Por uma esquerda darwiniana

Um dos maiores equívocos propagados sobre a visão darwiniana do ser humano advém de achar que essa é uma concepção que serve a ideias reacionárias e conservadoras, tendentes a manter o status quo e de legitimar injustiças sociais.

Isso não é correto. Para entendermos a melhor forma de combater males sociais, precisamos ter uma visão adequada do fenômeno à luz de suas potenciais raízes evolucionárias, exatamente para que seja possível alguma ação para neutralizar esses efeitos. Além disso, temos de promover o esclarecimento científico sobre questões mal divulgadas para o público acerca dos resultados da ciência comportamental, como a falsa noção de que a psicologia evolucionária defende que homens preferem mais o sexo que as mulheres ou que mulheres correspondem ao estereótipo moderno ocidental de castidade e recato, má interpretação que serve a interesses conservadores.

Mas uma das melhores maneiras de perceber que isso não está correto é visualizar que é possível ser de esquerda (em algum sentido) e defender uma visão darwiniana sobre o ser humano, em linha com as principais ciências comportamentais e cognitivas: psicologia evolucionária, genética comportamental, antropologia evolucionária, psicologia cognitiva e neurociência.

Por exemplo, dois dos maiores expoentes da sociobiologia, Edward O. Wilson e Robert Trivers tinham visões de esquerda na política: Edward O. Wilson é muito conhecido por levantar bandeiras ambientalistas e conservacionistas, bem como por ser um democrata liberal; Trivers chegou a juntar-se aos Panteras Negras e afirmou o caráter progressista da socibiologia:

“Trivers afirmara que a sociobiologia, na verdade, é uma força para o progresso político. Ela se baseia na ideia de que os organismos não evoluíram para beneficiar sua família, grupo ou espécie, pois os indivíduos componentes desses grupos têm conflitos de interesses genéticos uns com os outros e são selecionados conforme defendem esses interesses. Isso imediatamente subverte a reconfortante crença de que os que estão no poder governam pelo bem de todos, e põe em evidência atores ocultos no mundo social, como as mulheres e a geração mais nova. Além disso, encontrando uma base evolucionária para o altruísmo, a sociobiologia nos mostra que o senso de justiça tem raízes profundas na mente das pessoas e não precisa contrariar nossa natureza orgânica. E mostrando que o auto-engano tem probabilidade de evoluir (porque o melhor mentiroso é o que acredita nas próprias mentiras), a sociobiologia incentiva o auto-exame e ajuda a minar a hipocrisia e a corrupção” (PINKER, Steven; Tabula Rasa; 2004, p. 161)

Curiosamente, alguns dos maiores pesquisadores em genética comportamental são cidadãos de países como Suécia e Finlândia, e a herdabilidade de traços comportamentais e do Q.I é atestada em estudos de gêmeos e de adoção realizados nesses países. Países nórdicos tiveram e têm um papel importante nesse tipo de pesquisa. Países que dificilmente poderiam ser considerados atrasados em consciência social (ainda que tenham algumas políticas questionáveis e não conducentes a este fim de forma consistente).

Mas a exposição mais sistemática da possibilidade de uma esquerda darwiniana foi feita por Peter Singer, com a publicação de A Darwinian Left. Para que o leitor possa ter uma ideia de como seria uma ‘esquerda darwiniana’, traduzi trecho do livro, capítulo A Darwinian Left for Today and Beyond. Eu concordo com praticamente tudo neste trecho, apesar de que eu e Singer divergirmos sobre a importância da liberdade econômica e de mercados livres nesse cenário. Abaixo segue a tradução:

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Uma esquerda darwiniana para hoje e além

Por Peter Singer

In: A Darwinian Left: Politics, Evolution and Cooperation, New Haven, 1999, pp. 60-63.

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Esse pequeno livro foi um esboço das maneiras pelas quais uma esquerda darwiniana diferiria da esquerda tradicional que temos vindo a conhecer nos dois séculos passados. Para fechar a ideia, eu poderia primeiro colocar juntas, em uma forma breve, algumas das características que eu penso distinguirem a esquerda darwiniana de prévias versões da esquerda, tanto velha como nova; essas são as características que penso que um esquerdista darwiniano abraçaria hoje. Então, eu voltarei o olhar para perspectivas mais distantes.

Uma esquerda darwiniana não pode:

a) negar a existência da natureza humana, nem insistir que a natureza humana é inerentemente boa, nem que seja infinitamente maleável.

b) esperar acabar com todos os conflitos e disputas entre os seres humanos, seja por revolução política, mudança social ou melhor educação;

c) assumir que todas as desigualdades decorrem de discriminação, preconceito, opressão ou condicionamento social. Algumas serão, mas isso não pode ser pressuposto em qualquer caso;

Uma esquerda darwiniana pode:

a) aceitar que existe uma natureza humana, e buscar apurar mais sobre ela, de tal forma que as políticas possam basear-se na melhor evidência disponível de como os seres humanos são;

b) rejeitar qualquer inferência de que aquilo que é “natural” é o “certo”;

c) esperar que, sob diferentes sistemas socioeconômicos, muitas pessoas agirão competitivamente com o fim de fortalecer seu próprio status, ganhar uma posição de poder e/ou avançar seus interesses e aqueles de seus parentes;

d) esperar que, a despeito do sistema socioeconômico em que vivam, muitas pessoas responderão positivamente às oportunidades genuínas de entrar em formas mutuamente benéficas de cooperação;

e) promover estruturas que estimulem a cooperação ao invés da competição e tentem canalizar competição em objetivos socialmente desejáveis;

f) reconhecer que a maneira como exploramos os animais não-humanos é um legado de um passado pré-darwiniano que exagerou a distância entre humanos e outros animais, e, portanto, trabalhar em direção de um mais elevado status moral para animais não-humanos, e uma visão menos antropocêntrica de nossa dominância sobre a natureza;

g) manter os valores tradicionais da esquerda ao estar do lado dos fracos, pobres e oprimidos, mas pensar muito cuidadosamente sobre quais mudanças econômicas e sociais realmente funcionarão para beneficiá-los.

De algumas formas, isso é uma versão profundamente deflacionada da esquerda, onde suas ideias utópicas são  realocadas por uma visão friamente realista do que pode ser alcançado. Penso que isso é o melhor que podemos fazer hoje – e é ainda uma visão muito mais positiva do que muitos da esquerda tem assumido que seja implicado por um entendimento darwiniano da natureza humana.

Se nós levarmos em conta uma perspectiva de muito longo prazo, há perspectivas de restaurar ambições de mudança em larga escala. Nós não sabemos em que extensão nossa capacidade de razão pode, no longo prazo, levar-nos além dos convencionais limites darwinianos ao grau de altruísmo que uma sociedade possa ser capaz de promover. Nós somos seres racionais. Em outras palavras, tenho comparado razão a uma escada rolante, na qual, uma vez que comecemos a racionar, podemos ser compelidos a seguir uma cadeia de argumento para uma conclusão que não antecipamos quando começamos. A razão confere-nos a capacidade de reconhecer que cada um de nós é simplesmente um ser entre outros, todos os quais têm vontades e necessidades que importam para si mesmos, assim como nossas necessidades e vontades importam para nós mesmos. Poderia esse insight mesmo superar a atração de outros elementos em nossa natureza evoluída que agem contra a ideia de uma preocupação imparcial para com todos nossos companheiros humanos ou, melhor ainda, todos os seres sencientes?

Ninguém menos que um campeão do pensamento darwiniano como Richard Dawkins que ofereceu uma perspectiva de “deliberadamente cultivar e criar um altruísmo desinteressado, puro – algo que não tem lugar na natureza, algo que nunca existiu antes na inteira história do mundo”. Enquanto “nós somos construídos como máquinas de genes”, ele nos diz, “nós temos o poder de voltar-se contra nossos criadores”. Uma importante verdade reside aqui. Nós somos a primeira geração a entender não somente que nós temos evoluído, mas também os mecanismos pelos quais temos evoluído e como essa herança evolucionária influencia nosso comportamento. Em seu épico filosófico, A Fenomenologia da Mente, Hegel retratou a culminação da história como um estado de Conhecimento Absoluto, no qual a Mente conhece a si mesma pelo que ela é, e, assim, alcança sua própria liberdade. Nós não temos de comprar a metafísica de Hegel para perceber que algo similar realmente aconteceu nos últimos 50 anos. Pela primeira vez desde que a vida emergiu da sopa primitiva, existem seres que entendem como eles tem vindo a ser o que eles são. Para aqueles temerosos em aumentar o poder do governo e do establishment científico, isso parece mais um perigo que uma fonte de liberdade. Em um futuro mais distante, que podemos ainda vislumbrar vagamente, isso poderá vir a ser o pré-requisito para um novo tipo de liberdade.

