Coração mole e bom x cérebro frio e calculista: substitutos ou complementos?

Algumas pessoas parecem não conseguir pensar além de dicotomias e maniqueísmos simplistas. Uma dessas dicotomias é poderia ser aquela entre, de um lado, fazer análise econômica rigorosa de uma situação ou de uma política desejada, e, de outro lado, a preocupação com as pessoas mais pobres e vulneráveis em nossas sociedades.

Daí que essas pessoas interpretam que, por exemplo, se alguém acredita que não devemos ter um salário mínimo legalmente imposto e para isso usa de argumentos econômicos, este “economista” deve ser um sujeito sem coração, sem preocupação com os pobres, que talvez mesmo odeie os pobres, já que se preocupa apenas com dinheiro. O jargão favorito é acusar aquele que utiliza de argumentos econômicos de ser um “economicista” ou um “fundamentalista de mercado”.

Mas isso apenas mostra a falta de compreensão que a pessoa tem sobre o que é realmente ajudar as pessoas, em especial as mais pobres e vulneráveis. Aparentemente, as pessoas acham que ajudar as pessoas se trata de consultar gurus, mas é preciso dar à César o que é de César e a Deus o que é de Deus:

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(Sábio da montanha: “Criar empregos? Consertar a economia? Eu pensei que você fosse perguntar algo mais fácil, como o sentido da vida!” / Site do cartoon aqui)

David Schmidtz (um liberal neoclássico) pontua que, se a sua preocupação é estar com o coração no lugar certo, seu coração não está no lugar certo. Ele falou isso querendo dizer que, se você defende uma política com base apenas em que ela mostra o quão bom seu coração é em querer ajudar a todos com problemas, você não quer realmente ajudar as pessoas.

Não adianta “achar” que uma política é boa, nós precisamos saber como uma política funciona, como as pessoas reagem no curto e longo prazo à sua implementação, seus efeitos colaterais etc. E, muitas vezes, o que parece obviamente ajudar os pobres e dar certo, não ajuda de verdade. Políticas não devem ser simbólicas, mas sim funcionais.

O já citado David Schmidtz menciona (em um paper e em um livro) que existem duas formas diversas de encarar a riqueza social e a justiça na sua produção e distribuição, com profundas diferenças em como você pensa que poderá ajudar os pobres:

a) A visão estática, onde você analisa um momento isolado no tempo, e é inquietante que  que haja pessoas com muito e pessoas com tão pouco. A questão primordial aqui seria: como conseguir os recursos necessários para ajudar as pessoas necessitadas? O que terá de passar pela redistribuição dos recursos existentes.

b) A visão dinâmica, onde você analisa a sociedade como um processo onde um momento evolui para outro. A questão primordial aqui seria: que instituições, ao longo do tempo, fazem com que se torne menos provável que as pessoas precisem de ajuda? O que terá que passar pela produção de mais recursos/oportunidades/renda no longo prazo, para a criação de melhores “momentos” no futuro. E isso significa que a redistribuição deve ser pensada em termos de suas consequências para esse processo de produção.

A visão dinâmica é aquela que a economia favoreceria, uma vez que é um retrato mais fiel do mundo, onde os recursos não são fixos e em que um aumento nos recursos pode melhorar em larga escala a vida dos mais pobres. Mas também porque às pessoas deve ser dada a chance de ganharem sua renda a partir de sua própria agência econômica e de contribuir para a produção da riqueza, não podendo ser tratadas eternamente como crianças, como agentes meramente passivos e que não precisariam de inclusão.

Para entender melhor o porquê do paradigma dinâmico ser melhor que o estático, pode-se usar um exemplo hipotético, de Jason Brennan. Suponha dois países, “Terra do Superior de Pareto” e “Terra da Equidade”. Ambos são democracias liberais, e são divididos em três classes: pobre, média e rica. Contudo, em 1900, o governo da Terra da Equidade resolve, sem aumentar o estoque de riqueza disponível, diminuir a desigualdade e aumentar a renda dos mais pobres, de tal modo que esta se tornasse 50% mais rica que a classe pobre do outro país. Isso significa que é melhor os pobres viverem na Terra da Equidade?

Depende. Digamos que o crescimento econômico anual na Terra do Superior de Pareto seja de 4%, para uma distribuição inicial (em 1900) de 10 – 20 – 40 (pobre, média e rica, respectivamente), enquanto o crescimento econômico anual na Terra da Equidade seja de 2%, para uma distribuição inicial de 15 – 19 – 24. O que aconteceria ao longo do tempo está descrito na tabela abaixo:

Terra do Superior de Pareto 4% Terra da Equidade 2%
Pobres  Classe média Ricos Pobres Classe média Ricos
1900 10 20 40 15 19 24
1901 10.4 20.8 41.6 15.3 19.4 24.5
1902 10.8 21.6 43.2 15.6 19.8 25.0
1925 26.7 53.3 106.6 24.6 31.2 39.4
1950 71.1 142.1 284.3 40.4 51.2 64.6
2000 505.1 1010.1 2020.2 108.7 137.7 173.9

Em 1925, a renda dos pobres da Terra do Superior de Pareto fica maior que a dos pobres do outro país. Em 2000, a renda da classe pobre da Terra do Superior de Pareto é aproximadamente 5 vezes maior que a da classe pobre da Terra da Equidade, e 50 vezes maior que a renda de 1990. Onde o padrão de vida dos pobres é realmente melhorado?

E se você pensa que esse exemplo foi irrealista e exagerado, você precisa conhecer o gráfico feito por Branko Milanovic, um dos maiores pesquisadores de desigualdade global na atualidade, em seu livro de 2010, que compara a renda média dos 5% mais pobres dos Estados Unidos com as faixas de renda das populações do Brasil, China e Índia.

Milanovic divide a população desses países em vinte“ventiles” (grupos de 5% da população), ordenados de forma crescente em relação à renda (Ex: O primeiro ventile representa a parcela mais pobre da população, enquanto o vigésimo representa a mais rica). Esses “ventiles” estão representados no eixo horizontal do gráfico. No eixo vertical, a população do mundo inteiro é dividida em grupos de 1% (“percentis”), também ordenados de forma crescente em relação à renda. Com isso, ele calcula a renda média de determinado “ventile” e verifica em qual “percentil” do mundo esse “ventile” fica.

O resultado é incrível.

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(A discussão sobre esse gráfico, com dados de 2005, pode ser encontrada aqui e aqui)

Os 5% mais pobres dos Estados Unidos estão situados no 68º percentil da distribuição de renda do mundo; ou seja, os mais pobres dos pobres americanos têm uma renda maior do que 68% da população mundial. Sua renda média supera a da maioria da população de três economias emergentes. Aproximadamente metade dos “ventiles” do Brasil, agregando no conjunto praticamente 50% da população brasileira, tem renda média inferior àquela dos 5% mais pobres dos EUA.

David Schmidtz comenta, inclusive, que, se a taxa de crescimento anual do PIB dos Estados Unidos, entre 1870 e 1990, tivesse sido apenas 1% menor, o PIB per capita dos Estados Unidos em 1990 seria apenas de um terço do que ele era à época, o que equivaleria ao México! Imagine como estariam os 5% mais pobres dos Estados Unidos se a renda per capita deste fosse igual à do México. Muito pior.

Matt Zwolinski, em seu twitter, escreveu que “Concern for the poor and vulnerable is a good complement to hard headed economic analysis, but a terrible substitute for it.” Em uma tradução livre: “Preocupação com os pobres e vulneráveis é um bom complemento para análise econômica rigorosa, mas um terrível substituto para esta.”

Absolutamente. Ter um coração mole e bom, e por isso preocupar-se com os mais pobres e vulneráveis (como estaria pressuposto no termo “libertaranismo bleeding heart“) deve ser a atitude de todos nós, contudo, é particularmente danoso e desastroso usar essa atitude para descartar um cérebro “frio e calculista” necessário para fazer análise econômica rigorosa.

Ao contrário, um coração mole e bom, com sua preocupação pelos pobres e vulneráveis, de um lado, e um cérebro frio e calculista, apto para fazer análise econômica rigorosa, são complementos, são os parceiros ideias na tarefa árdua, e muitas vezes não bem vista socialmente, de não apenas parecer estar ajudando os mais pobres e vulneráveis, mas sim de realmente ajudá-los.

