universo” com a conjectura de uma Curva Temporal Fechada nos primórdios do universo para fazer uma conclusão surpreendente: “o que consideramos como futuro distante pode concebivelmente ser a fonte da informação que, no passado distante – especificamente, no instante do Big Bang, que gerou o nosso universo -, levou as leis da física a assumir seus valores e configurações improvavelmente favoráveis à vida.” (GARDNER, p. 197)

Dessa forma, “sob esse cenário, Alfa – o início do espaço-tempo, também conhecido como Big Bang – é adjacente a Ômega (o Big Crunch) ao longo do anel (loop) ininterrupto de uma curva temporal fechada ou CTC. Essa CTC representa um imenso ciclo cósmico que poderia gerar o código cósmico bioamigável de um universo mãe e gerar também o molde para produzir uma sucessão sem fim de universos bebês favoráveis à vida. (…) Esse artigo [onde ele publicou originalmente essa ideia] sugere que Alfa e Ômega – passado e futuro – não são estados separados e discretos do cosmos, mas sim participantes coevoluindo num processo de emergência e recorrência sem fim” (GARDNER, p. 197).

Logo, “não apenas o universo, mas também o código cósmico favorável à vida e, na verdade, a própria vida (e a complexidade específica que personifica) pode ser sua própria mãe nesse cenário.” (GARDNER, apêndice B, p. 231).

https://i2.wp.com/vinkovic.org/Projects/PopularScience/Gott_interview/universe_tree_time_animation.gif

(Imagem por Dejan Vinkovic, gif encontrada em seu site, representando o universo auto-criador segundo a ideia de Gott III e Li, e que ajuda a imaginar a ideia do Gardner)

Referências:

Juiz Dredd Magazine nº 5, série “Distorções Temporais”, história “O Homem Reversível”, roteiro de Alan Moore, Mythos Editora, setembro/2013.

GARDNER, James. O Universo Inteligente: inteligência artificial, extraterrestres e a mente emergente do cosmos. Tradução: Aleph Teruya Eichemberg; Newton Roberval Eichemberg. São Paulo: Cultrix, 2009.

GARDNER, James. Apêndice B: artigo “Coevolução do Passado e do Futuro Cósmico: o Biocosmos Egoísta como curva temporal fechada”, 2005, revista Complexity, vol. 10, nº 5. In: GARDNER, James. O Universo Inteligente: inteligência artificial, extraterrestres e a mente emergente do cosmos. Tradução: Aleph Teruya Eichemberg; Newton Roberval Eichemberg. São Paulo: Cultrix, 2009, p. 223-236.

GOTT III, J. Richard; LI, Li-Xin. Can the Universe Create Itself? 1997. In: Phys.Rev. D58, 1998 –> http://arxiv.org/pdf/astro-ph/9712344v1.pdf

VINKOVIC, Dejan. Entrevista com J. Richard Gott, III –> http://vinkovic.org/Projects/PopularScience/Gott_interview/J.Richard.Gott.III.eng.html

Site do livro “Biocosm” do James Gardner –> http://www.biocosm.org/

4 respostas em ““O Homem Reversível” (Alan Moore), curvas temporais fechadas e o Biocosmos

  1. Pingback: O Universo é um almoço grátis? | Tabula (não) Rasa & Libertarianismo Bleeding Heart

  2. Pingback: Temas tratados no 1º ano do blog | Tabula (não) Rasa & Libertarianismo Bleeding Heart

  3. Também achei interessante a história do Moore, mas a achei bastante semelhante a um conto (“Tempo de Passagem”, salvo engano) de J. G. Ballard que faz parte da coletânea “O Homem Impossível”, de 1966 (no Brasil, v. 4 da Coleção Ficção Científica da Editora Bruguera, Coleção Urânia).

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s