Aniversário de 1 ano do blog – uma breve retrospectiva

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O blog completa hoje 1 ano de existência. Muita coisa aconteceu durante este ano que passou, e gostaria de fazer essa retrospectiva com o leitor, contando a história deste blog.

Quando criei o blog, em 18 de janeiro do ano passado, o fiz movido por um sentimento de que determinados tipos de questões deveriam ser mais discutidos em língua portuguesa. Eu comentava já algumas coisas no meu perfil do facebook, quando o professor André Coelho (com o qual já discuti inclusive neste blog, em duas memoráveis discussões, uma girando em torno do darwinismo e outra do naturalismo) falou que eu tinha material suficiente para fazer um blog sobre libertarianismo e evolucionismo.

Daí veio o nome para o link “libertarianismoedarwinismo.wordpress.com”. Darwinismo, ao invés de evolucionismo, para ficar mais preciso. Contudo, havia o problema do nome para o blog, que foi algo que demorei a criar. E há um aspecto contextual muito relevante aqui.

Eu já estava alentando a criação de um blog antes mesmo do André Coelho me comentar que eu já tinha condições para criar um blog. Isso porque, no 2ª semestre de 2012, quando estava pesquisando mais sobre o modelo econômico dos países nórdicos e seu “individualismo estatista”, resolvi fazer uma pesquisa sobre a opinião de Hayek acerca dos países nórdicos.

Revisitando meu histórico, parece-me que o texto que me direcionou para a página do blog Bleeding Heart Libertarians foi o “Hayek and the Welfare State, Yet Again” no  blog Crooked Timber. Cliquei no link para a página do blog Bleeding Heart Libertarians que estava disponível ali, e cai no texto “Hayek on Serfdom and Welfare States” do Kevin Vallier. Isso ocorreu em 17/09/2012, o contato de 1ª grau com o blog BHL. Não esperava o que estava por vir.

Os passos seguintes ocorreram rápido. Vi o “about” do blog, e comecei a ler os textos introdutórios sugeridos ali. O esquema geral de raciocínio que esse blog defendia realmente me conquistou.

Na verdade, eu já conhecia o libertarianismo desde 2008 e, apesar de oscilar bastante em termos de que tipo de e quão libertário eu era, eu considerava que o libertarianismo era fundamental para uma análise crítica da nossa sociedade e política. Eu geralmente diria que eu tinha “tendências libertárias, mesmo anarquistas”.

Ainda assim, algo me incomodava. Parecia que havia uma lacuna que as versões que eu já conhecia do libertarianismo (indo desde o austrolibertarianismo do Instituto Mises Brasil, até o libertarianismo de esquerda do libertyzine) não conseguiam preencher.

Na faculdade, eu tive a oportunidade de estudar bastante o Direito Internacional dos Direitos Humanos, porque participei por 3 anos da Clínica Jurídica de Direitos Humanos, que faz pesquisa principalmente sobre o sistema da Corte Interamericana de Direitos Humanos. Como libertário, me agradava a ideia de que os Estados pudessem ser julgados por terem violados os direitos de seus cidadãos, especialmente os civis e políticos. Por outro lado, desconfiava do Estado de Bem-Estar Social, que é claramente preconizado pelas convenções que dizem respeito aos chamados “direitos econômicos, sociais e culturais”. Ainda assim, minha crítica parecia incompleta: as preocupações levantadas por estes e outros instrumentos internacionais em relação à pobreza e à insuficiência de acesso a bens básicos eram muito legítimas.

Diante desse pano de fundo, conhecer a proposta do blog Bleeding Heart Libertarians e seu slogan “Free Markets and Social Justice” falou bem fundo à minha mente. “Era isso que eu estava procurando!”, foi o sentimento que emergiu em mim. Eu sei que isso pode parecer, para um sujeito que preza pela razão, uma concessão bruta ao papel dirigente das emoções na ciência e na filosofia, mas não posso me esquivar de dizer que, dado tudo o que eu já conhecia sobre libertarianismo, economia, teoria do Direito e filosofia política em geral à época, a proposta desse blog era uma que, mesmo que nós descobríssemos posteriormente que não fosse possível, certamente era uma que valia muito a pena tentar.

E isso também levou a uma constatação: não existia quase nenhum material sobre isso em língua portuguesa, fora textos esparsos traduzidos pelo Ordem Livre. Isso me chocou muito: como essas ideias não estavam sendo debatidas no Brasil? O blog Bleeding Heart Libertarians existia desde 2011, mas nenhuma defesa daquela proposta havia sido feita em nenhum site do Brasil e/ou em língua portuguesa.

Então pensei que eu deveria iniciar um blog sobre o assunto, e que ostentasse “libertarianismo bleeding heart” no título, para facilitar a divulgação. Afinal, desde o início do blog e até hoje, se você pesquisa esse termo no google, meu blog está na primeira página.

