Lugar de Darwin na história do mundo

Ontem teria sido o aniversário do cientista Charles Darwin. Ele nasceu em 12 de fevereiro de 1809. Sua obra foi um divisor de águas não só para a ciência, mas para a autocompreensão da humanidade.

Falar do “lugar de determinada pessoa na história do mundo” é colocar, em perspectiva histórica, a forma como essa pessoa impactou a história humana e o que ela agregou de novo, deixando como legado.

De fato, o título é inspirado no capítulo I da “Vida de Jesus” (1863), de Ernest Renan (ele mesmo um deísta, não um cristão no sentido comum), que é denominado “Lugar de Jesus na História do Mundo”. Renan escreve:

“O acontecimento mais importante da história do mundo foi a revolução que permitiu às camadas mais privilegiadas da humanidade passarem de antigas religiões, reunidas sob o vago nome de ‘paganismo’ para uma religião fundamentada na unidade divina, na trindade e na encarnação do filho de Deus. (…) A citada revolução teve origem sob os impérios de Augusto e de Tibério. Foi nessa época que viveu uma pessoa incomum que, por sua iniciativa ousada e pelo amor que soube inspirar, criou as bases e marcou o início da futura fé da humanidade.” (RENAN, p. 87)

Entendo que, entre o rol de pessoas que revolucionaram a história do mundo, Charles Darwin deve estar entre elas, por sua elaboração da teoria da evolução por intermédio da seleção natural.

darwin

De fato, ele na verdade foi um dos autores dela, uma vez que sempre reconheceu que Alfred Russel Wallace havia descoberto independentemente o mesmo mecanismo da seleção natural. Contudo, enquanto Wallace queria isentar a evolução da mente humana dos mesmos processos naturalísticos/evolucionários que a vida emergiu e se desenvolveu, Darwin foi muito mais consistente, em defender que a mente humana também é produto da evolução por seleção natural. Por outro lado, “foi Darwin quem produziu a abundância de dados empíricos que dava suporte a esta teoria e foi ele também quem a publicou como obra cientifica [seu livro “A Origem das Espécies” principalmente]” (Renata Lima, “Darwin, Evolução e Neurociências“).

A história da compreensão naturalista do mundo, e do lugar do ser humano neste, é antiga. Remonta, pelo menos, a Leucipo e Demócrito na Grécia antiga, os pais da “teoria atômica”.

“No mundo de Leucipo, há apenas átomos, vazio e movimentos efetuados pelos primeiros no segundo. Nada mais. Apenas essa única fórmula contém todo o radicalismo de um pensamento que ou dispensa os deuses, desprovidos de potencialidades espirituais, interdita as almas desfeitas de suas pretensões étereas e imortais e impossibilidade a existência dos além-mundos, para além, ao lado ou em outra parte, ou transforma os deuses, as almas e os outros mundos em realidades tangíveis, perceptíveis, concretas e nada menos que imanentes. Unicamente com essa opção, simples, clara e nítida, Leucipo arrima os homens no real imanente e apenas em sua dimensão material” (ONFRAY, p. 42)

E:

“No terreno filosófico, Demócrito pura e simplesmente retoma Leucipo: o real se constitui de átomos dispostos no vazio; a causalidade é imanente e material; não existe razão divina; tudo passa, a eternidade é uma ficção – ou então só a mudança é eterna; os deuses não existem, tampouco a fortuna como modalidade da transcendência (…). Daí um monismo filosófico que conduz à invenção do corpo uno e material já nessa época da filosofia grega. Contra o corpo esquizofrênico resultante do pitagorismo, Demócrito afirma a integridade do único bem de que dispomos: não há alma separada do corpo, não há depreciação da carne e valorização do espírito, não há imaterial preso no material, encerrado, trancado na carne, não há (…) imortal ligado ao divino contra um mortal sensível, mas uma entidade constituída de átomos e digna como tal.” (ONFRAY, p. 62-63)

