É melhor pensar em como você pode estar errado ou se os outros estão? Entre o pensador libertário e o libertário pensador

Se estamos buscando a verdade sobre os assuntos em que pensamos, é de grande valia ter uma postura intelectual correta, sendo correta aquela que mais possibilita a correção (relativa) de nossas crenças em face da evidência disponível e do raciocínio utilizado e o incremento (absoluto) em nosso saber. Isso também vale para a discussão política, inclusive no que diz respeito ao ramo de pensamento político com qual me identifico: o libertarianismo.

Daí que podemos fazer a seguinte pergunta: é melhor um filósofo libertário ou um libertário filósofo? Ou, um economista libertário ou um libertário economista? Um jurista libertário ou um libertário jurista? Um pensador libertário ou um libertário pensador?

Não sei se, para o leitor, fica clara qual é a diferença entre ser um filósofo/economista/jurista/pensador libertário e ser um libertário filósofo/economista/jurista/pensador. Um exemplo que talvez facilite: você percebe a diferença entre dizer que alguém é um filósofo cristão e que alguém é um cristão filósofo?

O que quero dizer é que, quando a sua postura é, por exemplo, a de um filósofo libertário, isso significa que você pensa a filosofia para defender o libertarianismo. Por outro lado, se você é um libertário filósofo, sua produção filosófica independe (pelo menos em maior grau) de sua filiação política e você estaria mais disposto a seguir a evidência ou uma linha de raciocínio para onde quer que ela leve. Dessa forma, enquanto um filósofo libertário buscaria criar mais força para suas posições libertárias a partir da filosofia, um libertário filósofo põe à prova suas posições libertárias (ou posições libertárias específicas, ou o libertarianismo como um todo, etc.) por meio de suas investigações filosóficas.

Nesse ponto, o leitor deve imaginar: não é essa distinção injusta? Afinal, quem busca elaborar argumentos em defesa do libertarianismo muitas vezes terá de formular argumentos contrários ao mesmo, e a própria distinção entre “pensador libertário” e “libertário pensador” seria diminuída dessa forma.

Realmente, eu usei a distinção apenas para ilustrar, e ela não precisa ser levada ao pé da letra. O problema não reside em elaborar argumentos para defender o libertarianismo, mas sim a postura intelectual que, muitas vezes, é encontrada em entusiastas do libertarianismo (bem como de qualquer outra corrente política).

Que atitudes são intelectualmente ruins? Listo algumas: preocupação demasiada em “refutar” os outros; montar todo um argumento em torno de premissas muito controversas e esperar que, se as outras pessoas não aceitarem a conclusão, elas são irracionais; considerar que todas as outras posições políticas, que não sejam a sua própria, são irracionais, irrazoáveis ou sem qualquer embasamento.

O problema com essas atitudes é que elas demonstram que a sua maior preocupação, na discussão intelectual, é mostrar como os outros estão errados, ou como os outros estão sujeitos a pensar de modo irracional, irrazoável ou ignorante. E partir, logo de começo, da ideia de que os outros estão errados, é fechar a mente à possibilidade de que o outro esteja certo (pelo menos em algum ponto).

A postura intelectual correta, ao contrário, seria se preocupar muito mais em como você mesmo pode estar errado e se você está errado realmente. Mais do que sermos apologetas, em uma cruzada contra a desinformação ou irracionalidade dos outros, precisamos ser críticos de nós mesmos, questionadores de nossas próprias crenças (ou dos fundamentos e justificativas que temos usados para crer nelas). Em nosso pensar filosófico (ou econômico, ou jurídico, etc.) como libertários, precisamos antes pôr à prova o libertarianismo, sendo capazes de revisar determinadas posições à luz da melhor evidência disponível ou do raciocínio mais acurado em torno de uma questão.

Isso não significa que não tenhamos de ser pessoas convictas. Uma coisa é ter convicção, outra coisa é ter a pretensão de estar definitivamente correto, ou, de que os outros estão definitivamente errados. Eu acredito muito na “despretensão filosófica” como uma virtude epistêmica: não pretender respostas definitivas ou acabadas, admitir os limites da racionalidade deliberada e consciente, e buscar soluções criativas para transformar questões misteriosas em perguntas passíveis de serem respondidas.

