Há uma relação direta entre limpar seu banheiro você mesmo e abrir sem medo um Mac Book no ônibus?

No texto “Da relação direta entre ter de limpar seu banheiro você mesmo e poder abrir sem medo um Mac Book no ônibus“, do blog The Dude’s Talk, Daniel Ducs defende que a causa da violência brasileira é a desigualdade social, fazendo uma comparação com a situação vivenciada por ele na Holanda.

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As teses apresentadas no texto são as três seguintes:

1) É um fato que a Holanda tem maior igualdade no trato social entre pessoas de diferentes profissões e empregos: No Brasil, alguns trabalhos e funções são estigmatizados, há uma cultura de tratar pessoas em empregos de baixa remuneração como subalternas socialmente. Já na Holanda, isso não ocorre. Lá “você ganhar mais porque tem uma profissão especializada não te torna melhor que ninguém”. E isso causa confusão aos brasileiros que migram para lá: “Entre brasileiros que aqui vêm para trabalhar e morar é comum – há exceções –  estranharem serem olhados no nível dos olhos por todos – chefe não te olha de cima, o garçom não te olha de baixo. Quando dão ordens ou ignoram socialmente quem tem profissão menos especializadas do que a sua, ficam confusos ao encontrar de volta hostilidade em vez de subserviência.”

2) A explicação para esta maior igualdade no trato social da Holanda em relação ao Brasil está na maior igualdade de renda onde as pessoas encontram-se próximo da média em seus rendimentos: “Profissões especializadas pagam mais, mas não muito mais. Igualdade social significa menor distância social: todos se encontram no meio. Não há muito baixo, mas também não há muito alto. Um lixeiro não ganha muito menos do que um analista de sistemas. O salário mínimo é de 1300 euros/mês. Um bom salário de profissão especializada, é uns 3500, 4000 euros/mês.” e “Os salários pagos para profissão especializada no Brasil conseguem tranquilamente contratar ao menos uma faxineira diarista, quando não uma empregada full time. Os salários pagos à mesma profissão aqui [na Holanda] não são suficientes pra esse luxo, e é preciso limpar o banheiro sem ajuda (…). De repente, a ficha do que realmente significa igualdade cai: todos se encontram no meio, e pra quem estava no Brasil na parte de cima, encontrar-se no meio quer dizer descer de um pedestal que julgavam direito inquestionável”.

3) Maior igualdade de renda tem como consequência menor insegurança urbana: “O curioso é que aqueles brasileiros [residentes na Holanda] que queixam-se amargamente de limpar o próprio banheiro, elogiam incansavelmente a possibilidade de andar à noite sem medo pelas ruas, sem enxergar a relação entre as duas coisas. Violência social não é fruto de pobreza. Violência social é fruto de desigualdade social. ” e “Não gosto mais do que qualquer um de limpar banheiro. Ninguém gosta – nem as faxineiras no Brasil, obviamente. Também não gosto de ir ao médico fazer exames. Mas é parte da vida, e um preço que pago pela saúde. Limpar o banheiro é um preço a pagar pela saúde social. E um preço que acho bastante barato, na verdade.”

Parece-me que há um problema com essas teses (exceto a primeira, que é a constatação de um fato). Exporei os motivos, distribuídos nos seguintes tópicos:

1) A diferença no tratamento social entre Brasil e Holanda tem relação com a desigualdade de renda?

2) Igualdade de renda reduz a violência?

a) Países com maior igualdade de renda têm menor criminalidade sempre e vice-versa?

b) Se existir essa relação entre maior igualdade e menor criminalidade, como devemos interpretar esse fenômeno?

b.1 Distribuição livre ideal, da perspectiva dos assaltantes

b.2) A cobiça pelos bens de luxo alheios é justificativa para privar todos (ou a maioria) desses bens?

Passemos, então, aos tópicos:

1) A diferença no tratamento social entre Brasil e Holanda tem relação com a desigualdade de renda?

A tese de que a diferença no tratamento social entre pessoas no Brasil e na Holanda difere em vista de que não há grandes disparidades de renda, que pudesse de algum modo levar a um preconceito contra os trabalhadores de baixa remuneração, é plausível, mas não me parece que Daniel Ducs possa afirmar isso conclusivamente.

