Transhumanismo, singularidade tecnológica e neuroética no filme Transcendence

Se você ainda não assistiu, corra para ver:

transcendenceO filme “Transcendence“, que estreou no dia 19 de junho de 2014, é um filme de ficção científica que aborda a jornada do dr. Will Caster e de sua esposa Evelyn para construir uma inteligência artificial que adquirisse consciência e superasse a inteligência humana, de modo que, como Evelyn gostaria, o mundo se tornasse um lugar muito melhor para a humanidade. [Alerta de Spoiler]

Só que os planos dão errado: um atentado terrorista põe em risco a vida de Will Caster e o programa acaba sendo fechado. Mas, Evelyn, com a ajuda do melhor amigo do casal, Max Water, faz uma tentativa arriscada para salvar a vida do seu marido. 6 meses antes, a mente de um macaco tinha sido copiada para dentro de um computador. Será que não seria possível fazer o mesmo com a mente de Will Caster, possibilitando que ele sobrevivesse por meio de um upload?

E, de fato, eles conseguem. A mente de Will Caster é processada pelo computador, como um software que está rodando na máquina. Posteriormente, a mente dele tem acesso a todo conteúdo da internet, não dependendo mais para sobreviver de um computador específico.

E para não sofrer nenhum ataque por parte do mesmo grupo terrorista que tentou matá-lo, Evelyn foge para uma cidade praticamente deserta, onde ela e Will Caster criam um centro de pesquisas em seu subterrâneo, para dar continuidade ao objetivo de “melhorar o mundo”.

Para compreender melhor o contexto de certos aspectos abordados no filme, é importante ter em mente conceitos como transhumanismo, singularidade tecnológica e neuroética. O filme permite uma ampla e interessante discussão sobre esses temas, como mostrarei nos comentários a seguir.

I – Transhumanismo:

transhuma

Transhumanismo é um movimento filosófico cujo objetivo é o aprimoramento – mesmo transformação radical – da natureza humana por meio de uma série de tecnologias: a criogenia, realidade virtual, terapia genética, cibernética, upload mental (o que ocorreu com Caster no filme), entre outras.

O objetivo do casal protagonista é alcançar um futuro transhumano, onde doença e deficiências deixem de existir. E, de fato, após 2 anos, Caster consegue projetar a tecnologia necessária: por meio de uma nanotecnologia incrivelmente avançada, é possível regenerar automaticamente os tecidos do corpo humano (inclusive curando cegos de nascença e ferimentos de arma de fogo), além de aumentar suas capacidades físicas, o que torna as pessoas com nanorrobôs praticamente imortais.

É uma possibilidade tão extraordinária esta – a eliminação virtual da doença e da morte – que desafia mesmo algumas concepções bastante consagradas do que definiria a humanidade. Mas, antes do upload mental sofrido, Caster já respondera muito argutamente, ao interlocutor que o pergunta “Vocês não estão tentando criar deus?”, que o fato é que a humanidade sempre está tentando fazer isso.

A eliminação da varíola e o aumento impressionante na expectativa de vida desde o século retrasado, por exemplo, diferem apenas em grau da eliminação de todas as patologias e da postergação da morte por um tempo indeterminado (ou mesmo sua virtual eliminação).

A luta da humanidade na medicina e na ciência aplicada tem sido uma luta contra as limitações do homem que o impedem de ter um padrão de vida ainda melhor do que aquele que seus antepassados tiveram. A cada vitória sobre doenças específicas ou sobre a morte prematura, o ser humano almeja por mais.

É claro que o transhumanismo, portanto, cativa muitos de nossos “mitos formadores”, como as ideias de “eterna juventude” ou de “bem-aventurança eterna”, presentes em inúmeras religiões e lendas. O que permite algumas críticas quanto ao que seria uma “nova fé” que, do alto da inventividade e do gênio da ciência, estaria volvendo-se em certa ingenuidade, como na crítica feita por Daniel Omar Stchigel.