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Pensando desigualdade e pobreza de forma dinâmica, não estática

54% dos americanos passam pelo menos um ano de suas vidas abaixo da linha da pobreza ou próximo a ela, mas 77% passam pelo menos um ano entre os 20% mais ricos da distribuição de renda, 56% entre os 10% mais ricos e 39% entre os 5% mais ricos. O ciclo de vida analisado foi o de 25 aos 60 anos e a proximidade da linha da pobreza significa renda menor que 150% daquela da linha.

É o que afirmam os pesquisadores Mark Rank e Thomas Hirchil. Há anos eles estudam questões como renda no ciclo de vida, pobreza crônica x pobreza transitória e o aspecto longitudinal da distribuição de renda.

Perceba que essa forma de olhar para os dados mostra o que há de tão errado na maneira como muitas pessoas discutem desigualdade de renda.

Por exemplo, rendas estagnadas na extremidade inferior da distribuição de renda significa que pessoas estão com rendas estagnadas? Depende. Se as pessoas são significativamente móveis entre os empregos, isso poderia significar que a maior parte delas não ficará com renda estagnada uma vez que mudará para empregos com renda maior (e, assim, também sairá da extremidade inferior da distribuição de renda) quando obtiver maior experiência e/ou idade.

Outro exemplo: nos Estados Unidos, 15% da população cai abaixo da linha da pobreza tal como definida lá (não confundir com a linha de pobreza que adotamos para avaliar países subdesenvolvidos!). Isso significa que esses 15% sempre são compostos pelas mesmas pessoas ao longo dos anos? Não! A pobreza crônica, definida como permanecer abaixo da linha da pobreza por 5 anos consecutivos ou mais em um intervalo de 10 anos, não é a condição mais comum (apenas 19,7% daqueles abaixo ou próximo da linha da pobreza estarão nessa condição por pelo menos 5 anos) e inclusive declinou durante a década de 1990, mesmo com o aumento da desigualdade de renda.

Em termos mais gerais, pode-se dizer que a análise estática da distribuição de renda não é tão informativa quanto se supõe. Por exemplo, sabe-se que a desigualdade de renda nos Estados Unidos aumentou consideravelmente desde a década de 70, mas a mobilidade de renda intergeracional do país permanece a mesma da década de 70 (com bastante variação local) e, como afirmado, a pobreza crônica diminuiu. Não são resultados intuitivos, mas ajustam-se aos dados.

O fato é que a melhor abordagem para analisar a questão da distribuição de renda não é uma visão apenas estática, mas principalmente dinâmica. É a dinâmica de como as pessoas alteram ou não alteram sua posição dentro da distribuição de renda mais o crescimento da renda dentro dos estratos é o mais significativo em termos de bem-estar humano.

Isso significa que deveríamos nos concentrar em 1) A renda média do estrato inferior (digamos, os 5% ou 10% mais pobres) está crescendo? É uma renda alta comparada a outras economias? 2) Quão móveis são as pessoas dentro da distribuição de renda ao longo da vida, seja para cima ou para baixo? Grande parte da população consegue acessar níveis de renda mais prósperos ao longo de sua vida, apesar do risco de, em outros momentos, terem um nível de renda menor? 3) Qual a taxa de imigração, principalmente de trabalhadores desqualificados? Eles conseguem integrar-se ao mercado de trabalho ou empreender? 4) A renda per capita é elevada e está crescendo?

Por que esses critérios? Porque eles nos permitem uma análise mais detida da real situação da distribuição de renda.

Primeiro, não adianta falar em distribuição de renda se a renda per capita é baixa. A renda em relação à população deve ser alta para que o país torne-se desenvolvido e possa garantir amplo bem-estar à população. Além disso, mais renda per capita pode significar também mais inovação e mais dinamismo econômico.

E os custos em termos de renda per capita nunca podem ser subestimados: como David Schmidtz apontou no livro Social Welfare and Individual Responsability, se a taxa de crescimento anual do PIB dos Estados Unidos tivesse sido 1 ponto percentual menor entre 1870 e 1990, o PIB o per capita dos Estados Unidos seria menos que um terço do nível atual, o que o colocaria em pé de igualdade com o México!

Segundo, é preciso que a renda dos mais pobres esteja crescendo e seja elevada, em conformidade a uma renda per capita crescente e elevada. Maximizar a renda dos trabalhadores de menor remuneração é justiça social e reduzir a pobreza na renda ajuda os mais pobres a terem sua condição melhorada em face de outros males sociais (o que é apurado pelo Índice de Pobreza Multidimensional).

Atualmente, os pobres dos países desenvolvidos são consideravelmente mais ricos que a maioria das pessoas nos países subdesenvolvidos. Por exemplo, os 5% mais pobres americanos têm renda média superior à de 50% da população brasileira e 68% da população mundial. Veja a tabela abaixo, do trabalho de Milanovic em desigualdade global:

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(A discussão sobre esse gráfico, com dados de 2005, pode ser encontrada aqui e aqui. Você pode encontrar uma explicação sucinta do mesmo aqui)

Terceiro, é preciso entender que há desvios desse quadro de “foco no crescimento da renda absoluta do bolo total ou dos estratos mais baixos”. O principal deles diz respeito à mobilidade das pessoas na distribuição de renda ao longo da vida. Se essa mobilidade for grande, é menos problemático que, por exemplo, a renda dos estratos mais baixos não esteja crescendo tanto, uma vez que as pessoas não tendem a permanecer nesses estratos mais baixos ao longo da vida.

Além disso, rendas menores nos estratos mais baixos (comparadas a rendas maiores em uma situação com maior estabilidade e menos mobilidade de renda ao longo do ciclo de vida) podem ser a contrapartida de ter a chance de conseguir rendas maiores nos estratos mais altos (comparadas a rendas menores em uma situação com maior estabilidade e menos mobilidade de renda ao longo do ciclo de vida) ao longo do ciclo de vida.

Mais oportunidades econômicas ao longo do ciclo de vida teriam como contrapartida menor estabilidade na renda e riscos de queda nesta. Promover mais segurança socioeconômica, como fazem os países europeus, de fato pode melhorar (alguns) indicadores sociais, mas nesses países os indicadores representarão situações crônicas em maior proporção que os indicadores de países comparáveis que não o façam em grande escala, mesmo que estes indicadores sejam piores, como os Estados Unidos. Estabilizar a renda das pessoas tem custos não triviais que os indicadores sociais não capturam.

Quarto, não devemos adotar o nacionalismo na análise da distribuição de renda. Se mais trabalhadores desqualificados de outros países estão ganhando uma vida melhor pela imigração, mesmo que isto transitoriamente apontasse uma piora na distribuição de renda (ou em indicadores sociais), isso deve ser encarado como positivo, não negativo. De nada adianta redistribuir muito a renda em relação à própria população quando, historicamente, pouco tenha contribuído aquela economia aparentemente “justa” na redução da pobreza global via imigração.

Um exemplo característico são os refugiados somalis na Suécia: Benny Carlson comparou as experiências de imigrantes somalis na Suécia com as daqueles em Minneapolis, no estado de Minnesota, nos Estados Unidos. Somente 30% deles tinham um emprego na Suécia, cerca de metade do número dos que tinham emprego em Minneapolis. Aliás, nesta cidade americana, há 800 negócios dirigidos por Somalis, enquanto há apenas 38 na Suécia.

Além disso, uma imigração mais livre não apenas ajudaria as pessoas mais pobres do mundo por permitir que parte delas se movam para lugares com mais oportunidades e podendo mandar remessas aos seus familiares que permaneceram nos países de origem, mas também porque o PIB mundial dobraria caso a imigração fosse livre. Portanto, a imigração deve ser levada em conta ao analisar-se pobreza e desigualdade com muito mais atenção do que geralmente se faz.

Alguns podem questionar que eu omiti a variável da mobilidade de renda intergeracional, no sentido da probabilidade de que os filhos estejam na mesma faixa de renda dos pais ou que ascendam de faixa, e assim por diante.

Trata-se de uma variável relevante, mas sua importância geralmente é sobrestimada, por vários motivos, pelo que remeto o leitor ao comentário de Tyler Cowen a respeito.

Há também alguma evidência de que a mobilidade de renda de longo prazo seja relativamente baixa e significativamente estável (talvez com alguma correlação genética inclusive), mas preciso ainda ler The Son Also Rises: Surnames and the History of Social Mobility de Gregory Clark para confirmar se essa evidência é robusta mesmo ou não.

Além disso, de modo mais confirmado, sabe-se que as economias contemporâneas tendem a remunerar cada vez mais habilidades cognitivas melhores, o que, pelo aspecto inato até certo ponto destas (50% das diferenças de Q.I, a inteligência geral, entre as pessoas são correlacionadas com a diferença genética entre elas, por exemplo), levaria a um cenário de estratificação cognitiva dos empregos e da renda em conformidade com desigualdades cognitivas relativamente herdáveis que diminuiria a mobilidade intergeracional (mas não necessariamente a do ciclo de vida), e ainda assim contribuiria para maior bem-estar dos estratos de renda de menor remuneração.