Especificamente quanto ao Brasil, muito desse tratamento social parece-me mais uma herança cultural que envolve várias questões da nossa história, como a escravidão, a ideia de trabalho manual como algo indigno, a cultura do “você sabe com quem está falando” (que é mais imediatamente sobre desigualdade de autoridade do que de renda), etc.

Então, é possível que a desigualdade de renda seja mesmo um fator que fortalece a diferenciação no tratamento social entre os dois países, mas está longe de ser claro que seja o principal. (além disso, as causas subjacentes da desigualdade de renda no Brasil também pode interferir mais fortemente que a desigualdade por si só, então temos algumas possibilidades a serem discriminadas)

Logo, neste ponto, entendo que o texto não é conclusivo, mas estabelece uma relação que pode ter influência sim.

2) Igualdade de renda reduz a violência?

Esse ponto deve ser dividido em dois sub-tópicos: a) países com maior igualdade de renda têm menor criminalidade sempre e vice-versa? b) se existir essa relação entre maior igualdade e menor criminalidade, como devemos interpretar esse fenômeno?

a) Países com maior igualdade de renda têm menor criminalidade sempre e vice-versa?

Entendo que o texto de Daniel Ducs não seja acadêmico e, de fato, não é uma compilação de vários dados disponíveis na tentativa de encontrar correlações (que alguns utilizam para defender a mesma relação que ele propõe).

Mas parece-me que não está bem claramente defendido o porquê a igualdade social, e não, por exemplo, a menor pobreza, é a responsável pela menor criminalidade na Holanda em relação ao Brasil. Vejamos o parágrafo em que ele justifica isso:

“O curioso é que aqueles brasileiros que queixam-se amargamente de limpar o próprio banheiro, elogiam incansavelmente a possibilidade de andar à noite sem medo pelas ruas, sem enxergar a relação entre as duas coisas. Violência social não é fruto de pobreza. Violência social é fruto de desigualdade social. A sociedade holandesa é relativamente pacífica não porque é rica, não porque é “primeiro mundo”, não porque os holandeses tenham alguma superioridade moral, cultural ou genética sobre os brasileiros, mas porque a sociedade deles tem pouca desigualdade. Há uma relação direta entre a classe média holandesa limpar seu próprio banheiro e poder abrir um Mac Book de 1400 euros no ônibus sem medo.”

Não há uma justificativa, o texto indica apenas uma conexão plausível e nada mais.

Para determinar se isso é verdadeiro, deveríamos indagar uma amostragem maior atrás dos seguintes cenários: 1) há países pobres com baixa desigualdade de renda que tem maior criminalidade (ou aproximadamente a mesma) em comparação com países no mesmo nível de renda com desigualdade de renda mais alta? 2) há países ricos com alta desigualdade de renda que tem menor criminalidade (ou aproximadamente a mesma) em comparação com países no mesmo nível de renda com desigualdade de renda menor? 3) há histórico de países onde houve uma sucessão de cenários na qual, primeiramente, houve baixa desigualdade mas alta criminalidade, e, depois, alta desigualdade mas baixa criminalidade, ou vice-versa?

Se encontrarmos uma resposta “sim” a todas essas três perguntas, há um enfraquecimento do caso feito por Daniel Ducs, mas não completamente, porque ainda seria possível que o fator “igualdade de renda” realmente opere no sentido de reduzir a criminalidade, mas, no caso desses países, tenha sido contrabalançado por outros fatores que atuavam no sentido de aumentar a criminalidade e o sobrepuseram.

O presente texto não tem como objetivo fazer essa relação (até porque penso que o argumento mais importante é o que vem a seguir, quando admitimos que a relação seja verdadeira), mas gostaria de citar o caso dos Estados Unidos.