56 respostas em “Coração mole e bom x cérebro frio e calculista: substitutos ou complementos?

  1. O problema da sua análise é insistir na suposta “neutralidade” da análise econômica, esquecendo-se de que, no momento de aplicação dos argumentos econômicos, o economista (talvez, sem perceber) acaba se afastado de muitos pressupostos antes adotados. Por exemplo, você diz que defende a ajuda aos pobres por uma questão de justiça, o que pressuponho ser uma argumentação deontológica, de prevalência do certo sobre o bom. Mas ao se posicionar entre a “visão estática” e a “visão dinâmica”, você emprega uma lógica nitidamente utilitarista, mais preocupada com as consequências da escolha, em termos de custo-benefício, para o maior número de pessoas. Me faz lembrar o velho argumento neoliberal de “esperar o bolo crescer para depois dividir”, que, como todos sabem, pode levar muitos à morte (já que a fome nem sempre espera). Essa desconsideração com a ideologia por detrás de todo posicionamento, mesmo econômico (não se engane, sempre nos posicionamos político-moralmente) que explica como o fato de a seguinte afirmação carecer de qualquer justificação moral: “Mas também porque às pessoas deve ser dada a chance de ganharem sua renda a partir de sua própria agência econômica e de contribuir para a produção da riqueza, não podendo ser tratadas eternamente como crianças, como agentes meramente passivos e que não precisariam de inclusão.” Será mesmo assim?

    • Os pobres estão melhor na Terra do Superior do Pareto do que na Terra da Equidade. Por que será?

      Quanto à ideia de que a economia não faz análise neutra, só posso dizer que ciência se rebate com ciência, não com tabus políticos. Leia esse link aqui: http://chrisauld.com/2013/10/23/18-signs-youre-reading-bad-criticism-of-economics/

      E se quer um argumento moral posso citar um autor que nem é um liberal econômico estritamente falando:
      “A presença de níveis elevados de desemprego na Europa (cerca de 10% a 12% em muitos dos principais países europeus) implica privações que não são bem refletidas pelas estatísticas de distribuição de renda. Com frequência se tenta fazer com que essas privações pareçam menos graves, argumentando que o sistema europeu de seguridade social (incluindo o seguro-desemprego) tende a compensar a perda de renda dos desempregados. Mas o desemprego não é meramente uma deficiência de renda que pode ser compensada por transferências do Estado (a um pesado custo fiscal que pode ser, ele próprio, um ônus gravíssimo); é também uma fonte de efeitos debilitadores muito abrangentes sobre a liberdade, a iniciativa e as habilidades dos indivíduos. Entre seus múltiplos efeitos, o desemprego contribui para a “exclusão social” de alguns grupos e acarreta a perda de autonomia, de autoconfiança e de saúde física e psicológica.” (Amartya Sen, em Desenvolvimento como Liberdade, p. 35-36)

      • Em primeiro lugar, a questão da incoerência entre os pressupostos filosóficos não foi respondida. Seremos deontológicos ou consequencialistas ao elaborar e implementar políticas econômicas? Minha observação diz respeito a um erro comum ao pensamento econômico (que denuncia a impossibilidade da neutralidade): separar teoria e prática, fazendo com que sejam abandonados os pressupostos inicialmente declarados (de justiça social), os quais são substituídos por outros (geralmente de cunho utilitarista, em que alguns ganham e outros perdem).
        Além disso, será que esses dois mundos abstratos (Terra do Superior de Pareto e Terra da Equidade) são as únicas alternativas possíveis? É o melhor que se pode fazer? Eis o problema da análise comparativa, tão cara aos economistas e, inclusive, adotada pelo próprio Sen em sua teoria da justiça. É típico do pensamento liberal recorrer aos “limites do possível”, como se o possível não fosse construção humana. Adotada uma determinada política econômica (supostamente a mais viável), dirá o economista: o que vier de ruim, é inevitável; o que vier de bom, é fruto do plano econômico; e o que não for alcançado, não seria de modo algum. Será? É preciso perceber que as alternativas submetidas a análise pelo economista já foram (ideologicamente) construídas segundo seu próprio ideal de justiça. A meu ver, falta aqui uma discussão profunda sobre os riscos da tecnocracia…
        Quanto à argumentação moral, o trecho não contribui em nada. Meu objetivo foi apontar a necessidade constante de justificação moral das escolhas econômicas, e não simplesmente presumir certos objetivos. Ao afirmar que “deve ser dada a chance de ganharem sua renda a partir de sua própria agência econômica e de contribuir para a produção da riqueza, não podendo ser tratadas eternamente como crianças, como agentes meramente passivos e que não precisariam de inclusão”, você já está adotando uma concepção de justiça (de viés libertário), constantemente invocada pelos defensores do livre mercado. Não existe ligação necessária entre redução da pobreza, como promoção da justiça social, e garantia da “liberdade” de deixar as pessoas ganharem sua própria renda, como se medidas redistributivas colocassem em risco essa “liberdade”.

      • Não é uma questão de consequencialismo ou deontologia primordialmente. Mas sim que o propósito de “ajudar os pobres” não é alcançado por boas intenções. Isso está ligado com a discussão contemporânea acerca da justiça social em filosofia política séria. Pode saber mais sobre aqui: https://libertarianismoedarwinismo.wordpress.com/2013/11/02/justica-social-no-estilo-de-livre-mercado/

        E se quiser mais algum blog além do meu, veja este: http://mercadopopular.org/

      • Entendo perfeitamente a proposta do BHL. Só a considero extremamente incoerente, pois coloca (aprioristicamente e sem qualquer justificação) a liberdade negativa acima da liberdade positiva (igualdade), a autonomia privada (liberdade dos modernos) acima da autonomia pública (liberdade dos antigos). E a análise desenvolvida neste tópico só comprova isso. Se o que você quis dizer é simplesmente que devemos avaliar se as políticas realmente produzem os resultados pretendidos, concordo. Mas isso não é nenhuma novidade. Toda política pública é (ou, pelo menos, deveria ser) assim pensada. Os estudos técnicos são, de fato, necessários. Porém, devem ser avaliados com cuidado, para se ter certeza se, no processo de elaboração e implementação, não houve algum desvio dos objetivos iniciais, com base em uma suposta “impossibilidade”. Por isso, chamei atenção para a incompatibilidade dos pressupostos filosóficos. Ao que me parece, ao tratar das liberdades econômicas, o raciocínio é deontológico. Ocorre que essa lógica não é aplicada às políticas sociais. Ou seja, há um claro desequilíbrio entre “livre mercado” e “justiça social” (esta, somente se não violar aquele). Enfim, o foco não está propriamente na justiça, mas na liberdade de mercado, naquilo que trouxer maior benefício para o maior número de pessoas.
        Uma outra questão passou despercebida. É quase impossível precisar qual país é melhor para os pobres, principalmente considerando que estamos falando de modelos hipotéticos. Além disso, só foi considerado o aumento de renda das três classes, sem se levar em consideração outros fatores, como o nível de qualidade de vida, os serviços públicos disponíveis, etc., que podem ser considerados como medidores do nível de justeza de cada sociedade. Não há como afastar essas questões de uma ampla discussão pública. E mais: a situação é extremamente complexa para poder ser avaliada de modo tão simplório, sem falar no fato de que sua análise pende para o valor econômico, para a lógica capitalista. Um problema sério, que ameaça qualquer democracia, é a desigualdade entre os cidadãos, a qual permaneceu alta tanto na Terra do Superior do Pareto quanto na Terra da Equidade.

      • Você está atacando um espantalho… Não estou ignorando a complexidade do assunto, estou falando que um vetor “crescimento econômico” pode ser muito mais significativo do que o vetor “redistribuição” quando você fala de ajudar realmente os pobres.

      • Corrigindo: a desigualdade é mais alta na Terra do Superior do Pareto. Isso é realmente melhor para uma sociedade democrática?

