Eleitores motivados pelo bem comum, mas cognitivamente enviesados: de boas intenções, o inferno está cheio (mas apostas nos tirariam de lá?)

Hoje li dois textos interessantes: um é uma resenha crítica do Bryan Caplan sobre o livro “The Ethics of Voting” do Jason Brennan (um libertário bleeding heart) e o outro é um paper do próprio Caplan denominado “Sociotropes, Systematic Bias, and Political Failure: Reflections on the Survey of Americans and Economists on the Economy“.

Tanto o livro do Brennan (que tive acesso pela revisão do Caplan) quanto o paper do Caplan mostram que a distinção entre o aspecto volitivo e o aspecto cognitivo do comportamento do eleitor é crucial para os resultados da política democrática.

Poderíamos resumir na seguinte pergunta o que eles estão procurando responder com ciência social empírica robusta: se os eleitores estão motivados à promoção do bem comum, eles conseguirão fazê-lo?

A resposta deles é: não, porque não adianta estar motivado a promover o bem comum, se os eleitores sofrem, sistematicamente, de vieses que afetam a discussão pública de vários temas e, assim, promovem políticas prejudiciais. Ou seja, mesmo que os eleitores estejam em geral volitivamente adequados, eles são bastante insatisfatórios no campo cognitivo.

Brennan revisa a literatura empírica sobre motivação e cognição dos eleitores. Encontra que os eleitores se saem bem na dimensão da motivação, usualmente tentando promover o bem comum e o que percebem como sendo o interesse nacional comum. Por exemplo, os mais idosos não são significativamente mais prováveis de apoiar programas de previdência social que os trabalhadores mais jovens, portanto, o contrário do que se esperaria se a principal motivação fosse o auto-interesse. (BRENNAN, p. 162 apud CAPLAN, p. 14)

Contudo, essa mesma literatura demonstra que os eleitores falham na outra dimensão relevante, a da cognição. O “bem comum percebido” e o “bem comum real” divergem, na teoria e na prática, estando as crenças dos eleitores distantes do que seria a melhor maneira de promover o bem comum, e não ocorre nenhum “milagre da agregação” (BRENNAN apud CAPLAN, p. 14), porque os eleitores são sistematicamente enviesados, não randomicamente enviesados. Vale destacar que, por bem comum, Brennan entende uma combinação de instituições – tais como ordem social, normas sociais/éticas compartilhadas, a regra de Direito, e mercados – que geralmente funcionam para vantagem de todos (WENZEL, p. 35).

Já Caplan, em seu paper, mostra que, ao contrário de pressupostos usados em modelos econômicos da política de que os eleitores seriam egocêntricos e deteriam crenças racionais não sujeitas a erros sistemáticos, ambas as premissas falham no âmbito de crenças econômicas (CAPLAN, p. 416), que são mais ligadas com ideias do que com auto-interesses, e cujos maiores preditores são a educação e a ideologia, não a renda (CAPLAN, p. 433) E isso é uma razão para temer os resultados da política democrática: eleitores “sociótropos” (não egoístas, motivados pelo bem comum) com crenças econômicas sistematicamente enviesadas são mais prováveis de produzir severas falhas políticas do que eleitores egoístas com expectativas racionais. (CAPLAN, p. 416)

Para Caplan, o melhor caso encontra-se em eleitores sociotrópicos racionais, uma vez que eleitores egocêntricos se oporão às políticas que pessoalmente os afetem, mas que sejam socialmente benéficas (CAPLAN, p. 430). Contudo, uma falha na cognição é mais grave que uma falha na motivação, uma vez que, por uma questão de teoria básica da otimização, se você estiver errado sobre o verdadeiro estado do mundo, seus esforços serão mal direcionados, e, assim, quanto mais severo o viés que afeta o raciocínio, mais pobre provavelmente será o ajuste entre a política popular e a política eficiente (CAPLAN, p. 431). Outro motivo é que existem duas maneiras de reconciliar a política majoritária com o bem-estar social: auto-sacrifício (disponível aos “sociótropos”) e barganha política (disponível aos egocêntricos), o que significa que mesmo eleitores egocêntricos, mas racionais, podem favorecer políticas socialmente benéficas (CAPLAN, p. 430 e 432).

De fato, eleitores voltados para o bem-comum, mas sob influência de ideias sistematicamente erradas sobre o funcionamento real da economia, apoiarão políticas danosas que agentes egocêntricos racionais nunca apoiariam. (CAPLAN, p. 432)

Com isso teríamos o seguinte ranking de eficiência:

eleitor

Pela análise do Caplan, estaríamos no pior dos mundos possíveis em termos de comportamento eleitoral que esteja causalmente relacionado com política eficiente. E isso inclusive me faz pensar na possibilidade de que Robin Hanson poderia estar certo quanto à superioridade comparativa da “futarchy” (futurarquia ou futarquia) em relação à democracia.