Os Estados Unidos são um exemplo de país que permite responder “sim” à pergunta 3, porque eles tiveram uma alta na criminalidade na década de 60 quando os níveis de desigualdade estavam historicamente baixos. Após a década de 70 a desigualdade de renda começou a aumentar, mas, nos anos 90, a desigualdade continuou aumentando, mas a criminalidade declinou. Sem exaurir a discussão, um trecho de Steven Pinker, que discute isso:

“O revivescimento da violência nos anos 1960 contrariou todas as expectativas. Aquela foi uma década de crescimento econômico sem precedentes, quase pleno emprego, níveis de igualdade econômica que deixaram saudade, progresso racial histórico e florescimento de programas sociais do governo, sem falar nos avanços da medicina que aumentaram as chances de sobrevivência para pessoas baleadas ou esfaqueadas. Os teóricos sociais em 1962 poderiam apostar alto que essas condições propícias levariam a uma era contínua de baixa criminalidade. E perderiam até a roupa do corpo.” (PINKER, Steven. Os Anjos Bons da Nossa Natureza. Companhia das Letras, 2013. P. 165)

Apesar disso, lembro o leitor que o fator “igualdade de renda” realmente pode pesar em favor de menos criminalidade, contudo, dependendo das circunstâncias, pode ser contrabalançado por fatores que aumentam a criminalidade e, por isso, mesmo havendo maior igualdade de renda, haverá maior criminalidade.

A principal lição do contraexemplo dos Estados Unidos é mostrar que é ingenuidade acreditar que lutar por mais igualdade social significará redução da criminalidade, uma vez que talvez a dimensão da redução que a maior igualdade de renda possa implicar na criminalidade não seja tão alta assim ao ponto de contrabalançar outros fatores que induzem maior criminalidade. A coisa toda é mais complexa que uma hipótese de causa única sugeriria. (não estou dizendo que Daniel Ducs incorre nesse erro, mas isso é um comentário que considero importante de acrescentar à reflexão dele)

b) Se existir essa relação entre maior igualdade e menor criminalidade, como devemos interpretar esse fenômeno?

Digamos que consideremos demonstrado que há mesmo essa relação entre maior igualdade e menor criminalidade. Como devemos interpretar isso?

Daniel Ducs escolhe o caminho mais fácil, o de apoiar a busca por maior igualdade econômica sob a justificativa de que isso nos permite reduzir a criminalidade.

[Nota = para evitar ser interpretado incorretamente, esclareço desde logo que sou totalmente a favor da redução da pobreza absoluta, independente se a desigualdade estará diminuindo ou não, uma vez que é perfeitamente possível o crescimento da renda dos trabalhadores mais pobres, mesmo a desigualdade aumentando. E isso é admitido por importantes pensadores da esquerda, de fato é central à tese de John Rawls em sua “Uma Teoria da Justiça”. Falo isso porque uma parte substancial dos problemas de criminalidade podem ser resolvidos por meio de termos um país com mais prosperidade em todas as faixas de renda – não necessariamente mais igual – e por ajustar determinadas coisas em nosso Direito criminal, como a necessária legalização das drogas]

Mas não me parece que seja tão fácil assim interpretar que a desigualdade econômica é ruim, porque há mais crimes sendo cometidos nesse cenário. Sei que pode parecer estranho ao leitor que eu diga assim, mas deixe-me explicar.

b.1 Distribuição livre ideal, da perspectiva dos assaltantes:

A teoria da distribuição livre ideal (ideal free distribution) é uma teoria da ecologia que permite prever como animais distribuem-se entre diferentes fontes de recurso. Por exemplo, digamos que tenhamos 9 peixes em uma lagoa, e você e seu irmão decidem jogar pedaços de pão para eles comerem. Digamos ainda que o total de alimento que vocês jogam seja X, e que você é responsável por jogar 1/3 de x e seu irmão, 2/3 de x, há uma certa distância um do outro. Como os peixes irão se distribuir entre essas diferentes fontes?

Você poderia pensar que os peixes irão todos para onde tem mais comida, mas isso é ruim, porque quanto mais peixes estão explorando uma mesma fonte de recursos, menos haverá para cada um. Por outro lado, um peixe sozinho que vá para a fonte menor pode alimentar-se mais do que muitos peixes indo para uma fonte maior, então há um incentivo para que mais peixes aproveitem a fonte menor.