Stchigel imagina um cenário onde pessoas estão fazendo o que Caster fez: transferir seus estados mentais, de uma forma consistente (para que salvaguarde assim a identidade pessoal e a ‘unidade’ da mente), para a base física de um computador central de robôs. Ao fim da transferência, como também ocorreu com Caster, o corpo orgânico é deletado. Mas

“suponhamos que o argumento do quarto chinês de Searle, ou que a ideia de funcionamento quântico da mente de Penrose, ou que a ideia de Varela segundo o qual a inteligência é fruto somente da interação evolucionária ente mente, corpo e ambiente, estejam corretas. Nesse caso, sem sabê-lo, a humanidade se teria auto-destruído com base em uma fé sem fundamentos na imortalidade tecnológica. Talvez se salvariam somente aqueles que não poderiam pagar a imortalidade. (STCHIGEL, p. 135, tradução livre)

São riscos temidos no próprio filme. O amigo do casal já citado, Max Water, sempre teve bastante ceticismo em relação ao fato do “programa de computador que replica a mente de Caster” seja mesmo Caster. Ele é retratado como uma figura que teme certas implicações dos avanços tecnológicos, ainda que não fosse um radical contrário à tecnologia.

E este tipo de dificuldade – desde questões de identidade pessoal até sobre a natureza da simulação computacional versus a realidade simulada – suscita questões bem intrigantes e bastante discutidas no âmbito da filosofia da mente, de difícil resolução.

Mas o fato é que a psicologia cognitiva atual tem uma abordagem funcionalista para a mente, tratando-a como um sistema de processamento de informação análogo ao software que roda nos computadores – e tratá-la dessa forma tem permitido grande sucesso neste campo.

O que se espera, portanto, é que, um dia, a ciência mesma possa responder aquelas perguntas filosóficas – só ainda estamos longe de saber como o fará e qual será precisamente o conteúdo de tais respostas.

“Embora talvez não tenha grande apelo para os que se sentem atraídos pelo exótico da ficção científica, ou pelos meandros da metafísica, o verdadeiro triunfo do darwinismo foi a tradução de perguntas irrespondíveis em perguntas que, quando modestamente adequadas, podem ser respondidas. As origens da humanidade e, em última análise, a natureza humana não são questões filosóficas, mas técnicas.” (Robert Foley, p. 37, grifo meu)

A nossa mente, criada pelo “relojoeiro cego” da seleção natural darwiniana, será cada vez mais decifrada com os avanços da psicologia cognitiva e da neurociência, entre outras disciplinas. “Eu quero compreender o mundo primeiro”, como diz Caster no filme.

II – Singularidade tecnológica:

era_maquinas_gVocê gostaria de poder prever o futuro? Existe um recurso que não depende de “poderes especiais ou sobrenaturais”: os “futures studies“, também conhecidos como “futurologia” ou “futurismo”.

Os “futures studies” não são propriamente ciência. Mas é uma disciplina que trabalha com dados e teorias científicas para elaborar possíveis ou prováveis cenários futuros. Daí que não seja descartável como uma especulação sem qualquer embasamento, mas também não pode ser tratada como um resultado científico rigoroso.

A singularidade é um evento histórico estimado para o futuro (geralmente meados do  século atual) onde uma acelerada mudança tecnológica afetará para sempre o curso dos assuntos humanos, transformando-os radicalmente. Uma estimativa deste evento é dada por Ray Kurzweil, no comentário de John N. Gardner:

“As limitações que transcenderemos serão mentais e físicas. Kurzweil prevê que, dentro de duas décadas, teremos dispositivos do tamanho de computadores pessoais capazes de competir com a inteligência de nível humano, e modelos em software dos processos de pensamento humano em meados da década de 2020. Quando as máquinas atingirem esse nível de sofisticação e lhes for dado o poder de melhorar o próprio projeto, elas inevitavelmente deixarão para trás o nosso cérebro biológico, adquirindo habilidades mentais que mal podemos imaginar.” (GARDNER, p. 74)

Uma das principais bases pela qual se estima a ocorrência da singularidade é a chamada “Lei de Moore dos Circuitos Integrados”:

“Os tamanhos dos transistores são cortados pela metade a cada 24 meses, portanto tanto a capacidade de computação (isto é, o número de transistores em um chip) e a velocidade de cada transistor dobram a cada 24 meses”. (KURZWEIL, p. 51)

Veja que isso se trata de um crescimento exponencial, acelerado. E Kurzweil salienta que a Lei de Moore nem é o principal, uma vez que é apenas uma aplicação mais específica da “Lei dos Retornos Acelerados” na computação:

“A Lei dos Retornos Acelerados: à medida que a ordem aumenta exponencialmente, o tempo acelera exponencialmente (isto é, o intervalo de tempo entre eventos relevantes fica menor com o passar do tempo).” (KURZWEIL, p. 53)

