O que a consciência experiencial dos qualia pode trazer de novo ao conhecimento?

A ideia central do chamado dualismo de propriedade é que os qualia, isto é, as experiências qualitativas, não são redutíveis a propriedades físicas ou propriedades funcionais (HILL, p. 49). Ainda que os qualia estejam associados a várias formas de atividade cortical no cérebro, a relação é metafisicamente contingente: “a dor pode estar associada a determinado tipo de atividade cerebral, B, por leis da natureza, mas não é redutível a B” (HILL, p. 50).

Um dos argumentos em favor do dualismo de propriedade é o chamado “argumento do conhecimento”, explicitamente formalizado por Frank Johnson na década de 1980 (HILL, p. 55).

O argumento diz o seguinte: Mary é uma cientista brilhante que investigou o mundo a partir de uma sala em preto e branco via um monitor de televisão em preto e branco. Ela está se especializando em neurofisiologia da visão e adquire todas as informações físicas sobre o que acontece quando vemos algo ou usamos termos atribuindo cores e assim por diante. Que acontece se ela sair da sala ou receber um monitor em cores? Ela vai aprender algo novo além do que já sabe? Como parece óbvio que ela aprenderá algo a respeito do mundo e da experiência visual que temos dele, por exemplo, ela descobrirá como é ver algo vermelho, isso significa que seu conhecimento prévio era incompleto, mesmo possuindo todas as informações físicas e, como há mais para conhecer do que apenas isso, o fisicalismo é falso. (HILL, p. 55)

(obs = fisicalismo é a visão de que os qualia são redutíveis a propriedades físicas estudadas pela neurociência. HILL, p. 39-40)

O argumento formal de Jackson segue abaixo:

“Primeira premissa: antes de deixar a sala em preto e branco, Mary conhecia todos os fatos físicos sobre cor e percepção de cor.

Segunda premissa: ainda assim, havia um fato a respeito de cor que ela não conhecia – o fato de que coisas vermelhas têm determinada aparência.

Terceira premissa: se é possível conhecer todos os membros de determinado conjunto Σ de fatos sem ter condições de conhecer f, um fato dado, f não é idêntico a nenhum dos membros de Σ.

Conclusão: o fato de que coisas vermelhas têm determinada aparência não é idêntico a nenhum dos fatos físicos sobre a cor e visão de cor.” (HILL, p. 56)

Esse argumento realmente procede? Christopher Hill pensa que não. Ele defende o caráter experiencial da “consciência de”: “Se um agente tem consciência de x, então o agente está em um estado mental que representa x” (HILL, p. 126) Se isso for correto, isso significa que há uma categoria de representações que são subjacentes à consciência experiencial, e que podem ser denominadas de “representações experienciais” (HILL, p. 136).

Essa ideia da consciência representacional dos qualia afeta o principal sustentáculo do dualismo de propriedade – e de muitos argumentos que o sustentam – “a ausência de distinção aparência/realidade dos qualia“.

Ocorre que a distinção aparência/realidade dos qualia faz sentido como uma distinção representacional, onde se distingue “entre a maneira como um elemento é representado pela mente e a forma como o elemento é em si mesmo” (HILL, p. 151).

A familiaridade experiencial seria uma forma de consciência e teria, portanto, uma estrutura representacional, que não se revela por introspecção e não é reconhecida pela psicologia de senso comum ainda que esteja de fato lá: “para cada quale Q, há uma distinção entre a maneira como Q aparece diante de nós e a maneira como Q é em si mesmo” (HILL, p. 152).

Dessa forma, é perfeitamente admissível que a familiaridade com os qualia possa sistematicamente enganar-nos com relação às suas reais propriedades: “A representação que surge em um fato de familiaridade pode representar seu objeto de maneira equivocada ou estimular uma falsa crença sobre o objeto como resultado de fatos que envolvem seu papel na economia cognitiva do agente relevante” (HILL, p. 153).

Hill inclusive menciona, com exemplos extraídos da ciência cognitiva, de que o desvirtuamento é bastante comum na percepção, sem caracterizar deficiências visuais (HILL, p. 153-154): 1) somos propensos a sentir que colinas apresentam declives mais acentuados do que em realidade são e que esse efeito se amplia quando estamos cansados (o que é funcional: nos faz preferir evitar as colinas, impedindo consumo desnecessário de energia); 2) colinas tendem a parecer mais íngremes quando vistas do topo que quando vistas da base (o que é funcional: escolher encostas com declive menor quando estamos descendo uma colina, o que reduz o risco de acidentes). (HILL, p. 154)

De fato, já comentei sobre esse segundo exemplo aqui no blog, “O ‘estado da arte’ da psicologia evolucionária – parte 3 (falseabilidade/testabilidade)“, que é a “Descent illusion hypothesis”: Testes com base nessa hipótese mostram que as pessoas percebem distâncias vistas do topo de estruturas altas 38% maiores do que percebem a mesma distância quando vistas da base, confirmando a predição (CONFER ET AL, p. 113).