O resultado, então, é que a distribuição prevista é a de que 3 peixes (1/3 do total de peixes) irão para onde você jogou pão (correspondente a 1/3 do total de pão jogado) e que 6 peixes (2/3 do total de peixes) irão para onde seu irmão jogou pão (correspondente a 2/3 do total de pão jogado. Dessa forma, todos eles irão alimentar-se de x/9 do pão. Se estivéssemos contando em pedaços exatamente iguais de pão, e o número fosse de 9 pedaços (você jogou 3, seu irmão 6), cada peixe se alimentará de 1 pedaço.

Ok, mas o que isso tem a ver com bandidos?

Digamos que tenhamos um modelo parecido com esse, onde os assaltantes tem alta mobilidade e nenhum deles consegue monopolizar um território somente para si. (Alerta: Estou usando um cenário hipotético, que não acontece perfeitamente no mundo real, para ilustrar o ponto) Como os assaltantes irão se distribuir ao longo dos países?

Considerando países com renda per capita aproximada, dentre esses países aqueles onde todo mundo ganha próximo da média, como a Holanda (o que é obtido por meio de imposto de renda progressivo, já que, antes dos impostos, a desigualdade de renda é alta), oferece menos oportunidades de assalto de grande valor bem-sucedido que os países onde há pessoas que ganham muito mais do que as outras.

Há uma diferença entre o que você pode obter roubando de gente muito rica, e o que você pode obter roubando de pessoas que ganham um pouco mais do que a média. Mas você também não vai esperar que todos os assaltantes corram para onde tem muito dinheiro nas mãos de alguns, porque roubar onde há menos dinheiro nas mãos de muito também pode ser vantajoso.

Assim, num cenário de distribuição livre ideal de assaltantes, a maioria iria realizar seus golpes em países com mais desigualdade e o restante em países com menor desigualdade. (supondo que a proporção de países com mais desigualdade e com menos desigualdade sejam aproximadas)

Você pode pensar isso olhando exemplos de sua cidade: os assaltantes assaltam também nos bairros muito pobres, mas o foco principal é assaltar pessoas no centro da cidade ou em bairros onde more gente com mais dinheiro.

Se esse é um fator que ajuda a explicar essa relação, torna-se moralmente ambíguo defender que devemos aumentar a igualdade econômica para reduzir a criminalidade. Seria algo análogo a “temos de tirar dinheiro das pessoas que não cometeram nenhum crime para que esse dinheiro delas não seja roubado”. O que, bem, é estranho…

E o fato do dinheiro estar nas mãos do Estado para ser redistribuído permite que grupos de interesse e elites organizadas “roubem” esses recursos, desviando-os da finalidade pretendida do bem comum, em benefício próprio, por meio de rent-seeking legal ou de corrupção criminosa.

Em países como a Holanda, a maior parte do gasto social não vai para as pessoas mais pobres, mas sim para as classes médias, mesmo que estas pudessem custear seu próprio bem-estar. Inclusive isso foi tema de recente pronunciamento político, onde o rei Guilherme-Alexandre anunciou (em discurso escrito pelo governo ministerial) a substituição do “clássico Estado do Bem-Estar da segunda metade do século XX por uma sociedade participativa”, onde as pessoas criam suas próprias redes de segurança. (Alternativas: cooperativas sociais, a versão moderna das antigas associações de ajuda mútua, e a privatização da previdência em um regime competitivo).

Outro exemplo a ser citado é a Suécia, onde a desigualdade de patrimônio é alta, com pouca mobilidade de renda entre as famílias mais ricas, o que significa que a intervenção do Estado tem impedido o processo de mercado de conferir grande volatilidade e instabilidade ao topo da distribuição de renda, e permite que as mesmas famílias continuem controlando a indústria sueca.

Portanto, se a desigualdade econômica aumenta a criminalidade porque há uma vantagem diferencial em mais bandidos tentarem assaltar pessoas com rendimento bem superior à média do que pessoas com rendimento mais próximo à média, a solução de tirar o dinheiro das pessoas que ganham bem acima da média parece apenas substituir uma apropriação forçada por outra.

b.2) A cobiça pelos bens de luxo alheios é justificativa para privar todos (ou a maioria) desses bens?

Em crítica ao que escrevi anteriormente, pode-se afirmar que muitos assaltantes são locais ao país mesmo, e, que, portanto, a desigualdade de renda pode estar incentivando que as pessoas entrem em carreiras criminosas, porque seriam pessoas desesperadas para obter mais renda e não o conseguem, não por conta do simples oportunismo de ser mais vantajoso roubar em lugares onde tem pessoas que ganham muito mais do que a média.