A Lei de Moore passará; a Lei dos Retornos Acelerados, não, é o que afirma Kurzweil:

“Como o poder da computação continuará a se acelerar depois que a Lei de Moore morrer? Estamos apenas começando a explorar a terceira dimensão em design de chips. A grande maioria dos chips de hoje é achatada, ao passo que nosso cérebro é organizado em três dimensões. Vivemos em um mundo tridimensional, então por que não utilizar a terceira dimensão? Aperfeiçoamentos em materiais semicondutores, incluindo circuitos supercondutores que não geram calor, nos permitirão desenvolver chips – isto é, cubos – com milhares de camadas de circuitos que, combinados com geometrias de componentes muito menores, irão melhorar o poder de computação por um fator de muitos milhões. E existem mais do que o bastante de outras novas tecnologias de computação esperando sua chance: nanotubos, óptica, cristalina, DNA e quântica (…) para manter a Lei dos Retornos Acelerados no mundo da computação por um tempo muito longo.” (KURZWEIL, p. 60)

Ocorrendo a singularidade, teríamos a emergência de inteligências superiores à humana, e que poderão projetar inteligências ainda maiores, em uma escala exponencial

É o que ocorre em “Transcendence“: Caster se torna esta inteligência superior, muito além da humana, capaz de processar, codificar e recuperar informação em uma quantidade colossal.

O fato dele ter se tornado uma “inteligência transcendente” o torna, por vezes, incompreensível e difícil de entender, mesmo por sua esposa. No filme, isso lança dúvidas, inclusive nela, sobre ser Caster a mesma pessoa ainda. Afinal, após tal inacreditável expansão em sua inteligência para níveis muito além do humano, poderia-se falar ainda em “Caster, o cientista excêntrico com que convivemos e era humano como nós”? Questão que atormentará Evelyn, levando o filme a um desfecho…

E Gardner, em artigo para a Complexity, republicado como anexo em seu livro “O Universo Inteligente”, cita a visão de Freeman Dyson, exposta em “Infinite in All Directions“, acerca de uma inteligência superior como essa:

 “O que a mente fará quando estiver informando e controlando o universo? Essa é uma pergunta que não podemos ter a esperança de responder. Quando a mente tiver expandido seu alcance físico e organização biológica em muitas potências de dez além da escala humana, não poderemos ter a esperança de compreender seus pensamentos e sonhos, assim como uma borboleta Monarca não pode entender os nossos… Ao contemplar o futuro da mente no universo, exaurimos os recursos da nossa débil ciência humana. É nesse ponto que a ciência termina e a teologia começa.” (DYSON apud GARDNER, p. 249)

Sim, é pedir demais que homens como nós, mesmo com o melhor de nossa ciência e mesmo filosofia, compreendam o que se passa em uma mente com inteligência tão superior à humana. Não consideramos que os chimpanzés estão obrigados a compreender os seres humanos… Mas será que uma inteligência tão superior não tem obrigações para com os seres humanos cuja inteligência ultrapassou?

III – Neuroética:

O filme lança uma série de questionamentos éticos tormentosos. E, de fato, o desenvolvimento da neurociência também tem suscitado debates morais e a questão por uma “neuroética”.

Como afirma o The Oxford Centre for Neuroethics:

“A neurociência estuda o cérebro e a mente, e, assim, alguns dos aspectos mais profundos da existência humana. Na última década, avanços em imageamento e manipulação do cérebro têm suscitado desafios éticos, particularmente sobre os limites morais do uso de tal tecnologia, levando a uma nova disciplina da neuroética. (…) ” (tradução livre)

Inclusive a neuroética vai além das questões morais envolvidas no uso da tecnologia, adentrando nas consequências sistemáticas que nosso entendimento maior do cérebro produz em várias áreas da ética e do próprio Direito:

“Quais você pensa serem alguns dos mais interessantes tópicos em neuroética atualmente?

Eu citaria questões de melhoramento cognitivo, drogas e intervenções que afetam a identidade de uma pessoa; privacidade cerebral; e a base neural da moralidade, ou o que nós chamamos de cognição moral, como sendo as áreas realmente interessantes. Outro ponto é a compreensão da neurobiologia da tomada de decisão; que por si mesmo não é neuroética em sentido estrito, mas, na medida em que aplica-se a áreas como o marketing, começa a tocar em preocupações éticas”  (Perguntas e Respostas com Stephen Hyman, tradução livre)

Questionamentos neuroéticos significativos são suscitados por certos comportamentos de Caster.

