Simplicidade e consistência vertical entre as ciências

Ontem descobri que o capítulo do livro “Adapted Mind” (clássico da psicologia evolucionária) que fala sobre integração conceitual está disponível online.

Já enfatizei a importância da integração conceitual das ciências em meu paper sobre naturalismo, e em pelo menos dois textos daqui do blog (aqui, aqui e aqui). Mas, relendo-os, percebo que deveria enfatizar um aspecto que não discuti muito nesses comentários anteriores: a integração conceitual demanda uma consistência vertical.

A consistência vertical significa que as disciplinas que tratam de assuntos mais específicos no universo não podem contradizer as disciplinas que tratam de leis mais gerais do universo.

A nota 1 do capítulo 1º do livro mencionado acima explica bem esta questão. Ocorre que disciplinas como física, química e biologia tem evidente relacionamento vertical. As leis da física aplicam-se no âmbito da química e da biologia, mas nem as leis da química nem as explicações da biologia aplicam-se no campo da física; as leis da física e da química aplicam-se no âmbito da biologia, mas as explicações da biologia não aplicam-se no âmbito da física e da química.

Isso significa, em outras palavras, que o nível mais inclusivo de explicação é sempre aplicável ao nível mais restrito de explicação, mas este, por representar um subconjunto do mais inclusivo, não aplica-se à totalidade de seus elementos.

Por outro lado, como fala-se na nota já mencionada, é verdade também que as explicações no domínio mais restrito não são facilmente redutíveis às explicações ou leis do domínio mais inclusivo. Além disso, temos relacionamentos horizontais que abrangem interseções destes domínios, como na geoquímica, astrofísica, paleodemografia e neurofarmacologia.

Ainda assim, resta claro que o domínio mais restrito de explicação não pode contradizer o domínio mais geral, o que nos leva a conclusões triviais, como a de que as ciências humanas não podem contradizer as ciências naturais.

Mas eu gostaria de explorar um pouco mais longe do que a nota 1 do capítulo daquele livro. O objetivo é tentar sanar uma possível dúvida do leitor: por que haveria essa “subordinação” do menos inclusivo ao mais inclusivo em termos de explicação científica?

A resposta é simples, com o perdão do trocadilho: a simplicidade obtida na explicação da realidade de nosso universo.

Quine, em seu livro “Palavra e Objeto”, explica bem o porquê da simplicidade ser um objetivo pragmaticamente valioso para o senso comum e para a ciência, respectivamente:

De qualquer maneira, podemos dizer que considerações acerca de simplicidade, em algum sentido, determinam até mesmo os atos mais casuais de identificação particular do observador menos inquisitivo. Pois ele está continuamente tendo de decidir, mesmo que implicitamente, se deve construir dois encontros particulares como encontros repetidos com um objeto físico idêntico, ou como encontros com dois objetos físicos distintos. E ele decide de forma a minimizar, segundo o melhor de sua habilidade inconsciente, tais fatores como multiplicidade de objetos, rapidez de mudança provisória de qualidade ou posição, e, em geral, irregularidade da lei natural. (…) O mecanismo neurológico da propensão à simplicidade é indubitavelmente fundamental apesar de desconhecido, e seu valor de sobrevivência, extraordinário. (QUINE, 2010, p. 42-43)

E:

Um benefício concomitante da simplicidade que pode não ser notado é o de que ela tende a aumentar o escopo da teoria – sua riqueza em consequências observáveis. Seja θ uma teoria, e seja C a classe de todas as consequências testáveis de θ. A teoria θ nos terá sido sugerida por algum conjunto K de observações anteriores, uma subclasse de C. Em geral, quanto mais simples θ, menor a porção de K de C que terá sido suficiente para evocar θ. Dizer isso é apenas repetir a observação anterior: de que a simplicidade é aquilo que guia a extrapolação. Porém a relação também pode ser descrita de forma invertida: dado K, quanto mais simples θ, mais inclusiva C tenderá a ser. Concedido isso, verificações subsequentes de C poderão eliminar θ; enquanto isso, há ganho em escopo. (QUINE, 2010, p. 43-44)

Veja que a simplicidade é importante porque estamos, preferencialmente, atrás de explicações que expliquem mais e que tenham consequências mais sistemáticas no todo de nosso conhecimento.

