A doutrina cristã da Trindade como avanço filosófico

Uma das doutrinas mais peculiares ao cristianismo é a doutrina da Trindade. Ainda que não seja aceita por todos os cristãos,  é aceita pela maioria das igrejas cristãs em suas declarações oficiais de fé.

Esta doutrina consiste em um paradoxo: Deus seria um e três. O Pai, o Filho e o Espírito Santo são três pessoas divinas, mas uma só divindade. Um mistério, em suma.

trindade

Mas, a meu ver, a doutrina da trindade é interessante de um ponto de vista estritamente filosófico, ou, pelo menos, da história da filosofia. Esta doutrina, na formulação que a consolidou na história da cristandade, representou um genuíno avanço filosófico.

Muitos cristãos alegam retirar sua formulação do que consiste a Trindade diretamente do Novo Testamento. Isto é um equívoco. Quer dizer, é verdade que o Novo Testamento sugere a doutrina da Trindade, e de fato atribui divindade à Jesus e ao Espírito Santo, contudo, isto não é feito de forma elaborada, não é definido ou mesmo conceituado.

Entendo que a “doutrina primitiva da trindade” tinha uma base mais judaica. Nesta doutrina, que é principalmente encontrada nas epístolas de Paulo e no evangelho de João (não nos evangelhos sinóticos), o “Filho de Deus” (Jesus Cristo) é a antiga “Sabedoria de Deus”, mencionada nos livros bíblicos de Provérbios (canônico), Sabedoria de Salomão (deuterocanônico*) e Eclesiástico (deuterocanônico). Como nos aponta Oskar Skarsaune,

“se questionarmos mais precisamente que coisa ou que pessoa – ou que X – desempenha um papel importante no judaísmo em dizeres do tipo “Deus criou o mundo por meio de X”, então a resposta será óbvia e fácil de identificar nas fontes existentes. Nos escritos judaicos do período do segundo Templo, existe um X que se encaixa nessa fórmula, e tão somente um: a Sabedoria de Deus. (…)

Em vários textos do AT [Antigo Testamento] e dos apócrifos, a Sabedoria de Deus é, de fato, descrita – ou comporta-se – como se fosse uma pessoa.  (…)

O paralelo mais surpreendente (…) provém de um texto do livro de Sabedoria ainda não citado, a saber, o elogio que a Sabedoria faz de si mesma no capítulo 24 do Eclesiástico (ou Sirácida). Neste texto deparamos com a ideia da presença da sabedoria junto a Deus quando ele criou o mundo – entretanto, acrescenta-se a isso uma ideia importante: a Sabedoria passou a buscar um lugar para habitar sobre a terra (para ‘encarnar-se’, poderíamos dizer), mas não o encontrou em parte alguma, até que ‘o Criador de todas as coisas […] fixou minha morada (ten skenein mou). E disse-me, em Jacó estabelece tua tenda (kataskenoson), em Israel recebe o teu patrimônio […] Na santa Morada [ou Tenda] prestei culto em tua presença, e foi assim que me fixei em Sião’ (Eclesiástico 24.8-10). É fato sabido que essa é exatamente a mesma terminologia aplicada à encarnação da Palavra em João 1.14″ (SKARSAUNE, p. 338-341)

Assim, esta formulação primitiva da doutrina trinitária consistia na confissão de que Jesus era o homem por meio do qual a Sabedoria de Deus atuou entre os homens para sua salvação, até chegar à explícita crença de que ele de fato era a Palavra que se fez carne. E incluía o Espírito Santo como outra expressão da atuação de Deus junto aos homens, mas sem uma distinção muito clara de sua “pessoalidade”.

Uma importante evidência desta doutrina primitiva está nos escritos de Justino Mártir (um dos apologistas, escritores cristãos do século II que defendiam o cristianismo em face de oponentes pagãos no contexto da filosofia helenística).

Em seus escritos, Justino explorou e explicou o conceito de Cristo como o Logos de Deus a fim de esclarecer as crenças cristãs. Para ele, essa ideia – arraigada tanto no pensamento grego como no hebraico – era a chave para desvendar os mistérios do evangelho cristão. Na sua explicação da doutrina, o Logos é o Espírito preexistente de Deus – um segundo Deus – que encarnou em Jesus Cristo. Justino foi um do primeiros cristãos a explicar o conceito do Logos e do Espírito em relação ao Pai por meio da analogia do fogo. Ele disse a Trifão que a geração do Filho (do Logos) do Pai não diminui o Pai de modo algum, porque, assim como o fogo que se propaga, ‘o que inflama muitos corações, não é menor, mas permanece o mesmo’. Embora Justino não tenha explicado de forma clara nem definitivo a distinção entre o Logos e o Espírito como duas entidades da Trindade – tarefa esta que seria cumprida pelos teólogos cristãos posteriores -, estava começando o processo de reflexão trinitária (…). (OLSON, p. 59)

Por outro lado, a “doutrina posterior da Trindade”, que é aceita pela maioria das igrejas cristãs, só foi consolidada por meio da obra dos chamados “pais capadócios” (Basílio de Cesaréia, Gregório Nazianzeno e Gregório de Nissa), assim chamados por serem eclesiásticos da região da Capadócia na Ásia Menor central (Turquia), os quais influenciaram o Concílio de Constantinopla em 381 d. C, que

“se tornou o segundo concílio ecumênico da igreja cristã e ficou marcado por ter dado os retoques finais no Credo de Nicéia, ter anatematizado (condenado e excluído) várias heresias e ter estabelecido a doutrina formal da Trindade elaborada por Atanásio e seus amigos, os pais capadócios, como o dogma ortodoxo e católico obrigatório para todos os clérigos da Grande Igreja.” (OLSON, p. 177)

A consolidação da doutrina cristã da Trindade ocorreu com amplo recurso à metafísica grega clássica. De fato, a compreensão deste contexto filosófico facilita sobremaneira a compreensão do dogma cristão.

