Existem explicações biológicas para a cultura de estupro?

Quem acompanha o blog (especialmente quem tenha lido meu artigo acadêmico “Sobre o Naturalismo em Ética e Política”, bem como as postagens do blog onde discuto o assunto: aqui, aqui e aqui), sabe que eu defendo o naturalismo filosófico, e, portanto, entendo que devemos pensar as questões sobre conhecimento a partir da ciência e levando-se em conta o rigor epistêmico da nossa ciência mais robusta e bem-sucedida em termos preditivos (as ciências naturais).

Além disso, já deixei claro que sou contrário ao Modelo Padrão das Ciências Sociais (aqui) e que defendo a rejeição de hipóteses nas ciências humanas que sejam incompatíveis com conhecimento oriundo das ciências naturais (aqui). Concordo com Robert Foley:

“A capacidade do Modelo Padrão das Ciências Sociais de explicar os humanos, em última análise, repousa na adequação do conceito de cultura. Como conceito analítico e evolucionário, essa adequação é passível de questionamento. (…) Os humanos anteriores à humanidade aqui descritos são prova da inadequação da cultura como instrumento analítico, uma vez que está claro que os hominídeos extintos situam-se exatamente sobre o divisor de águas daquilo que, em geral, é entendido por cultura. A complexidade dos comportamentos dos quais eles eram capazes não pode ser restringida à cultura, e o fato de termos evitado por completo a abordagem cultural permitiu que aprendêssemos muito mais.” (FOLEY, 2003, p. 246-247)

Foley abre algumas exceções, como os modelos de coevolução gene-cultura, uma vez que aquilo que é geralmente referido pelo termo “cultura”, especialmente os construtos mentais que estão na base da complexidade do comportamento  humano, pode ter grande impacto sobre o modo como a evolução passou a operar. Contudo, esses modelos reduzem a cultura a um conceito muito mais limitado e específico do que aquele geralmente empregado no Modelo Padrão das Ciências Sociais (FOLEY, 2003, p. 247). Por exemplo, temos o “modelo de transmissão (cultural) de Henrich”:

“Henrich’s model (30) demonstrates that under certain critical conditions, directly biased transmission can lead to cumulative adaptation of a culturally inherited skill, even when the transmission process is inaccurate. Each individual in a population of size N has a z value, zi, that measures their level of ability at some cultural skill or in some cultural domain. Members of this population attempt to learn from the maximally skilled individual (i.e., direct bias), but an imperfect learning process leads on average to a loss of skill (a reduction in z value), determined by the parameter α. However, individual errors or “inaccurate inferences” during transmission (the extent of which are governed by a parameter β) occasionally allow some learners to acquire a z value greater than that of their model. Henrich shows that as population size, N, increases, the more likely it is that the positive combined effect of these occasional inaccurate inferences and the selective choice of cultural model to copy will outweigh the degrading effect of low-fidelity transmission. This results in an increase in the mean level of skill in the population, z. He terms this “cumulative adaptive evolution” and derives the critical population size necessary, N*, for this to occur for specific ratios of α and β (30,31).” (POWELL ET AL, 2009, p. 1.300)

Então, você pode estar se perguntando: como um sujeito como você pode adotar o termo “cultura de estupro”, e ainda assim ser um crítico das abordagens “culturalistas” ao ser humano? Você não estaria abrindo um precedente perigoso, aceitando uma abordagem feminista ao invés de uma científica para abordar um fenômeno social tal como o modo como sociedades lidam com diversas instâncias do estupro?

Índice

Na verdade, eu não estou abrindo exceção nenhuma à minha adesão ao pensamento científico, e ao estudo das causas inatas e biológicas do comportamento humano. Eu discordo frontalmente daquilo que Pinker retratou como sendo “feminismo radical de gênero” (a partir de uma distinção que já considerei em alguma medida insatisfatória, mas que agora vejo mais sua importância, sobre a qual escreverei futuramente):

“O feminismo de gênero afirma que as mulheres continuam a ser escravizadas por um difuso sistema de dominância masculina, o sistema de gênero, no qual ‘bebês bissexuais são transformados em personalidades do sexo masculino e do sexo feminismo, uns destinados a comandar, os outros a obedecer’. Opõe-se à tradição liberal clássica e vincula-se ao marxismo, pós-modernismo, construcionismo social e ciência radical. (…) O feminismo de gênero é uma doutrina empírica comprometida com três afirmações sobre a natureza humana. A primeira é que as diferenças entre homens e mulheres não têm nenhuma relação com a biologia, sendo 100% construídas socialmente. A segunda é que os humanos possuem um único motivo social – o poder – e que a vida social somente pode ser compreendida com base em como ele é exercido. A terceira é que as interações humanas emergem não dos motivos das pessoas ao lidar umas com as outras como indivíduos, mas dos motivos de grupos ao lidar com outros grupos – neste caso, o sexo masculino dominando o feminismo.” (PINKER, p. 461-462)

Não conheço a fundo como as principais expoentes desse feminismo de gênero justamente criticado por Pinker usam (e abusam) o termo “cultura de estupro”, mas eu entendo que essa terminologia não é um monopólio delas.