Apesar disso, é importante frisar que algumas políticas governamentais em países ricos prejudicam de forma séria a mobilidade de renda intergeracional (e a do ciclo de vida) ao estimular certos fatores relacionados negativamente com a mobilidade, mesmo levando-se em conta a prosperidade desses países, o que deve ser devidamente trabalhado pela retirada desses bloqueios.

Essa análise mais nuançada sobre pobreza e desigualdade implica que o foco dos filósofos em teorias de justiça distributiva que priorizam a igualdade como objetivo são mal colocadas, se esses filósofos estão mesmo querendo saber o que seria melhor para os menos favorecidos.

Teorias de justiça distributivas alternativas, como a prioritariana ou a suficientariana, deveriam ser preferidas (como aquelas do libertarianismo bleeding heart). John Tomasi e Kevin Vallier fornecem dois pontos de vista interessantes. David Schmidtz, no livro Os Elementos da Justiça, faz uma análise muito interessante sobre desigualdade e sobre o argumento rawlsiano. Jason Brennan mostra a importância do aspecto dinâmico em Rawls’s Paradox (de forma simplificada aqui, aqui e aqui) e Matt Zwolinski mostra o porquê de justiça social ser um conceito significativo (veja texto e vídeo).

Comércio de direitos de emissão de poluentes: reduzindo poluição com incentivos de mercado

Como devem ser abordados os problemas ambientais? Em seu excelente livro “Introdução à Economia do Meio Ambiente”, Barry C. Field e Martha K. Field explicam que existem três abordagens básicas:

1) Políticas de comando e controle: “leis e regulamentações que especificam, direta ou indiretamente, tecnologias ou práticas de controle da poluição que os poluidores devem utilizar. Nesse caso, são usados procedimentos padrão para o cumprimento de tais leis e regulamentações (inspeções, monitoramento, multas, etc.) para produzir níveis aceitavelmente altos de atendimento a essas normas” (FIELD; FIELD; 2014, p. 7).

2) Políticas descentralizadas: “políticas que essencialmente permitem aos indivíduos envolvidos em um caso de poluição ambiental resolver o problema por conta própria” (FIELD; FIELD;2014, p. 187). As suas principais formas são o direito de responsabilidade civil (indenização por danos), o direito de propriedade e a ação voluntária.

3) Políticas baseadas em incentivos:

3.1) Cobranças e subsídios sobre emissões: “As empresas poluem porque não levam em consideração os danos sociais causados por suas ações. Assim, a abordagem mais direta de controle de emissões é a cobrança, por parte das autoridades, de um preço por essas emissões. Isso pode ser feito de duas maneiras: cobrando por cada unidade de emissões ou oferecendo um subsídio por cada unidade de emissões que a fonte cortar” (FIELD; FIELD; 2014, p. 225). Perceba que o instrumento aqui é a tributação, baseada na noção de impostos pigouvianos sobre externalidades negativas, como a poluição.

3.2) Direitos de emissão transferíveis: “fontes individuais [de emissões] são controladas pela compra e venda de direitos de emissão (às vezes chamadas de licenciamentos) que estabelecem limites para suas emissões” (FIELD; FIELD; 2014, p. 249). Existem dois tipos principais: os programas de comércio de crédito (CRE) e os programas de cap-and-trade (limitar e comercializar – CAP).

No primeiro, empresas vendem os créditos que criam ao reduzir suas emissões mais do que o exigido pelas regulamentações vigentes, ou seja, vendem a diferença entre a emissão máxima permitida e a emissão efetivamente realizada, que seria seu “crédito”.

Já no segundo, alguma entidade coletiva (por exemplo, uma agência reguladora) decide a quantidade agregada de emissões que será permitida, com base na qual são distribuídos direitos de emissão entre as fontes responsáveis pelas emissões, os quais são livremente negociáveis. Para um exemplo concreto:

“Suponha, por exemplo, que um programa de CAP tenha sido instituído para reduzir a quantidade de enxofre emitida por um grupo de usinas elétricas. As emissões totais são, digamos, 150.000 toneladas de enxofre por ano, e os tomadores de decisão resolveram que elas têm de ser reduzidas para 100.000 toneladas por ano. Vamos analisar a situação de uma das usinas elétricas, descrita pela figura 13.1. Suponhamos que ela esteja emitindo 5.000 toneladas de enxofre atualmente. O programa lhe concede 2.500 direitos de emissão. O gerente da usina tem três escolhas:

1. Reduzir as emissões até chegar ao número de direitos de emissão recebidas.

2. Comprar direitos de emissão adicionais e gerar emissões em níveis mais altos do que o nível inicialmente concedido (p. ex., comprar 1.000 direitos de emissão para adicionar às suas 2.500, de modo que suas emissões agora passem a ser de 3.5000 toneladas/ano.

3. Reduzir as emissões abaixo do nível concedido original e, então, vender os direitos de emissão de que não precisar (p. ex., reduzir as emissões para 1.800 toneladas/ano e vender 1.000 direitos de emissão).” (FIELD; FIELD; 2014, P. 250)

Destaque-se que, segundo texto do macroeconomista Mankiw (traduzido para o português aqui), pesquisas realizadas entre economistas norte-americanos apontaram que 78% deles concordava que impostos sobre efluentes e licenças transferíveis de poluição representariam uma melhor abordagem ao controle da poluição que a imposição de tetos de poluição.

O motivo disso é que essas políticas criam incentivos para que as empresas busquem maneiras de reduzir suas emissões de poluentes ao menor custo possível. Não explicarei com detalhes aqui, mas deve-se ter em mente que o nível de emissões socialmente eficiente, onde qualidade ambiental e produção econômica são otimamente compatibilizadas, ocorre quando os custos marginais de abatimento de emissões pelas empresas são iguais aos custos marginais dos danos ocasionados à população atingida. Referidas políticas possibilitam que o próprio mecanismo de mercado seja utilizado para descoberta da forma mais custo-efetiva de reduzir a poluição.

Curiosamente, esse tipo de programa também pode abrir margem para a “extinção” de créditos de poluição. A Agência de Conservação do Ar (Clean Air Conservancy) dos Estados Unidos fazia isso. Fundada em 1992, essa organização sem fins lucrativos extinguiu 9 bilhões de libras em créditos dessa natureza. A entidade disponibilizava plataforma por meio do qual voluntários podem comprar créditos de carbono e, após, transferi-los para o Fundo Beneficente da Agência de Conservação do Ar. O Fundo, até 2012, retinha direitos de emissão com um valor de mercado estimado de mais de U$15 milhões. (Não sei se a Agência ainda está em funcionamento, uma vez que seu site encontra-se fora do ar)

O livro de Field e Field (2014, p. 253) contém uma tabela que lista vários programas de comércio de emissão em operação ou em fase de planejamento no ano de 2011. (Os programas onde não há indicação do país são dos Estados Unidos, país dos autores do livro) Confira abaixo:

Programas de comércio de emissões selecionados que estão em operação ou em fase de planejamento, 2011

Programa Status Item comercializado
Lei do Ar Puro de 1990 Em operação Toneladas de emissões de SO2 por usinas elétricas
Programa reclaim* do sul da Califórnia Em operação Toneladas de SO2 e NOX de grandes fontes industriais
Programa de negociações de emissões da Califórnia  Planejado Toneladas de gases do efeito estufa
Programa de comércio de emissões da Nova Zelândia Em operação Toneladas de gases do efeito estufa
Mecanismo de desenvolvimento limpo do Protocolo de Kyoto Em operação Toneladas de gases do efeito estufa de projetos em países em desenvolvimento
Esquema Europeu de Comércio de Emissões Em operação Toneladas de gases do efeito estufa de grandes usinas elétricas industriais e de cimento
Iniciativa Regional de Gases do Efeito Estufa Em operação Toneladas de gases do efeito estufa de grandes usinas em estados do nordeste dos Estados Unidos
Certificados de Energia Renovável Em operação Certificados para cada 1.000 kwh de energia renovável produzida
Sistema de Mercado de Redução de Emissões de Illinois Em operação Toneladas de compostos orgânicos voláteis emitidos por grandes fontes em oitos condados do estado de Illinois
Programa de Comércio de Emissões da China  Planejado Toneladas de emissões de C02
Programa de Comércio de Nitrogênio de Long Island Sound Em operação Libras de emissões de nitrogênio lançadas na água por estações de tratamento de águas residuais
Acordo de Chesapeake Bay  Planejado Libras de nutrientes lançados na água (nitrogênio e fósforo)
Programa de Compensação da Baía de São Francisco  Planejado Quilogramas de emissões de mercúrio lançadas na água
Programa de Mitigação das Zonas Úmidas de Ohio Em operação Acres de zonas úmidas restauradas, recuperadas ou preservadas

*N. do T.: Reclaim é uma sigla que representa Regional Clean Air Incentives Market, ou Mercado Regional de Incentivos ao Ar Puro (do sul da Califórnia)

É preciso destacar que o Congresso dos Estados Unidos nunca ratificou o Protocolo de Kyoto, mas os países europeus sim. Para reduzir os gases do efeito estufa sob as exigências desse acordo internacional, foi estabelecido o Sistema Europeu de Comércio de Emissões (European Trading Scheme – ETS), o maior mercado de emissões de carbono do planeta.