Contudo, essa teoria rudimentar da física atômica não tinha nenhuma explicação para a origem das espécies, que fosse verificável. A própria ciência, como o empreendimento que conhecemos hoje, estava apenas em seus primeiros passos. Darwin é quem trouxe a possibilidade de pensar a origem das espécies – e da humanidade – em termos de um mecanismo naturalístico. Como esclarece Dawkins:

“Escrevi este livro [O Relojoeiro Cego] na convicção de que nossa existência já foi o maior dos mistérios, mas deixou de sê-lo. Darwin e Wallace o desvendaram, embora durante algum tempo ainda devamos continuar a acrescentar notas de rodapé à sua solução. (…) Quero inspirar o leitor com uma visão de nossa existência como um mistério de dar frio na espinha, e simultaneamente quero transmitir o entusiasmo por se tratar de um mistério com uma solução elegante e ao nosso alcance. Mais ainda, quero persuadir o leitor de que a visão de mundo darwiniana não apenas é verdadeira, mas é também a única teoria conhecida que poderia em princípio solucionar o mistério de nossa existência. Isso faz dela uma teoria duplamente satisfatória: há boas razões para crer que o darwinismo vale não só para este planeta, mas para todo o universo, onde quer que se encontre alguma forma de vida” (DAWKINS, p. 9 e 11)

O mistério que foi desvendado foi o problema do design complexo na natureza:

“O cérebro com o qual o leitor entende minhas palavras é um arranjo de cerca de 10 milhões de quiloneurônios. Muitos desses bilhões de células nervosas têm mais de mil “fios elétricos” que as conectam a outros neurônios. Além disso, no nível genético molecular, cada uma dos mais de 1 trilhão de células do corpo contém cerca de mil vezes mais informação digital codificada com precisão do que todo meu computador. A complexidade dos organismos vivos só encontra paralelo na eficiência elegante de seu design visível.” (DAWKINS, p. 10)

Uma coisa complexa é aquela “cujas partes constituintes encontram-se arranjadas de tal modo que não seja provável esse arranjo ter ocorrido somente por acaso” (DAWKINS, p. 26). Como já tive oportunidade de comentar no blog, aqui e aqui, a teoria da evolução por seleção natural não é uma explicação com base no acaso, mas sim em um mecanismo causal que faz uma seleção funcional das características (a seleção natural).

A seleção natural é a única maneira conhecida de produzir naturalmente funcionalidade complexamente organizada no design herdado de organismos não domesticados. E a funcionalidade complexa que ocorre naturalmente apenas tem sido documentada em organismos vivos, que se reproduzem. Os organismos podem ser modificados em relação às suas formas ancestrais por meio de processos “não selecionistas”, contudo, seleção é o único processo que tem uma tendência sistemática a levar o sistema na direção de arranjos cada vez mais funcionais. (COSMIDES; TOOBY, p. 52 e 53)

De fato, “a seleção natural é o relojoeiro cego, cego porque não prevê, não planeja consequências, não tem propósito em vista. Mas os resultados vivos da seleção natural nos deixam pasmos porque parecem ter sido estruturados por um relojoeiro magistral, dando uma ilusão de desígnio e planejamento” (DAWKINS, p. 42).

Robert Nozick, no contexto da pergunta por como se poderia descobrir qual seria o tipo de sociedade melhor para todos, traçou a diferença entre dois tipos de mecanismos:  os de elaboração e os de filtragem.