Um deles é que o aparato de nanotecnologia que ele coloca no corpo das pessoas que desejam serem curadas de alguma doença ou não mais morrer, como contrapartida, permite que Caster controle o corpo dessas pessoas, aparentemente sem o consentimento delas.

Outro comportamento questionável é que Caster cria uma chuva cujas gotas estão cheias dos nanorrobôs por ele criados. O objetivo é que esses nanorrobôs entrem nos corpos de seres humanos, compulsariamente ligando todos à “rede nanorrobótica” possuída e controlada por Caster, e sendo todos obrigados a aceitar esta “imortalidade tecnológica”. Algo como a “graça irresistível” da teologia cristã calvinista, ou uma faceta do desejo de controle e poder?

E outra destas posturas – que desafia a confiança que Evelyn nele deposita – é que ele cronometra e contabiliza todas as variações hormonais, eletroquímicas, etc. que ocorrem em Evelyn, permitindo a ele saber o que se passa com ela em termos de sentimentos, emoções, etc. Evelyn reclama seu direito à privacidade cerebral e fisiológica diante dessa pretensão de Caster.

De fato, em tempos de crescente capacidade de leitura do que acontece no interior do indivíduo, crescerá a importância da “liberdade de pensamento” enquanto liberdade neural. Transcrevo aqui a nota escrita pelo professor André Coelho, sobre uma exposição de paper por ele vista no IVR-2013:

“A segunda conferência de ontem foi ministrada pelo Prof. Jan Christoph Bublitz (Universität Hamburg), que, num inglês límpido e fluente, que nada deixaria a desejar a um falante nativo, deu uma das melhores palestras que vi em muito tempo no Direito.

Sua tese era de que os pensadores clássicos do liberalismo moderno todos celebraram a “liberdade de pensamento” como uma das liberdades mais básicas e indispensáveis, mas, ao mesmo tempo, caracterizaram o pensamento como algo tão íntimo, inacessível e incontrolável que tornaram a liberdade de pensamento inútil do ponto de vista prático, pois não havia qualquer situação em que o Estado ou outro indivíduo estivesse violando precisamente esta liberdade, e não, por exemplo, a de crença, a de culto, a de expressão ou de manifestação.

Contudo – e aí vem a parte fantástica da coisa -, os novos desenvolvimentos científicos e tecnológicos relativos ao cérebro humano criaram situações reais em que faz sentido o ser humano reclamar o direito que tem à autodeterminação de seu pensamento.

Experimentos de leitura de atividade cerebral são capazes de determinar o que alguém está pensando, como se sente em relação a coisas ou pessoas, que função cerebral está exercitando, com o que está sonhando e o que pretende fazer em seguida.

O direito de liberdade de pensamento poderia, no futuro, ser o direito com base no qual somos protegidos contra o uso indiscriminado deste tipo de leitura.

Ao mesmo tempo, estimuladores elétricos e compostos farmacêuticos são capazes de estimular zonas e atividades cerebrais específicas, mas existe muito receio no meio científico em relação aos possíveis efeitos de dependência química e emocional que isto pode ter.

Neste caso, o cuidado para evitar estes efeitos poderia ser um limite razoável à liberdade de pensamento, mostrando que ter autodeterminação sobre o próprio pensamento não implicaria ter completa liberdade para autoestimular ou autodopar o cérebro da maneira que bem se queira. Contudo, tais limites parecem estar associados a tipos novos e específicos de paternalismo no que se refere à relação de cada um com seu próprio cérebro.

Por fim, a liberdade de pensamento poderia ser também invocada para outro novo uso, que é o de limitar a manipulação indiscriminada da atividade cerebral por efeito de sugestão ou associação, explícita ou subliminar, de certos produtos ou mensagens com imagens, cores, personagens, músicas etc., tal como se faz bastante na publicidade privada e pública.

Neste último caso, a liberdade de pensamento implicaria a liberdade de não ser manipulado contra a sua vontade por uso de mecanismos de sugestão que estão para além de seu controle consciente, o que poderia justificar algum tipo de regulamentação limitadora da exploração da propaganda.