“Esse plano determina um limite máximo (cap) para o total de emissões de carbono gerado pelas instalações de cinco principais indústrias: produção de energia, refinarias de petróleo, usinas de aço, produção de cimento e de papel e celulose. O total dessas emissões é decomposto em níveis máximos individuais para cada instalação industrial, as quais têm permissão para negociar esses créditos de emissão entre si. O comércio pode realocar as emissões totais entre as empresas de acordo com aquelas que acharem menos oneroso reduzir as emissões, enquanto o total permanece no limite máximo ou abaixo dele.” (FIELD; FIELD; 2014, p. 9)

Para uma explicação didática do sistema, assista ao vídeo abaixo, com legendas em português (de Portugal). Para explicações adicionais, visite o site dele.

O Sistema Europeu de Comércio de Emissões é um marco também pelas dificuldades iniciais de sua implementação e por equívocos na determinação do nível agregado de emissões (conforme reporta a The Economist, por conta do lobby empresarial e pela não previsão da crise da Zona do Euro). A resiliência diante dos desafios é um importante teste para o sistema.

Além disso, parece-me que o estudo em torno desse tipo de política ambiental deveria focar em duas questões centrais: Não serão os mercados de emissões locais projetados mais eficientemente? Se sim, como interligar estes mercados em um mercado continental ou global? A resposta será importante para melhoria do arcabouço institucional do Sistema Europeu de Comércio de Emissões.

Direitos transferíveis de emissão de poluentes são uma maneira muito promissora de cuidar do meio ambiente por meio de incentivos. É hora de usar o processo sistêmico do mercado para controlar a poluição e evitar a degradação ambiental neste século em que vivemos.

Se menor desigualdade de renda levasse a menor criminalidade, como faria isso?

Muitos alegam que menor desigualdade de renda induz menor criminalidade, mas não explicam como uma coisa levaria à outra, ou usam pseudo-explicações ideologizantes que não permitem saber como a hipótese da pessoa poderia provar-se falsa por meio de critérios objetivos. A finalidade deste artigo é mostrar de que modo uma coisa poderia levar à outra, sem entrar no mérito se existe mesmo essa relação.

Eu já comentei sobre este tema no artigo “Há uma relação direta entre limpar seu banheiro você mesmo e abrir sem medo um Mac Book no ônibus?“. Contudo, explicar um possível mecanismo por meio do qual essa relação causal fosse produzida não era o único escopo daquele texto, portanto, justifica-se um mais explícito e desenvolvido para este ponto, ainda que eu recomende sua leitura para a discussão sobre se essa relação existe empiricamente e sobre a relação entre luxo e redistribuição de renda.

Antes de descrever o mecanismo, três pontos precisam ficar esclarecidos de antemão:

1) Essa discussão volta-se para definir se a redistribuição de renda pelo governo seria capaz de promover menos violência por meio do aumento da igualdade de renda. Portanto, o modelo supõe que, se o governo fizer isso, a criminalidade cai.

2) A discussão trata de países desenvolvidos. O objetivo disso é separar o problema da desigualdade de renda do problema da pobreza absoluta encontrada nos países subdesenvolvidos, onde os pobres têm uma condição de vida muito miserável economicamente. Lembre, por exemplo, que os 5% mais pobres dos Estados Unidos têm renda média superior à 68% da população mundial e 50% da população brasileira.

Suponha que estejamos em um país desenvolvido. A renda do cidadão médio é x, mas existem pessoas que ganham muito mais que x (chegando a 20x) e que ganham bem menos (chegando a x/6), dadas as condições vigentes do mercado de trabalho e de distribuição de lucros das empresas, por isso o coeficiente de Gini é alto.  O total da renda disponível para as pessoas privadas corresponde à maior parte do PIB, devido à baixa tributação, e o padrão de vida é elevado, uma vez que a renda per capita (PIB per capita) é elevada. O nível de criminalidade é y.

Digamos que, ouvindo especialistas no assunto, o governo resolva introduzir um imposto de renda progressivo com o intuito de diminuir a desigualdade de renda. Por meio desse tributo, grande parte da renda daqueles que ganham acima da média irá para o governo, que, em parte, a redistribuirá para aqueles que ganham abaixo da média, e, em parte, para custear serviços públicos mais generosos para a classe média (Lei de Director) e outras atividades do Estado (incluindo rent-seeking por grandes empresas e outros interesses especiais organizados).

Lembre que o resultado final da distribuição de renda quando se torna esta mais igual é que todas as pessoas estarão ganhando uma renda mais próxima da média, sem o mesmo grau de elevada variação anterior. A desigualdade é maior quando há grande variação de rendas familiares ou individuais em relação à média, e menor quando há pequena variação de rendas familiares ou individuais em relação à média.

Supondo um PIB per capita e um PIB constantes, a renda total é redistribuída: grande parte dela agora está nas mãos do governo, mas uma parte desta será redistribuída para aqueles que ganham menos que a média. Como resultado, a renda das pessoas que ganham acima da média aproxima-se da média (a menor distância agora será, digamos, 5x) e a renda das pessoas que ganham abaixo da média aproxima-se da média (a menor distância agora será, digamos, x/2). O coeficiente de Gini cai, medindo uma menor desigualdade de renda. Como afirmado anteriormente, supomos que a violência cai.

Por que ela cai?

Um dos motivos poderia ser: como as pessoas que ganham abaixo da média agora ganham mais, elas não passam mais necessidade, por isso não tentarão realizar fraudes, roubos, etc. O problema dessa reivindicação é que a vida de pessoas pobres nos países desenvolvidos, apesar de ser mais difícil que a da maioria de seu país, não é miserável. Além disso, as pessoas pobres são minoria. Portanto, o discurso de que é a necessidade e o desespero que faz o ladrão não tem como ser aplicado genericamente às pessoas de menor remuneração nos países desenvolvidos. Além disso, essa seria uma explicação baseada em pobreza, não em desigualdade, o que não é nosso objetivo aqui.

Assim, só resta uma alternativa: há menos crime porque há menos renda disponível para as pessoas privadas. Isso ocorre de duas maneiras.

Primeiro, com a transferência forçada de renda para o governo, as rendas acima da média chegam mais perto da renda média. Isso significa que há menos renda entre as pessoas que ganham acima da média para ser roubada. Como essas pessoas acabam por ganhar quantias mais parecidas com aquelas ganhas pelas pessoas que ganham abaixo da média, é menor a vantagem de tentar roubá-las.

Portanto, esse efeito está relacionado com a simples transferência dessa renda do setor privado para o setor público, não com a redistribuição de uma parte dela para aqueles que ganham abaixo da média.

Segundo, como supomos que o governo consiga transferir a renda das pessoas que ganham acima da média para si por meio da tributação, isso significa que quem assume posições melhor remuneradas (cujo produto marginal é maior) terá uma recompensa menor, o que diminui o incentivo de trabalhar mais para ganhar mais, já que trabalhar mais para ganhar mais está sendo tributado (desincentivado).

Mas isso também significa que quem tenta fraudar as regras do jogo para conseguir uma maior recompensa também terá menos incentivo, uma vez que quem se esforça para roubar/fraudar mais para ganhar mais está sendo tributado também. A pessoa pode obter uma elevada renda com fraude, mas não poderá usufruir de boa parte dela por conta da ação do Fisco (que, repita-se, pressupomos aqui, inevitável).

O incentivo para produzir é o mesmo para fraudar as regras do jogo“, nas palavras de Steve Randy Waldman, e, portanto, com um incentivo menor dada a menor desigualdade, há menos incentivo tanto para maior produção quanto para maior quebra das regras do jogo. Aqui o efeito é completamente da transferência forçada da renda de quem ganha mais para o governo, não de redistribuição de uma parte dessa renda para quem ganha abaixo da média.

Isso também significa uma inexatidão significativa do nosso modelo em relação ao mundo real: se o incentivo para fraudar as regras do jogo é menor, isso significa que o incentivo para produzir mais dentro das regras do jogo também é menor, portanto, é irrealista assumir que o PIB, o PIB per capita e a renda média das famílias/indivíduos permaneceria o mesmo. Essas variáveis sofreriam uma queda junto com a da taxa de criminalidade e do coeficiente de Gini.

Logo, se menor desigualdade leva a menor criminalidade, isso ocorre porque: 1) o Estado apropria-se forçadamente da renda das pessoas para evitar que elas sejam roubadas; e/ou 2) o Estado apropria-se forçadamente da renda das pessoas para evitar que elas usufruam dessa renda, independente se a obtiveram lícita ou ilicitamente, diminuindo o incentivo para que elas tentem obter essa renda.