“Cultura de estupro” é uma abreviação útil para dizer algo como: “Elementos culturais que negligenciam/subestimam/normalizam certos tipos de estupro ou formas danosas (às vítimas) de lidar com ele, que fazem parte da cultura respeitável/padrão de uma sociedade”.

Eu já escrevi um texto no Mercado Popular, “Por uma trégua de 24 horas onde não há estupro (e nem cultura de estupro)“, onde explico o conceito, recorrendo à libertária bleeding heart Sarah Skwire, que propõe entender a cultura de estupro como um conjunto de círculos concêntricos que giram em torno do estupro.

Alguns exemplos de atividades enquadradas no conceito seriam: proteção legal para certos tipos de estupros, como o conjugal; o instinto de proteção institucional que vemos em caso de estupros ocorridos em quartéis, prisões, igrejas, campus universitários, etc.; a indiferença para com as vítimas e a má gestão das evidências físicas por parte da polícia e instalações médica; cobertura midiática que enfatiza o efeito do crime sobre os autores, não sobre as vítimas;  “cegueira cultural” aos estupros que não se conformam ao estereótipo padrão do “estranho salta de trás de arbustos, agarra a mulher, estupra e foge”; argumentos como “a vítima não deveria estar naquele lugar/beber/usar essa roupa/ir a essa festa”; pretextos do tipo “garotos serão garotos” ou “homens não podem ser estuprados”, etc.

Perceba que “cultura de estupro” é aplicado de forma graduada à proporção em que diferentes sociedades realmente apresentem esses elementos culturais em sua cultura “respeitável” ou “padrão”. Isso significa que, para os objetivos desta definição, excluímos as “subculturas criminosas”, como aquelas ligadas à pedofilia, por serem claramente desviantes em relação à cultura padrão e amplamente condenadas.

Veja que isso não me compromete com uma explicação específica sobre como esses elementos culturais, esses círculos concêntricos que compõem a “cultura de estupro”, emergem e tornam-se persistentes em sociedades específicas.

“Cultura de estupro”, portanto, é um termo observacional, uma forma útil de classificar uma série de práticas culturais. Não é uma explicação, mas sim algo que demanda uma explicação. E a explicação definitiva para semelhante fenômeno não reside simplesmente em “discriminação contra a mulher”, porque, mesmo enquanto este seja um fator próximo determinante e estreitamente associado, é também preciso explicar o porquê da discriminação contra a mulher emergir.

Inclusive, em certos casos, ocorre uma falácia de circularidade: determinado elemento cultural que se pretende explicar já supõe a discriminação contra a mulher e a discriminação contra a mulher ainda assim é usada como uma explicação.

Entendo que uma explicação naturalista/científica para a “cultura de estupro” perpassa por uma teoria mais ampla que dê conta, tanto da instância específica da “cultura de estupro” como do domínio mais geral do “controle da sexualidade feminina”. Por outro lado, a “cultura de estupro” precisa ser examinada por meio de uma teoria mais ampla que dê conta da coerção sexual em espécies não humanas.

Um campo promissor é compreender isso em termos da função a que serve o controle da sexualidade feminina. Sara Bizarro traz-nos o conceito de “angústia da paternidade”:

“De facto, o controle social da fecundidade das mulheres pode ser considerado como essencial pelo menos nas primeiras sociedades. Isto porque, segundo os antropólogos, o parentesco é a matriz essencial de qualquer relação social. As tribos não podem reproduzir-se exclusivamente dentro de si próprias (o incesto constante levaria ao desaparecimento da tribo). Como tal, a base da relação das tribos entre si está na troca de mulheres fecundas. Mas, para a união da tribo é necessário garantir a paternidade, principalmente a paternidade dentro da tribo e não, por exemplo, numa tribo inimiga. Para tal, é necessário que as mulheres estejam sobre a dominação dos homens, isto não porque elas sejam consideradas promíscuas à partida, mas porque a maternidade é evidente e a paternidade é apenas aparente. (…) A angústia da paternidade parece assim ser a resposta às perguntas iniciais: Porque é que a mulher sempre foi vista como inferior e, de algum modo, perigosa? Porque é que os homens se esforçaram por dominar as mulheres? O esforço masculino de domínio sobre o feminino parece ser uma tentativa de evitar a angústia da paternidade. Afinal a sabedoria popular portuguesa diz: “Filhos de minhas filhas meus netos são, filhos de meus filhos serão ou não”.” (Sara Bizarro, In: Intelecto nº 5)

Isso também pode ser encarado da perspectiva evolucionária (Sara Bizarro usa o conceito a partir de uma perspectiva etnográfica). O macho do Homo Sapiens geralmente utiliza uma estratégia reprodutiva que envolve, não apenas o simples ato da cópula, mas também a aquisição de recursos para a fêmea e a prole. Isso cria o risco de que se esteja adquirindo recursos para os filhos de outro macho, e esse é um exemplo de brecha que seria facilmente explorada por “estratégias evolucionárias parasitárias”. Como resultado, é favorecido um comportamento de controle da sexualidade da fêmea, para evitar que esta tenha filhos de outro macho.

