O erro científico do keynesianismo e a emergência da macroeconomia novo-clássica

Geralmente se lê ou se escuta pessoas falando do “keynesianismo”, como se este tivesse sido uma “ideologia”. Independente da medida em que os “keynesianos” tenham propensão para determinadas posturas ideológicas ou valorativas, é sempre importante reiterar que o keynesianismo era uma hipótese científica e que como tal precisa ser avaliada. A demonstração de erros científicos em sua formulação veio a fortalecer o caso para uma macroeconomia novo-clássica, de que falarei também.

(P.s. Em texto daqui do blog, usei o termo “nova macroeconomia (neo)clássica” para traduzir o termo do inglês, mas agora vejo que a tradução como “macroeconomia novo-clássica” é melhor. Por isso o título daquela outra postagem foi alterado)

Robert E. Lucas, um notável macroeconomista novo-clássico, escreveu, junto com Thomas L. Sargent, um texto denominado “After Keynesian Macroeconomics“, onde mostram qual foi o erro científico do keynesianismo e a necessidade de repensar a macroeconomia com base em fundações em microeconomia (daí falar-se de macroeconomia novo-clássica, por ser uma refundação da macroeconomia com base em premissas neoclássicas da microeconomia, como veremos mais abaixo).

Apesar de não ser o propósito do próprio Keynes, a revolução keynesiana em economia foi uma revolução no método, possibilitando a evolução da macroeconomia em uma disciplina científica e quantitativa, com o desenvolvimento de explícitos modelos econométricos (LUCAS; SARGENT, p. 50). Lembre que econometria é a mensuração de dados econômicos, que lida o estudo de observações empíricas usando métodos estatísticos de estimativa e teste de hipóteses (CHIANG,  p. 5).

Um modelo econométrico é um sistema de equações envolvendo um número de variáveis endógenas (determinadas pelo modelo), variáveis exógenas (não determinadas pelo modelo) e choques randômicos (acaso). A ideia é usar dados históricos para estimar o modelo, e então utilizar essa versão estimada para obter estimativas das consequências de políticas alternativas. (LUCAS; SARGENT, p. 50) A macroeconomia keynesiana se caracterizava por modelos estruturais que impunham vários tipos de restrições a priori sobre as variáveis endógenas, exógenas e aos choques randômicos, como fazer de muitas das variáveis endógenas e exógenas equivalerem a zero ou uma categorização a priori de variáveis dentro da categoria de “endógenas” ou “exógenas” (LUCAS; SARGENT, p. 52-53).

Parece meio nebuloso dito assim, mas vejamos um exemplo: a Teoria Geral de Keynes trazia uma “lei fundamental” relacionando despesas de consumo à renda, que sugeria uma equação no modelo “1” (vide p. 51) envolvendo consumo atual, renda atual e nenhuma outra variável, o que é o mesmo que dizer que as outras variáveis seriam zeradas (LUCAS; SARGENT, p. 53).

Quais seriam os problemas decorrentes desse tipo de análise? Primeiro, sem conhecimento de quais parâmetros estruturais permanecem invariantes sob uma mudança na política (por exemplo, fiscal ou monetária), e quais mudam (e como mudam), um modelo econométrico não seria de nenhum valor para avaliar políticas alternativas. Isso porque uma mudança na política poderá alterar alguns dos parâmetros estruturais. (LUCAS; SARGENT, p. 53) Ou seja, não se pode supor a priori que uma relação funcional entre determinadas variáveis (isto é, a relação em que, se uma muda, a outra muda também em certa proporção) persistirá com a mudança na política.

Ainda mais, não se pode ignorar o papel das “expectativas” dos agentes econômicos, que influencia a dinâmica da economia, e não é possível determinar restrições sobre as variáveis que os agentes econômicos utilizarão para formar suas expectativas sobre os mercados (LUCAS; SARGENT, p. 55). Do postulado do auto-interesse, é de se esperar que os agentes econômicos potencialmente usarão os valores de várias variáveis endógenas e exógenas para formar suas expectativas sobre qualquer outra variável (LUCAS; SARGENT, p. 55), sem qualquer restrição.