      • Você é que não está compreendendo minhas críticas. Insisto: não há como separar as duas coisas, a não ser adotando lógicas distintas e colocando os dois objetivos em posições de desequilíbrio. Se estamos falando realmente de justiça social, e não do que é bom para a maioria, então não podemos adotar um raciocínio utilitarista. Os movimentos neoliberais de desregulamentação sempre se apoiaram em discurso como: a riqueza de alguns é melhor para todos, devemos esperar o bolo crescer para depois dividir, a desigualdade é natural, não existe alternativa… Isso não é fazer justiça social. Como ressaltei, se o que você quis dizer é que devemos fazer uma análise econômica séria, não vejo nenhum problema. Isso sequer é uma novidade. O que não se pode fazer é dissociar estudos econômicos de um amplo debate político, garantida a participação democrática. Enfim, minha preocupação é de foco. Não acho que os BHL estejam realmente preocupados com justiça social e isso se reflete nas propostas econômicas que são pensadas. Não é de se espantar a sua conclusão no sentido de que a “Terra do Superior de Pareto” (terra da desigualdade) é melhor. Política e economia andam sempre juntas.

      • Você conhece o sentido técnico de justiça social? Em Rawls, Sen, etc. Faz parte desse debate. Agora claramente você parte de outro debate, inclusive pelo uso do termo “neoliberal”, onde justiça social = redistribuição com vistas à igualdade.

  2. Esse link só comprova o que eu disse. Só há como sustentar o “suficientarianismo” se você prioriza a liberdade negativa sobre a igualdade; o “livre mercado” sobre a “justiça social’.

      • Em filosofia política libertária, você quis dizer. Que tal um suficientarianismo de liberdade? Já que o que importa é a “felicidade” de cada um e como algumas pessoas são mais felizes com muito menos, pode ser também que as pessoas sejam mais “felizes” com muito menos liberdade. Para muitos, uma ditadura não é um problema, mas algo bom. Veja-se novamente o argumento não deontológico imperando. Níveis elevados de desigualdade econômica equivalem a um elevado desequilíbrio de poder econômico, o que coloca em risco a liberdade e a democracia. A liberdade e a igualdade são ambos valores conquistados historicamente e que possuem igual peso. Não é uma racionalização que procura ler o primeiro à luz do segundo que abrirá caminho a um libertarismo supostamente bem intencionado.

  3. Antes de passar a alguns poucos pontos específicos em defesa do artigo do Valdenor, quero notar que me parece clara a confusão ideológica de significados entre o que o autor escreve e o que o comentador Sr. Lucas Mendes do Manhattan Connection (brincadeirinha) entende. Parabéns pelo debate civilizado, é raro ver isso por aí.

    O que Valdenor deixa como implícito é sua base econômica neoclássica, ou seja, oferta e demanda e lei da escassez, acrescentada de Public Choice e outros adendos sociais modernos, além de uma base filosófica rawlsiana ou lockeana, ainda não tenho certeza. Se o Lucas quer mesmo entender o argumento, precisa partir desse conjunto de significados.

    Por exemplo: “neoliberalismo causa fome”. Peço que o Sr. Lucas nos mencione qual país sofreu fome e quais foram as medidas políticas que ele chama de neoliberais e vê como causa dessa fome. Não acho fácil achar hoje em dia um país onde a fome tenha aumentado nos últimos anos, as estatísticas mundiais apontam para a melhora de quase todos os indicadores de qualidade de vida (isso não é uma defesa apaixonada do “capitalismo” nem das big corps).

    Caso encontre tal país, podemos debater sobre as medidas políticas, e provavelmente vamos discordar do termo neoliberal, o que nos leva ao segundo ponto sobre esse termo: “os movimentos neoliberais de desregulamentação”. Basicamente existe o liberalismo vulgar, que defende corporações contra governos em qualquer situação, e esse deve ser visto como briga de torcida, nada de bom sai daí. E existe o liberalismo menos vulgar que acusa os movimentos de desregulação dos anos 80 e 90 de não serem nada parecido com o livre mercado que o liberalismo defende. Não basta vender estatais, se o que sobre no lugar são agências reguladoras que são capturadas pelas corporações (o tal do grande capital) lobistas e o antigo monopólio estatal vira um cartel regido pelo monopólio das licenças (quanto a isso buscar a Teoria da Captura).

    Desregular de verdade os setores, acabando com as barreiras de entrada a novos competidores e acabando com os subsídios que as corporações recebem diretamente ou indiretamente, é o que o liberalismo defende, e não a criação de um ambiente pró-big-corps anti-competição. Nesse ponto a preocupação denotada em “a meu ver, falta aqui uma discussão profunda sobre os riscos da tecnocracia” seria sanada, pois sem regulação coercitiva não haveria tecnocratas com poder institucional sobre a sociedade. Aqui entra a diferença ideológica novamente, para o liberalismo a competição não-violenta é a forma social mais eficiente de alocar recursos, e para discutir isso é preciso voltar aos fundamentos da ideologia.

    Quando se entra na discussão sobre abordagens éticas, as duas principais logo parecem entrar em choque, deontologia ou consequencialismo. Roderick Long escreveu uma defesa da falsa dicotomia entre as duas, explicando que a deontologia automaticamente espera um melhor resultado mesmo que a longo prazo, e o consequencialismo sempre mantém limites deontológicos. Eu concordo que existem defesas vulgares da deontologia (como a suspensão de proporcionalidade do uso da força em defesa própria dentro de propriedade privada) e do consequencialismo (matar 1 pessoa para salvar 5 milhões, como se tal fosse possível).

    O Prof. Long após a discussão vende seu peixe através da eudaimonia aristotélica, que é uma forma interessante de combinar as abordagens, mas enfim, esse é um assunto milenar para os filósofos resolverem. No dia-a-dia não precisamos ficar paralisados nessa falsa dicotomia entre as abordagens, mas determinar quais são os limites éticos entre as duas para então trabalhar para aproximá-las através da dedução e observação.

    Para terminar, gostaria de discorrer mais um pouco sobre o termo neoliberal. Foucault em suas palestras da biopolítica escreveu que, o que hoje em dia protecionistas e redistribuidores conhecem como neoliberalismo e usam o termo pejorativamente, na verdade é o velho ordo-liberalismo que ganhou força no século XX (não lembro qual a década que ele menciona), ao se distanciar da velha teoria liberal de estado mínimo para uma teoria onde o estado é o garantizador da eficiência dos mercados. Isso explica a facilidade com que os governos no mundo, desde o americano até os antigos soviéticos, “toparam” liberalizar suas economias, desde que fosse instaurada a mencionada tecnocracia e o poder de barganha, juízo e polícia final continuasse nas mãos dos políticos e burocratas.

    Ora, até mesmo Roosevelt foi em grande parte um ordo-liberal ao criar as condições de cartelização em diversos mercados.

    Sob esse ponto de vista não se pode chamar Hayek nem Milton Friedman de neoliberais (apesar de liberais hard-core atribuírem eles mesmos essa pecha a esses dois que não defendiam o fim do banco central). Ambos eram contra a mudança de monopólio para cartel, e se os governos que receberam suas consultorias ou conselhos não implementaram um verdadeiro livre mercado, que é o que defendiam (basta ler seus escritos ao invés de confiar na desonesta Naomi Klein), não se pode culpar o livre mercado nem os dois liberais.

    Basicamente, Sr. Lucas, liberais concordam que em um mundo mais justo, as corporações não estariam recebendo ajuda nem proteção do governo. Mas a principal diferença talvez seja que os liberais acreditam que somente o estado é capaz de dar suporte às corporações (o que Marx chamou de grande roubo), todas as medidas governamentais acabam aumentando esse suporte e o livre mercado seria a única maneira de acabar com esse suporte.