Vamos dar alguns exemplos de pensadores que cultivaram ou cultivam essa virtude:

a) Robert Nozick é muito conhecido pelo seu livro “Anarquia, Estado e Utopia”, no qual defendeu o libertarianismo. Contudo, sua própria defesa aí é peculiar: “minha proposta consiste em entregar tudo ao leitor: dúvidas, preocupações, incertezas, bem como crenças, convicções e argumentos” (NOZICK, p. XV). Aliás, ele mesmo afirma que esse livro não é um tratado político:

“Minha insistência em conclusões que contrariam crenças da maioria dos leitores pode levar alguém a pensar, erroneamente, que este livro é um tipo de tratado político. Não é. Trata-se de uma exploração filosófica de questões, algumas delas fascinantes por si mesmas, que surgem e se interconectam quando refletimos sobre os direitos individuais e o Estado. A escolha da palavra ‘exploração’ é proposital. Alguns acreditam que, para escrever um livro de filosofia, o autor deve considerar exaustivamente todos os detalhes e problemas de sua concepção, polindo-a e refinando-a a fim de apresentá-la ao mundo como um todo acabado, completo e elegante. Não partilho dessa concepção. Seja como for, acredito que há lugar e função, no presente universo intelectual, para uma obra menos completa, que contenha apresentações inacabadas, conjecturas, questões em aberto, problemas não resolvidos, indicações, digressões, bem como uma linha principal de raciocínio. Há espaço para a apresentação de ideias que não precisam se assumir como a última palavra sobre determinado assunto” (NOZICK, p. XIII)

Além disso, Nozick se recusou a escrever, como ele mesmo falou, “Anarquia, Estado e Utopia II”, no sentido de responder a todas as críticas formuladas àquele livro, exatamente porque ele queria investigar outros temas, bem diversos da filosofia política, tal como a teoria da escolha racional ou a teoria da verdade. Ao mesmo tempo, ele veio a encontrar que a postura libertária mais radical de “Anarquia, Estado e Utopia” não era adequada, e, ao final da vida, defendeu um libertarianismo mais embasado nos benefícios da cooperação mútua do que em direitos absolutos alienáveis à vontade (como se vê em “Invariances”, que toca nesse ponto da cooperação mútua e nas camadas da ética).

Na introdução de seu último livro, “Invariances”, Nozick escreve que sua tendência filosófica é abrir possibilidades para consideração, não fechá-las (NOZICK, 2001, p. 3) e que os filósofos precisam estar abertos para possibilidades conceituais intrigantes e radicalmente diferentes (NOZICK, 2001, p. 8), não podendo dar nenhum ponto filosófico por completamente garantido. A introdução inteira vale a leitura, e a discussão feita por Nozick nesse livro é genial.

b) David Schmidtz é diretor do “Center for the Philosophy of Freedom” da Universidade do Arizona, EUA. Os valores nucleares deste Centro são marcados pela despretensão filosófica, em especial o da seriedade: A teorização é a atividade de projetar mapas que podem representar a realidade com maior ou menor acurácia e, quando se fazem reivindicações empíricas, não se pode defendê-las por transformá-las em tautologias vazias, mas sim oferecer a espécie de dados que são relevantes para testar hipóteses científicas; logo, se sua definição faz desnecessário checar os fatos, então você precisa checar sua definição (vide o “About Us” no site oficial).

Em seu livro “Elementos da Justiça”, Schmidtz dá mais mostras de que valoriza a virtude epistêmica que eu defendo. Antes de mais nada, você pode ler esse livro, e não vai ter a sensação de que é um livro “em defesa do libertarianismo”. E exatamente porque não é um livro projetado para defender o libertarianismo, mas, ainda assim, pode ser usado em sua defesa. O livro discute como abordar a justiça desde uma perspectiva pluralista, contextual e funcional, e, em alguns pontos, a concordância com certas posições libertárias é clara, mas tal concordância ou não em nada interfere com o argumento.