E aqui entra o decisivo teste sofrido pelo keynesianismo, na década de 1970, que demonstrou onde estava seu equívoco: o “trade-off” (troca) entre inflação e desemprego, de modo que, quanto mais alta a taxa de inflação, mais alto será o produto da economia e consequentemente menor a taxa de desemprego. (LUCAS; SARGENT, p. 56). Dito de outra forma: haveria uma troca estável entre desemprego e inflação, a chamada “curva de Phillips” (BORJAS, p. 578), que poderia ser manipulada por meio de políticas governamentais de modo a aumentar a inflação para chegar ao pleno emprego.

Com base em recomendações formuladas a partir de modelos keynesianos, era de se esperar que o viés inflacionário na política fiscal e monetária dos EUA na década de 70 produzir as mais baixas taxas médias de desemprego para qualquer década desde 1940, mas, o que ocorreu foi a mais alta taxa de desemprego desde a década de 1930, ou seja, falha econométrica em larga escala (LUCAS; SARGENT, p. 57).

Agora é importante pontuar que o panorama teórico keynesiano era mais amplo que um conjunto particular de equações, e houve tentativas de refinar os modelos baseado sobre os mesmos pressupostos. Ironicamente, alguns que recomendavam que uma política fiscal seria uma alternativa mais eficiente do que uma política protecionista de “salvar empregos” para alcançar o mesmo fim, ao notarem que essa recomendação não fazia mais sentido, resolveram favorecer esses “controles diretos protecionistas” como “complementos” à política keynesiana, como se estivesse supondo que, se as pessoas se recusam a obedecer as equações que nós ajustamos ao seu comportamento no passado, nós podemos passar leis para obrigá-las a fazer isso! (LUCAS; SARGENT, p. 57)

Contudo, mais e mais economistas resolveram desenvolver teorias alternativas para o ciclo de negócios, baseados em princípios teóricos distintos. (LUCAS; SARGENT, p. 57) A macroeconomia novo-clássica surge, então, para formular uma macroeconomia fundada em pressupostos clássicos presentes na microeconomia, dentro os quais os mercados transparentes (“clear”) e o comportamento de otimização dos agentes. (LUCAS; SARGENT, p. 60)

O passo chave para conseguir fazê-lo era relaxar o postulado, também clássico, de que agentes têm informação perfeita (que é assumida nos modelos microeconômicos). Dessa forma, cada agente é pensado como tendo informação limitada e recebendo informação sobre alguns preços mais frequentemente do que sobre outros, e, mesmo com essas limitações, o agente ainda “otimiza”, o que significa que suas decisões de oferta e demanda devem ser funções de variáveis reais, incluindo os preços relativos percebidos. Com base na informação limitada possuída – “listas” contendo os preços absolutos, passados e presentes, de vários bens – os agentes fariam a melhor estimativa possível de todos os preços relativos que influenciam suas decisões de oferta e demanda. Como eles não possuem toda a informação para computar perfeitamente os preços relativos pertinentes, os agentes cometem erros na sua estimativa. Mais especificamente, sobre certas circunstâncias, os agentes tenderão temporariamente a errar no sentido de que o aumento geral em todos os preços absolutos significaria um aumento no preço relativo do bem que eles estão vendendo e, na média, todo mundo está cometendo o mesmo equívoco, o produto agregado aumentará acima do que poderia ter sido. (LUCAS; SARGENT, p. 60)

Ou seja, isso é a hipótese das expectativas racionais: os agentes fazem o melhor uso possível da informação limitada que possuem e conhecem a distribuição da probabilidade pertinente. O produto médio da economia diminuirá sempre que o nível agregado de preços vier a ser mais baixo que os agentes esperavam, e, da mesma forma, o produto  aumentará acima do que poderia ter sido sempre que o nível agregado de preços estiver acima do que os agentes teriam esperado com base na informação prévia. (LUCAS; SARGENT, p. 60)