    • Bom, acho que chegamos a um verdadeiro impasse. Mas isso só comprova o que venho afirmando. Todas as suas conclusões são derivadas de uma complexa base ideológica que, como disse, prioriza uma das facetas da liberdade. No final das contas, a questão é bem menos (ou quase nada) econômica… O perigo é simplificar dizendo que, se todos buscamos “ajudar os pobres” (seja lá o que isso significa), podemos fazer isso por meio das seguintes medidas econômicas. Não vejo nenhuma diferença nesse discurso e os que sempre foram defendidos pelo neoliberalismo (vulgar ou não). Todos defendem um certo bem de todos e colocam as medias econômicas que entendem adequadas como as únicas possíveis. Mas isso inviabiliza novas pesquisas, novas estudos, novas políticas, porque já há um dominação completa pela técnica e pela ideologia. Nesse ponto, é interessante conferir as críticas a esse momento pós-política dos defensores da democracia agonística. Além disso, vocês trabalham com uma racionalidade instrumentalista e individualista. Existem sérios problemas na concepção de ser humano aqui defendida. Um indivíduo completamente dissociado do seu grupo (atomista), cujas características e interesses (por exemplo, desejo de acumular) são natos, quase que biologicamente construídos. É com base nesse ser humano (já dominado pela lógica de mercado) que vocês justificam o suficientarianismo e um “livre mercado” como uma ordem natural.
      Acredito que isso se deve a uma certa desconsideração às vertentes comunitaristas e republicanas da filosofia política, às discussões sobre democracia (deliberativa e agonística), sobre exercício da liberdade na esfera pública, sobre lutas por reconhecimento e redistribuição… A título de curiosidade, as obras do Axel Honneth merecem atenção.
      Realmente estamos em pontos completamente opostos de pensamento.
      Apenas algumas questões para finalizar. Primeiro, quando falo em neolliberal, estou utilizando uma terminologia ampla e não técnica para me referir a todo pensamento que se move por essa base fortemente arraigada a uma liberdade abstrata, descontextualizada. No meu entender, tudo o que vocês escreveram aqui só faz sentido dentro desse restrito campo. Vocês não conseguem enxergar nada além disso porque já se filiaram a essa compreensão. Segundo, não vejo o governo de forma tão instrumentalizada como vocês. Entendo que tanto o mercado quanto o Estado podem ser considerados instituições com finalidades distributivas. Mas existe uma compreensão muito mais ampla de Estado, de matriz hegeliana, ligada ao segundo sentido de liberdade (a chamada liberdade dos antigos), como uma sociedade politicamente organizada em torno de certos princípios, na qual os indivíduos exercem sua liberdade como cidadãos, construindo projetos coletivos (e não apenas individuais). É levando em conta essas outras visões que entendo o BHL incoerente. Vocês caminham de uma fundamentação para outra, mas sempre tentando defender o “livre mercado”. Em alguns momentos, o argumento é moral, de base jusnaturalista, em outros é um argumento de eficiência, como se o único meio de alcançar a liberdade fosse por esse instrumento. Acho que jamais é possível afastar posicionamentos políticos e morais, que deveriam ser o verdadeiro foco desse libertarismo, caso queira se fortalecer.

  4. Pingback: Para acabarmos com a pobreza extrema, temos de acabar com a riqueza extrema? | Mercado Popular

  5. O impasse ideológico permanece. Diferentemente de você, considero a igualdade um valor em si, tão importante quanto a liberdade, o que não quer dizer que todos devam ser iguais ou ter a mesma renda, da mesma forma que ninguém é livre para fazer o que quiser. Para falar a verdade, esses dois valores não foram por mim escolhidos (ou identificados por um filósofo ou um economista ou seja lá quem for), mas conquistados no curso da história. Enquanto você fala em liberdade (quase absoluta), com uma pitada de compaixão (redução da pobreza e “ajuda” aos pobres, coitados que são por não conseguirem ou não terem interesse em buscar o sucesso por conta própria, mas que mesmo assim merecem nossa misericórdia), eu falo em liberdade (não absoluta) e igualdade (não absoluta) como pilares de sustentação de uma sociedade de cidadãos-proprietários (e não um aglomerado de indivíduos) que seja, ao mesmo tempo, justa e democrática. Nem governo autoritário nem mercado autoritário; nem poder político extremo nem poder econômico extremo. O mercado deve funcionar de certo modo livre, mas sempre de acordo com os interesses de cada povo. Quem sabe, talvez, um mercado livre e igual, como parte de uma Estado também livre e igual, cujos membros contribuem para a produção da riqueza social, repartindo-a de modo o mais equitativo possível, por meio do processo democrático, como expressão da vontade popular e da liberdade política. Afinal, a opção pelo “livre mercado” é uma escolha (e não uma não-escolha) de cada povo, devendo estar de acordo com os seus respetivos objetivos.

    • De novo, você está usando espantalhos, como se eu considerasse os pobres como coitadinhos ou coisa do gênero. E o que você disse são basicamente clichês de senso comum sem nenhum amparo na realidade. Mas não vai ser aqui,e em apenas um texto, que você será convencido disso.

      • Realmente, com quem não quer entender, não há como argumentar. Não me referi ao seu aspecto subjetivo: se você considera pobres coitadinhos ou não. Mas ao fato de que sua concepção de “justiça” trata os pobres como uma classe inferior, que está a merecer ajuda. Não foi exatamente esse o racincínio que você utilizou ao dizer que: “às pessoas deve ser dada a chance de ganharem sua renda a partir de sua própria agência econômica e de contribuir para a produção da riqueza, não podendo ser tratadas eternamente como crianças, como agentes meramente passivos e que não precisariam de inclusão.”? Talvez a leitura do seguinte livro possa auxiliar sua compreensão: FLEISCHACKER, Samuel. A short history of distributive justice. Cambridge: Harvard University Press, 2004.
        Acho engraçado como que meu posicionamento ideológico, a favor da igualdade e da democracia, é clichê, e o seu, que coloca a liberdade (abstrata e jusnaturalista) acima de tudo, não. Aliás, como já disse, meu posicionamento é amparado por uma realidade de lutas e conquistas. Você, por outro lado, demonstra um completo desconhecimento da história, do que é democracia, Estado (democrático) de direito, constitucionalismo, nem sequer nossa Constituição você se deu ao trabalho de ler, porque do contrário teria percebido que seu “projeto de justiça” é completamente incompatível com nossa ordem constitucional. Ou será nossa Constituição um clichê? Talvez, nos EUA, onde a Constituição não faz menção expressa e reiterada à igualdade, à solidariedade, à fraternidade, à redução da desigualdade, à função social da propriedade, etc., etc., etc., seja possível defender tal posicionamento, mas aqui não.
        Você não percebe que toda a leitura que você faz é à luz da liberdade econômica, do modelo capitalista, da lógica de mercado. Por favor, saiba reconhecer que possuímos posicionamentos políticos distintos sobre o que a justiça exige de nós. Aliás, é essa sua insistência que não lhe permite perceber que essa versão de libertarismo que você defende é o mesmo liberalismo de sempre, mas agora mascarado de “bonzinho”. Ao menos, Rothbard, Hayek e companhia eram mais honestos ao dizer que não acreditavam em justiça social e que o que realmente importa é a liberdade individual.
        Mas é realmente exigir muito de alguém que está preso a uma filosofia iluminista e metafísica que, na melhor das hipóteses (e isso é questionável), remonta a Kant, esquecendo todos os avanços posteriores, principalmente com Hegel, Marx, Heidegger, Gadamer, Habermas e inúmeros outros. Recomendo pelos menos se atualizar sobre os giros filosóficos das últimas décadas (lingüístico, hermenêutico, pragmático, ontológico…). A não ser que prefira insistir nesse pensamento platônico, de um mundo ilusório da pura perfeição, acessível somente mediante seu magnífico conhecimento “racional”.

      • Mais espantalhos… Incrível como você consegue deduzir tantas coisas sobre o que eu sei e o que eu não sei, até sobre se eu conheço ou não o direito constitucional brasileiro.

    • Lucas, eu ainda não entendi o que exatamente tu defendes. Que tipo de modelo? Baseado em quê? Acho que tu tens algumas boas objeções, mas não consegui inferir a tua proposta somente a partir das críticas.

      • O comentário anterior foi para o Valdenor.
        Vicente, eu vejo uma série de problemas com as propostas supostamente neutras do liberalismo econômico. Para começar, por estabelecer uma parâmetro de justiça único (no caso, baseado quase que exclusivamente na liberdade individual) e desconsiderar contextos históricos e culturais, sem falar na própria ideia de democracia e debate público. Acho que a concepção do que é justiça social defendida é completamente inadequada, independentemente das medidas econômicas. Então, não é uma mera questão de encontrar caminhos para se chegar a determinado objetivo, pois o próprio objetivo está em discussão. Respondendo ao artigo do Valdenor, não é tão simples assim compatibilizar raciocínio calculista e coração mole.

