“Por que você não pode ser consciente e não pode renunciar ao xadrez feito de marfim de elefantes?”

A pergunta do título, ou similares, é usada muitas vezes para induzir um sentimento de culpa na pessoa que é questionada, e para reafirmar à pessoa que faz esse questionamento o quão boa e consciente ela é em seu idealismo. Esse tipo de questionamento em tom de repreensão não é apenas usado no campo do ambientalismo, mas aqui iremos nos restringir a esse âmbito, e demonstrar o porquê desse tipo de questionamento ser ruim, mesmo se você se preocupa com a sobrevivência dos elefantes na África.

David Schmidtz, no paper “Natural Enemies”, salienta que existem três espécies de conflito ambiental: conflito no uso; conflito nos valores; conflito nas prioridades (SCHMIDTZ, p. 229-230).

O conflito no uso pode ser resolvido pela atribuição de direitos de propriedade (SCHMIDTZ, p. 229), mas o conflito nos valores não necessariamente, por exemplo, analisemos o seguinte questionamento: as tribos Masai poderiam possuir e vender elefantes? Uma pessoa poderia dizer que conferir tais direitos daria uma razão para as tribos Masai proteger os elefantes contra caçadores de fora, mas outra pessoa poderia dizer que tornar elefantes em uma commodity é a atitude que destrói os elefantes, pelo menos no sentido figurado de que acaba com o modo como elefantes deveriam ser tratados de um ponto de vista em que a natureza deve remanescer livre e selvagem (SCHMIDTZ, p. 229-230). Portanto, discorda-se se os elefantes podem ou não ser recursos (SCHMIDTZ, p. 230).

Mas outra fonte potencial de conflito é o conflito de prioridades entre pessoas com os mesmos valores. Os objetivos imediatos das pessoas podem ser incompatíveis mesmo quando seus valores são muito similares, em especial quando algumas dessas pessoas arcam com um custo maior do que as outras (SCHMIDTZ, p. 230). Em particular nessas situações, mas também na situação de conflito entre valores, demanda-se a mediação do conflito ambiental, buscando uma negociação em que todas as partes envolvidas possam sair ganhando, não sendo admissível que uma parte possa impor sua visão unilateralmente sobre o que é melhor para a natureza (SCHMIDTZ, p. 232).

Assim, ao escolher prioridades, deveríamos ser sensíveis não apenas aos nossos próprios valores, mas também aos valores dos outros, mesmo quando não nos preocupamos com esses mesmos valores, perguntando assim pelos valores dos outros, suas prioridades, e o que poderia levar a que pessoas com tais valores e prioridades diferentes atuem de maneiras ambientalmente benignas (SCHMIDTZ, p. 232).

Essa visão da resolução de conflito ambiental como arte do compromisso entre diversos interesses em relação ao meio ambiente (SCHMIDTZ, p. 232) contrapõe-se à noção corrente do valor simbólico e expressivo da regulação ambiental, uma vez que, se estamos efetivamente preocupados com o meio ambiente e não queremos que a lei prejudique certo valor sob o pretexto de expressá-lo, não devemos apoiar uma regulação pelo que ela simboliza enquanto um esforço e/ou preocupação pela natureza, mas sim levando em conta que tipo de comportamento a lei induzirá quando estiver em vigor e for aplicada (SCHMIDTZ, 233).

Isso nos leva, então, ao xadrez feito de marfim de elefante. Digamos que as pessoas concordem com uma hierarquia de valores que indica que filhos sejam mais importante do que elefantes, e que elefantes são mais importantes do que jogos de xadrez feitos de marfim. O conflito pode surgir quando norte-americanos denunciarem a caça de elefantes para a fabricação de jogos de xadrez com o marfim, enquanto africanos defenderem a prática, porque a renda obtida a partir da caça do elefante para extração do marfim estão alimentando seus filhos (SCHMIDTZ, p. 230).

Então perceba que a pessoa que faz o questionamento em um país como o Brasil, “por que você não pode ser consciente e renunciar ao xadrez feito de marfim de elefante?”, está fazendo uma pergunta abertamente fora de propósito e, pior, considerando-se uma pessoa muito boa e consciente com base na renúncia bastante barata para si mesma de não jogar com peças de xadrez feitas de marfim. Para essa pessoa que questiona, nenhuma caça de elefantes significa nenhum xadrez feito de marfim; mas para os africanos, nenhuma caça de elefantes pode significar não alimentar seus filhos (SCHMIDTZ, p. 230).

