Verdades e mitos sobre desigualdade de renda nos Estados Unidos

Em uma postagem daqui do blog “A saúde privada seria uma mentira por causa do desempenho dos EUA em relação aos demais países desenvolvidos?“, eu mencionei o tema da desigualdade de renda nos Estados Unidos, apenas bem resumidamente, deixando claro que é um assunto muito mais complexo do que simplesmente atacar esse incremento na desigualdade como algo completamente ruim.

Apesar do fenômeno ser complexo, quero tratar do mesmo brevemente aqui, introduzindo o leitor para que, ao menos, já saiba afastar pseudo-explicações do tipo “isso é a prova de que o capitalismo neoliberal deixa os ricos mais ricos e os pobres mais pobres” ou “o livre mercado irrestrito cria desigualdades extremas”. Ao contrário, tentarei mostrar que há um lado bom e um lado ruim por trás disso.

A chave para entender o incremento da desigualdade de renda nos Estados Unidos, desde a década de 70 para cá, é perceber sua íntima relação com o aumento da desigualdade salarial. Basicamente: maior demanda por trabalhadores qualificados.

Como os trabalhadores altamente qualificados não são a média da população, isso significa que a desigualdade de renda aumentou, uma vez que estes assalariados são muito melhor pagos do que o trabalhador mediano ou o trabalhador de baixa remuneração.

Por que os ganhos salariais dos trabalhadores altamente qualificados dos Estados Unidos (muitos dentre os quais tem um diploma universitário ou uma carreira de negócios) aumentaram?

Para responder isso, você deve pensar o seguinte: que mudança ocorreu da década de 70 para cá?

Se você pensou em “computador”, você está certo. Para colocar em termos amplos: de 1970 para cá, houve um processo de inovação tecnológica ligada à informática e afins que trouxe muito lucro àqueles que investiram com sucesso no setor, e, por isso mesmo, a procura por profissionais altamente qualificados aumentou, o que levou para cima a remuneração destes profissionais. Os Estados Unidos foram um pivô neste tipo de inovação.

A transição para uma economia fundamentada em trabalho qualificado, em grande medida voltado à inovação, gerou um aumento da renda desses assalariados qualificados que impulsionou o processo de inovação.

Assim, você pode até se queixar de que a desigualdade de renda nos Estados Unidos aumentou, mas entenda que o mesmo fenômeno – a transição para uma economia de inovação tecnológica de ponta -, que, em grande medida é responsável por essa desigualdade, também é responsável por grandes avanços tecnológicos, que beneficiam muitas pessoas (inclusive as mais pobres). Os Estados Unidos também são importantes inovadores em tecnologia médica, para dar um exemplo.

Aliás, a desigualdade de consumo não é tão alta quanto a de renda, e vários estudos mostram que a inclusão dos americanos mais pobres em melhorias propiciadas pelas dinâmicas de mercado é um fato bem estabelecido. Veja o vídeo abaixo:

Por isso não gosto de discursos que meramente constatam um aumento na desigualdade, para automaticamente concluir que isso é ruim e que não deveria ser assim. Sendo que parte desta desigualdade decorre de um processo que, por si mesmo, é fundamentalmente benéfico para a humanidade, seria no mínimo irresponsável defender que, para livrar-se da desigualdade, você teria que livrar-se da dinâmica de mercado que sustentou esses avanços tecnológicos. Aliás, se interrompermos essa dinâmica, nós prejudicaremos ainda mais as pessoas mais pobres.

Aliás, um estudo interessante mostrou que, entre os países desenvolvidos, aqueles países com maior densidade sindical, maior proteção ao trabalho e setores públicos que contribuem com uma grande parte do PIB, sistematicamente, recompensam de forma menor o investimento individual nas próprias habilidades (medidas em três categorias: “ser letrado”, habilidade matemática e resolução de problemas em ambientes ricos em tecnologia).

Como você poderia esperar do que eu falei acima, os Estados Unidos são os que melhor remuneram o investimento individual nas próprias habilidades. Veja o gráfico:

recompensa para as habilidades(vide o estudo aqui)

Perceba que países bastante igualitários como Noruega e Suécia estão entre os que menos remuneram o investimento pessoal em habilidades importantes para a dinâmica de inovação e melhora dos padrões de vida. Os países nórdicos não são campeões de inovação que ajuda e melhora a vida de milhões de pessoas, mas são campeões em ajudar apenas seus próprios povos com serviços públicos invejáveis – populações tão pequenas quanto, por exemplo, 9,5 milhões de habitantes da Suécia (isso é menor que a cidade de São Paulo – 11,5 milhões – e metade da região metropolitana de São Paulo – 19 milhões). Pare e pense: qual desses processos faz mais diferença positiva na vida das pessoas ao redor do mundo? na sua vida? em um mundo de 7 bilhões de pessoas?