      • Quanto aos modelos que defendo: devemos ser capazes de encontrar modelos econômicos que busquem compatibilizar todos esses valores, principalmente a liberdade e igualdade. E não optar pela primeira, relegando a segunda a um plano inferior. Não devemos nos contentar com o fim da pobreza. E isso é impossível se já partirmos da ideia de que a melhor justiça social (o que dá para fazer) é tão-somente eliminar a pobreza extrema. O link que apresentei acima mostra uma tentativa de encontrar outras formas econômicas além do livre mercado, que preservem a democracia. A solução não pode estar na destruição do Estado democrático de direito, dos direitos sociais conquistados com tanto esforço. Não podemos simplesmente entregar tudo ao mercado e à lógica individualista. Cabe ao povo decidir os limites do mercado, respeitados certos direitos individuais (o que não inclui a acumulação ilimitada). É preciso perceber que, ao se optar pelo “livre mercado”, estamos optando por um modelo específico de justiça distributiva (libertário) que valoriza o “talento”, as habilidades físicas, o “empreendedorismo”, etc. Mas quem disse que esses são os critérios adequados a uma distribuição justa? Para começar, há uma completa desconsideração do fato de que nossos talentos e habilidades são construídos em sociedade e dependem das outras pessoas para terem algum valor. Além disso, são ignoradas as inúmeras dívidas históricas acumuladas no passado, que até hoje mantêm um padrão de dominação e um desequilíbrio entre os indivíduos, impossibilitando a mobilidade social. Bom, acho que o mais importante de tudo o que disse é que há um perigo enorme nesse suposto “consenso neoliberal” de que a única forma de progredirmos como uma sociedade justa é por meio do livre mercado (note-se que há um enfoque excessivo no crescimento econômico como se apenas isso bastasse). A propósito, vale conferir as obras de Chantal Mouffe. Uma alternativa pode ser a redução do crescimento econômico, a redução do consumo, com uma melhor divisão… Mas isso tudo dependerá dos nossos objetivos, que vão muito além das liberdades econômicas.

      • Não vou voltar à questão da importância da igualdade como uma conquista histórica e um valor em si, nem do problema da desigualdade extrema, da manutenção de um sistema de classes como um verdadeiro mal, dos riscos para a democracia, para solidariedade social, para a construção de virtudes cívicas, para a garantia dos vínculos sociais e não deterioração do sentido de sociedade, dos problemas de individualização, desagregação, fragmentação de comunidades políticas, etc. (acho que já existem estudos sociológicos suficientes sobre isso). Também já desisti de tentar demonstrar para você que sua compreensão abstrata, descontextualizada, jusnaturalista, racionalista, a-histórica, a-cultural, pré-política de justiça não faz o menor sentido e que é um problema sério importar de forma acrítica teorias estrangeiras, como o libertarismo, que não se adapta ao nosso contexto.
        A sua solução para a plutocracia incorre no mesmo problema: destrói o Estado (que tem seu valor para as liberdades políticas), retira do povo o poder sobre o mercado, esvazia a esfera pública, destrói a democracia… Seu argumento é circular e você não percebe porque, como mencionei, possui uma compreensão individualista (e quase anarquista) que só se importa com a garantia da propriedade, das liberdades econômicas e do livre mercado.
        A via democrática, a via política, é o único e melhor caminho, porque mantém o povo no controle (recomendo novamente os estudos de democracia deliberativa e agonística). Não existe outra saída.
        A existência de elevados desequilíbrios de poder político e econômico é que causa desigualdade (de novo: político e econômico). Sua solução é destruir o político e entregar tudo ao mercado, mas isso traz todos os problemas que mencionei acima novamente. Você enxerga o Estado como um enfermo e ao invés de tentar combater a doença, prefere matar o doente. Eu, por outro lado, quero manter ambos (governo e mercado), mas sob controle democrático (Estado democrático de direito).

    • Sim, eu li tudo o que foi escrito até agora, mas eu ainda não consegui entender qual seria a tua proposta. Eu entendo que tu achas que deve haver uma mudança de paradigma, uma superação de modelos pensados somente em riqueza e aspectos econômicos (talvez reconhecimento e outros aspectos mais sociais/psicológicos até, pela menção ao Honneth), mas qual seria o modelo ideal? Quais seriam os alicerces, os objetivos e os meios dessa sociedade? Os pobres seriam ajudados ou não? Como? Pergunto sinceramente, foram os pontos em que fiquei curioso ou não entendi (especialmente a parte dos pobres, parece que tu te importas em reduzir a desigualdade, mas critica o Valdenor por querer auxiliar os pobres a desenvolverem suas capabilities). Abraço

    • Até concordo em vários aspectos contigo: o problema da histórica construção da riqueza é algo que me interessa muito. Também não tenho tanto problema com um Estado garantidor do mínimo.

      Ai, na verdade, agora to muito cansado pra escrever uma resposta mais longa como tu merece, vou tentar voltar amanhã😉

      • Hayek dizia que sua controvérsia com Rawls era mais verbal que substantiva. Buchanan disse a mesma coisa. O problema é pensar que existem apenas concepções igualitárias de justiça social. Existem pelo menos mais dois tipos: prioritarianas e suficientarianas. E tudo o que estou debatendo aqui é desafiando o âmbito “liberal igualitário” de pessoas como Rawls, Dworkin e o próprio Sen. A questão do crescimento não ignora aspectos “não monetários”, mas meu ponto era bem mais simples: os pobres terão mais renda com maior crescimento econômico do que com maior redistribuição, ao longo do tempo. Se a redistribuição fizesse com que, até hoje, o mundo tivesse o PIB de 1800, todos estaríamos muito mais pobres do que hoje, inclusive as pessoas mais pobres do mundo. (e como eu já disse, não vou falar sobre tudo nem num artigo isoladamente, nem num debate isolado)

      • E onde eu teria dito que justiça social é apenas eliminar a extrema pobreza? Tenho um outro texto aqui no blog onde falo na justiça social como uma melhora contínua dos padrões de vida de todos, incluindo os mais pobres.

      • Agora, se o Lucas entende que os pobres da Terra de Pareto estão piores do que os da Terra da Equidade, então realmente a discussão já poderia ter cessado há muito tempo.