Nesse sentido, nos esclarece Frans de Wall, em uma linguagem mais informal:

“Já se supôs que a família nuclear teria surgido originalmente de uma tendência do macho a acompanhar a fêmea com quem se acasalou para manter rivais infanticidas à distância. Essa prática poderia ter se expandido de modo a incluir o cuidado paterno com a prole. Por exemplo, o pai poderia ajudar a companheira a localizar árvores com frutos maduros, capturar e partilhar presas ou carregar os filhos. Ele próprio poderia ter se beneficiado do talento feminino para usar instrumentos de precisão (as fêmeas dos grandes primatas não humanos são mais hábeis do que os machos) e da coleta pela fêmea de nozes e frutas silvestres. A fêmea, por sua vez, pode ter começado a oferecer sexo para impedir que seu protetor fosse embora atrás de qualquer rabo-de-saia. Quanto mais ambos os lados investiam nesse arranjo, mais passava a estar em jogo. Assim, tornou-se cada vez mais importante para o macho que a prole de sua companheira fosse dele, e só dele.

Na natureza, não há almoço grátis. Se as bonobos fêmeas pagaram por seu arranjo com intumescimentos genitais contínuos, as mulheres pagaram pelo delas com a diminuição da liberdade sexual. E a motivação para o controle masculino só fez aumentar quando nossos ancestrais deixaram a vida nômade e passaram a acumular bens materiais. Além de transmitirem genes à geração seguinte, agora também legavam riqueza. Considerando a diferença de tamanho entre os sexos aliada à excelente cooperação entre os homens, é provável que a dominância masculina sempre tenha caracterizado nossa linhagem; portanto, a herança provavelmente acompanhou a linha paterna. Com cada homem tentando assegurar que as economias de toda a sua vida terminassem nas mãos certas, as de seus descendentes, tornou-se inevitável a obsessão por virgindade e castidade. O ‘patriarcado’, como é conhecido, pode ser visto simplesmente como uma consequência da ajuda masculina na criação da prole.” (DE WALL, p. 139-140)

É importante perceber que esta demanda evolucionária pelo controle da sexualidade feminina também teria como resultado o repúdio ao estupro. E de fato é possível perceber que todas as culturas humanas condenam alguma forma de estupro, em especial o violento praticado por desconhecidos. Mas não implica que todo estupro tivesse a mesma repressão. Por exemplo, a motivação do controle da sexualidade feminina para assegurar a paternidade da prole é neutra em relação ao estupro conjugal.

E aqui é importante perceber que a estratégia reprodutiva humana não envolve apenas a família nuclear, mas também a cópula casual, na margem. E aqui a coerção sexual poderia ser mesmo uma estratégia reprodutiva de última instância, extrema:

“O estudo científico do estupro e suas ligações com a natureza humana ganhou relevo no ano 2000 com a publicação de “A natural history of rape”. Thornhill e Palmer começaram com uma observação básica: um estupro pode resultar em concepção, a qual poderia propagar os genes do estuprador, incluindo qualquer gene que o houvesse tornado propenso a cometer estupro. Portanto, uma psicologia masculina que incluísse a capacidade de estuprar não teria sido excluída no processo de seleção natural, e poderia ter sido selecionada. Thornhill e Palmer argumentaram que o estupro provavelmente não é uma estratégia de acasalamento típica, devido ao risco de o homem ser ferido pela vítima e seus parentes e ao risco do ostracismo na comunidade. Mas poderia ser uma tática oportunista, tornando-se mais provável quando o homem fosse incapaz de obter o consentimento de mulheres, fosse alienado da comunidade (portanto não se intimidasse com o ostracismo) e estivesse a salvo de detenção ou punição (como em época de guerra ou pogrom). Thornill e Palmer esboçaram, então, duas teorias. O estupro oportunista poderia ser uma adaptação darwiniana que foi especificamente selecionada, como no caso de certos insetos que possuem um apêndice sem outra função além de restringir uma fêmea durante uma cópula forçada. Ou o estupro poderia ser subproduto de duas outras características da mente masculina: o desejo por sexo e a capacidade de praticar violência oportunista para atingir um objetivo.” (PINKER, p. 492-493)

Eu entendo que para muitas pessoas, seja de inclinação mais conservadora, seja de sensibilidade feminista, isso que tenho dito até agora possa soar duro, mesmo insensível. Mas isso aqui não é uma discussão sobre a moralidade ou a política do estupro, mas sim sobre a explicação científica do estupro. Nenhum tema pode ser tabu para que a ciência o examine. E os fatos podem ser duros. Como bem colocou John Stuart Mill, não há nada mais insensível que a lei da gravidade, que pode te fazer quebrar o pescoço, mas ninguém acha que isso seja argumento contra sua existência.

Contudo, o estudo evolucionário sobre o estupro mostra o quão esse crime é grave:

“A teoria de Thornhill e Palmer reforça muitos aspectos de uma análise do feminismo de equidade. Prognostica que, do ponto de vista de uma mulher, o estupro e o sexo consensual são totalmente diferentes. Afirma que a repugnância das mulheres pelo estupro não é um sintoma de repressão neurótica, nem um constructo social que poderia facilmente ser o inverso em uma cultura diferente. Prognostica que o sofrimento causado pelo estupro é mais intenso que o sofrimento causado por outros traumas físicos ou violações corporais. Isso justifica que nos empenhemos mais arduamente em prevenir o estupro e que castiguemos os perpetradores com mais severidade do que fazemos em outros tipos de agressão.” (PINKER, p. 494)

Em um artigo interessante (que ainda resenharei aqui no blog), denominado “Feminism, Primatology, and Ethical Naturalism“, Larry Anhart argumenta que exploração patriarcal pode ser condenada sob a base de sua contrariedade às necessidades e capacidades naturais das mulheres.

