Parto humano e cooperação social

Uma imagem que comumente vem à mente quando se pensa na cooperação social dos ancestrais dos seres humanos é a de caçadores coordenando seu comportamento em conjunto para abater uma presa. E os caçadores são homens.

Deixando de lado neste texto a discussão acerca de quão ancestral seja a prática da caçada cooperativa entre seres humanos, cabe perguntar se outra prática cooperativa não é tão ou até mais antiga do que a caçada em conjunto, mas que, talvez, chame “menos atenção” por ser menos “visível” ou menos “pública” do que a caçada.

Nesse sentido, a assistência ao parto humano é uma importante prática cooperativa, e que trata diretamente de um assunto evolucionário de grande importância: o nascimento bem-sucedido e a prevenção da mortalidade infantil (e materna).

A paleontóloga Karen Rosenberg, da Universidade de Delaware, é referência no estudo da evolução do parto humano, e afirmou, em recente entrevista, que seu interesse nesta área teve, como um de seus motivos, a constatação de que grande parte da ciência da evolução humana focava em atividades masculinas como a caça, não prestando atenção ao que as mulheres estavam fazendo.

Em matéria escrita para a Scientific American, denominada “The Evolution of Human Birth” (2001), ela e Wenda R. Trevathan detalham sua hipótese. A base da tese delas reside em que, para os humanos atuais, o parto é difícil e arriscado, mas, se retrocedermos no tempo, voltando para os ancestrais humanos cada vez mais distantes, chegará um momento em que o parto não era difícil nem arriscado (tal como não o é para chimpanzés, por exemplo, que tem um ancestral comum com os seres humanos). A questão, então, é definir quando, nessa história evolucionária que levou os humanos a se distinguirem de outros grandes primatas como o chimpanzé, o parto começou a demandar/necessitar de assistência à mãe? (ROSENBERG; TREVATHAN, p. 78).

Essa pergunta pode ser respondida, primeiro, respondendo-se o porquê do parto ser arriscado e difícil para as mães de nossa espécie. Isso ocorre basicamente por dois motivos: 1) a postura bípede, ereta, do corpo, que estreita o canal do parto; 2) o tamanho da cabeça e dos ombros do feto em comparação ao tamanho do canal do parto.

Então, precisamos procurar, no registro fóssil, como essas duas características (bipedalismo e aumento do tamanho do crânio) evoluíram. Sabe-se que o bipedalismo evolui primeiro, então, deve ser analisado primeiro.

As autoras alertam que, embora um padrão comportamental tão complexo como a assistência ao parto por uma “parteira” não se fossiliza, os ossos pélvicos se fossilizam e, por outro lado, é possível estimar o tamanho do crânio de um infante baseado em extensivo conhecimento acerca do tamanho dos crânios de adultos, de modo que se possa determinar quão “apertado” seria o canal do parto em relação às proporções corporais do feto (ROSENBERG; TREVATHAN, p. 79).

No ramo da árvore evolucionária do qual o homo sapiens (humano moderno) surgirá, a ocorrência do bipedalismo obrigatório ocorre pela primeira vez no gênero Australopithecus, dos quais o famoso esqueleto denominado “Lucy” faz parte (gênero: Australopithecus; espécie: Australopithecus afarensis), há mais de quatro milhões de anos. Lucy é uma das fontes de conhecimento sobre a pélvis do Australopithecus (ROSENBERG; TREVATHAN, p. 80), sendo que Lucy era uma fêmea.

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(A.L. 288 – 1 –“Lucy”)

Cabe destacar que, entre o Australopithecus e o ancestral comum entre o homem e o chimpanzé, existiram outras espécies que já tinham andar bípede. O uso acima do termo “bipedalismo obrigatório” não foi por acaso. Ainda que o gênero Australopithecus tenha sido o pioneiro no bipedalismo obrigatório, o Ardipithecus Ramidus (que menciono aqui por nosso conhecimento acerca dele ser maior e menos controverso do que de outros espécimes ainda mais antigos: Sahelanthropus tchadensis, Orrorin tugenensis e Ardipithecus Kadabba) tinha, como atributo, o bipedalismo facultativo, que existe quando a estrutura anatômica do esqueleto permite também uma locomoção quadrúpede, que, no caso do Ardipithecus, servia à locomoção em um ambiente arbóreo (SU, p. 2013).