      • Tinha dito que havia desistido e, depois dos seus últimos comentários, realmente encontro dificuldades de re-explicar o que venho afirmando desde o início. Vejamos se obtenho mais sucesso agora. Sim, de fato existem o que se pode chamar de “outros critérios de justiça social” que se opõem ao igualitarismo: suficiência, prioridade, mérito. Mas o que eles têm em comum? Todos começam por rejeitar a ideia de igualdade como um valor em si, algo que considero inadmissível, por se tratar da outra faceta da liberdade, indispensável à manutenção de um regime democrático. Portanto, entendo que a desigualdade extrema é um mal em si, assim como o autoritarismo é um mal em si.
        Levando em conta que liberdade e a igualdade são face e contra-face da mesma moeda; que uma não pode se sobrepor à outra; que não existe democracia de verdade em contextos de desigualdade; percebemos que todos esses critérios, no final das contas, podem ser reunidos dentro de uma concepção libertária de justiça, que já toma a liberdade negativa como superior. Por isso, disse que suas conclusões só fazem sentido dentro desse contexto que privilegia a liberdade individual e que desconsidera a liberdade na esfera pública e o contexto social.
        Veja-se que o próprio Dworkin, mesmo se declarando um liberal-igualitário, foi incluído (corretamente) por Liam Murphy e Thomas Nagel dentro do que chamaram de libertarismo igualitário. Isso porque, ao defender que a igualdade deve se dar apenas “ex ante” e que devemos considerar as responsabilidades dos indivíduos, o conceito de igualdade de Dworkin acaba admitindo desigualdades. Confira-se:
        “Without claiming that either Bradford or Dworkin would acknowledge this rough account, let us call the view under discussion equal libertarianism. It is egalitarian because it insists on equality of initial resource holdings, libertarian because it treats market outcomes that result from such equal starting places as presumptively just. While the moral outlook behind this view could be that the ideal market gives people the rewards they deserve, it is usually understood as an entitlement-based theory. There is no injustice in a market world where everyone starts out with the same resources—even if that world ends up very unequal, with successful lawyers much better-off than unsuccessful poets, and some destitution—because what people ought to get depends on the choices they have made. In other words, given a truly equal starting point, people cannot complain of their market rewards when those rewards result from their free choices in the context of the equally free choices of others, likewise expressed through the market. Whether this market-based standard of responsibility needs to be justified at a deeper level in terms of desert, or the extent to which the individual’s choices have satisfied the collective preferences of others, is a question we leave aside.”
        Ou seja, ao se dar um enfoque maior nas escolhas livres, dá-se prioridade à liberdade. O suficientarianismo, por exemplo, só consegue fundamentar a ideia de que nossas obrigações morais não ultrapassam a garantia do suficiente para todos, porque pensa que a liberdade de escolha justifica tal medida. Veja-se que Harry Frankfurt (injustificadamente) rejeita a igualdade como valor, com base na liberdade. E o que é pior, ela já começa seu artigo com uma noção completamente equivocada do que é igualdade, ao afirmar que igualitários deferem a mesma renda para todos. Ora, como disse, não se trata de igualdade absoluta, como também não deve existir liberdade absoluta. Nem libertarismo nem igualitarismo, mas liberdade e igualdade, justiça e democracia.
        O prioritarianismo, por sua vez, acrescenta mais uma questão: utiliza uma lógica eminentemente utilitarista, desequilibrando a balança entre liberdade e igualdade. E a meritocracia considera que alguns são mais merecedores do que outros.
        Enfim, por mais que você não tenha afirmado que só busca a redução da pobreza extrema, você continua admitindo a existência de classes econômicas extremamente díspares e só leva em consideração a situação econômica de cada grupo isolado. E isso de modo a priori, sem pensar na necessidade de uma deliberação democrática, sem considerar que na base do Estado democrático de direito está não apenas a liberdade, mas também a igualdade.
        Talvez essas questões se tornam mais claras se você considerar as demais vertentes da filosofia política, as discussões sobre democracia, as críticas comentaristas e republicanas.

      • Eu entendi que você dá valor à igualdade em si. O que critiquei é você não perceber que a minha abordagem é realmente uma de justiça social, mesmo que não igualitária.

        Por outro lado, se ter maior renda é considerado melhor que ter menor renda, então os pobres terem maior renda, mesmo aumentando-se a desigualdade, é melhor do que os pobres tendo menos renda, mesmo que haja mais igualdade. O que eu queria é que reivindicasse exatamente o contrário, pq, ao não fazê-lo, pareces fugir da questão do meu artigo…

      • Quando eu falei sobre objetividade maior da perspectiva dinâmica, é que por meio dela afirmações empíricas do tipo “se os ricos estão ficando mais ricos, é porque os pobres estão ficando mais pobres” são demonstradas como falsas. Mas você pode achar que é ruim que, mesmo se os pobres tem mais renda, a desigualdade aumente. O problema é o aspecto empírico que não deveria ser falseado por motivos ideológicos.

      • O que quis dizer é que isso que você chama de novas abordagens de justiça social não são, para mim, verdadeiras concepções de justiça social, porque o foco está na liberdade individual (logo, não é social), na garantia das liberdades econômicas, em uma compreensão individualista do ser humano. Se bem interpretados, o suficientarianismo, o prioritarianismo e a meritrocacia são todas “leituras libertárias” da igualdade; são racionalizações que tentam contorcer o sentido de igualdade, transformando-o em algo que não é, a fim de encaixá-lo forçosamente (para usar uma metáfora do Robert Nozick) a uma concepção previamente escolhida de justiça, o libertarianismo.
        Quanto às duas propostas econômicas, já havia dito que não rejeito a necessidade de estudos técnicos, mas há que se considerar os riscos da tecnocracia. Como disse, as duas opções por você apresentadas (“crescimento econômico e maior desigualdade” ou “ausência de crescimento econômico e maior igualdade”) não são as únicas disponíveis. É possível pensar em novos modelos econômicos, desde que tenhamos em mente a liberdade e a igualdade. Volto a insistir: não acredito que o aspecto empírico pode estar dissociado do aspecto político e moral, da ideologia.

      • O problema não é tecnocracia (não estou defendendo isso). O problema é que eu estou disposto a dizer “alto crescimento econômico, só que com maior desigualdade” é ok, mas você não está disposto a dizer que “baixo crescimento econômico, só que com maior igualdade”. Porque é nessa hora que as pressuposições são testadas. Se você considera que uma distribuição mais igual da renda entre as várias camadas econômicas ajuda mais os pobres do que aumento da renda deles, então você deveria assumir exatamente isso. Não é uma falsa dicotomia, mas um convite à coerência.

      • Eu não preciso admitir isso, porque nenhuma das duas opções são satisfatórias. O que estou dizendo é que devemos pensar numa terceira opção, que satisfaça todos os valores em jogo. A questão é que você se contenta em dizer que liberdade e igualdade são incompatíveis e que, por isso, devemos privilegiar a primeira. Eu não.

      • Eu não estou fazendo nenhuma proposição empírica. Estou dizendo que, se temos que escolher, temos de escolher mais renda, não mais igualdade. Significa que estou levando a prioridade da renda como critério de bem-estar à sério. Mas você tenta se esquivar de levar seu argumento às consequências lógicas dele.

      • Veja só: finalmente, sua ideologia se manifestou por completo (acredito eu). Até então, seu discurso era de “ajudar os pobres” como uma exigência de justiça. Agora, está bem mais claro o que você entende por uma sociedade justa: aquela que considera a riqueza um valor supremo, critério de bem-estar, e sua maximização como objetivo universal (algo que nem mesmo o Posner admite mais). E isso tudo sem necessidade de deliberação, de qualquer manifestação da vontade popular.
        Para quem começou o artigo criticando “dicotomias e maniqueísmos simplistas”, você não está se saindo muito bem ao dizer que temos de escolher entre renda e igualdade. Além disso, algumas coisas não estão claras: o que é bem-estar e a renda de quem será maximizada? Não seria possível pensar na redução do bem-estar dos ricos, com aumento do bem-estar dos pobres, sem afetar o crescimento econômico? Seria tão difícil imaginar a promoção do crescimento econômico acompanhado de medidas redistributivas (ex.: uma tributação altamente progressiva sobre a renda e pesados impostos sobre grandes fortunas, heranças e doações) que reduzam a desigualdade? Ao que me parece, você ainda acredita no mito do crescimento econômico infinito e na necessidade de maximização constante do bem-estar. Mas até isso tem limite, seja nos recursos naturais disponíveis, seja no que cada sociedade considera como bem-estar.
        Ainda que pudéssemos tomar essas duas opções (renda ou igualdade) como as únicas viáveis, voltou a dizer: não é possível afirmar que os pobres estão em melhor condição na Terra do Superior de Pareto. Se a condição na Terra da Equidade garante um padrão mínimo de vida digna (a depender dos serviços públicos disponíveis, da qualidade e expectativa de vida, dos próprios objetivos dos cidadãos), é possível argumentar que lá a condição dos pobres (que não é medida apenas em termos monetários) é melhor, porque eles têm mais liberdade política, poder de voz e capacidade de determinar os rumos do país (e do mercado). Na Terra do Superior de Pareto, pelo contrário, os pobres aumentam sua riqueza (o que não necessariamente é algo bom em si), mas perdem poder político e a democracia é enfraquecida. E mais: segundo a lógica capitalista, os ricos da Terra do Superior de Pareto continuarão a acumular poder econômico e político, podendo manter ou até mesmo piorar a condição dos pobres em um futuro próximo, já que dificilmente políticas sociais e redistributivas serão aprovadas.
        Por isso, não podemos avaliar a justeza de uma sociedade apenas em termos de renda, bem-estar, liberdade econômica. Não basta pensar segundo a lógica capitalista, esvaziando completamente a esfera pública e retirando do povo seu poder. Existe uma dimensão política da justiça que não pode ser desconsiderada.