“No caso das sociedades, o resultado do processo de elaboração é a descrição de uma sociedade obtida por pessoas (ou por uma pessoa) que tiverem dedicado algum tempo a refletir acerca do que seria a melhor sociedade. Depois de decidir, elas começam a padronizar tudo de acordo com esse modelo único.” (NOZICK, p. 403)

E:

“Os mecanismos de filtragem implicam um processo que, de um conjunto amplo de alternativas, elimina (filtra) muitas delas. Os dois elementos determinantes fundamentais do(s) resultado(s) final(ais) são a natureza especial do processo de filtragem (e que características ele está programado para barrar) e a natureza especial do conjunto de alternativas que ele influencia (e como esse conjunto é gerado). (….) Não devemos ficar orgulhosos demais com os resultados dos processos de filtragem, tendo em vista que nós mesmos somos um desses resultados. A partir da posição privilegiada das considerações que nos levam a recomendar o processo de filtragem na construção das sociedades, a evolução é um processo de criação de seres vivos escolhido de modo conveniente por uma divindade modesta, que não sabe exatamente qual é a aparência do ser que ela deseja criar” (NOZICK, p. 405)

Durante a maior parte da história humana, o resultado de um mecanismo de filtragem (a evolução) era considerado erroneamente como tendo sido produzido por um mecanismo de elaboração. Geralmente é mais fácil pensar e confiar em mecanismos de elaboração como sendo superiores aos mecanismos de filtragem, ainda que essa noção – seja para a origem das espécies e da cognição humana, seja para a economia e a teoria da sociedade – seja completamente equivocada.

Outra dificuldade da mente humana advém da “mente descontínua”. O vídeo do Pirulla abaixo é bastante esclarecedor para entender este problema:

Contudo, as evidências para o fato da evolução são volumosas. Dawkins dedicou um livro inteiro a elas, o “O Maior Espetáculo da Terra”. Inclusive, ao contrário da crença popular, o achado de fósseis não é essencial para evidenciar a evolução:

“Os criacionistas  são tremendamente apaixonados pelo registro fóssil porque foram ensinados (uns pelos outros) a repetir vezes sem conta o mantra de que ele é cheio de ‘lacunas’: ‘Mostre-me os seus intermediários!’ Imaginam ingenuamente (muito ingenuamente) que essas ‘lacunas’ sejam um estorvo para os evolucionistas. Na verdade, temos sorte por existirem fósseis, e ainda mais nas colossais quantidades de que hoje dispomos para documentar a história evolucionária – fósseis em profusão que, por quaisquer critérios, constituem belos ‘intermediários’. Salientarei nos capítulos 9 e 10 que não precisamos de fósseis para demonstrar que a evolução é um fato. As evidências da evolução estariam totalmente garantidas mesmo se nenhum corpo jamais houvesse se fossilizado. É um benefício adicional dispormos de ricas jazidas fósseis para explorar, e a cada dia outras mais são descobertas.” (DAWKINS, 2009, p. 139)

Por isso mesmo que, em um texto anterior daqui do blog, argumentei que as razões que temos para aceitar o neodarwinismo podem ser enunciadas da seguinte maneira:

Se não existe nenhum impedimento para que a seleção natural leve a mudanças evolucionárias em larga escala (como, por exemplo, não há obstáculos genéticos), e se existe apenas um mecanismo conhecido por causar sistematicamente mudanças evolucionárias na direção da maior funcionalidade do organismo, então estamos justificados em considerar que uma explicação neodarwiniana para a evolução está correta.

Portanto, objeções válidas ao neodarwinismo deveriam assumir a seguinte forma:

Uma objeção contra uma explicação neodarwinana para a evolução deve demonstrar que, para certo fenômeno evolutivo específico em que se incrementa/foi incrementada a funcionalidade do organismo (não explicado ainda satisfatoriamente pelo neodarwinismo ou existindo dificuldades para tal explicação), ou existe um impedimento na natureza para que a seleção natural opere seus efeitos, ou existe outro mecanismo que incrementa sistematicamente a funcionalidade que não seja a seleção natural.