A ética naturalizada que defendo incorporaria o estupro como uma prática condenável necessariamente, uma vez que, sendo a parte da ecologia humana preocupada em determinar o que contribuir para o bem-estar de humanos, grupos humanos e indivíduos humanos, em ambientes naturais e sociais específicos (FLANAGAN, p. 30), é de fácil constatação o modo como o estupro afeta o bem-estar das mulheres, e também dos homens.

Como o núcleo da ética é a cooperação voluntária, a partir do qual a teoria de direitos libertária pode ser inferida, o estupro também fere o preceito básico de que as interações humanas devem basear-se em consentimento e vontade, ou seja, o voluntarismo básico preconizado pelo libertarianismo.

Por fim, deixo o leitor com a advertência da feminista liberal McElroy:

“Precisamos de metodologia científica para pôr à prova qualquer afirmação empírica. (…) Uma das vítimas do novo dogma sobre o estupro foi a pesquisa. Não é mais ‘sexualmente correto’ conduzir estudos sobre as causas do estupro porque – como sabe qualquer pessoa que pense corretamente – só existe uma causa: o patriarcado. Décadas atrás, no auge do feminismo liberal e da curiosidade sexual, a atitude em relação às pesquisas era mais refinada” (McELROY, In: PINKER, p. 492)

Lugar de Darwin na história do mundo

Ontem teria sido o aniversário do cientista Charles Darwin. Ele nasceu em 12 de fevereiro de 1809. Sua obra foi um divisor de águas não só para a ciência, mas para a autocompreensão da humanidade.

Falar do “lugar de determinada pessoa na história do mundo” é colocar, em perspectiva histórica, a forma como essa pessoa impactou a história humana e o que ela agregou de novo, deixando como legado.

De fato, o título é inspirado no capítulo I da “Vida de Jesus” (1863), de Ernest Renan (ele mesmo um deísta, não um cristão no sentido comum), que é denominado “Lugar de Jesus na História do Mundo”. Renan escreve:

“O acontecimento mais importante da história do mundo foi a revolução que permitiu às camadas mais privilegiadas da humanidade passarem de antigas religiões, reunidas sob o vago nome de ‘paganismo’ para uma religião fundamentada na unidade divina, na trindade e na encarnação do filho de Deus. (…) A citada revolução teve origem sob os impérios de Augusto e de Tibério. Foi nessa época que viveu uma pessoa incomum que, por sua iniciativa ousada e pelo amor que soube inspirar, criou as bases e marcou o início da futura fé da humanidade.” (RENAN, p. 87)

Entendo que, entre o rol de pessoas que revolucionaram a história do mundo, Charles Darwin deve estar entre elas, por sua elaboração da teoria da evolução por intermédio da seleção natural.

darwin

De fato, ele na verdade foi um dos autores dela, uma vez que sempre reconheceu que Alfred Russel Wallace havia descoberto independentemente o mesmo mecanismo da seleção natural. Contudo, enquanto Wallace queria isentar a evolução da mente humana dos mesmos processos naturalísticos/evolucionários que a vida emergiu e se desenvolveu, Darwin foi muito mais consistente, em defender que a mente humana também é produto da evolução por seleção natural. Por outro lado, “foi Darwin quem produziu a abundância de dados empíricos que dava suporte a esta teoria e foi ele também quem a publicou como obra cientifica [seu livro “A Origem das Espécies” principalmente]” (Renata Lima, “Darwin, Evolução e Neurociências“).

A história da compreensão naturalista do mundo, e do lugar do ser humano neste, é antiga. Remonta, pelo menos, a Leucipo e Demócrito na Grécia antiga, os pais da “teoria atômica”.

“No mundo de Leucipo, há apenas átomos, vazio e movimentos efetuados pelos primeiros no segundo. Nada mais. Apenas essa única fórmula contém todo o radicalismo de um pensamento que ou dispensa os deuses, desprovidos de potencialidades espirituais, interdita as almas desfeitas de suas pretensões étereas e imortais e impossibilidade a existência dos além-mundos, para além, ao lado ou em outra parte, ou transforma os deuses, as almas e os outros mundos em realidades tangíveis, perceptíveis, concretas e nada menos que imanentes. Unicamente com essa opção, simples, clara e nítida, Leucipo arrima os homens no real imanente e apenas em sua dimensão material” (ONFRAY, p. 42)

E:

“No terreno filosófico, Demócrito pura e simplesmente retoma Leucipo: o real se constitui de átomos dispostos no vazio; a causalidade é imanente e material; não existe razão divina; tudo passa, a eternidade é uma ficção – ou então só a mudança é eterna; os deuses não existem, tampouco a fortuna como modalidade da transcendência (…). Daí um monismo filosófico que conduz à invenção do corpo uno e material já nessa época da filosofia grega. Contra o corpo esquizofrênico resultante do pitagorismo, Demócrito afirma a integridade do único bem de que dispomos: não há alma separada do corpo, não há depreciação da carne e valorização do espírito, não há imaterial preso no material, encerrado, trancado na carne, não há (…) imortal ligado ao divino contra um mortal sensível, mas uma entidade constituída de átomos e digna como tal.” (ONFRAY, p. 62-63)

Contudo, essa teoria rudimentar da física atômica não tinha nenhuma explicação para a origem das espécies, que fosse verificável. A própria ciência, como o empreendimento que conhecemos hoje, estava apenas em seus primeiros passos. Darwin é quem trouxe a possibilidade de pensar a origem das espécies – e da humanidade – em termos de um mecanismo naturalístico. Como esclarece Dawkins:

“Escrevi este livro [O Relojoeiro Cego] na convicção de que nossa existência já foi o maior dos mistérios, mas deixou de sê-lo. Darwin e Wallace o desvendaram, embora durante algum tempo ainda devamos continuar a acrescentar notas de rodapé à sua solução. (…) Quero inspirar o leitor com uma visão de nossa existência como um mistério de dar frio na espinha, e simultaneamente quero transmitir o entusiasmo por se tratar de um mistério com uma solução elegante e ao nosso alcance. Mais ainda, quero persuadir o leitor de que a visão de mundo darwiniana não apenas é verdadeira, mas é também a única teoria conhecida que poderia em princípio solucionar o mistério de nossa existência. Isso faz dela uma teoria duplamente satisfatória: há boas razões para crer que o darwinismo vale não só para este planeta, mas para todo o universo, onde quer que se encontre alguma forma de vida” (DAWKINS, p. 9 e 11)

O mistério que foi desvendado foi o problema do design complexo na natureza:

“O cérebro com o qual o leitor entende minhas palavras é um arranjo de cerca de 10 milhões de quiloneurônios. Muitos desses bilhões de células nervosas têm mais de mil “fios elétricos” que as conectam a outros neurônios. Além disso, no nível genético molecular, cada uma dos mais de 1 trilhão de células do corpo contém cerca de mil vezes mais informação digital codificada com precisão do que todo meu computador. A complexidade dos organismos vivos só encontra paralelo na eficiência elegante de seu design visível.” (DAWKINS, p. 10)

Uma coisa complexa é aquela “cujas partes constituintes encontram-se arranjadas de tal modo que não seja provável esse arranjo ter ocorrido somente por acaso” (DAWKINS, p. 26). Como já tive oportunidade de comentar no blog, aqui e aqui, a teoria da evolução por seleção natural não é uma explicação com base no acaso, mas sim em um mecanismo causal que faz uma seleção funcional das características (a seleção natural).

A seleção natural é a única maneira conhecida de produzir naturalmente funcionalidade complexamente organizada no design herdado de organismos não domesticados. E a funcionalidade complexa que ocorre naturalmente apenas tem sido documentada em organismos vivos, que se reproduzem. Os organismos podem ser modificados em relação às suas formas ancestrais por meio de processos “não selecionistas”, contudo, seleção é o único processo que tem uma tendência sistemática a levar o sistema na direção de arranjos cada vez mais funcionais. (COSMIDES; TOOBY, p. 52 e 53)

De fato, “a seleção natural é o relojoeiro cego, cego porque não prevê, não planeja consequências, não tem propósito em vista. Mas os resultados vivos da seleção natural nos deixam pasmos porque parecem ter sido estruturados por um relojoeiro magistral, dando uma ilusão de desígnio e planejamento” (DAWKINS, p. 42).

Robert Nozick, no contexto da pergunta por como se poderia descobrir qual seria o tipo de sociedade melhor para todos, traçou a diferença entre dois tipos de mecanismos:  os de elaboração e os de filtragem.

“No caso das sociedades, o resultado do processo de elaboração é a descrição de uma sociedade obtida por pessoas (ou por uma pessoa) que tiverem dedicado algum tempo a refletir acerca do que seria a melhor sociedade. Depois de decidir, elas começam a padronizar tudo de acordo com esse modelo único.” (NOZICK, p. 403)

E:

“Os mecanismos de filtragem implicam um processo que, de um conjunto amplo de alternativas, elimina (filtra) muitas delas. Os dois elementos determinantes fundamentais do(s) resultado(s) final(ais) são a natureza especial do processo de filtragem (e que características ele está programado para barrar) e a natureza especial do conjunto de alternativas que ele influencia (e como esse conjunto é gerado). (….) Não devemos ficar orgulhosos demais com os resultados dos processos de filtragem, tendo em vista que nós mesmos somos um desses resultados. A partir da posição privilegiada das considerações que nos levam a recomendar o processo de filtragem na construção das sociedades, a evolução é um processo de criação de seres vivos escolhido de modo conveniente por uma divindade modesta, que não sabe exatamente qual é a aparência do ser que ela deseja criar” (NOZICK, p. 405)

Durante a maior parte da história humana, o resultado de um mecanismo de filtragem (a evolução) era considerado erroneamente como tendo sido produzido por um mecanismo de elaboração. Geralmente é mais fácil pensar e confiar em mecanismos de elaboração como sendo superiores aos mecanismos de filtragem, ainda que essa noção – seja para a origem das espécies e da cognição humana, seja para a economia e a teoria da sociedade – seja completamente equivocada.