Muito lucidamente ele comenta nesse livro: “As pessoas razoáveis discordam sobre o que é justo. Por quê? Até mesmo a resposta a esta pergunta é um item sobre o qual pessoas razoáveis discordam. (…) Em parte, o problema deriva da própria natureza da teorização. (…) A teorização per se não produz um consenso (embora isso seja obtido através de pressões sociais). Por que não? Ou um argumento é correto, ou não o é. Desse modo, por que uma teoria não compele à aceitação de todos nós, se for correta; ou de nenhum de nós, se não o for? Minha resposta: teorias não são argumentos, corretos ou não. Teorias são mapas. Os mapas, mesmo os bons mapas, não nos obrigam a fazer nada. Nenhum mapa representa a única forma racional de descrição de um determinado terreno.” (SCHMIDTZ, p. 7)

Outras  demonstrações dessa preocupação epistêmica:

“Eu não tentei formular as condições necessárias e suficientes para se considerar que X seja justo. Não há muito a ganhar com a tentativa de formular tais condições e existem outros tipos de análise. (Os economistas não tendem a procurar condições necessárias e suficientes, mas sim relacionamentos funcionais como, por exemplo, a forma pela qual Y varia em função de X. Um aumento no meio circulante não é necessário, nem suficiente para que suba a taxa de inflação, mas a questão não é essa. A questão é que, permanecendo todos os fatores iguais, qualquer modificação no meio circulante irá afetar os preços.)” (SCHMIDTZ, p. 42)

“Nenhum filósofo é amplamente considerado como tendo alcançado pleno sucesso no desenvolvimento de uma teoria viável da justiça ou jamais recebeu o devido crédito por isso. Eu não tenho a menor ilusão de que a minha própria teoria será a primeira a obter esse resultado. (…) Eu ofereço meus resultados como reflexões, não como deduções. São as lacunas de uma teoria que acendem a imaginação (ou, pelo menos, que inspiram respostas) e, desse modo, eu não tentei esconder as minhas lacunas. Sócrates nos ensinou que a sabedoria não é conhecer uma infinidade de coisas, mas sim a capacidade de perceber que existem, ao nosso redor, muito mais coisas a aprender.” (SCHMIDTZ, p. 42-43)

Conclusão: Ao pensar sobre um tema e ao discuti-lo com outras pessoas, vale mais refletir sobre como e se você pode estar errado, do que se os outros estão errados. É uma virtude epistêmica estar continuamente pondo à prova as próprias crenças, assumindo que é possível que você tenha incorrido em algum erro, pelo menos em questões que envolvem fatos empíricos ou extrapolações/generalizações a partir de casos consolidados mais específicos. Isso também significa que, às vezes, é melhor discutir questões  mais específicas que possam ser respondidas mais precisamente, e deixar que a resposta “agregada” dessas questões torne o (ou alguma versão do) libertarianismo plausível ou muito possivelmente correto em sentido mais amplo.

Referências:

NOZICK, Robert. Invariances: the structure of the objective world. The Belknap Press of Harvard University Press, 2001 –> http://118.97.161.124/perpus-fkip/Perpustakaan/American%20Phylosophy/Nozick,Robert-%20Invariances.The%20Structure%20of%20the%20Objective%20World.pdf

NOZICK, Robert. Anarquia, Estado e Utopia. Tradução: Fernando Santos. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2011.

SCHMIDTZ, David. Os Elementos da Justiça. Tradução: William Lagos. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2009.

“About Us” do “Center for the Philosophy of Freedom”–> http://freedomcenter.arizona.edu/about

Entrevista de Julian Sanchez com Robert Nozick –> http://www.trinity.edu/rjensen/NozickInterview.htm

4 respostas em “É melhor pensar em como você pode estar errado ou se os outros estão? Entre o pensador libertário e o libertário pensador