      • Eu pensei que você tinha desistido dos espantalhos, mas vejo que você volta de novo com os mesmos. Onde que querer aumentar a renda dos mais pobres não é ajudá-los? Sério, você está sendo desonesto. Mas ao menos você respondeu o que eu queria saber sobre sua posição. Até.

      • Entenda como quiser, Sr. Espantalho. Eu já desisti de tentar explicar minhas posições. Mas quanto à pergunta “Onde que querer aumentar a renda dos mais pobres não é ajudá-los?”, respondo: onde isso venha acompanhado de declínio da democracia, onde os pobres não precisam de maiores desigualdades, onde os pobres precisam se fortalecerem como cidadãos, onde os pobres não querem apenas aumento de renda… Sei lá: para isso temos deliberação democrática.

      • Falo nos espantalhos, porque em vários momentos você adota uma postura de querer pintar minhas posições como se fossem outro tipo de posicionamento, deformando-as.

      • Sobre o artigo que você fez referência, eu só tenho a dizer que me impressiono com a dedicação dos libertários em tentar descontrair argumentos igualitários. Os dados apresentados (que sequer são determinantes) tratam da relação entre desigualdade e proteção de direitos e liberdades políticas, sobre a possibilidade de participação democrática mesmo em países desiguais. Não é sobre isso que estava falando: minha preocupação é a capacidade de intervir no processo político e efetivar a democracia, sobre a forte influência do grande capital sobre o sistema político, sobre o perigo das forças econômicas para um regime democrático, sobre plutocracia…
        Um estudo recente sobre isso pode ser encontrado em: Unequal Democracy: The Political Economy of the New Gilded Age, de Larry M. Bartels.

      • O problema da plutocracia pode ser vencido, cortando-se o poder do Estado, não tirando o dinheiro das pessoas que têm mais.

        E o mais curioso desse livro que mencionastes é a ideia de que a desigualdade de renda nos EUA tem aumentado por razões políticas, e que as administrações dos Democratas conseguem barrar a desigualdade. O problema é, novamente, entender que toda desigualdade é ruim e que aumentar a igualdade não tem efeitos colaterais, especialmente em um cenário de maior demanda por trabalhadores qualificados.

        Para uma discussão econômica das causas da desigualdade salarial, recomendo, “Economia do Trabalho” de George Borjas. Tem um texto do meu blog também, onde comento alguns aspectos: https://libertarianismoedarwinismo.wordpress.com/2014/01/17/verdades-e-mitos-sobre-desigualdade-de-renda-nos-estados-unidos/

      • Exemplo de efeitos colaterais, são estudos que o Borjas cita: “os mesmos fatores que levaram ao aumento da desigualdade salarial nos Estados Unidos – onde a estrutura institucional do mercado de trabalho permite que tal dispersão salarial cresça e persista – manifestou-se como maiores taxas de desemprego naqueles países onde mecanismos de salários rígidos não permitem mudanças. Resumindo, o mercado de trabalho em alguns países respondeu ao aumento na demanda relativa para os trabalhadores qualificados ao alterar as quantidades (isto é, os empregos). Em outros países, o mercado respondeu ao alterar os preços (isto é, os salários)”

        E isso, veja, não é uma defesa incondicional dos Estados Unidos. No meu artigo daqui sobre a desigualdade de renda nos EUA, explico o que há de ruim nessa desigualdade também.

      • Comentei no local errado. Segue novamente.
        Não vou voltar à questão da importância da igualdade como uma conquista histórica e um valor em si, nem do problema da desigualdade extrema, da manutenção de um sistema de classes como um verdadeiro mal, dos riscos para a democracia, para solidariedade social, para a construção de virtudes cívicas, para a garantia dos vínculos sociais e não deterioração do sentido de sociedade, dos problemas de individualização, desagregação, fragmentação de comunidades políticas, etc. (acho que já existem estudos sociológicos suficientes sobre isso). Também já desisti de tentar demonstrar para você que sua compreensão abstrata, descontextualizada, jusnaturalista, racionalista, a-histórica, a-cultural, pré-política de justiça não faz o menor sentido e que é um problema sério importar de forma acrítica teorias estrangeiras, como o libertarismo, que não se adapta ao nosso contexto.
        A sua solução para a plutocracia incorre no mesmo problema: destrói o Estado (que tem seu valor para as liberdades políticas), retira do povo o poder sobre o mercado, esvazia a esfera pública, destrói a democracia… Seu argumento é circular e você não percebe porque, como mencionei, possui uma compreensão individualista (e quase anarquista) que só se importa com a garantia da propriedade, das liberdades econômicas e do livre mercado.
        A via democrática, a via política, é o único e melhor caminho, porque mantém o povo no controle (recomendo novamente os estudos de democracia deliberativa e agonística). Não existe outra saída.
        A existência de elevados desequilíbrios de poder político e econômico é que causa desigualdade (de novo: político e econômico). Sua solução é destruir o político e entregar tudo ao mercado, mas isso traz todos os problemas que mencionei acima novamente. Você enxerga o Estado como um enfermo e ao invés de tentar combater a doença, prefere matar o doente. Eu, por outro lado, quero manter ambos (governo e mercado), mas sob controle democrático (Estado democrático de direito).

      • Ah, e eu não falei nada de controle de salários. Como você disse acima, também não estou fazendo proposições empíricas.

      • Só para demonstrar como não é apenas renda individual que importa, se vamos avaliar qual país é melhor (Terra de Pareto ou Equidade), existe inclusive um argumento de eficiência (para não voltar à questão da igualdade como valor e da desigualdade como mal) que dispõe que a redução da desigualdade é melhor até mesmo para os mais ricos. Pode ser que a renda disponível para todas as classes na Terra da Equidade seja mais do que suficiente para uma vida digna, o que desloca a questão para as vantagens de se viver em uma sociedade com maior igualdade.

        MURPHY, Liam; NAGEL, Thomas. The myth of ownership: taxes and justice.
        “Finally, there is also a case, based on this type of efficiency consideration, for traditional social welfare policies guaran- teeing a decent minimum standard of living, or decent mini- mum earnings, for everyone in the society. Such programs are usually regarded as redistributive, but the alternative to a decent social minimum is a society with real poverty, which often results in higher rates of crime, drug addiction, and single motherhood, all of which impose their own costs not only on the poor but on everyone. To be grim about it, the cost of subsidizing wages for unskilled labor to make them sufficient to support a family might well be balanced by sav- ings in the costs of prisons and law enforcement that such a change would produce, not to mention the value for every- one of the change in the social environment.5
        Again, such programs would not be redistributive in the usual sense of benefiting some at the expense of others. The poor would benefit but only to the extent that the rich would also. The size of the benefit to the poor would depend on what would equalize marginal benefit to the rich from among competing categories of expenditure—how much the well-to-do could contribute before alternative uses of their money, including private consumption, would be more valuable to them—the diametrical opposite of Rawls’s dif- ference principle.
        The reduction of social and economic inequality is in this way seen as a public good, paid for according to its monetary value to different individual taxpayers. This case differs from that of national defense, for example, in that it makes no sense to tax the poor for some of the cost of raising their spendable income. But it is still driven by efficiency, not fairness—a direct appeal to the interests of each, with no sacrifice being imposed on anyone.” (p. 87)

  6. Estava lendo o interessante debate, mas não pude concluí-lo em razão da última fala do Sr. Lucas Mendes ter sido (por ele) deletada – ou, pior, censurada pelo Sr. Valdenor, autor do blog. Espero que a primeira tenha ocorrido porque muito me surpreenderia uma pessoa que (parece) tão interessada ao debate cometer tão vil atitude. Aguardo a manifestação dos envolvidos.

    • Me reservo o direito de deletar qualquer fala. De qualquer maneira, foi apenas um erro ter sumido a fala dele, eu pensei que estava pedindo para ser aprovada, mas na verdade acabou tirando a fala dele. Está de volta agora.