Mas eu também não queria um blog apenas sobre política. Na verdade, desde 2010 e principalmente/aceleradamente em 2011, eu passei por um processo intelectual de profundas mudanças no modo de encarar o mundo e a filosofia. (antes eu tinha ideias anti-naturalistas e anti-darwinianas)

O resultado deste processo, completado em 2011, foi uma maneira naturalista e científica de encarar o mundo, sob lentes darwinianas. (Inclusive havia demorado para que eu aceitasse as robustas razões pelas quais o darwinismo deve ser aceito como a melhor explicação que temos para as origens das espécies, muito bem fundamentada pelas evidências) Alguns livros foram marcantes nessa trajetória, mencionarei alguns:

A leitura do livro “Pseudociencia: que es y cómo defenderse de ella?” de Daniel Omar Stchigel fez, não apenas que eu pensasse profundamente sobre a demarcação entre os padrões epistêmicos da ciência em relação à pseudociência, como também me mostrou que era possível explicar a origem do Universo como criado por causas naturais! No caso deste livro, mencionava a hipótese de Edward Harrison da criação do universo por seres de outro universo. Paralelamente, a leitura da obra de ficção científica “Duna” inspirou o pensamento de que, mesmo em um mundo naturalista, ética e valor moral podem ser pensados coerentemente.

Já a leitura do livro “Tabula Rasa” do Steven Pinker mostrou-me o valor das mais recentes aplicações do método das ciências naturais para o estudo da natureza humana: ciência cognitiva, neurociência, genética comportamental, psicologia evolucionária. Também mostrou que a rejeição da natureza humana pelo mainstream das ciências humanas era motivada por razões políticas, não científicas.

O livro “Humanos Antes da Humanidade” de Robert Foley mostrou-me o insight esclarecedor da antropologia evolucionária, pelo qual nós podemos transformar a questão geral “por que os humanos existem?” em questões técnicas que nós realmente podemos responder.

“Embora talvez não tenha grande apelo para os que se sentem atraídos pelo exótico da ficção científica, ou pelos meandros da metafísica, o verdadeiro triunfo do darwinismo foi a tradução de perguntas irrespondíveis em perguntas que, quando modestamente adequadas, podem ser respondidas. As origens da humanidade e, em última análise, a natureza humana não são questões filosóficas, mas técnicas.”

(Robert Foley, p. 37, grifo meu)

Assim, para mim ficaram bem explícitos os problemas do Modelo Padrão das Ciências Sociais, que excluía a ideia de um continuum entre biologia e cultura, entre inato e aprendido, e que, portanto, nos levava a falsas conclusões sobre o lugar do ser humano no universo e a compreensão de seu comportamento e interrelações com o meio. Eu também queria falar disso no blog.

Assim, resolvi colocar no nome do blog o termo “Tabula (não) Rasa”, para mostrar que a mente não é uma tabula rasa, como muitos erroneamente acreditam.

Daí, com a fusão dessas duas preocupações, nasceu o estranho nome “Tabula (não) Rasa & Libertarianismo Bleeding Heart”.

Passando em revista esse primeiro ano de blog, muita coisa interessante aconteceu, e isso me deixa bastante satisfeito:

a) 69 textos publicados;

b) a divulgação do meu blog em uma postagem do blog “Bleeding Heart Libertarians”, em 04/03/2013;

c) a divulgação da page do meu blog no facebook pela page do blog Bleeding Heart Libertarians, em 30/05/2013;

d) a republicação de textos meus no Liberdade.br e um no Portal Libertarianismo;

e) uma palestra para o EPL-PA expondo o livre mercado de uma perspectiva libertária bleeding heart;

f) a tradução de textos dessa perspectiva (e outros) para o Portal Libertarianismo;

g) a bem-vinda criação do coletivo Mercado Popular em novembro de 2013 que veio fazer companhia ao meu blog em relação à defesa de um libertarianismo mais voltado para a promoção do bem dos menos favorecidos e do qual tenho participado já com 5 textos;

h) uma entrevista para o EPL-nacional falando acerca da “esquerda libertária”,

i) a participação (certificada) em um curso online sobre evolução humana (sobre o qual ainda falarei em uma postagem própria);

j) a apresentação de uma monografia (para o curso de Direito, ainda por publicar) que rediscute um problema da filosofia do Direito transformando-o em uma questão que poderia ser abordada objetivamente (por meio da abordagem de invariâncias de Robert Nozick em “Invariances“) como parte do mundo real e assim chegando a uma solução que constitui uma hipótese/previsão científica (portanto, refutável por meio de teste empírico);

k) uma importante discussão com o professor André Coelho, acerca do naturalismo em filosofia, ética e política, que culminou com uma elaboração explícita, de minha parte, de uma proposta acerca da possibilidade de uma “ética naturalizada“;

l) uma grande variedade de temas interessantes que foi possível articular (consulte a barra de tags do blog);

m) E merece ser destacado: A divulgação e discussão do libertarianismo bleeding heart de fato aumentou durante o período, tanto por razões relacionadas à minha pessoa como também por razões que nada tem a ver comigo. Cheguei a receber a alcunha de “único BHL brasileiro” que, felizmente, é inverídica, uma vez que agora temos outras pessoas que se identificam explicitamente como libertários bleeding heart: Carlos Goés, Uatá, Jéssica Dias, João Pedro Lang, são os que conheço ao menos. Mas sei que outras pessoas simpatizam com a ideia e, provavelmente, apesar de não se identificarem assim, são autênticos liberais que reconciliam a defesa de uma liberdade econômica ampla com concepções de justiça social que focam no bem dos menos favorecidos. Também é muito satisfatório saber que meu blog fez a diferença na concepção de algumas pessoas acerca do libertarianismo.

Dessa forma, espero que muito mais venha pela frente. Como disse Robert Nozick ao fim de “Invariances”, <a filosofia começa na maravilha; ela nunca termina>.

3 respostas em “Aniversário de 1 ano do blog – uma breve retrospectiva

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