Outra dificuldade da mente humana advém da “mente descontínua”. O vídeo do Pirulla abaixo é bastante esclarecedor para entender este problema:

Contudo, as evidências para o fato da evolução são volumosas. Dawkins dedicou um livro inteiro a elas, o “O Maior Espetáculo da Terra”. Inclusive, ao contrário da crença popular, o achado de fósseis não é essencial para evidenciar a evolução:

“Os criacionistas  são tremendamente apaixonados pelo registro fóssil porque foram ensinados (uns pelos outros) a repetir vezes sem conta o mantra de que ele é cheio de ‘lacunas’: ‘Mostre-me os seus intermediários!’ Imaginam ingenuamente (muito ingenuamente) que essas ‘lacunas’ sejam um estorvo para os evolucionistas. Na verdade, temos sorte por existirem fósseis, e ainda mais nas colossais quantidades de que hoje dispomos para documentar a história evolucionária – fósseis em profusão que, por quaisquer critérios, constituem belos ‘intermediários’. Salientarei nos capítulos 9 e 10 que não precisamos de fósseis para demonstrar que a evolução é um fato. As evidências da evolução estariam totalmente garantidas mesmo se nenhum corpo jamais houvesse se fossilizado. É um benefício adicional dispormos de ricas jazidas fósseis para explorar, e a cada dia outras mais são descobertas.” (DAWKINS, 2009, p. 139)

Por isso mesmo que, em um texto anterior daqui do blog, argumentei que as razões que temos para aceitar o neodarwinismo podem ser enunciadas da seguinte maneira:

Se não existe nenhum impedimento para que a seleção natural leve a mudanças evolucionárias em larga escala (como, por exemplo, não há obstáculos genéticos), e se existe apenas um mecanismo conhecido por causar sistematicamente mudanças evolucionárias na direção da maior funcionalidade do organismo, então estamos justificados em considerar que uma explicação neodarwiniana para a evolução está correta.

Portanto, objeções válidas ao neodarwinismo deveriam assumir a seguinte forma:

Uma objeção contra uma explicação neodarwinana para a evolução deve demonstrar que, para certo fenômeno evolutivo específico em que se incrementa/foi incrementada a funcionalidade do organismo (não explicado ainda satisfatoriamente pelo neodarwinismo ou existindo dificuldades para tal explicação), ou existe um impedimento na natureza para que a seleção natural opere seus efeitos, ou existe outro mecanismo que incrementa sistematicamente a funcionalidade que não seja a seleção natural.

Daí que uma objeção ao neodarwinismo que tenha a seguinte estrutura “como não há uma explicação selecionista bem clara para certo fenômeno evolutivo específico (que tenha sistematicamente uma direção funcional), ou há dificuldades a serem enfrentadas por uma explicação selecionista, isso significa que a seleção natural não pode ser a explicação para aquele fenômeno” é invalida, é um argumento de ignorância. Ela pretende dizer que, por não conseguirmos imaginar como a seleção natural pode explicar, ela não pode explicar. E o que se vê em muitas objeções ao neodarwinismo é exatamente isso: argumentos de ignorância sofisticados por uma linguagem técnica.

Daniel Dennet, em “Darwin’s Dangerous Idea” apresenta uma ideia semelhante à minha: os cientistas, quando confrontados com uma objeção poderosa prima facie à seleção natural, são orientados pelo raciocínio de que “eu não posso (ainda) ver como refutar essa objeção, ou sobrepujar essa dificuldade, mas desde que eu não posso imaginar como qualquer outra coisa que não a seleção natural poderia ser a causa dos efeitos, eu terei de assumir que a objeção é espúria e que de alguma forma a seleção natural deve explicar seus efeitos”. Dennet complementa ainda que isso não significa que o darwinismo seria uma fé não comprovável como religião naturalista, porque há uma diferença fundamental: os cientistas têm tomado à frente para mostrar como essas dificuldades com sua visão poderiam ser sobrepujadas e, cada vez mais, eles conseguiram enfrentar o desafio. No processo, a idéia fundamental de Darwin foi articulada, expandida, clarificada, quantificada, em várias formas, tornando-se mais forte toda vez que ela enfrentou com sucesso os desafios. É razoável acreditar que uma ideia que fosse, no final das contas, falsa tivesse sucumbido a tantos ataques. Isso não é uma prova conclusiva, mas uma consideração persuasiva poderosa, e um dos objetivos de seu livro é mostrar o porquê que a seleção natural parece ser claramente a tese vencedora, mesmo enquanto ainda haja controvérsias não resolvidas sobre como ela pode lidar com alguns fenômenos. (DENNET, p. 47)

Eu considero que as objeções ao neodarwinismo não têm poder refutador ou rivalizador se elas não atendem as condições que eu descrevi acima para que elas, de fato, fossem objeções decisivas. Entretanto, objeções que não atendam a essas condições ainda tem o condão de expor os desafios ainda existentes ao neodarwinismo, por isso são  inválidas apenas na medida em que pretendam ter poder refutador ou rivalizador real. Acredito que o raciocínio de Dennet siga na mesma linha.

