Semelhanças entre David Friedman e Kevin Carson no anarquismo de mercado

O libertarianismo é uma visão muito variada. Existem muitas correntes libertárias diferentes, geralmente criticando-se bastante mutuamente, pelos erros que encontram umas nas outras. Esse tipo de diversidade intelectual é uma vantagem, a meu ver.

Mas as semelhanças entre os pensadores de distintas correntes também podem ser destacadas. No final das contas, existe algum tipo de núcleo que liga os libertários, principalmente se o foco destes é, como deveria sê-lo, a possibilidade da cooperação voluntária e mutuamente benéfica como base para todas as interações sociais humanas.

Aqui eu gostaria de mostrar a semelhança entre dois nomes importantes do libertarianismo contemporâneo: David Friedman e Kevin Carson.

David Friedman é muito conhecido por ter escrito o livro “Engrenagens da Liberdade: guia para um capitalismo radical” (você pode ver um vídeo sobre aqui e outro aqui), onde ele defendeu, com argumentos utilitaristas e consequencialistas, a possibilidade do “anarcocapitalismo”, de uma sociedade, sob um regime de anarquia de mercado, onde a provisão do Direito e da segurança é realizada por agentes privados em concorrência. Seu argumento é notadamente econômico, mostrando como uma sociedade deste tipo funcionaria.

eeeeeeeeeeeeeJá o Kevin Carson é mais conhecido por ter reavivado a tradição mutualista (ligada ao anarquista Proudhon no século XIX) dentro da corrente “left-libertarian“. Chama a atenção sua posição auto-descrita como “anticapitalista de mercado”, uma vez que critica a moderna organização das grandes corporações como produto de intervenção sistemática do Estado, concebendo, portanto, “mercados libertos” como bastante diferentes do tipo de mercado que temos hoje. Carson critica o anarco-capitalismo, porque seus expoentes pressuporiam uma predominância de firmas de tipo capitalista com trabalho assalariado em um verdadeiro livre mercado, sendo que, ao contrário, o modelo predominante seria cooperativista.

carsonVocê poderia imaginar, portanto, que estes dois pensadores são frontalmente opostos, dissimilares em tudo, até porque um junta “anarquia” com “capitalismo de livre mercado” e outro junta “anarquia” com “anticapitalismo de mercado”. Talvez você esteja enganado. Eles têm posições diferentes em vários aspectos, mas semelhanças notáveis também os unem.

1) Processo para chegar na sociedade sem Estado:

Kevin Carson escreveu:

“Nós temos vivido, por séculos, o processo que Pyotr Kropotkin descreveu em ‘Ajuda Mútua’ e ‘O Estado’, pelo qual Estados territoriais centralizados suprimiram alternativas auto-organizadas, ‘de baixo para cima’ (bottom-up), e levou à atrofia da sociedade civil. (…) O que muitos de nós queremos fazer é reverter esse processo secular que Kropotkin descreveu, por construir instituições sociais alternativas, organizadas sob uma base de cooperação voluntária, para suprimir o Estado.” (tradução livre)

David Friedman afirmou em uma entrevista:

“Meu caminho ideal para o anarco-capitalismo seria um no qual instituições privadas gradualmente realocam as instituições do governo, de tal modo que, quando o Estado finalmente desapareça, ninguém nem sequer notará.” (tradução livre)

2) O futuro de pequenas empresas e associações colaborativas sem fins lucrativos:

Kevin Carson escreveu:

“E isso de nenhuma maneira implica (…) uma sociedade onde todas as funções são realizadas por firmas empresariais de fins lucrativos. Poderia facilmente significar uma sociedade de cooperativas de trabalhadores e consumidores, propriedade comum, clínicas livres, agricultura baseada em comunidade, comunidades intencionais, comunas e ocupações (squats) urbanas e os tipos de arranjos de ajuda mútua descritos por Kropotkin em ‘Ajuda Mútua’ e E. P. Thompson em ‘A formação da classe operária inglesa’.” (tradução livre)

David Friedman escreveu em seu livro “Future Imperfect”:

“Finalmente e talvez mais radicalmente, um mundo de comunicação rápida e barata grandemente facilita abordagens descentralizadas para produção. Um resultado possível é a mudança de quantidades substanciais de esforço humano para fora do contexto de corporações hierarquicamente organizados em direção a um mix de coordenação de mercado entre indivíduos ou pequenas empresas associada com um tipo de cooperação voluntária sem mercados explícitos, da qual desenvolvimento de software de código aberto é um exemplo recente e marcante.” (tradução livre)

3) O desenvolvimento de uma cripto-economia (economia virtual baseada em transações criptografadas) na internet como catalisadora de uma cripto-anarquia:

Kevin Carson escreveu:

“O cenário do livro ‘The Diamong Age’ de Neal Stephenson é traçado alguns anos depois de moedas criptografadas e comércio online removerem muitas transações econômicas para dentro de ‘darknets’ além da capacidade do governo monitorá-las e regulá-las, e então levou a que as bases arrecadatórias ao redor do mundo implodissem. Isso foi seguido, dentro de pouco tempo, pelo colapso de muitos Estados-nações. No interregno que se seguiu, os defuntos Estados-nações foram realocados por cidades-Estados e por sociedades civis globais organizadas em rede denominadas de ‘phyles‘. (…) Adesão aos ‘phyles‘ era voluntária, e a provisão daqueles tipos de serviço público e rede de segurança social formalmente associadas com Estados foram geralmente ligadas à subscrição voluntária como membro (…).

Isso [economia criptografada] é vitalmente importante para um tema central em meu trabalho: a emergência de espaços não-estatais dentro dos quais uma economia familiar e informal de baixa sobrecarga pudesse funcionar, fora da capacidade do Estado em criar barreiras de entrada, em impor capitalização artificial e sobrecarregar de custos os produtos de baixa sobrecarga, e coletar aluguel sobre rendas advindas de escassez artificial.” (tradução livre)

David Friedman escreveu:

“A criptografia de chave pública faz possível o que eu descrevi, em outra ocasião, como um mundo de privacidade robusta, um mundo em que é possível comunicar-se com desconhecidos de tal forma que nenhuma terceira parte observadora possa ler, estabelecendo a identidade online de alguém em uma maneira que nenhum impostor possa imitar, conectar ou separar a pessoa online da pessoa no mundo real como desejado, fazer pagamentos online com dinheiro digital anônimo não rastreável.

(…) as tecnologias que fazem possível a privacidade robusta também fazem possíveis formas de imposição reputacional de contrato que poderia substituir a existente imposição estatal. Então, parece possível, mesmo provável, que dentro de uma década ou duas grandes partes da vida humana em sociedades desenvolvidas se tornará ‘sem Estado’, um sistema de transações voluntárias aplicada inteiramente por entidades privadas competitivas usando meios reputacionais, não coercitivos, de imposição de regras. Ao chegar nesse ponto, o que nós teremos será uma anarquia incorporada disponível para muitos, talvez quase todos, da população dos Estados desenvolvidos existentes.” (tradução livre)

 

 

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