É importante perceber que camponeses de subsistência podem ter prioridades diferentes das nossas, mesmo tendo os mesmos valores, porque há diferenças em relação ao quanto uma pessoa terá de arcar/pagar para perseguir determinado valor dadas certas circunstâncias (SCHMIDTZ, p. 230). Quem paga menos terá prioridades que, se impostas por força de lei, podem passar por cima do fato de que outra pessoa terá de arcar com um custo maior por aquilo.

Por exemplo, em algumas partes da África, o dilema dos camponeses de subsistência é exatamente esse: se eles não puderem usar os elefantes como commodities (por meio da venda de marfim, licenças de caça ou safári fotográfico), então eles terão um incentivo para afastar os elefantes para fora da área de modo que possam plantar alguma coisa, já que, se essas pessoas da zona rural não podem explorar os elefantes de forma economicamente rentável, sua única alternativa será converter o habitat dos elefantes em plantação (SCHMIDTZ, p. 231).

Outro exemplo fornecido por Schmidtz é, quando se tenta diminuir as queimadas de florestas, visualiza-se a situação como um conflito de valores entre as pessoas conscientes e, por exemplo, os empresários construtores de condomínios que fazem isso pelo simples prazer de arruinar o planeta, quando, na verdade, pode se tratar de um conflito de prioridades com camponeses deslocados que estão apenas querendo alimentar seus filhos (SCHMIDTZ, p. 232). Ou seja, mesmo tendo os mesmos valores, se estivéssemos nas circunstâncias daqueles camponeses, que posição tomaríamos?

Dessa forma, podemos concluir que querer preservar e conservar partes do meio ambiente selvagem não deve ser nosso objetivo para nos certificarmos de sermos pessoas conscientes e que demandam as melhores leis, mas sim para que busquemos, por meio de procedimentos adequados com critérios substantivos pertinentes (como o da internalização das externalidades, com atribuição de responsabilidade pelas consequências ecológicas das ações de cada qual; SCHMIDTZ, p. 234), a negociação dos interesses ambientais pertinentes, levando em especial consideração os interesses daqueles que terão de suportar o maior custo por determinada normativa e buscando o ganho para todas as partes (realmente e potencialmente) envolvidas.

E lembre-se: acabar com determinados mercados pode ter para você apenas o custo de renunciar a certo consumo, mas para outras pessoas pode ser o custo de renunciar a alimentar a si mesma e seus filhos, ou a uma parte muito substancial do próprio orçamento. Então, você seria muito mais correto se levasse a sério esse risco de prejudicar pessoas que arcariam com um custo muito mais alto do que você.

[EDIT 09/08/2015: Em parte, minha visão aqui mudou. Tendo atualmente a encarar com mais convicção as ideias voltadas a garantir direitos individuais mesmo para animais, a começar pelos grandes primatas, mas sob uma base que é fácil de estender para animais de cognição tão elevada quanto elefantes ou golfinhos. Entretanto, esse texto permanece relevante em vista do método de arbitragem para resolver conflitos ambientais]

Se você tiver um tempo adicional, por fim, assista esse vídeo. Mostra um exemplo ainda mais real da importância do que foi falado aqui. E tenha em mente que Hans Rosling não é libertário:  http://video-subtitle.tedcdn.com/talk/podcast/2010W/None/HansRosling_2010W-low-en.mp4

Você pode também assistir a partir dessa postagem no blog Bleeding Heart Libertarians (não recomendo as legendas em português, não estão sincronizadas com a fala dele): http://bleedingheartlibertarians.com/2013/10/when-libertarians-cry/

Referências:

SCHMIDTZ, David. Natural Enemies: An Anatomy of Environmental Conflict. 2002 –> http://www.davidschmidtz.com/sites/default/files/articles/naturalenemies.pdf

“Hans Rosling and the Magic Washing Machine” –> http://video-subtitle.tedcdn.com/talk/podcast/2010W/None/HansRosling_2010W-low-en.mp4

HORWITZ, Steven. When Libertarians Cry. 30/10/2013 –> http://bleedingheartlibertarians.com/2013/10/when-libertarians-cry/

3 respostas em ““Por que você não pode ser consciente e não pode renunciar ao xadrez feito de marfim de elefantes?”

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