Daí que uma objeção ao neodarwinismo que tenha a seguinte estrutura “como não há uma explicação selecionista bem clara para certo fenômeno evolutivo específico (que tenha sistematicamente uma direção funcional), ou há dificuldades a serem enfrentadas por uma explicação selecionista, isso significa que a seleção natural não pode ser a explicação para aquele fenômeno” é invalida, é um argumento de ignorância. Ela pretende dizer que, por não conseguirmos imaginar como a seleção natural pode explicar, ela não pode explicar. E o que se vê em muitas objeções ao neodarwinismo é exatamente isso: argumentos de ignorância sofisticados por uma linguagem técnica.

Daniel Dennet, em “Darwin’s Dangerous Idea” apresenta uma ideia semelhante à minha: os cientistas, quando confrontados com uma objeção poderosa prima facie à seleção natural, são orientados pelo raciocínio de que “eu não posso (ainda) ver como refutar essa objeção, ou sobrepujar essa dificuldade, mas desde que eu não posso imaginar como qualquer outra coisa que não a seleção natural poderia ser a causa dos efeitos, eu terei de assumir que a objeção é espúria e que de alguma forma a seleção natural deve explicar seus efeitos”. Dennet complementa ainda que isso não significa que o darwinismo seria uma fé não comprovável como religião naturalista, porque há uma diferença fundamental: os cientistas têm tomado à frente para mostrar como essas dificuldades com sua visão poderiam ser sobrepujadas e, cada vez mais, eles conseguiram enfrentar o desafio. No processo, a idéia fundamental de Darwin foi articulada, expandida, clarificada, quantificada, em várias formas, tornando-se mais forte toda vez que ela enfrentou com sucesso os desafios. É razoável acreditar que uma ideia que fosse, no final das contas, falsa tivesse sucumbido a tantos ataques. Isso não é uma prova conclusiva, mas uma consideração persuasiva poderosa, e um dos objetivos de seu livro é mostrar o porquê que a seleção natural parece ser claramente a tese vencedora, mesmo enquanto ainda haja controvérsias não resolvidas sobre como ela pode lidar com alguns fenômenos. (DENNET, p. 47)

Eu considero que as objeções ao neodarwinismo não têm poder refutador ou rivalizador se elas não atendem as condições que eu descrevi acima para que elas, de fato, fossem objeções decisivas. Entretanto, objeções que não atendam a essas condições ainda tem o condão de expor os desafios ainda existentes ao neodarwinismo, por isso são  inválidas apenas na medida em que pretendam ter poder refutador ou rivalizador real. Acredito que o raciocínio de Dennet siga na mesma linha.

Assim, o lugar de Darwin na história do mundo reside em que ele descobriu o caminho pelo qual a grande questão da existência poderia ser fragmentada em questões técnicas que poderiam ser respondidas. Como colocou Foley,

“Embora talvez não tenha grande apelo para os que se sentem atraídos pelo exótico da ficção científica, ou pelos meandros da metafísica, o verdadeiro triunfo do darwinismo foi a tradução de perguntas irrespondíveis em perguntas que, quando modestamente adequadas, podem ser respondidas. As origens da humanidade e, em última análise, a natureza humana não são questões filosóficas, mas técnicas.”

(Robert Foley, p. 37, grifo meu)

Foi aquela elegante e racional visão da vida, o mais precioso legado de Darwin:

“Desta forma, do resultado dessa batalha natural, que se traduz pela fome e pela morte que advém o fato mais notável que somos capazes de conceber: a produção dos animais superiores. Há uma verdadeira grandeza nesta forma de considerar a vida que, juntamente com todas as suas diversas capacidades, teria sido insuflada em poucas formas, ou talvez em uma única, e que, enquanto este planeta continua a girar na sua órbita, obedecendo à imutável Lei da Gravidade, as formas mais belas e admiráveis, originárias de um início tão simples, continuam a seguir esse desenvolvimento” (DARWIN, p. 571-572)

O lugar de Darwin na história do mundo é ter mostrado o caminho para uma explicação científica que determina qual é o nosso lugar na história da vida neste planeta.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s