Perceba que isso joga um grande questionamento sobre a adequação de diminuir a desigualdade por meio da tributação para diminuir a criminalidade. O que você está dizendo é que o Estado deveria ele mesmo apropriar-se forçadamente das rendas das pessoas que ganham acima da média para evitar que essas rendas sejam apropriadas forçadamente ou fraudulentamente por pessoas privadas, e para evitar que essas rendas sejam usufruídas por criminosos vetando esse usufruto também aos nãos criminosos.

Uma analogia: o fato de mulheres ingerirem bebida alcoólicas em festas aumenta as ocorrências de estupro, já que homens podem aproveitar-se da maior vulnerabilidade sob efeito do álcool para estuprá-las. Isso significa que devemos proibir as mulheres de ingerirem bebida alcoólica?

Outra analogia: devemos abolir qualquer premiação (ou reduzi-la ao máximo) em campeonatos de atletismo porque algumas pessoas vencem competições de atletismo fraudando as regras?

Se existem alternativas para redução dos crimes que envolvam não retirar recursos/liberdades de pessoas que não cometeram nenhum crime, no mínimo é mais desejável priorizar essas alternativas.

Por outro lado, nem todos os objetivos da sociedade devem estar subordinados ao da redução da criminalidade.

O objetivo das mulheres em ingerir bebida alcoólica porque acham bom fazer isso não deveria ser restringido porque criminosos vão tentar se aproveitar disso para violentá-las, ou o objetivo dos atletas profissionais de ganhar um prêmio em uma competição não deveria ser restringido porque alguns jogadores vão tentar fraudar as regras do jogo.

Se o único objetivo socialmente relevante fosse o da redução da criminalidade, e nenhum objetivo privado importasse, restringir outros objetivos à vontade desde que se diminua a criminalidade seria encarado como justo, mas é muito difícil que alguém ache correto isso. No mínimo, esse objetivo é um dentre outros a serem sopesados.

Inclusive cabe ressaltar que um nível de produção menor (e uma taxa de crescimento da produção menor) significa uma renda menor para os mais pobres. Há custos de oportunidade na opção entre produção e redistribuição que não devem ser olvidados, caso se queira justiça social.

Portanto, mesmo que menor desigualdade de renda leve a menor criminalidade, não está clara a legitimidade do governo para tentar fazê-lo por meio de uma elevada e progressiva tributação da renda. Esta pode justificar-se por outros motivos, mas a redução da criminalidade como seu objetivo final certamente não é um deles.

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Nota: Não estou dizendo que a desigualdade de renda deva ser maximizada, para que haja incentivos adequados à produção. Não podemos também olvidar o fato de que grande parte das desigualdades (não só de renda) que encontramos em vários países ao redor do mundo são não só injustas, como ineficientes. Mas, em geral, tendo a pensar que é um equívoco concentrar-se na desigualdade de renda por si só. É importante olhar para coisas como mobilidade de renda, oscilações na renda ao longo do ciclo de vida(comparando a frequência da pobreza crônica com a pobreza meramente transitória), a relação entre desigualdade de consumo e desigualdade de renda, a relação entre pobreza na renda e pobreza multidimensional, a (i)mobilidade no topo dos muito ricos, ocrescimento da renda dos mais pobres, as taxas de imigração de trabalhadores desqualificados e assim por diante, para compreender onde reside o aspecto problemático e quais são suas causas.

Por que o orangotango está em risco de extinção?

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A Orangutan Foundation International (Fundação Internacional do Orangotango) faz um trabalho muito interessante em favor dos orangotangos em Bornéu e Sumatra, os únicos lugares do planeta onde existem orangotangos selvagens. Isso vai desde cuidar de orangotangos feridos até comprar terras para criar um Santuário da Vida Selvagem para preservação de seus habitats, passando pela pesquisa científica. O objetivo é impedir a extinção dos orangotangos.

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(Logo da Orangutan Foundation International)

Contribuindo para divulgar essa importante causa, em favor dos orangotangos, traduzi texto do site, disponibilizado aqui, onde explica-se o porquê dos orangotangos estarem ameaçados de extinção.

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Por que o orangotango está em perigo?

Por Orangutan Foundation International

A destruição e degradação da floresta tropical, particularmente na planície florestal, em Bornéu e Sumatra é a principal razão pela qual os orangotangos estão ameaçados de extinção.

Isso é causado primariamente por atividade humana (intenso corte ilegal de madeira, conversão de floresta em plantações de óleo de palma e áreas madeireiras, mineração, assentamentos e construção de estradas) e também por incêndios em larga escalas facilitados pelo fenômeno climático do El Niño. Adicionalmente, o comércio ilegal de animais é também um fator no declínio das populações de orangotango selvagem. Finalmente, orangotangos são ocasionalmente caçados e comidos por alguns dos povos indígenas de Bornéu tanto como por madeireiros e trabalhadores agrícolas migrantes que não têm proibições dietéticas contra alimentar-se da carne de primatas caçados.

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(Illegal logging [Gunung Leuser National Park] Photo © Ruwindrijarto/Environmental Investigation Agency)

Já houve um tempo onde as populações de orangotango selvagem no mundo provavelmente incluíam para mais de centenas de milhares de indivíduos, mas as estimativas atuais indicam bem menos orangotangos selvagens que ainda permanecem. Durante a década passada, populações de orangotangos provavelmente diminuíram em 50% na natureza selvagem. Enquanto as mudanças no clima passado podem ter sido responsáveis em alguma medida por essa diminuição, orangotangos são primariamente ameaçados por atividades humanas e desenvolvimento que causa a perda e a degradação dos habitats florestais. Atualmente, a IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais) classifica os orangotangos de Bornéu como “Em Perigo”* (Endagered) e os orangotangos de Sumatra como “Em Perigo Crítico”** (Critically Endangered).

As mais recentes estimativas do tamanho e distribuição das populações de orangotangos podem ser encontradas no site da Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da IUCN. As ponderações da Lista Vermelha apresentam que aproximadamente 7.300 orangotangos de Sumatra (Pongo abelii) permanecem na natureza selvagem. As mais recentes estimativas para orangotangos de Bornéu (Pongo pygmaeus spp.) caem entre 45.000 e 69.000 indivíduos. Essas estimativas, entretanto, foram obtidas entre os anos 2000 e 2003. Desde então tem havido substancial perda de habitat do orangotango em ambas as ilhas, então é provável que os números atuais em ambas as ilhas estejam realmente abaixo desses constantes da Lista Vermelha.

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Notas:

*”Em Perigo” é a segunda mais alta categoria de risco atribuída pela Lista Vermelha da IUNC para animais selvagens. Animais nessa lista deparam-se com um risco muito alto de extinção no futuro próximo.

**”Em Perigo Crítico” é a categoria de mais elevado risco atribuída pela Lista Vermelha da IUCN para espécies selvagens. Criticamente em Perigo significa que os números da espécie têm dimuído, ou diminuirão, em 80% dentro de três gerações.

A psicologia evolucionária não implica que homens preferem mais o sexo que as mulheres

Um curioso texto volta a circular pelas redes sociais. Publicado em março do ano passado, o artigo “When Women Wanted Sex Much More Than Men: and how the stereotype flipped“, escrito por Alyssa Goldstein, defende que mudanças culturais de apenas 2-3 séculos no Ocidente obscureceram o fato de que, na maior parte da história, considerava-se que as mulheres são mais interessadas em sexo que os homens. A autora acredita que as mulheres seriam mais interessadas em sexo hoje do que os homens caso os estereótipos não tivessem mudado.

Eu penso que o texto, apesar de mostrar corretamente que o estereótipo antigo era o da mulher cheia de apetite sexual, tem alguns problemas: o peso dado às crenças das pessoas no passado como um indicativo do que realmente acontecia sem maior discussão, a negligência em relação à persistência de estereótipos de certos grupos de mulheres como sedentas por sexo (o que ela chega a mencionar, mas, penso, ela não dá a atenção devida às implicações disso), sua fala que a mudança nos estereótipos levou a uma forma de sexismo onde as mulheres tornam-se responsáveis pelo assédio dos homens já que teriam mais força para segurar seus instintos e não abrir brechas (o que manifestamente ignora a ideia antiga de mulher como tentadora exatamente por seu maior apetite sexual, que igualmente atribuía à mulher a responsabilidade pelas quedas masculinas), um foco excessivo no Ocidente e sua história, a ausência de qualquer comentário sobre se há outras regiões do Globo onde os estereótipos são diferentes e as mulheres seriam mais promíscuas que os homens, entre outros.

O problema central do artigo é usar um estereótipo mais antigo para tentar mostrar que o estereótipo mais recente seria falso. Como relato historiográfico, é interessante saber que o apetite sexual masculino já foi considerado como menor que o feminino (e qualquer um que conheça história sabia disso muito antes de 2013), mas não é tão esclarecedor quanto a autora parece pensar.

Outro problema muito significativo é que o texto não elucida a diferença (ou, caso quisesse, a equivalência) entre ter maior apetite sexual e promiscuidade, o que já torna impossível saber que tipo de teste empírico a autora favoreceria para que sua hipótese fosse comprovada.