Devido ao tempo disponível, o Prof. infelizmente não pôde esgotar todos os outros exemplos que ia dar e mais a concepção nova que ia sugerir de como definir a liberdade de pensamento para estes novos tempos de avanços da neurociência.

Mas isto em nada diminuiu o vigor com que a plateia encantada o aplaudiu no final, inclusive, claro, eu, que fiquei abismado com a originalidade da ideia de recuperar a velha liberdade de pensamento, em sentido revisado, para dar conta destes novos riscos e possibilidades da tecnologia mais recente. (COELHO, André)

Um dos papers do professor Jan Christoph Bublitz que tratam sobre isso pode ser encontrado aqui e outro aqui (infelizmente, não está disponível gratuitamente, mas o leitor pode tentar procurar). Mas nem é preciso concordar na íntegra com ele para ter em mente que uma importante causa da liberdade nos séculos vindouros será a liberdade cerebral.

Curiosamente, no filme, mostra-se que Caster nunca permitiu o financiamento ou intromissão do governo federal americano em seu projeto. O projeto era financiado por doações voluntárias. E fica sugerido que Caster desconfia do governo – um adequado ceticismo perante as instituições governamentais e suas burocracias, tendo em vista a tentação de seu uso para aumentar o controle sobre as liberdades civis.

Ironicamente, os opositores de Caster jogam esta acusação contra ele, afirmando que o poder que ele conseguiu (por meio da inteligência altamente evoluída) o corrompeu, e por isso o levou a fazer um exército, incluindo a tentativa de compulsoriamente tornar todos os humanos participantes de sua rede de nanorrobótica.

Ocorre que um dos aspectos que me agradou muito no final do filme é que ele não dá um parecer definitivo sobre “qual lado” estava certo. Ele mostra que a oposição contra Caster tinha seus motivos, um dos quais a própria defesa da liberdade neural e corporal diante de uma inteligência muito superior que não estava respeitando esta autonomia humana. Mas…

No que é uma das cenas mais intensas do filme, Evelyn tem sua mente transferida também, e ela compartilha dos pensamentos de Caster. Ela vê o grande projeto de Caster, que era o projeto dela mesma de mudar o mundo e transformá-lo no melhor dos mundos possíveis, erradicando todo o sofrimento e a dor, solucionando a pobreza e os problemas ambientais. Trazer o céu para a terra. E Evelyn… se arrepende por ter duvidado dele e ter deixado ser infectada pelo vírus que derrubaria a internet e acabaria com Caster (e ela mesma).

E não é que, no final, a inteligência suprema de Caster, agora unida à mente de Evelyn, não bolou uma forma de sobreviver à própria destruição da internet? É o que o final nos sugere, afinal, uma inteligência tão colossal teria de prever estes passos também. O que era ainda de demasiado humano nele é que confiou incondicionalmente em Evelyn ao vê-la ferida, com a possibilidade de perdê-la para sempre. Juntos para sempre.

Mas o fato é que mesmo uma inteligência suprema dessas, com todas as suas boas intenções, não deve afrontar a liberdade do ser humano, caso este a exerça pacificamente.

Uma ética devidamente naturalizada, como já expus aqui (e sairá em futuro paper), pode justificar esta minha afirmação, por meio do core principle of ethics e da “ética como braço mais reflexivo e abstrato da ecologia humana”, pelo que remeto à explicação que ali fiz deste assunto. Você também pode conferir o que já escrevi sobre a ética da eugenia.

E, se estas questões éticas não lhe são suficientes, uma inteligência tão suprema como a de Caster não poderia moldar o destino do próprio Cosmos? Até mesmo, caso o universo configure-se como uma Curva Temporal Fechada, criá-lo no passado (hipótese do Biocosmos Egoísta), de modo que é este futuro da inteligência que cria o universo e é o universo que possibilita a emergência dessa inteligência (coevolução passado-futuro)? Gardner explora as implicações éticas disto:

“Meu primeiro livro identificou três insights e imperativos éticos de importância-chave que derivam da nova teoria cosmológica [hipótese do Biocosmos Egoísta, vide acima]:

Primeiro, que a humanidade é eticamente obrigada a salvaguardar o bem-estar das gerações futuras.

Segundo, que um espírito de altruísmo neutro no que diz respeito a espécies, deve informar nossas interações com outras criaturas vivas e com o ambiente que compartilhamos.

