Você poderá acessar as redes sociais no seu emprego do futuro em uma economia da máquina inteligente?

O economista Tyler Cowen escreveu um livro importante e interessante, denominado “Average is Over” (veja aqui em formato epub). Ele tenta prever, com base nas tendências já em curso na economia norte-americana, qual será o impacto da próxima fronteira tecnológica: as máquinas inteligentes, o uso de Inteligência Artificial avançada na produção econômica.

Um dos prognósticos mais controversos feitos no livro é que os empregos “de classe média” desaparecerão da economia dos Estados Unidos, de modo que a economia futura será marcada por uma distribuição de empregos tendo, de um lado, empregos de maior remuneração, e, de outro, empregos de menor remuneração, sem um expressivo conjunto de empregos de média remuneração.

Não pretendo discutir aqui este clamor empírico de Cowen. Achei interessante o que ele tem a dizer acerca de que característica seria valorizada no trabalhador dessa economia do futuro. Característica essa que já vem ganhando muita importância, e que, como resultado dessa tendência de longo prazo, será ainda mais procurada no trabalhador do futuro.

Cowen foi acusado por alguns de ser demasiado “frio” em relação ao aumento da desigualdade de renda que ele prevê, por apenas descrever o que ele pensa que acontecerá, mas sem parecer se preocupar com o que o governo deveria fazer para minorar esses efeitos (Matthew Yglesias pensa ter encontrado, espalhado no livro de Cowen, as políticas que este favoreceria que o governo adotasse, mas que Cowen não acredita que o governo não o fará).

Contudo, a crítica é injustificada. Robin Hanson critica o que ele denomina de tabu “O que fazer no caso de falharmos?” (tradução livre para ‘What If Failure?’), que nos previne de avaliar seriamente a possibilidade do sistema político falhar em resolver algo que identificamos como problema. Há um papel para apenas analisarmos as consequências desse cenário de “não resolução do problema” com mais detalhe, para descobrir como viver nessa situação e tirar o melhor proveito dela.

Por isso, é interessante que Cowen fale o que seria valorizado em um cenário como o que ele prevê, no que diz respeito ao trabalhador. É uma forma de preparar as pessoas para esse (possível) cenário antecipadamente. O que é um importante papel do economista: falar às pessoas comuns, não necessariamente ou exclusivamente aos governos.

Cowen afirma que a principal característica valorizada nos empregos do futuro será a conscienciosidade, e isso já é muito demandado hoje em dia na economia norte-americana.

Antes de adentrarmos no porquê esta é a característica mais exigida, devemos entender o que é a conscienciosidade (que, inclusive, é um traço de personalidade). Geoffrey Miller define-a da seguinte forma:

“autocontrole, força de vontade, confiabilidade, coerência, fidedignidade e capacidade de retardar gratificações. As pessoas conscienciosas visam a objetivos de longo prazo.  Cumprem promessas e compromissos, resistem aos impulsos e maus costumes e se sentem envolvidas numa rede de obrigações sociais mútuas. (…) A conscienciosidade prognostica frequência regular na escola e no trabalho, a conclusão de tarefas no prazo certo, a cooperação nas relações profissionais e o engajamento cívico. (…) Junto à inteligência, trata-se de um dos dois traços mais desejados pelos empregadores” (MILLER, p. 205-206)

O motivo pelo qual Cowen entende que esta característica será ainda mais demandada é uma tendência de longo prazo no mercado de trabalho no sentido de que os ganhos de produtividade em muitos setores não dependem da força bruta oriunda de trabalho humano adicional. (COWEN, p. 21)

A “produção em equipe”, inclusive, reforça o papel da conscienciosidade, uma vez que os gerentes precisam de trabalhadores confiáveis e um trabalhador não confiável ou que enrole em seu trabalho pode prejudicar a execução de um projeto ou tarefa pela equipe inteira, e mesmo afetar a moral dos demais. (COWEN, p. 21)

Em termos bem humorados, é o que nos apresenta essa tira do Dilbert:

02-23-2009(extraída do blog “Dilbert Brasil“, original por Scott Adams)