Teorias mais simples também são mais resilientes à confrontação com a experiência, uma vez que, na concepção quineana, vê-se que nós, pragmaticamente, à luz de uma experiência conflitante com o que já sabemos, revisar os enunciados que estão “na periferia” de nosso conhecimento, ou seja, aqueles enunciados que menos consequências sistemáticas terão para o “todo da ciência” caso nós abramos mão deles.

Por exemplo, na esmagadora maioria (talvez em todos) dos casos, não vale a pena você revisar a aritmética fundamental para “salvar” uma hipótese bem específica que foi contradita pela experiência. O motivo é que, se optarmos por revisar a aritmética fundamental, teríamos de revisar todas as nossas hipóteses científicas fazendo os ajustes necessários. Por outro lado, se optarmos por considerar aquela hipótese bem específica como falsa, poucas consequências advirão disso para o “todo da ciência”.

Portanto, veja que a simplicidade é favorecida pelo fato de que a revisão de hipóteses mais específicas abala menos o “edifício da ciência” do que a revisão de leis muito gerais. Isso não quer dizer que estas leis mais gerais não sejam revisáveis, mas sim que não é uma boa prática científica sempre tentar revisá-las à luz de fenômenos muito específicos, que abrangem apenas pequena parte do conjunto de fenômenos sob estas leis gerais.

Agora, se estamos argumentando que a consistência vertical é pragmaticamente valiosa para a ciência, seria importante destacar que aspecto do mundo validaria este valor pragmático.

Referido aspecto está na “causação” e no “compartilhamento de atributos” entre os objetos do mundo. Vamos dar um exemplo simples para esclarecer isto.

Conforme o Modelo Padrão da Física de Partículas, todos os seres humanos são compostos de átomos. Isso é uma característica que eles compartilham com grande parte dos objetos do universo, por exemplo, com as rochas e com os animais.

Ora, se esta característica é compartilhada com outros objetos do universo, isso significa que há alguma explicação sobre estes átomos que aplica-se a todos estes objetos, de homens à rochas.

Por outro lado, rochas não têm células, mas seres humanos e animais as têm. Isso significa que há uma explicação sobre estas células que aplica-se a todos os objetos que tenham células, mas não as que não as tenham.

Mas… do que células são formadas? Por átomos. Logo, uma célula só existe se houver certa combinação de átomos, e, portanto, neste sentido, a combinação de átomos é causalmente necessária para a existência da célula, mas o contrário não é verdadeiro (há combinações de átomos que não são células).

Conclusão deste exemplo: a explicação para formação das células aplica-se a menos objetos no mundo que a explicação para os átomos, e a explicação para formação de células depende de uma explicação para os átomos.

Ou seja, digamos que F (contendo a, b, c, d) seja uma classe de fenômenos, explicada sob a lei geral G. Se nós fazemos uma explicação específica E para os elementos {a,b}, por quaisquer que sejam suas particularidades (digamos, animais e humanos), isto é uma explicação específica para {a, b} de um traço por eles não compartilhados com {c,d} (digamos, rochas e água), e, portanto, inaplicável à {c, d}.

Ainda assim, isso não tira a validade da lei G para {c,d}. Por outro lado, como a lei G explica o traço compartilhado por {a, b, c, d}, isso significa que a explicação E para um traço de {a, b} que deriva do traço compartilhado por {a, b, c, d} não pode contradizer a lei G.

Logo, para {c, d} vale a lei G e ~E (não-E), enquanto para {a, b} vale a lei G e a lei E: sendo G verdadeira, caso E implique em ~G (não-G), então E é falsa.

Referências:

JÚNIOR BRITO, Valdenor Monteiro. Sobre o Naturalismo em Ética e Política. In:AMAZÔNIA EM FOCO: CIÊNCIA E TECNOLOGIA, v. 2, n. 3 (2013).

Cosmides, L., Tooby, J. & Barkow, J. (1992). Evolutionary psychology and conceptual integration. In J. Barkow, L. Cosmides, & J. Tooby (Eds.), The adapted mind: Evolutionary psychology and the generation` of culture. New York: Oxford University Press.

QUINE, Willard Van Orman. Palavra e Objeto. Petrópolis, RJ: Vozes, 2010.

NASCIMENTO, Marcos Bulcão. O REALISMO NATURALISTA DE QUINE: Crença e Conhecimento sem Dogmas. Unicamp.

Textos daqui do blog, com suas respectivas referências: aqui, aqui e aqui.

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