E é exatamente essa confusão conceitual que leva a um mal-entendido sobre psicologia evolucionária: o de que esta assume os estereótipos de gênero ocidentais modernos, onde a mulher é desinteressada de sexo e o homem é muito mais interessado, uma vez que, em livros e trabalhos científicos sobre psicologia evolucionária, é usual defender-se que os homens tendem a ser mais promíscuos que as mulheres.

Essa conclusão é errônea porque, mesmo sendo corrente a defesa de que os homens tenham uma predisposição inata maior à promiscuidade, isso não tem como consequência a alegação de que os homens preferem mais sexo que as mulheres, ou que as mulheres são desinteressadas por sexo, ou que as mulheres são castas e imaculadas.

Perceba: ser mais promíscuo do que outra pessoa é diferente de ser mais interessado por sexo ou de preferir mais sexo do que outra pessoa. Não é possível dizer que um homem que transa com uma moça diferente por semana prefira mais sexo que um homem que transa com uma namorada fixa, por exemplo.

Ou seja, o problema reside no próprio critério para definir que alguém prefere mais sexo que outra pessoa. Isso é avaliado por meio da quantidade de relacionamentos sexuais de curto prazo (uma espécie de índice de promiscuidade)? Pela quantidade de parceiros sexuais ao longo da vida? Pela quantidade de relações sexuais ao longo da vida? Pela frequência de relações sexuais? Pela quantidade de orgasmos? Pela capacidade de sustentar por mais tempo a excitação sexual? Pela disposição de masturbar-se quando ausente ou improvável a possibilidade de transar com alguém? Pela frequência de pensar em sexo? Pela qualidade média das relações sexuais? Pela mensuração do prazer sentido durante a relação sexual? Ou seria algum outro?

Não é claro se um desses critérios isoladamente poderia servir como o critério para “quem prefere mais sexo que outra pessoa”. Mesmo se pensarmos em um conjunto deles, por quais optar e qual peso dar a cada um relativamente aos outros? Isso não é nada fácil de definir. E, por isso mesmo, também não é a mera alegação de maior promiscuidade entre os homens que nos permitirá concluir que as mulheres não gostam de sexo tanto quanto ou mais do que eles.

Por outro lado, uma hipótese muito comum entre pesquisadores no ramo da psicologia evolucionária é a de que, enquanto os homens teriam vantagens evolucionárias em adotar um comportamento sexual mais promíscuo (“poligâmico”), uma vez que isso aumentaria sua prole futura, as mulheres teriam vantagens evolucionárias em adaptar suas preferências conforme varia a probabilidade do ato sexual levar à concepção ao longo do ciclo menstrual.

Fora da ovulação, as mulheres tenderiam a preferir um perfil de parceiro sexual mais provedor/cooperativo, o que seria vantajoso para prover recursos para sua prole. Quando da ovulação, as mulheres tenderiam a atrair-se por um perfil de parceiro sexual com mais elevada taxa de testosterona e aparência mais robusta, o que seria vantajoso para ter uma prole mais atraente com maior probabilidade de sucesso sexual no futuro.

Perceba que isso de nenhuma forma implica que as mulheres sejam desinteressadas por sexo. Ao contrário, se essa hipótese for verdadeira, mostra que as mulheres têm predisposições para trair parceiros estáveis, que sua disposição sexual pode direcionar-se pelo menos para dois parceiros sexuais diferentes ao longo do período de um mês (e, potencialmente, muito mais ao longo da vida inteira) e que são interessadas por sexo.

Mas existe alguma evidência para essa hipótese?

Em primeiro lugar, essa hipótese é plausível, pelo fato de que permitiria uma combinação eficiente de duas estratégias reprodutivas básicas que fêmeas (não só as humanas) podem adotar. Richard Dawkins, em “O gene egoísta”, explicou essas duas estratégias da seguinte forma:

“Examinarei as duas possibilidades principais, a chamada ‘estratégia do idílio doméstico’ e a ‘estratégia do macho viril’.

Eis a versão mais simples da estratégia do idílio doméstico. A fêmea examina com atenção todos os machos e tenta identificar, de antemão, sinais de fidelidade e de domesticidade. (…) Ao insistir num longo período de noivado, a fêmea excluirá os pretendentes casuais e só copulará com um macho que tenha provado suas qualidades de fidelidade e de perseverança. (…) Os rituais da corte animal quase sempre incluem um considerável investimento pré-cópula por parte do macho. A fêmea poderá recusar-se a copular até que o macho tenha construído um ninho para ela. Ou o macho poderá ter de prover quantidades substanciais de alimentos. (…)

(…) passo à outra estratégia feminina importante, a estratégia do macho viril. Nas espécies em que essa política é adotada, as fêmeas resignam-se a não obter ajuda dos pais dos seus filhos e, em lugar disso, dedicam-se inteiramente a obter bons genes. (…) Se uma fêmea puder, de alguma forma, detectar bons genes nos machos, usando as indicações externamente visíveis, poderá beneficiar seus próprios genes, associando-os a bons genes paternos. (…) Numa sociedade em que os machos competem entre si para serem escolhidos como machos viris pelas fêmeas, uma das melhores coisas que uma mãe pode fazer pelos seus genes é produzir um filho que, por sua vez, se revele um macho viril e atraente. (…) Isso resulta em que uma das qualidades mais desejáveis que um macho pode ter, aos olhos de uma fêmea, é, pura e simplesmente, a própria atração sexual. Uma fêmea que acasale com um macho viril extremamente atraente terá maior probabilidade de ter filhos atraentes para as fêmeas das gerações seguintes, garantindo, assim, muitos netos para si.” (DAWKINS, 2007, p. 266-267,277-279)

Ou seja, a hipótese implica em uma utilização alternada dessas duas estratégias, visando a maximização do fitness (aptidão) reprodutivo. Mas isso a torna plausível evolucionariamente, sendo necessário mostrar que evidências empíricas dispomos dela.

No interessante paper “Evolutionary Psychology and Feminism“, David Buss e David Schmitt abordam as evidências de adaptações femininas à ovulação em termos de estratégias reprodutivas.

Eles destacam que a mais proeminente hipótese nesta área é a da “hipótese dos bons genes”, que é o que Dawkins denominava de “estratégia do macho viril”. Assim, durante a ovulação, as mulheres voltariam suas preferências sexuais para homens que possuam “indícios” de elevada qualidade genética, tal como determinados traços masculinos e simétricas (BUSS; SCHMITT, 2011, p. 11; citam Gangestad and Simpson 2000; Thornhill and Gangestad 2008).

De fato, há pesquisas que falharam em encontrar apoio para essa hipótese (citam Harris, 2010; Peters et al, 2009), mesmo com amostragens significativas, como a de Harris. Contudo, Buss e Schmitt entendem que esses estudos deixam de considerar um amplo corpo empírico que encontra evidências para essa adaptação, como mulheres preferindo corpos e faces mais masculinos durante a ovulação (Anderson et al, 2010; Little et al, 2007) e também vozes mais masculinas (Feinberg et al, 2006; Puts, 2005). Além disso, citam a revisão da evidência feita por DeBruine et al (2010), que esclarece algumas características problemáticas daquelas pesquisas, especialmente a de Harris.

Contudo, apesar dessas evidências existirem, não são conclusivas para a “hipótese dos bons genes”, uma vez que existem hipóteses alternativas, como a do próprio Buss e Shackelford (2008) segundo a qual esse ajuste durante a ovulação reflete o fato de que as mulheres tornam-se mais reprodutivamente “valiosas” durante a ovulação. Assim, como um “mate value” (valor como parceiro reprodutivo) mais elevado levaria à uma demanda mais forte em suas preferências sexuais por traços como masculinidade, status social e potencial para aquisição de recursos, os ajustes quando da ovulação poderiam refletir uma mudança na percepção das mulheres de seu próprio mate value, ao invés uma mudança em preferência por indícios de bons genes.

No abstract desse outro artigo, Buss e Shackelford já deixam bem claro a diferença preditiva entre esta hipótese e a dos “bons genes”:

“A minority of women— notably those low in mate value who are able to escape male mate guarding and the manifold costs of an exposed infidelity—will pursue a mixed mating strategy, obtaining  investment from one man and good genes from an extra-pair copulation partner (as the trade-off model predicts). Since the vast majority of women secure genes and direct benefits from the same man, however, most women will attempt to secure the best combination of all desired qualities from the same man.” (Buss, Shackelford, 2008)

Além disso, para uma terceira hipótese, Buss e Schmitt citam Roney et al (2010), que defende que são as mudanças hormonais da ovolução (especificamente no estradiol) que estimulam essas preferências nesse período, sendo, portanto, um subproduto.

Portanto, a conclusão de Buss e Schmitt (2011, p. 11) é que existem evidências para essa hipótese, mas que é necessário mais trabalho empírico tanto para consolidar o status empírico dessas mudanças em preferências sexuais, quanto para definição da hipótese que melhor a explica.