Cowen afirma que essa característica favorece as mulheres, uma vez que estas, na média, são mais conscienciosas que os homens. Há evidências de que mulheres são menos interessada em competição direta no lugar de trabalho, mais prováveis de trabalharem bem em equipe e de buscarem empregos “de equipe” e, portanto, seu trabalho seria mais demandado. Enquanto isso, alguns homens são mais prováveis de se tornar assalariados com salários muito elevados, com extrema dedicação à uma tarefa, e muitos outros são mais prováveis de serem irresponsáveis e de se tornarem “não empregáveis”, indo para a cadeia ou tornando-se bêbados contumazes. (COWEN, p. 21)

Ocorre que, quanto mais ricos nos tornamos, mais temos amortecedores para resultados inaceitáveis, como fracasso completo ou fome. Assim, tanto homens quanto mulheres podem ser mais indulgentes em relação a certas tendências que, de outra forma, teriam sido reprimidas. Para alguns homens, essas propensões podem ser destrutivas e prejudiciais à produtividade, o que impacta na sua taxa de emprego. (COWEN, p. 22)

Conscienciosidade é ainda mais importante em dois setores específicos: atendimento de saúde e serviços pessoais. Afinal, é preciso confiar que os técnicos de enfermagem estão lavando suas mãos, ou que um motorista leva as crianças para a escola no horário exato (COWEN, p. 22).

Portanto, as características cruciais demandadas em um ambiente de trabalho mais tecnologicamente sofisticado (COWEN, p. 22):

1 – Exatidão na execução (mais importante que força bruta adicional);

2 – Coordenação consistente ao longo do tempo;

3 – Moral em alta, para motivar produção e cooperação.

Em termos bem humorados, podemos ver na tira abaixo que ter um trabalhador como o Dilbert seria extremamente demandado pelas empresas:

03-05-2009

(extraído do blog “Dilbert Brasil“, original por Scott Adams)

Recentes pesquisas mostram que, na opinião de gerentes, o uso do computador aumenta a necessidade de trabalhadores mais qualificados, aumenta a autonomia do trabalhador, e aumenta a necessidade e habilidade da gerência no monitoramento dos trabalhadores. Tudo isso significa que os trabalhadores precisam ser mais espertos, melhor treinados e mais conscienciosos. (COWEN, p. 22)

Você pode pensar a questão do uso das redes sociais, como o facebook, no seu trabalho. Se você perder muito tempo no facebook, sua produtividade pode diminuir muito, você pode atrasar um passo crucial para a realização de um projeto em equipe, e assim por diante. No mínimo, se espera que não vá se abusar do acesso ao computador com internet.

Um exemplo notável de transformação do lugar de trabalho é o emprego na empresa Google. Os trabalhadores dela recebem plano de saúde, treinamento extensivo, bastante tempo e atenção, e um escritório decorado de modo atrativo. Contudo, também se espera deles uma ótima performance no trabalho, isso inclusive desde o processo de entrevista. (COWEN,p. 23-24)

Ao mesmo tempo em que, nesses setores de maior qualificação, os benefícios custam mais caro, há maior preocupação com a moral e o ambiente do trabalho,e com a reputação da firma, ocorre que os trabalhadores podem causar maior dano à companhia do que no passado, e, por isso, aumenta-se a seletividade na contratação. Quanto mais as firmas se tornam valiosas e baseadas em precisão, mais potencial destruição de valor pode advir dos empregados e mais “exclusivos” esses empregos tenderão a ser. (COWEN, p. 24)

Daí advém um dos motivos pelos quais Cowen entende que haverá uma polarização crescente no mercado de trabalho, conceito muito identificado com o trabalho do economista David Autor. Essa polarização distribui os trabalhadores em dois campos: 1) aqueles que ficam muito bem no mercado de trabalho; 2) aqueles que não ficam tão bem assim.(COWEN, p. 25)

Esse “ficar bem” deve ser medido principalmente no que diz respeito à remuneração relativa, o que significa maior demanda por, de um lado, empregos de remuneração elevada, e, de outro, por empregos de remuneração baixa, reduzindo-se a demanda por empregos de nível intermediário. (COWEN, p. 26)

Assim, Cowen conclui que a demanda dessa economia futura dirige-se para mais credenciais, mais habilidades, e recompensará bastante uma nova elite cognitiva. (COWEN, p. 27)

Logo, talvez a pergunta certa não fosse “você poderá usar suas redes sociais no trabalho?”, mas sim “que tipo de conduta você costuma ter ou tende a ter, por exemplo, você abusaria das redes sociais no trabalho?”. Ser consciencioso será ainda mais recompensado no mercado de trabalho do futuro. Pelo menos, é o que Tyler Cowen nos indica.

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