Desse modo, há uma grande importância nas mudanças inesperadas em variáveis macroeconômicas, mudanças que não estejam dentro das “expectativas” dos agentes: 1) correlação positiva entre mudanças inesperadas no nível de preços e revisões no produto agregado em relação ao seu nível previamente planejado; 2) correlação entre revisões no produto agregado e mudanças inesperadas em quaisquer variáveis que ajudem a determinar a demanda agregada, por exemplo, a oferta monetária, de modo que inesperados aumentos na oferta monetária estão positivamente relacionados com revisões no produto agregado. (LUCAS; SARGENT, p. 60)

O que se percebe então é que esses modelos podem aceitar a correlação positiva entre a taxa de inflação ou a oferta monetária, de um lado, e o nível do produto da economia, de outro, mas o que não se aceita é que possa haver uma “troca” estável entre essas variáveis que possa ser explorada por uma autoridade política. Não há nenhuma maneira pela qual a autoridade monetária poderia seguir uma política ativista sistemática e alcançar uma taxa do Produto que seja, na média, mais alta no ciclo de negócios que poderia ocorrer se uma regra percentual fixa, sem alteração, fosse estabelecida para a oferta monetária. (LUCAS; SARGENT, p. 60-61) Flutuações no ciclo de negócios devem-se principalmente a choques não antecipados (LUCAS; SARGENT, p. 69).

Isso não significa que se esteja defendendo que a política não tem nenhum efeito, porque os mercados sempre se ajustariam e tirariam o efeito que a política poderia ter tido. O que fica sugerido por esses modelos é uma mudança na maneira de pensar a política. A concentração deve estar na escolha de “regras do jogo” estáveis, bem entendidas pelos agentes econômicos. Por outro lado, políticas que afetam o comportamento principalmente porque suas consequências não podem ser corretamente diagnosticadas, como instabilidade monetária e financiamento do défict, têm efeitos degenerativos e, portanto, a deliberada provisão de mal informação não pode ser usada de maneira sistemática para melhorar o ambiente econômico. (LUCAS; SARGENT, p. 69-70)

“Você pode enganar algumas pessoas o tempo todo ou todas as pessoas durante algum tempo, mas você não pode enganar todas as pessoas o tempo todo”, já teria dito Abraham Lincoln. Logo, políticas baseadas em  “enganar” as pessoas levando a resultados que elas não anteciparam, serão ineficazes tão logo os agentes econômicos aprendam a ajustar suas expectativas em relação a elas. (HOOVER)

Referências:

Daqui do blog: “Economia neoclássica, Nova Macroeconomia Neoclássica e libertarianismo bleeding heart”, 08/05/2013 –> https://libertarianismoedarwinismo.wordpress.com/2013/05/08/economia-neoclassica-nova-macroeconomia-neoclassica-e-libertarianismo-bleeding-heart/

LUCAS, Robert E.; SARGENT, Thomas L. After Keynesian Macroeconomics. –> http://www.bostonfed.org/economic/conf/conf19/conf19d.pdf

CHIANG, Alpha C. Fundamental Methods of Mathematical Economics. McGraw-Hill, Inc., 1984 –> http://www.drchristiansalas.org.uk/BusinessandEconomics/Economics/FundamentalMethods.pdf

HOOVER, Kevin. Verbete “New Classical Macroeconomics”. In: The Concise Encyclopedia of Economics –> http://www.econlib.org/library/Enc1/NewClassicalMacroeconomics.html

BORJAS, George. Economia do Trabalho. Tradução: R. Brian Taylor. Porto Alegre: AMGH, 2012.

2 respostas em “O erro científico do keynesianismo e a emergência da macroeconomia novo-clássica

  1. Pingback: Temas tratados no 1º ano do blog | Tabula (não) Rasa & Libertarianismo Bleeding Heart

  2. Pingback: Ser novo keynesiano e defender elevada liberdade econômica é possível | Tabula (não) Rasa & Libertarianismo Bleeding Heart

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s