Posteriormente, em 2012, um interessante trabalho “Ovulatory Shifts in Women’s Attractions to Primary Partners and Other Men: Further Evidence of the Importance of Primary Partner Sexual Attractiveness“, por Larson, Pillsworth e Haselton, traz mais evidências dos efeitos da ovulação em relação à atração feminina maior por homens que disponham de indicadores de “bons genes”. O trabalho é citado por Buss (2013) com aprovação.

Além dessas referências, adentrando no campo das meta-análises, a discussão é intensa e não está decidida, pelo que deixo algumas referências recentes: a) A primeira, a favor: Gildersleeve, K., Haselton, M. G., & Fales, M. R. (2014). Do women’s mate preferences change across the ovulatory cycle? A meta-analytic review. b) Réplicas contra: Harris, C. R. , Pashler, H., Mickes, L. (2014). Elastic analysis procedures: An incurable (but preventable) problem in the fertility effect literature. Comment on Gildersleeve, Haselton, and Fales (2014). Psychological Bulletin, 140, 1260-1264. / Wood, W., & Carden, L. (2014). Elusiveness of menstrual cycle effects on mate preferences: Comment on Gildersleeve, Haselton, and Fales (2014). Psychological Bulletin, 140, 1265–1271; c) Tréplica a favor: Gildersleeve, K., Haselton, M. G., & Fales, M. R. (2014). Meta-Analyses and P-Curves Support Robust Cycle Shifts in Women’s Mate Preferences: Reply to Wood and Carden (2014) and Harris, Pashler, and Mickes (2014).  Psychological Bulletin, 140, 1272–1280.

Um outro caminho pelo qual essa hipótese poderia ser questionada é desafiando essa distância entre homens e mulheres tanto no quesito dos relacionamentos sexuais de curto prazo como nos de longo prazo, por intermédio do questionamento do modelo utilizado para gerar hipóteses.

Neste caso, o que se desafia não é diretamente a hipótese sobre os efeitos da ovulação e do ciclo menstrual, mas sim o modelo de seleção sexual que levaria à estimativa de uma diferença entre os sexos maior que a correta no caso do ser humano.

Na biologia evolucionária mais geral, existe muita discussão sobre qual modelo aplicar para modelar a dinâmica da seleção sexual em diferentes espécies animais: o males-compete/females-choose (modelo MCFC) e o mutual mate choice (modelo MMC).

No paper “Towards a Theory of Mutual Mate Choice: lessons from two-sided matching“, Carl Bergstrom e Leslie Real defendem que muitos modelos usados para explicar a dinâmica da seleção sexual e da escolha de parceiro na biologia evolucionária fazem uma de duas premissas simplificadoras: ou as preferências sexuais são consideradas uniformes (por exemplo, todas as fêmeas têm as mesmas preferências em relação a todos os machos); ou a escolha de parceiro é considerada como sendo feita apenas por um dos lados (por exemplo, apenas as fêmeas que escolhem).

Apesar desse tipo de modelo ser adequado para algumas espécies (citam uma espécie de ácaro), os autores entendem que não o seriam para grande parte delas (BERGSTROM, REAL, 2000, p. 494), uma vez que a escolha de parceiro raramente ocorre entre os animais de modo tal que um dos lados seja inteiramente passivo (Cunningham, Birkhead, 1988).

Perceba, portanto, que o modelo MCFC presume que os machos competem entre si para serem escolhidos pelas fêmeas, enquanto o modelo MMC significaria que existem tanto seleção das fêmeas pelos machos quanto competição entre as fêmeas pelos machos.

No paper “The Ape That Thought It Was a Peackock: Does Evolutionary Psychology Exaggerate Human Sex Differences?“, Steve Stewart-Willians e Andrew G. Thomas problematizam a persistência do uso de  modelos MCFC em psicologia evolucionária, e advogam pela adoção de um modelo MTC. Para eles, o uso das premissas desses modelos levam a visões diferentes sobre o ser humano e as diferenças entre os sexos.

Quanto ao modelo MCFC:

“Human beings are a sexually dimorphic species. We exhibit profound sex differences in sexuality. These trace back to sex differences in parental investment. Historically, women invested more into their offspring than men. For a start, eggs are biologically much more “expensive” than sperm. More important, mammalian reproductive physiology obliges women to bear the biological costs of a 9-month pregnancy and, until recently, several years of breastfeeding. Men’s minimum contribution to the production of offspring is much smaller. Because of the sex difference in minimum parental investment, the maximum number of offspring a man can have in his lifetime is much higher than that of a woman. If a man mated with 100 women in a year, he could potentially have 100 offspring; if a woman mated with 100 men in a year, on the other hand, she would have no more offspring than if she had only mated with one. As such, males in our evolutionary past who pursued quantity of mates rather than quality had more offspring than other males, and the tendency to favor quantity became more and more common among males over the generations (i.e., itwas selected). In contrast, ancestral females who sought quality of mates rather than quantity had more surviving offspring than other females, and that tendency was selected among females. The net result is that men evolved to pursue short-term sexual relationships with as many women as possible, only opting for long-term pair bonding if they failed in this strategy, whereas women evolved to be choosier than men about their sexual partners, and to favor long-term pair bonds with menwho helped provide for their offspring. Men court women and compete with one another to gain sexual access to as many women as possible.Women, in contrast, choose from among the available men.Women’s choices then exert a strong selection pressure on men, shaping male courtship “ornaments” such as facial symmetry, status seeking, creative intelligence, and humor—all of which are human equivalents of the peacock’s tail.” (STEWART-WILLIANS, THOMAS, 2013, p. 138)

Assim, entendem os autores deste trabalho que o modelo MCFC preconiza maiores diferenças entre os sexos. O homem tenderia à promiscuidade (“poligamia”) de ter várias parceiras sexuais de curto prazo ao longo da vida, sendo o relacionamento de longo prazo apenas uma estratégia utilizada quando da ineficácia relativa da estratégia promíscua. Já a mulher tenderia a buscar relacionamentos de longo prazo com homens que ajudem a prover recursos para a prole. Considero que teria sido adequado que os autores mencionassem os efeitos de ovulação, que podem levar a relações de curto prazo – mesmo na existência de relação de longo prazo – durante esse período do ciclo menstrual, mas eles acabam não mencionando este ponto neste trecho.

Quanto ao MMC:

“Human beings are a relatively monomorphic species. Certainly, there are some average differences between the sexes, and certainly these trace back to the fact that women invest more in offspring than men. However, sex differences in sexuality are fairly modest in our species, precisely because sex differences in parental investment are fairly modest—much more modest than we would assume if we focused on gamete size, pregnancy, and lactation alone. As brain size increased in the hominin lineage,1 our young became progressively more dependent and the childhood period became progressively longer. As a result, pair bonding and male parental care became central elements in our reproductive repertoire. This dramatically reduced the discrepancy in the maximum number of offspring that men versus women could produce. Although in principle a man could impregnate hundreds of women every year, in practice the reproductive ceiling for even the most attractive men was almost always much lower. Consequently, we exhibit reduced psychological dimorphism.Moreover, we are not the kind of species in which females alone exert mate choice or males alone compete for mates; we are a species with mutual courtship. Because men often invested in offspring, they evolved to be choosy about their mates—in other words, to pursue mate quality rather than just quantity, at least in long-term relationships. Similarly, because men differed in their capacity to invest, women evolved to compete for the most desirable partners. Mutual mate choice has an important implication, namely, that sexual selection does not act wholly on human males. We are a species in which both sexes have their equivalents of the peacock’s tail. Indeed, when it comes to physical beauty, the usual sex difference has arguably been reversed: Females are the “showier” sex.” (STEWART-WILLIANS, THOMAS, 2013, p. 138-139)

Assim, entendem os autores que o modelo MMC implica em uma diferença menor entre os sexos (que ainda existe, saliente-se), uma vez que os relacionamentos de longo prazo fizeram-se mais necessários em nossa espécie pela necessidade dos infantes serem cuidados por muito mais tempo, preferencialmente tanto pelo pai quanto pela mãe. Assim, a estratégia reprodutiva central tanto para homens quanto para mulheres seria a de focar em relacionamentos de longo prazo.

Os autores salientam que não estão dizendo que todos os psicológicos evolucionários aceitam o modelo MCFC, mas que grande parte deles tendem a formular hipóteses dentro do framework desse modelo, mesmo quando reconhecem certos aspectos da interação entre os sexos entre os humanos que correspondem mais ao modelo MMC. (STEWART-WILLIANS, THOMAS, 2013, p. 39)

Sobre a tendência à promiscuidade entre os homens e as mulheres, os autores concordam que os homens têm uma tendência maior a isso que as mulheres. Eles reconhecem que a comprovação disso é uma conquista da psicologia evolucionária, provendo uma explicação correta sobre o porquê disso ser assim e demonstrando que isso ocorre em todas as culturas, portanto, tendo caráter universal. Ou seja, mesmo se o modelo MCFC for incorreto, como entendem esses autores, ainda assim continua válido que os homens tendem a ser mais promíscuos que as mulheres (e continua não sendo inferido disso que as mulheres preferem menos sexo que os homens).