  1. Li e achei bastante interessante. Sobre o tema em si, acho que, como defesa de certa atitude epistêmica de não fanatismo, de não presunção, de incompletude, de falibilismo, de autocrítica e de auto-revisão, sua sugestão se aplicaria para o defensor de qualquer teoria, não apenas para o libertário. O que não ficou tão claro para mim foi a parte do porquê. No começo do texto, pareceu que sua defesa era mais fundada em termos de virtude epistêmica: é melhor ter esta atitude que a atitude inversa porque esta dispõe mais para o diálogo, a crítica e a revisão, e isso é bom para o avanço do conhecimento. Já ao explorar os exemplos de Nozick e Schmidtz, pareceu que você acredita também em argumentos mais fortes que estes. Pareceu, na parte relativa a Nozick, que acredita que toda teoria representa sempre um estado incompleto e problemático da reflexão e que, portanto, assumir em relação a ela uma atitude de convicção radical implica uma incongruência entre o grau de certeza que a teoria de fato é capaz de suscitar e o grau de certeza que seu defensor está apresentando. (Aqui se poderia dizer que você estava apenas relatando algumas razões dadas por Nozick para sustentar aquela atitude intelectual ao escrever AEU, mas, se você não pensasse que tais razões se aplicam para qualquer um ao sustentar qualquer teoria, dar Nozick como exemplo perderia relevância para o seu texto.) Pareceu também, na parte relativa a Schmidtz, que você acredita que a teoria mantém certo tipo de relação perspectiva e instrumental com a realidade (como na metáfora dos mapas de terrenos) e que disso se seguiria que a divergência sobre a melhor teoria é esperável e que nenhuma pode alimentar a pretensão de estar definitivamente correta e merecer adesão universal. (Aqui também se poderia dizer que você estava apenas relatando algumas razões dadas por Schmidtz para sustentar aquela atitude intelectual, mas, novamente, se você não pensasse que tais razões se aplicam para qualquer um ao sustentar qualquer teoria, dar Schmidtz como exemplo perderia relevância para o seu texto.) Estas suposições filosóficas sobre a natureza da teoria e sobre a natureza da relação entre teoria e realidade me parecem não apenas bastante problemáticas como também desnecessárias para fundamentar a defesa da atitude epistêmica que você sugere, a qual pode ser defendida de modo mais direto, simples e despretensioso dizendo apenas que se trata de uma virtude epistêmica que torna mais fácil e provável o avanço do conhecimento.

    • Certamente, isso se aplica para uma pessoa com qualquer posicionamento político, mas utilizei o exemplo dos libertários para ilustrar o ponto. Quanto ao que você se referiu acerca das ideias de Nozick e Schmidtz, eu as coloquei por três motivos: 1) elas incorporam uma versão bastante forte da atitude epistêmica referida; 2) ambos são/foram libertários, de modo que isso serve como exemplo para o tipo de atitude que é muito melhor do que aquela assumida por muitos libertários, que querem estabelecer o libertarianismo como uma verdade autoevidente ou algo do gênero; 3) eu tendo a concordar com eles, mas ainda preciso avaliar mais essa questão. Realmente, a rigor, era desnecessário, mas esses motivos me fizeram colocar as passagens das obras deles. Mas eu aconselharia nesse ponto, ler o próprio “Elementos da Justiça” do David Schmidtz, no que diz respeito ao modo como ele pensa que deva ser construída a teoria da justiça, é bem interessante mesmo, e eu apenas postei fragmentos, mas trata-se de uma teoria pluralista, contextual e funcional (a funcionalidade da justiça é chamada para decidir casos difíceis), e emergem como regras de reconhecimento de normas de justiça a internalização das externalidades e a capacidade para satisfazer necessidades; e pensar no modo como o Nozick tentou demonstrar a correção do libertarianismo no “Anarquia, Estado e Utopia”, dispensando a necessidade de apresentar uma fundamentação metafísica para os direitos individuais, dispensando a necessidade de esclarecer isso, uma vez que ele mostra que 1) mesmo a posição que dá a maior robustez aos direitos individuais, ainda assim por um processo sistêmico justificaria o Estado mínimo (logo, exclui o anarquismo); 2) como as concepções de justiça distributiva baseadas em resultado final são ambíguas, ou problemáticas perante premissas que compartilhamos amplamente, apenas concepções de justiça histórica são válidas (logo, tenta mostrar que a teoria do entitlement é verdadeira porque as outras são falsas); 3) um modelo teórico para descoberta do melhor dos mundos possíveis, se efetivado no mundo real, seria um “arcabouço” equivalente ao Estado mínimo, e, portanto, este permite esse processo de descoberta e experimentação utópica. Isso é um pouco da originalidade e da criatividade possíveis por meio desse tipo de postura mais “forte”.

  2. esse post deveria ser lido pelos acadêmicos de sociais aplicadas, que usam argumentos não para defender o que é mais certo e mais justo (e mais eficaz) mas para tão somente defender uma ideologia…

  3. Pingback: Temas tratados no 1º ano do blog | Tabula (não) Rasa & Libertarianismo Bleeding Heart

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