Terceiro, que nós e outras criaturas vivas do cosmos somos parte de uma imensa -e ainda não descoberta – comunidade transterrestre de vidas e inteligências espalhadas por bilhões de galáxias e incontáveis parsecs coletivamente engajadas numa missão prodigiosa de importância cósmica. Sob a visão do biocosmos, compartilhamos um destino comum com essa comunidade – ajudar a formar o futuro do universo e transformá-lo, de uma coleção de átomos sem vida numa imensa mente transcendente.

A implicação inevitável da hipótese do Biocosmos Egoísta é que a imensa saga da evolução biológica na Terra é um minúsculo capítulo de uma narrativa perene da luta da força criativa da vida contra o ácido desintegrador da entropia, da ordem emergente contra o caos invasor e, finalmente, do poder heroico da mente contra a intransigência bruta da matéria sem vida. Através da qualidade e do caráter de nossa contribuição para o progresso da vida e da inteligência nessa luta épica, moldamos não apenas a nossa vida e a da nossa prole imediata, mas também a vida e a mente de cada geração de criaturas vivas até o final dos tempos. Ajudamos assim a moldar o destino final do próprio cosmos.” (GARDNER, p. 181-182)

Claro que não sabemos se a hipótese do Biocosmos Egoísta é verdadeira, e temos mais razões para aderir a outras teorias cosmológicas, até pelo fato de que as condições de falseabilidade do “Biocosmos Egoísta” são difíceis de verificar-se (o sucesso do projeto SETI e o surgimento da singularidade são previsões da hipótese…) e outras teorias tem maior suporte empírico, mas não deixa de ser uma possibilidade interessante e com implicações éticas peculiares.

Diante de toda a reflexão exposta, a nós humanos, cujas vidas ganham sentido existencial de fontes tão diversas, penso eu que cabe uma dupla reflexão. Uma é de Robert Nozick (com a qual fechou com chave de ouro sua notável carreira na filosofia). Outra é de André Comte-Spomville.

“Não há pontos fixos em filosofia, ou no próprio desenvolvimento humano. O que é humano pode mudar. Conhecimento científico e genético vindouro tornará possíveis grandes alterações em nossa natureza humana herdada e em nossos poderes intelectuais; e nossos descendentes também encontraram seres inteligentes vastamente diferentes em outros lugares. (De que ética eles precisarão, ou serão movidos a criar?) Nós não sabemos como a filosofia do futuro se parecerá; nós nem mesmo sabemos como os filósofos do futuro se parecerão.

Não é possível (para nós) olhar a criança e saber como será o adulto em que ela se tornará, ainda que nós sejamos capazes de olhar um adulto e ver como ele pode ter vindo da criança cuja fotografia nós agora vimos. Então também podemos esperar, mesmo enquanto não possamos representar os filósofos do futuro, que, independente de que substâncias eles serão feitos e de qualquer que sejam as novas coisas que eles descobrirão e as novas questões que eles postularão e quaisquer que sejam as complexas interconexões que eles estabelecerão em alterar suas fronteiras e os níveis de sua consciência e cognição, eles serão capazes de olhar de volta para nós e reconhecer-nos como um parente. Filosofia começa na maravilha. Ela nunca termina.” (NOZICK, p. 300-301)

E:

“A eternidade não é uma outra vida, mas a verdade desta. (…) A verdade é que não há sabedoria: há apenas a vida humana, tal como ela é, tal como passa, aberta para o todo que a contém, para as outras que com ela convivem, sempre presente, sempre efêmera, comovente de tanta fragilidade, de tanta solidão (mesmo no amor – sobretudo no amor!) e, por fim, em quase todos, apesar do medo e da fadiga, de tanta coragem. Os sábios? São aqueles que se contentam com essa vida, isto é, que com ela se regozijam, sem por isso renunciar a mudá-la – pois toda mudança faz parte dela (…).” (COMTE-SPONVILLE, André; p. )

 Referências:

(por completar)

3 respostas em “Transhumanismo, singularidade tecnológica e neuroética no filme Transcendence

  1. Estou abismado com esses temas. Nunca tinha lido ou ouvido sobre eles e de certa forma o filme “Transcendence” me mostrou a existência dessas discussões.

    Assim que terminei de assistir o filme achei este artigo e desde já agradeço as referências, espero continuar curioso pelo assunto.😉

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s