Mas, neste argumento, é muito mais plausível que seja a pobreza, não a desigualdade em si um fator que facilita pessoas da classe mais baixa entrarem em uma carreira criminosa.

Para anular o efeito que derivaria da pobreza, é preciso assumir a situação de um país rico, onde a maioria das pessoas que ganham pouco tem acesso a bens básicos e tem uma vida confortável. (e o próprio número de pessoas que ganham pouco é menor em proporção à população)

Ok, feito isso, é importante esclarecer que há países ricos com alta desigualdade de renda, mas essa alta desigualdade de renda não significa que só os ricos tem acessos a bens importantes para a vida.

A diferença qualitativa no estilo de vida e nos tipos de bens possuídos e consumidos pelos ricos e pobres é muito menor agora do que era há 100 anos, há despeito da desigualdade na renda. Enquanto a razão entre a renda familiar dos 20% mais ricos e dos 20% mais pobres nos Estados Unidos em 1995 foi de 14 : 1, a razão do consumo total (medido por gastos em comida, vestuário, abrigo, etc.) foi de 4 : 1. Medida entre indivíduos ao invés de famílias, a lacuna é de somente 2,3 : 1 (BRENNAN, Rawls’s Paradox, 2007, p. 295, usando Dirk Krueger and Fabrizio Perri, “Does Income Inequality Lead to Consumption Inequality?” The Review of Economic Studies, January 2006) Você pode ler mais a respeito dessa discussão, veja textos do economista Tyler Cowen aqui, aqui e aqui.

Você pode pensar isso comparando o seu relógio ao rolex do Luciano Huck, que pode custar até R$ 48 mil. O fato do Luciano Huck possuir um relógio caríssimo não impede a classe média baixa ou mesmo as pessoas pobres (mas não muito) de possuírem relógios mais em conta. Em economias desenvolvidas (diferentes da brasileira), as pessoas que ganham menos tem acesso a muitos bens para uma vida confortável, ainda que as pessoas ricas desses países possam ter acesso a várias dessas coisas por um preço bem mais alto e com condições diferenciadas.

Portanto, é perfeitamente possível que a renda dos mais pobres permitam que eles tenham acesso a vários bens, de alimentação, vestuário, eletrodomésticos, moradia, etc., ainda que não os permita “ostentar”, desde que estejamos falando de uma economia desenvolvida e próspera, independentemente da desigualdade de renda.

Mas isso novamente torna a interpretação ambígua. Quem rouba nesse cenário não é porque está desesperado, mas sim porque quer obter as mesmas “suntuosidades”, o mesmo “luxo” dos ricos de seu país.

Se a maioria está próximo à média, de fato há menos gente vivendo em um luxo muito díspare em relação ao conforto dos estratos mais baixos da distribuição de renda. Por outro lado, se tem mais gente vivendo bem acima da média, faz sentido que esse “luxo” possa ser desejado por pessoas que não conseguiram obtê-lo no mercado legal, e, por isso, partam para atividades criminosas.

Mas, novamente, veja: tentar diminuir essa desigualdade em termos do luxo que as pessoas mais ricas usufruem, mesmo que as pessoas que ganham menos tenham uma vida confortável, significa que você está tirando o luxo de algumas para que ninguém cobice o luxo e seja tentado a obtê-lo por meio de atividades criminosas.

Isso é uma condescendência para com sentimentos de cobiça dos bens alheios e/ou vontade de punir a ostentação alheia, porque privar quem ganha mais de seu luxo (por meio de impostos de renda progressivo) não significa tornar a vida das pessoas mais pobres melhor, nem capacitá-las a melhor prover a si mesmas. Contudo, esse raciocínio está já incorporado em uma má interpretação da justiça social muito disseminada por aí, inclusive levando o famoso esquerdista brasileiro Sakamoto a defender, provocativamente, que “Ostentação deveria ser crime previsto no Código Penal“.