Agora você pode estar se perguntando: mas não há outras causas que contribuem para esse incremento na desigualdade? Poderíamos citar alguns processos mais específicos: um mercado de universidades que atrai professores e pesquisadores elevando seus salários, um mercado de hospitais que remunera muito bem os médicos, um mercado financeiro com altos lucros e alto risco moral, uma regulação mais complexa das empresas que aumentou a demanda por serviços advocatícios especializados, etc.

Preste atenção nos dois últimos exemplos, acerca do setor financeiro e do setor jurídico: aqui já começamos a ver o que há de desigualdade ruim nos Estados Unidos.

Parte da amplitude desse crescimento da desigualdade de renda – da concentração de renda no topo – nos Estados Unidos relaciona-se com remunerações extremamente elevadas para pessoas que trabalham no setor financeiro, muitas dentre as quais fazem parte do famoso “1% mais rico”. Setor este cuja elevação nos lucros teve muita relação com estratégias de alto risco em relação às quais se tinha a confiança de que o governo norte-americano não deixaria que as perdas fossem completas, em caso de falhas. (tanto que, na crise de 2008, o governo de fato interveio para ajudar grandes bancos)

Esse cartoon da The Economist , traduzido para o português, fala tudo:

 

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(créditos da imagem, Kevin Kallaugher, que trabalha para o The Economist; você pode encontrar o cartoon original, em inglês, clicando em cima do nome dele)

Os advogados entram aí também, em grande medida, como atuantes neste setor. Muitos advogados de alto poder aquisitivo fazem negócios financeiros, e outros estão defendendo corporações contra ações judiciais, acionando ou ajudando as corporações a lidarem com regulamentos complexos.

Perceba, portanto, que a elevação extraordinária dos retornos para essas atividades são resultado do apoio governamental à expansão do crédito e às estratégias de alto risco (por conta da garantia implícita de que o governo impediria qualquer eventual chance do sistema financeiro colapsar), bem como à crescente complexidade da lei e crescimento do governo. O conto aqui não é um apenas sobre mercados, mas como relações entre certos setores e o governo – algo que todo libertário condena (e por isso que a maioria é bastante desconfiada em relação ao setor financeiro das economias) – prejudica o público, inclusive possibilitando, no caso de grandes bancos, “a privatização dos lucros, a socialização dos prejuízos”,

Além de separar o governo do setor financeiro e de simplificar a lei, para evitar essa captura artificial da renda pelo setor financeiro e jurídico, o que mais os Estados Unidos poderiam fazer para melhorar?

Se você lá leu meu texto sobre a justiça social ao estilo de livre mercado (um aqui e outro no Mercado Popular), talvez você tenha uma resposta na ponta da língua: maior crescimento da renda para a maioria das classes de renda, por intermédio de crescimento econômico acelerado.

Aqui cabe mencionar que, apesar dos Estados Unidos ainda ser um pivô na inovação, essa primeira década do século XXI foi marcada pelo baixo crescimento econômico, a “recuperação sem emprego” da crise e menor inovação. (os Estados Unidos também vem passando por um processo de diminuição na liberdade econômica, e agora no Ranking de Liberdade Econômica da Heritage Foundation já está fora dos 10 primeiros).

Outras reformas importantes seriam em seu sistema educacional, em sua política urbana e em seu sistema de patentes/propriedade intelectual. Também o fim da guerra às drogas e a interrupção do crescimento do déficit governamental com as guerras trariam benefícios incomensuráveis ao povo americano, em especial aos mais pobres. A reforma no sistema de bem-estar também seria valiosa.

Os Estados Unidos precisam de mais justiça social, não em moldes igualitários, mas no estilo de livre mercado: maximizar o feixe de riqueza pessoalmente controlada pelos trabalhadores de menor remuneração, por intermédio de instituições que apoiem o livre mercado para todos e impeçam o controle do governo pelas elites econômicas. Se isso for aplicado, veremos a emergência do dinâmico e inclusivo sistema de livre empresa de que o mundo tanto precisa.

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