As autoras sugerem, de fato, que a assistência ao parto possivelmente apareceu há 5 milhões de anos atrás com o advento do bipedalismo, que restringiu o tamanho e molde do canal do parto (ROSENBERG; TREVATHAN, p. 79), entretanto, elas destacam que a estrutura anatômica do bipedalismo obrigatório, por si só, não introduz dificuldade suficiente para que as mães necessitem da assistência, de modo que o fator principal para a fixação deste padrão comportamental na espécie humana seria a expansão no tamanho do cérebro, e, por conseguinte, do crânio que ocorreu em especial com o surgimento do gênero posterior ao do Austrolopithecus, qual seja, o gênero Homo, há pouco mais de 2 milhões de anos atrás (ROSENBERG; TREVATHAN, p. 81).

Perceba que, nos humanos atuais, ainda que o crânio aumente consideravelmente durante 2 anos após o nascimento da criança, o tamanho do crânio do feto já é grande, comparado ao de outras espécimes de primatas, quando do parto. Considerando as restrições que o bipedalismo obrigatório impõe à estrutura da pélvis e, portanto, do canal do parto na mãe, isso significa que o aumento do tamanho do crânio no feto incrementou a dificuldade e o risco no parto, em especial do parto feito sozinho pela mãe.

Com isso, as autoras sugerem que, ao longo da evolução do gênero Homo (com a “progressiva” ampliação do tamanho do cérebro nas espécies deste gênero), a seleção natural teria favorecido o comportamento de buscar assistência durante o nascimento, porque essa ajuda compensaria as dificuldades advindas de infantes com grandes crânios, pélvis designada para o andar ereto, e de que a saída do feto no parto seja “rotacional” (ROSENBERG; TREVATHAN, p. 81), prevenindo assim excessiva mortalidade infantil e materna (ROSENBERG; TREVATHAN, p. 79).

Também destacam que o motivador da busca de assistência pelas mães não era apenas a mitigação dos riscos envolvidos, como também sentimentos de ansiedade, medo e dor (ROSENBERG; TREVATHAN, p. 81).

Dessa forma, também se explicaria o costume quase universal de assistência ao parto ao longo das culturas atualmente existentes (ROSENBERG; TREVATHAN, p. 79). Isso é verdadeiro, mesmo em face de contra-exemplos, como o do povo !Kung do deserto de Kahalari, na África. Apesar deste povo ter o parto solitário como ideal cultural, uma mulher geralmente não dará à luz sozinha, antes que já tenha dado à luz outras vezes, com sucesso, na presença de mães, irmãs ou de outras mulheres (ROSENBERG; TREVATHAN, p. 79).

Na entrevista feita com Rosenberg mencionada anteriormente, já agora em 2013, ela afirma que se pode ter certeza de que essa prática acontecia há 100.000 anos, entre os homens de Neandertal (p. s. nossa espécie e o homem de Neandertal têm um ancestral comum bem próximo), e provavelmente no Homo erectus, entre 300.000 anos e 2 milhões de anos atrás, onde foi alcançado o limite da expansão da pélvis para se ajustar a um feto cada vez maior em seu crânio, conforme ela tem trabalhado para demonstrar.

Logo, quando se pensa em “cooperação social humana” daqui por diante, deve-se ter em mente que uma das atividades cooperativas mais antigas na linhagem evolucionária humana é a assistência no parto, e a atividade de “parteira”, e que, portanto, a existência de cada um de nós hoje dependeu de um número extraordinário de partos bem-sucedidos no passado, os quais, em sua maioria, só o foram porque as mães do passado, há centenas de milhares e/ou milhões de anos (a depender do tempo exato em que esse padrão comportamental foi fixado no gênero Homo e se surgiu no gênero Australopithecus), foram assistidas e auxiliadas por outras pessoas, muito provavelmente outras mulheres. Portanto, o desempenho do papel de “parteira”, ao longo de gerações, foi crucial para a persistência e sucesso evolucionário do Homo Sapiens.

Referências:

ROSENBERG, Karen R.; TREVATHAN, Wenda R. The Evolution of Human Birth. In: Scientific American, edição de novembro de 2001, p. 76-81 –> http://www.udel.edu/anthro/krosenberg/305/RosenbergTrevathan.pdf

Entrevista com Karen Rosenberg, por Jessica Shugart, em 02/04/2013 –> http://scicom.ucsc.edu/publications/QandA/2013/rosenberg.html

Su, D. F. (2013) . The Earliest Hominins: Sahelanthropus, Orrorin, and Ardipithecus. In: Nature Education Knowledge 4(4):11 –> http://www.nature.com/scitable/knowledge/library/the-earliest-hominins-sahelanthropus-orrorin-and-ardipithecus-67648286

2 respostas em “Parto humano e cooperação social

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