Essa hipótese deriva da chamada “error management theory”: em um mundo incerto no qual os sinais observáveis estão apenas probabilisticamente relacionados ao verdadeiro estado da realidade que indicariam, existem duas maneiras de errar, que seriam ou inferir que um estado existe quando ele não existe (falso positivo) ou inferir que um estado não existe quando ele existe (falso negativo), contudo, como os custos de incorrer em cada tipo de erro foram frequentemente assimétricos (diferenciados) nas circunstâncias evolucionariamente relevantes de sobrevivência e reprodução, a seleção natural favoreceria vieses cognitivos que errassem na direção menos custosa (CONFER ET AL, p. 112-113).

O próprio Hill comenta esse aspecto: “Essas observações nos recordam que sistemas perceptuais não fazem necessariamente parte da tarefa de evitar o erro. Erro sistemático pode até ser vantajoso para nós. Portanto, não devemos pensar que um erro perceptual seja algo excepcional ou que sua significância seja secundária” (HILL, p. 154).

Então, como responder ao argumento do conhecimento? Mary aprende algo novo? Afinal, alegar que ela não aprende nada novo parece absolutamente implausível.

Hill admite que, ao estar da consciência da aparência de um objeto vermelho, Mary terá a impressão de estar consciente de algo novo, mas isso é explicado pelo fato de que

“a representação que sustenta a consciência que Mary tem da aparência nunca anteriormente foi utilizada por seu sistema visual. Como ela está usando uma representação nova, a aparência lhe pareceria diferente mesmo se fosse uma propriedade física familiar – digamos, a propriedade de refletir luz que faz que receptores de comprimento de ondas longas sejam disparados com mais vigor que receptores de comprimento de ondas médias. Mesmo que essa propriedade seja uma velha amiga, Mary nunca a havia apreendido por meio de um sistema de representação experiencial sensível a combinações de comprimentos de ondas, e que as posições representavam elementos em um espaço de similaridade baseado em relações aritméticas entre comprimentos de ondas” (HILL, p. 168).

Portanto, a impressão de novidade sentida por Mary decorre da diferença entre o sistema de representação experiencial que ela aplica ao ver o objeto vermelho e o sistema conceitual envolvido na construção de teoria científica e os perceptuais dos quais depende no laboratório preto e branco (HILL, p. 168). Seria como alguém acostumado a ver superfícies ásperas, mas sem nunca tocá-las, e, em dado momento, ganha a oportunidade de explorá-las pelo tato de olhos vendados: talvez não fosse difícil a essa pessoa inferir que esteja tocando em uma superfície que pareceria áspera caso a olhasse, mas ele poderia ter a sensação de novidade por ter consciência de superfícies ásperas de uma maneira diferente, através do tato, não da visão (HILL, p. 169).

Logo, o caso de Mary é uma questão de ter consciência do mesmo objeto e sua característica, mas de uma maneira muito diferente, uma vez que realizada por meio de um sistema de representação perceptual diferente.

E você pode perguntar: como seria feita essa representação da cor no sistema visual? Talvez da seguinte forma:

color qualia

(pode ver essa mesma versão na p. 149 aqui)

Esse é o “espaço de qualia das cores” ou “espaço de sensações-de-cores”, sendo que, à esquerda, está escrito “frequência de codificação para reflectância de ondas curtas: 0-100%”, no meio está escrito “frequência de codificação para reflectância de ondas longas: 0-100%” e, na direita, está escrito “frequência de codificação para reflectância de ondas médias: 0-100%”. Os quadrados são as cores, que dependem da posição em relação às três variáveis.

A explicação desse gráfico em 3-D é dada por Paul M. Churchland. Como existem três tipos diferentes de células sensíveis a cores, chamadas de cones, na retina do ser humano, e como cada uma delas é sensível a um comprimento distinto de ondas luminosas (curtas, médias e longas, respectivamente), pode-se designar um vetor de codificação sensorial com três elementos, da seguinte forma: <Ecurto, Emédio, Elongo>. (CHURCHLAND, p. 234)

Esse tipo de codificação permite a expressão direta e literal, por exemplo, da ideia de que o laranja está em algum ponto “entre” o vermelho e o amarelo, bem como explicar diversas variedades de daltonismo: como as vítimas dessa deficiência não têm um ou mais desses três tipos de cones, isso significa que seu “espaço de qualia das cores” têm apenas duas (ou mesmo menos) dimensões, e não três, o que fará sua capacidade de discriminar entre as cores ser reduzida. (CHURCHLAND, p. 235).

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