Com o provocativo título “Shall We Vote on Values, But Bet on Beliefs?” (ver o resumo da ideia aqui), Hanson nos instiga a pensar se realmente poderíamos votar em valores, mas apostar nas crenças. A ideia dele é que poderíamos utilizar o conhecido sucesso em agregação de informação dos “mercados de previsão” para sustentar melhores decisões políticas, limitando assim os danos colaterais advindos do funcionamento padrão da democracia.

De forma bastante simplificada, esse sistema funcionaria assim: representantes eleitos definem formalmente o que constituiria o bem-estar nacional como função de uma variável objetiva (como o PIB per capita, o IDH ou o coeficiente de gini) e fazem uma medição após a tomada de uma política particular, enquanto os especuladores de mercado apostam nas políticas que eles esperam que elevasse o bem-estar nacional (seu incentivo é ganhar retorno do investimento “apostado” se de fato a política em que se apostou elevou o bem-estar), sendo que a regra que une isso é a de que “quando um mercado de apostas estima claramente que uma política proposta aumentaria o bem-estar nacional, a proposta se torna lei” (dentro de restrições constitucionais que impedissem violações aos direitos individuais por meio da política, é claro).

Portanto, veja que nesse cenário de futarquia proposta por Hanson a democracia continua a nos dizer aonde queremos chegar, mas o mercado de previsões é que nos diz como chegar lá. Claro que esses mercados de previsão poderiam falhar, mas eles falhariam menos do que a democracia.

Eu não sei se a proposta da futarquia realmente funcionaria. Gostaria de ver mais discussão em torno disso, em especial, por exemplo, que, mesmo que os mercados de previsão falhem menos do que a democracia, em termos de eficiência alocativa, os tipos de falha dos mercados de previsão aplicados à política poderiam ser distributivamente mais danosos do que a própria democracia (exemplo: dadas as distribuições más, D1 e D2, e a distribuição boa D3,  os mercados de aposta levariam mais frequentemente para D3 do que a democracia, contudo, nos casos de falha, levariam à D1, que é percebido como muito mais danoso do que D2, que seria mais frequentemente causado pela democracia normal). Outro ponto residiria na discussão entre bem-estar nacional e bem-estar do resto do mundo, na hora de definir essa medida objetiva de bem-estar.

Mas é certamente muito interessante a possibilidade de que um mercado de previsão aplicado à política poderia ser muito mais eficiente que a democracia em alcançar o bem comum. E esse resultado  faz sentido, pelo menos em nível teórico, porque a democracia atual, dada a condição cognitiva do eleitorado em associação com sua postura motivacional, seria a forma menos eficiente no ranking do Caplan, enquanto o mercado de previsões teria o condão de dar um peso considerável à racionalidade, no mínimo, àquela dos egocêntricos racionais, aumentando a eficiência da política.

De qualquer forma, você pode estar seguro que o bem-estar de um país depende mais de suas instituições e da estabilidade destas do que das oscilações da política partidária padrão (alguns casos brasileiros de oscilação abordados neste blog aqui e aqui). Instituições importam. A política padrão está sujeita a sérios problemas, como o comportamento eleitoral sociotrópico, mas cognitivamente enviesado, como discutido acima, a ignorância racional do eleitor (ou talvez sua irracionalidade racional) e a exploração política promovida por grupos de interesses especiais organizados em face da massa desorganizada.

Mas as instituições estáveis de uma sociedade, tanto econômicas como políticas, realizam um papel crucial em assegurar a infra-estrutura básica em que a cooperação social e troca econômicas voluntárias podem ocorrer, isto sim sendo a verdadeira fonte da prosperidade e de ganhos explosivos em liberdade positiva, consistindo também no núcleo libertador do liberalismo clássico. Onde os mercados prosperam e somos mais livres para transacionar, as pessoas prosperam.

Dessa forma, o Homo Economicus não é o melhor modelo para abordar o comportamento do eleitor, mas ter um sentimento forte em relação ao bem comum está muito longe de realmente promover o bem comum. O comportamento de sinalização predomina. Sem nenhum tipo de restrição, a política frequentemente assumirá caminhos duvidosos, danosos. E isso independente de estarmos em países desenvolvidos ou subdesenvolvidos, ainda que os efeitos mais graves sejam sentidos naqueles que tem menos riqueza (potencial ou real) para desperdiçar/destruir/perder, disponível para suas populações.

Portanto, desconfiar da política majoritária e projetar limites constitucionais (incluindo direitos de secessão às comunidades locais) que restrinjam o potencial danoso da democracia inclusive na medida em que este seja derivado da ignorância política, não é uma opção, é uma necessidade – em especial para quem pretende ser motivado pelo bem comum, mas também racional, quando discute política responsavelmente.

2 respostas em “Eleitores motivados pelo bem comum, mas cognitivamente enviesados: de boas intenções, o inferno está cheio (mas apostas nos tirariam de lá?)

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