E o avanço filosófico reside justamente na definição de que uma só ousia pode ter mais do que uma hypostasis, e, se a ousia não é separável, as hypostasis não serão seres separados. Isto torna a Trindade uma possibilidade dentro desta forma de compreender a realidade.

Então, precisamos definir estes termos.

Ousia significa, em grego, substância, natureza ou essência. Por exemplo, quando falamos da natureza humana, ou do ser divino, estamos falando de ousia.

Por outro lado, hypostasis significa, em grego, pessoa ou identidade pessoal. Por exemplo, quando falamos que fulano é uma pessoa, ou identificamos alguém, estamos falando em hypostasis.

Os esforços dos pais capadócios convergiram na proposição de que Deus é uma só ousia infinita e incompreensível, mas três hypostasis distintas e inseparáveis. Veja o entendimento de Basílio:

“Basílio empregou duas analogias para ajudar a traduzir o sentido. Primeiramente, ilustrou a distinção entre ousia e hypostasis – substância e subsistência – ao referir-se à qualidade humana de três homens hipotéticos: Pedro, Tiago e João. Todos os três são seres humanos e compartilham da mesma natureza universal, ou essência (ousia), da humanidade. Ao mesmo tempo, cada um apresenta características peculiares. Pedro é mais alto que Tiago e João. Isso nada tem que ver com uma desigualdade essencial de sua qualidade humana. O mesmo acontece com as hypostasis do Pai, do Filho e do Espírito Santo: o Pai é não gerado, o Filho é gerado e o Espírito é procedente do Pai. A diferença não deprecia de modo algum sua participação igualitária na substância divina, argumentou Basílio.” (OLSON, p. 188)

É importante perceber, ainda, que esta formulação era assentada no platonismo:

“Para eles [pais capadócios], a substância era um tipo de forma platônica – uma proposição universal verdadeira que, em certo sentido, estava ‘acima’ das coisas individuais. O ‘vermelho’ como forma platônica ou proposição universal de ‘vermelho’, por exemplo, era concebido como verdadeiro, e, em certo sentido, ‘superior’ e ‘mais importante’ que cada coisa vermelha. Basílio e os dois Gregórios pensavam nesses termos a respeito da ousia, ou substância. A natureza humana é uma coisa real – uma proposição universal real da qual participam as pessoas humanas reais e é isso que as torna humanas. Pai, Filho e Espírito Santo, além de não serem três deuses (triteísmo) ao se levar em conta sua substância comum – a divindade -, são, de alguma maneira, mais reais e ‘superiores’ a cada uma de suas pessoas consideradas individualmente” (OLSON, p. 189)

Então, perceba que, pela metafísica grega platônica, uma única ousia poderia ser compartilhada por um número plural de hypostasis. O avanço filosófico alcançado pelos pais capadócios foi perceber que, se a ousia divina é infinita e não pode ser separada em pedaços, isso não é nenhum obstáculo para que essa ousia seja compartilhada por uma pluralidade de hypostasis, desde que a distinção entre as hypostasis não signifique uma separação em ‘pedaços’.

Ou seja, diferente das hypostasis humanas que são separadas entre si, o que permite falar em tantos seres humanos quanto hypostasis humanas há, as hypostasis divinas compartilham uma ousia inseparável que exclui qualquer possibilidade de “divindades separadas” que pudessem ser contadas separadamente, portanto, há um só Deus que corresponde a uma ousia compartilhada por três hypostasis divinas.

As três hypostasis distinguem-se uma das outras por seus relacionamentos entre si (trindade imanente, ou na eternidade: “O Pai é a causa, o fundamento e a origem eterna do Filho e do Espírito Santo. O Filho é aquele que é eternamente gerado pelo Pai e o Espírito procede eternamente do Pai”. OLSON, p. 197) ou para com a humanidade (trindade econômica, ou da economia da salvação), mas não podem ser separados pelos atributos de sua ousia.

Ou, em uma formulação bem simples,

“Três ‘alguém’ podem ser um único ‘algo’, se forem inseparáveis e agirem juntos” (OLSON, p. 199)

Portanto, independente dos problemas da metafísica grega clássica (e da veracidade ou não da doutrina da Trindade), há de se reconhecer que a consolidação da doutrina cristã da Trindade, efetuada pelos pais capadócios e consagrada no Concílio de Constatinopla em 381 d.C, foi um importante avanço filosófico, pela constatação de que uma ousia inseparável e infinita pode ser compartilhada por hypostasis distintas, mas sem nenhuma separação entre estas.

Possibilidade ontológica esta que, apesar de possível dentro do panorama da filosofia grega clássica, foi trazida à tona e articulada apenas quando a problemática teológica de compreender o “Deus é um e três” na Igreja cristã conferiu os incentivos necessários para este exercício filosófico.

________________________________________________________________________

*Isto é, consta da versão católica aceita para o Velho Testamento, mas não da protestante.

Referências:

OLSON, Roger E. História da Teologia Cristã. Editora Vida: São Paulo, 1999.

SKARSAUNE, Oskar. À Sombra do Templo: as influências do judaísmo no cristianismo primitivo. Editora Vida: São Paulo, 2001.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s