Não estou negando que ostentação seja um vício ou um problema moral. Eu mesmo sou contrário a esse tipo de postura. Mas o simples fato da ostentação não faz ninguém ficar realmente mais pobre, enquanto o imposto de renda progressivo de fato pode diminuir o incentivo para a criação de mais riqueza, inclusive ao diminuir o “retorno sobre habilidades” (a vantagem de investir no próprio capital humano) que, em países como a Holanda, não é um dos mais altos entre os desenvolvidos, mesmo avaliando isso antes do impacto do imposto!

Sem título(HANUSHEK, Eric A.; SCHWERDT, Guido ; WIEDERHOLD, Simon ; WOESSMANN, Ludger. Returns to Skills around the World: Evidence from PIAAC. NBER Working Paper No. 19762. 2013)

E isso sem contar que, se a riqueza foi obtida justamente, o uso da mesma para ostentação não justifica tirá-la da pessoa. (Não estou querendo dizer que todas as pessoas ricas obtiveram sua riqueza justamente no mundo atual, levando-se em conta um cenário onde a intervenção do Estado não pudesse ser usada para obter mais riqueza ou para permanecer com ela, ou onde não houvesse métodos violentos e/ou fraudulentos de obtê-la) Aplica-se aqui a mesma coisa de tirar dinheiro das pessoas para que elas não estejam em risco de serem roubadas!

Nós podemos criticar moralmente a ostentação, mas tentar coibi-la por meio do confisco de parte da renda de todas as pessoas que ganham acima de certo patamar é desproporcional. Pode-se até discutir se a tributação maior do consumo de luxo é válida (taxação esta que encarece ainda mais o preço e pode até estimular mais a cobiça ou a ostentação), mas a tributação da renda ou da riqueza afeta pessoas que nem precisam ter gasto com qualquer luxo e antes que elas façam isso.

E, na prática, é essa punição preventiva da possibilidade de ostentar que a esquerda atual tem apregoado (não estou falando de Daniel Ducs, uma vez que não conheço mais a fundo suas ideias políticas de modo geral). O objetivo por trás da maior igualdade de renda é impedir o consumo diferenciado pelos mais ricos, o acesso a determinados status e bens de luxo, não maximizar a renda das pessoas mais pobres ao longo do tempo (que é a verdadeira justiça social).

Portanto, o objetivo da esquerda atual é reestabelecer as antigas leis suntuárias, seguindo Montesquieu, que defendia que as repúblicas precisam coibir o luxo:

“O luxo é sempre proporcional à desigualdade das fortunas. Se, em um Estado, as fortunas estiverem igualmente distribuídas, não existirá o luxo, pois este é fundado sobre as comodidades que se usufruem pelo trabalho alheio. (…)

Quando maior for a aglomeração de homens, tanto mais estes serão vaidosos e sentirão nascer em si o desejo de sobressair por pequenas coisas. Quando estão em número tão grande que na maior parte as pessoas sejam desconhecidas entre si, o desejo de se distinguir redobra, pois então existirá maior possibilidade de destaque. O luxo confere essa esperança; cada um toma os atributos da condição que precede a sua. (…)

Acabo de dizer que nas repúblicas, onde as riquezas são igualmente distribuídas, não pode existir o luxo; e, como já se viu no livro V, que essa igualdade na distribuição fazia a excelência de uma república, conclui-se que, quanto menos luxo existir em uma república, tanto mais ela será perfeita.” (MONTESQUIEU, Do Espírito das Leis, p. 108-110)

Portanto, aumentar a igualdade econômica para diminuir a criminalidade está longe de ser algo não ambiguamente bom. Na prática, significa tirar bens de determinadas pessoas para que outras não cobicem estes bens e não sejam tentadas a usar de métodos ilícitos para obter os bens cobiçados. O fato dos bens de uma pessoa serem cobiçados por outras justifica que ela seja privado deles? E por que não se aplicar isso à beleza ou aos talentos? (Temos que obrigar as mulheres a usarem roupas longas e cobrindo todo o corpo, para que elas não sejam cobiçadas pelos homens ou não sofram riscos de violência?)

Pelos motivos acima expostos, é que penso que o texto de Daniel Ducs não consegue demonstrar que a igualdade econômica é um bem valioso apenas porque reduziria alguns incentivos para a criminalidade.

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