Assim, o lugar de Darwin na história do mundo reside em que ele descobriu o caminho pelo qual a grande questão da existência poderia ser fragmentada em questões técnicas que poderiam ser respondidas. Como colocou Foley,

“Embora talvez não tenha grande apelo para os que se sentem atraídos pelo exótico da ficção científica, ou pelos meandros da metafísica, o verdadeiro triunfo do darwinismo foi a tradução de perguntas irrespondíveis em perguntas que, quando modestamente adequadas, podem ser respondidas. As origens da humanidade e, em última análise, a natureza humana não são questões filosóficas, mas técnicas.”

(Robert Foley, p. 37, grifo meu)

Foi aquela elegante e racional visão da vida, o mais precioso legado de Darwin:

“Desta forma, do resultado dessa batalha natural, que se traduz pela fome e pela morte que advém o fato mais notável que somos capazes de conceber: a produção dos animais superiores. Há uma verdadeira grandeza nesta forma de considerar a vida que, juntamente com todas as suas diversas capacidades, teria sido insuflada em poucas formas, ou talvez em uma única, e que, enquanto este planeta continua a girar na sua órbita, obedecendo à imutável Lei da Gravidade, as formas mais belas e admiráveis, originárias de um início tão simples, continuam a seguir esse desenvolvimento” (DARWIN, p. 571-572)

O lugar de Darwin na história do mundo é ter mostrado o caminho para uma explicação científica que determina qual é o nosso lugar na história da vida neste planeta.

Você poderá acessar as redes sociais no seu emprego do futuro em uma economia da máquina inteligente?

O economista Tyler Cowen escreveu um livro importante e interessante, denominado “Average is Over” (veja aqui em formato epub). Ele tenta prever, com base nas tendências já em curso na economia norte-americana, qual será o impacto da próxima fronteira tecnológica: as máquinas inteligentes, o uso de Inteligência Artificial avançada na produção econômica.

Um dos prognósticos mais controversos feitos no livro é que os empregos “de classe média” desaparecerão da economia dos Estados Unidos, de modo que a economia futura será marcada por uma distribuição de empregos tendo, de um lado, empregos de maior remuneração, e, de outro, empregos de menor remuneração, sem um expressivo conjunto de empregos de média remuneração.

Não pretendo discutir aqui este clamor empírico de Cowen. Achei interessante o que ele tem a dizer acerca de que característica seria valorizada no trabalhador dessa economia do futuro. Característica essa que já vem ganhando muita importância, e que, como resultado dessa tendência de longo prazo, será ainda mais procurada no trabalhador do futuro.

Cowen foi acusado por alguns de ser demasiado “frio” em relação ao aumento da desigualdade de renda que ele prevê, por apenas descrever o que ele pensa que acontecerá, mas sem parecer se preocupar com o que o governo deveria fazer para minorar esses efeitos (Matthew Yglesias pensa ter encontrado, espalhado no livro de Cowen, as políticas que este favoreceria que o governo adotasse, mas que Cowen não acredita que o governo não o fará).

Contudo, a crítica é injustificada. Robin Hanson critica o que ele denomina de tabu “O que fazer no caso de falharmos?” (tradução livre para ‘What If Failure?’), que nos previne de avaliar seriamente a possibilidade do sistema político falhar em resolver algo que identificamos como problema. Há um papel para apenas analisarmos as consequências desse cenário de “não resolução do problema” com mais detalhe, para descobrir como viver nessa situação e tirar o melhor proveito dela.

Por isso, é interessante que Cowen fale o que seria valorizado em um cenário como o que ele prevê, no que diz respeito ao trabalhador. É uma forma de preparar as pessoas para esse (possível) cenário antecipadamente. O que é um importante papel do economista: falar às pessoas comuns, não necessariamente ou exclusivamente aos governos.

Cowen afirma que a principal característica valorizada nos empregos do futuro será a conscienciosidade, e isso já é muito demandado hoje em dia na economia norte-americana.

Antes de adentrarmos no porquê esta é a característica mais exigida, devemos entender o que é a conscienciosidade (que, inclusive, é um traço de personalidade). Geoffrey Miller define-a da seguinte forma:

“autocontrole, força de vontade, confiabilidade, coerência, fidedignidade e capacidade de retardar gratificações. As pessoas conscienciosas visam a objetivos de longo prazo.  Cumprem promessas e compromissos, resistem aos impulsos e maus costumes e se sentem envolvidas numa rede de obrigações sociais mútuas. (…) A conscienciosidade prognostica frequência regular na escola e no trabalho, a conclusão de tarefas no prazo certo, a cooperação nas relações profissionais e o engajamento cívico. (…) Junto à inteligência, trata-se de um dos dois traços mais desejados pelos empregadores” (MILLER, p. 205-206)

O motivo pelo qual Cowen entende que esta característica será ainda mais demandada é uma tendência de longo prazo no mercado de trabalho no sentido de que os ganhos de produtividade em muitos setores não dependem da força bruta oriunda de trabalho humano adicional. (COWEN, p. 21)