  7. Lucas, obrigado por proporcionar um debate civilizado, coisa rara hoje em dia.Confesso que fiquei surpreso ao ver que alguém que defende a democracia conheça o conceito de plutocracia! É uma incongruência sem tamanho… Recomendo fortemente a leitura da Teoria da Captura, que explica a democracia como um verniz pra que os interesses plutocráticos sejam embelezados. O controle de mercado pautado na completa ignorancia e obscurantismo com o qual a economia é tratada só serve para os interesses da tao famigerada “classe dominante”. É sempre assim, se existe a possibilidade de o estado ser capturado pelo interesse do poderio economico, ele sera. Voce esta romantizando de sobremaneira o estado. Qualquer arranjo que não o de total liberdade economica leva a captura do aparato de coerção estatal. Esse contexto é muito bem conhecido pelos libertários e pela esquerda não marxista-keynesiana. Quanto ao ideal de igualdade, além de completamente absurdo do ponto de vista biológico (lembra do fenótipo?) é deletério para o desenvolvimento da economia. Todos nós somos diferentes, mesmo os chineses que parecem todos iguais, e é essa diferença que possibilita a divisao social do trabalho e o desenvolvimento economico. O que o autor do texto quis explicitar é que, mesmo com desigualdade social, o acesso a bens, a qualidade de vida, é muito maior no livre mercado ( conhece a teoria da miséria da Bastiat?) do que em condições de intervenção governamental na economia. Nesse contexto, o trabalho do Fraser Institute é muito esclarecedor, mostrando a renda média dos 10% mais pobres ajustada ao poder de compra. O Quartil mais livre tem esse indicador 10x melhor do que o quartil mais intervencionista. Isso é prática, é gente de verdade, gente que vive a escassez na pele, passa fome, vontade e etc.não masturbação mental sobre uma hipotética e anti-natural igualdade de desiguais. A liberdade economica traz a oportunidade de incluir cada vez mais os pobres, possibilitando que sua renda aumente, e que eles passem cada vez menos necessidades. A velocidade disso, numa sociedade livre mercadista e jusnaturalista, depende do acumulo e reinvestimento de capital. Agora, se voce acredita no bom selvagem, na “beleza das comunidades pré-civilizatórias”, na igualdade de todos perante a pobreza e a escassez, também existe lugar pra voce e pra essas comunidades no arranjo de micro estados. Só não venha forçar outros, que não acreditam nessa tal igualdade, a viver em regimes pré-civilizatórios por causa desse ideal.

    • Olha, acho que todas os meus posicionamentos (de base histórica, política e social) já foram exaustivamente apresentados. Não vejo razão para reiterá-los, mesmo diante das suas “críticas” (que, na minha opinião, não conseguem ir além do “lugar comum”, do mesmo discurso neoliberal que venho criticando). Quanto à igualdade, é deprimente rever o risível argumento do Rothbard ressuscitado, sobre a desigualdade biológica. Deixe-me esclarecer uma coisa: liberdade, igualdade, democracia, justiça, etc., são todos conceitos políticos; não são dados da natureza. Não é possível encontrar uma concepção eterna e universal, recorrendo-se à mera observação da natureza, ao empirismo ou à pura reflexão abstrata, sobre o que seja liberdade ou igualdade ou fraternidade ou solidariedade… Mais uma vez, vocês voltam a um pensamento descontextualizado, que desconsidera as influências da cultura, da tradição, do momento histórico na nossa compressão do que cada uma dessas palavras significa. Por isso, recomendei uma atualização nos últimos giros filosóficos, especialmente, nesse caso, no linguístico e pragmático. Igualdade e desigualdade já estão presentes em todas as nossas falas e no modo como tratamos a “realidade”. Uma das grandes aquisições ocidentais é a dignidade da pessoa humana, que coloca todos em pé de igualdade. Além disso, fazemos uso de distinções e igualações a todo momento, sobretudo ao elaborar leis e políticas. A grande questão é saber o que é justificável distinguir e o que não é. Veja: existem pessoas de cores de pele as mais variadas, mas nem por isso significa que devemos conceder-lhes tratamento diferenciado. Então, não importa o fato de que somos diferentes biologicamente. Um governo, para ser legítimo, precisa adotar modelos políticos e econômicos (volto a frisar: o “livre mercado” é uma escolha) que tratem todos os indivíduos como iguais (o que é bem diferente de igualar todos os indivíduos), que concedam chances iguais de crescimento e desenvolvimento, que atenuem as desigualdades que são fruto de dominação, exploração e opressão geração apôs geração.
      Até mesmo quando se invoca a liberdade, o que se quer são iguais liberdades. Ou você concordaria em conferir níveis variados de liberdade de expressão para cada um? Não há como fugir da igualdade, pois ela está intrinsecamente ligada à liberdade. E mesmo se você não acredita nisso, não pode se esquivar do fato de que sua escolha pela liberdade é completamente arbitrária e, provavelmente, parcial (gostaria de ver o mesmo posicionamento sendo defendido por alguém que não tem as menores chances de alcançar o sucesso, porque até hoje sofre os resultados de séculos de opressão).
      Quanto à democracia, devo lhe dizer que conheço muito bem a teoria da captura, mas que as mais recentes teorias democráticas buscam justamente superar esses obstáculos garantido maior participação, deliberação e possibilidade de prestação de contas. O que me espanta é que o seu ceticismo é bem providencial: você considera o livre mercado como o paraíso (quem está sendo romântico mesmo?) e a democracia como uma farsa. Volto a dizer: não se pode retirar do povo o poder sobre os rumos do país, e isso inclui o mercado. A democracia é difícil, mas é a única alternativa para uma sociedade de pessoas livres e iguais.
      Por fim, não estou forçando ninguém a acreditar em nada. Faça-me um favor e leia nossa Constituição, especialmente o preâmbulo, e verá que não há prioridade em nosso país à liberdade. Os valores da sociedade brasileira incluem liberdade e igualdade (dentre vários outros), acredite você ou não. A propriedade aqui só é reconhecida se cumprir sua função social (e não individual).
      O posicionamento libertário que vocês defendem pode ser compatível em outros lugares (talvez, a sociedade americana, o que nem lá acredito ser verdade), mas não a nossa. Quem está tentando impor uma ideologia estrangeira, incompatível com nossa ordem constitucional, é você. Duas alternativas lhe restam: ou se mudar para outra sociedade ou tentar uma revolução, porque nem por emenda constitucional é possível converter nossa Constituição é uma carta libertária, que se preocupa apenas com crescimento econômico e o livre mercado.

  8. E se ficasse demonstrado empiricamente, com fartas evidências estatísticas, que mais crescimento depende exatamente de alguma política inclusiva, inclusive com mecanismos equitativos. Parece que o Daron Acemoglu conseguiu reunir evidências fortes de que a política democrática tem um efeito positivo no crescimento. Aliás, não sei de onde veio a ideia de que os EUA não têm políticas equitativas. Em seu período de maior crescimento econômico, o pós-guerra, é exatamente o período de maior política distritutiva (tax & transfer). Não estou dizendo que essa é a melhor política sempre. Mas pode ser a melhor em alguns casos (quando vc tem níveis altos de exclusão). E ela pode gerar mais crescimento do que a “mão invisível” (seja lá o que isso seja).

    • O texto não se opõe a qualquer tipo de redistribuição, não é a discussão dele provar que todas são ruins. E mão invisível do mercado não tem nada de obscuro.

  9. A discussão toda é MUITO interessante, pena que vez ou outra cai-se na tentação da pura desqualificação do outro, apesar do alto nível geral.
    Economias abertas são ricas e as fechadas são pobres.
    O nível de renda não depende da sociedade ser mais ou menos democrática e sim, de sua economia ser mais ou menos aberta.
    Por outro lado, curiosamente (ou não) as sociedades mais igualitárias são também as menos democráticas.
    O que leva à conclusão de que o desnível de renda não conduz automaticamente a menos democracia, assim como igualdade de renda não conduz automaticamente a mais democracia.
    Aos poucos vou me rendendo sim, ainda que muito a contragosto, porque contra fatos não há argumentos.
    Era muito mais fácil ser anticapitalista antigamente.
    Infelizmente para o meu romantismo inveterado, vendo Cingapura e Coréia do Norte, entre outros tantos, para que eu conseguisse continuar com meu discurso anticapitalista, só se houvesse virado religião😦

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