A “produção em equipe”, inclusive, reforça o papel da conscienciosidade, uma vez que os gerentes precisam de trabalhadores confiáveis e um trabalhador não confiável ou que enrole em seu trabalho pode prejudicar a execução de um projeto ou tarefa pela equipe inteira, e mesmo afetar a moral dos demais. (COWEN, p. 21)

Em termos bem humorados, é o que nos apresenta essa tira do Dilbert:

02-23-2009(extraída do blog “Dilbert Brasil“, original por Scott Adams)

Cowen afirma que essa característica favorece as mulheres, uma vez que estas, na média, são mais conscienciosas que os homens. Há evidências de que mulheres são menos interessada em competição direta no lugar de trabalho, mais prováveis de trabalharem bem em equipe e de buscarem empregos “de equipe” e, portanto, seu trabalho seria mais demandado. Enquanto isso, alguns homens são mais prováveis de se tornar assalariados com salários muito elevados, com extrema dedicação à uma tarefa, e muitos outros são mais prováveis de serem irresponsáveis e de se tornarem “não empregáveis”, indo para a cadeia ou tornando-se bêbados contumazes. (COWEN, p. 21)

Ocorre que, quanto mais ricos nos tornamos, mais temos amortecedores para resultados inaceitáveis, como fracasso completo ou fome. Assim, tanto homens quanto mulheres podem ser mais indulgentes em relação a certas tendências que, de outra forma, teriam sido reprimidas. Para alguns homens, essas propensões podem ser destrutivas e prejudiciais à produtividade, o que impacta na sua taxa de emprego. (COWEN, p. 22)

Conscienciosidade é ainda mais importante em dois setores específicos: atendimento de saúde e serviços pessoais. Afinal, é preciso confiar que os técnicos de enfermagem estão lavando suas mãos, ou que um motorista leva as crianças para a escola no horário exato (COWEN, p. 22).

Portanto, as características cruciais demandadas em um ambiente de trabalho mais tecnologicamente sofisticado (COWEN, p. 22):

1 – Exatidão na execução (mais importante que força bruta adicional);

2 – Coordenação consistente ao longo do tempo;

3 – Moral em alta, para motivar produção e cooperação.

Em termos bem humorados, podemos ver na tira abaixo que ter um trabalhador como o Dilbert seria extremamente demandado pelas empresas:

03-05-2009

(extraído do blog “Dilbert Brasil“, original por Scott Adams)

Recentes pesquisas mostram que, na opinião de gerentes, o uso do computador aumenta a necessidade de trabalhadores mais qualificados, aumenta a autonomia do trabalhador, e aumenta a necessidade e habilidade da gerência no monitoramento dos trabalhadores. Tudo isso significa que os trabalhadores precisam ser mais espertos, melhor treinados e mais conscienciosos. (COWEN, p. 22)

Você pode pensar a questão do uso das redes sociais, como o facebook, no seu trabalho. Se você perder muito tempo no facebook, sua produtividade pode diminuir muito, você pode atrasar um passo crucial para a realização de um projeto em equipe, e assim por diante. No mínimo, se espera que não vá se abusar do acesso ao computador com internet.

Um exemplo notável de transformação do lugar de trabalho é o emprego na empresa Google. Os trabalhadores dela recebem plano de saúde, treinamento extensivo, bastante tempo e atenção, e um escritório decorado de modo atrativo. Contudo, também se espera deles uma ótima performance no trabalho, isso inclusive desde o processo de entrevista. (COWEN,p. 23-24)

Ao mesmo tempo em que, nesses setores de maior qualificação, os benefícios custam mais caro, há maior preocupação com a moral e o ambiente do trabalho,e com a reputação da firma, ocorre que os trabalhadores podem causar maior dano à companhia do que no passado, e, por isso, aumenta-se a seletividade na contratação. Quanto mais as firmas se tornam valiosas e baseadas em precisão, mais potencial destruição de valor pode advir dos empregados e mais “exclusivos” esses empregos tenderão a ser. (COWEN, p. 24)

Daí advém um dos motivos pelos quais Cowen entende que haverá uma polarização crescente no mercado de trabalho, conceito muito identificado com o trabalho do economista David Autor. Essa polarização distribui os trabalhadores em dois campos: 1) aqueles que ficam muito bem no mercado de trabalho; 2) aqueles que não ficam tão bem assim.(COWEN, p. 25)

Esse “ficar bem” deve ser medido principalmente no que diz respeito à remuneração relativa, o que significa maior demanda por, de um lado, empregos de remuneração elevada, e, de outro, por empregos de remuneração baixa, reduzindo-se a demanda por empregos de nível intermediário. (COWEN, p. 26)

Assim, Cowen conclui que a demanda dessa economia futura dirige-se para mais credenciais, mais habilidades, e recompensará bastante uma nova elite cognitiva. (COWEN, p. 27)

Logo, talvez a pergunta certa não fosse “você poderá usar suas redes sociais no trabalho?”, mas sim “que tipo de conduta você costuma ter ou tende a ter, por exemplo, você abusaria das redes sociais no trabalho?”. Ser consciencioso será ainda mais recompensado no mercado de trabalho do futuro. Pelo menos, é o que Tyler Cowen nos indica.