Veja o trecho na íntegra, onde Stewart-Willians e Thomas inclusive citam trabalho anterior dos autores já citados, David Buss e David Schmitt:

One of the most famous claims in EP is that, because of sex “differences in parental investment, men have evolved to be more interested than women in casual sex, sexual novelty, and the acquisition of multiple mates within a short time frame (Buss&Schmitt, 1993; Schmitt, 2005b). People had, of course, noticed this difference before EP came along. However, EP has made two major contributions. First, it has provided a cogent and compelling explanation for the sex difference. Second, it has documented its cross-cultural universality, thus strongly challenging the view that the difference is simply a product of local cultural mores. These must be counted as among themost significant contributions of EP to the understanding of our species, and we do not deny that the explanation is fundamentally correct or that the difference is genuine. Nonetheless, it is possible to exaggerate even a genuine difference, and we suggest that there is a tendency in EP to do exactly that. Modern evolutionary psychologists do not claim that “men are promiscuous, women are monogamous,” as some critics charge (e.g., Brym & Lie, 2007, p. 68). However, they still sometimes give an inflated impression of the difference in short-term mating inclinations.  (STEWART-WILLIANS, THOMAS, 2013, p. 153)

Perceba que eles inclusive reconhecem que a psicologia evolucionária nunca reivindicou que homens são promíscuos enquanto mulheres são monogâmicas, e, a fortiori, podemos acrescentar que nunca reivindicou que mulheres correspondem na íntegra ao estereótipo de que não seriam interessadas em sexo!

O questionamento deles gira em torno da magnitude dessa diferença na tendência. Eles admitem que as diferenças em orientação sociossexual (disposição para ter relações sexuais fora de um relacionamento comprometido) encontradas em um estudo intercultural com uma amostragem muito significativa, com 200.000 participantes de 53 países (Lippa, R. A., 2009; destaque-se que Lippa tem trabalhado em outros estudos interculturais relacionados com diferenças entre os sexos, veja aqui alguns abstracts) foram significativas pelo modo padrão de medir essa correlação em psicologia:

“Collapsing across nations, Lippa (2009) found an average effect size of d = .74 for the sex difference in SO (or an estimated d = .85 after statistically correcting for attenuation caused by using a small number of items to measure the construct). If we accept Cohen’s (1988) convention, this would be deemed a large effect.” (STEWART-WILLIANS, THOMAS, 2013, p. 138)

Contudo, eles pensam que este efeito não é tão grande como poderia parecer, dadas algumas questões metodológicas. Uma delas é a de que existiria muita variação em torno da média. Um estudo de 1991, por exemplo, encontrou que 1/3 dos homens – uma minoria significativa – tinha uma orientação sociossexual menor que a mulher média (Simpson, Gangestad,1991). Outra é a comparação com outros animais mais dismórficos, e assim por diante.

É interessante destacar também que, em termos de estereotipação, o modelo MCC também pode ser deturpado. Sua ênfase na família nuclear monogâmica pode facilmente ser utilizada por divulgadores e/ou por simpatizantes dessa hipótese para defender que finalmente a ciência vindicou a família heterossexual monogâmica tradicional como o pilar da estrutura social. Por exemplo, o seguinte trecho de Frans de Wall pode facilmente ser desvirtuado para fins conservadores e sexistas (mesmo que essa não tenha sido a intenção de Frans de Wall!):

 “Nossa evolução seguiu rumo diferente. Aumentando a certeza sobre a paternidade, abrimos caminho para um envolvimento ainda maior do pai nos cuidados com os filhos. No processo, tivemos de limitar o sexo fora da família nuclear. Até nossos testículos pequenos contam uma história de maior compromisso e liberdade refreada. A livre troca de parceiros não pode ser tolerada em um sistema reprodutivo como esse. Assim, domar a sexualidade tornou-se uma obsessão humana, a ponto de algumas culturas e religiões determinarem a remoção de parte dos genitais femininos ou equipararem o sexo em geral com o pecado. (…)

O dilema de como engedrar a cooperação entre concorrentes sexuais foi resolvido de um só golpe com o estabelecimento da família nuclear. Esse esquema ofereceu a quase todo homem a chance da reprodução e, portanto, incentivos para que ele contribuísse para o bem comum. Assim, devemos ver a manutenção do par humano como a chave para o incrível nível de cooperação que marca nossa espécie. A família, e os costumes sociais que a embasam, permitiu-nos levar os vínculos masculinos a um novo patamar, desconhecido em outros primatas. Preparou-nos para empreendimentos cooperativos em grande escala que possibilitaram a conquista do mundo: de instalar ferrovias através de um continente a formar exércitos, governos e corporações globais. (…) nosso sucesso como espécie está inextricavelmente vinculado ao abandono do estilo de vida bonobo e a um controle mais rigoroso das expressões sexuais.” (DE WALL, 2007, p. 158 e 160)

Portanto, acusações de que a psicologia evolucionária estaria atendendo a estereótipos ocidentais e seria “paroquial” surgiriam mesmo se desde o início os pesquisadores da área tivessem dado maior ênfase ao modelo MMC na hora de formular suas hipóteses.

Em seu comentário a este paper, Geoffrey Miller concorda que os argumentos do paper são importantes para mudanças dentro do campo da psicologia evolucionária (que deveria dar mais atenção ao modelo MMC, como alguns de seus pesquisadores já faziam, dentre eles o próprio Miller e o David Buss, muito antes desse paper de 2013), mas toma o cuidado de ressaltar que o modelo pode ser deturpado também ou ter implicações ofensivas ao “politicamente correto”:

The MMC’s ideological dark side. At first glance, MMC sounds more romantic, sexually egalitarian, and ideologically appealing than MCFC. But at a deeper level, it is even less politically correct and challenges some basic assumptions of blank slate egalitarianism, romantic sentimentality, and Western liberal progressivism (Miller, 2003). (…)

As a result, our mate preferences are likely to embody some principles of intuitive eugenics, with men assessing women (unconsciously) as egg donors, and women assessing men (unconsciously) as sperm donors. (By contrast, most MCFC models in EP have focused on mate preferences for nonheritable traits, such as youthful fertility or material resources, which raise fewer eugenic concerns.) (…)

Ideologically, MMC models can sound like they naturalize neo-Victorian family values of slow courtship, careful mate choice, voluntary eugenics, long-term monogamy, sexual fidelity, and paternal duty. Thus, MMC threatens to impose a sort of puritanical buzzkill on the pop psychologists devoted to the MCFC “men are promiscuous, women are monogamous” mantra, and on the pop anthropologists who champion the “people are bonobos” mass-promiscuity model. They might not welcome such a stern Galtonian party-crasher.” (MILLER, 2013, p. 209)

Portanto, é importante ressaltar: divulgadores e/ou simpatizantes tendem a passar ideias científicas ao público sem a contextualização ou cuidado devido, e às vezes os próprios pesquisadores da área podem exagerar certos aspectos, mas isso não significa que a psicologia evolucionária seja cheia de pseudociência, ou que seja apenas uma protociência, ou que seja “paroquial” ou que está enviesada para favorecer estereótipos sexistas ou de outro tipo existentes no Ocidente. Nenhum dos papers citados permite concluir isso.

Em comentário às ponderações de Steve Stewart-Willians e Andrew G. Thomas, David Buss salienta outros aspectos importantes, no paper “The Science of Human Mating Strategies: An Historical Perspective“.

Apesar de concordar com a importância do modelo MMC (uma vez que ele mesmo já o utilizava há 25 anos complementarmente ao MCFC), Buss tem duas críticas à Stewart-Willians e Thomas.

A primeira é sobre o nome escolhido para designar o modelo, Mutual Mate Choice. O modelo assim designado enfatiza a centralidade dos relacionamentos de longo prazo e do cuidado parental na evolução humana, mas não é possível deixar de lado os relacionamentos oportunísticos de curto prazo (incluindo casos extraconjugais), o recurso ao engano (deception) nos relacionamentos, a influência dos pais nos casamentos (como explícito na tradição de casamentos arranjados) e o estupro, quando o assunto da mate choice está em investigação. Por isso, propõe o termo que ele mesmo já usava, Mating Strategies Theory ou Sexual Strategies Theory. (BUSS, 2013, p. 173-174)

A segunda crítica é sobre a alegação de que a psicologia evolucionária teria exagerado a tendência maior dos homens à promiscuidade e aos relacionamentos sexuais de curto prazo em relação às mulheres. Ele faz dois apontamentos a respeito.

Primeiro, destaca que existe um contexto histórico pertinente, que era o fato de, anteriormente, a ciência social sempre enfatizar que homens e mulheres não teriam nenhuma diferença inata, daí que os pesquisadores de psicologia evolucionária tenham em reação a isso enfatizado a existência da diferença. Alguns podem ter contribuído para os exageros midiáticos na hora de divulgar isso, mas certamente a culpa não é da disciplina. E, de fato, ele considera que a tendência atual, seja na psicologia evolucionária, seja na biologia evolucionária, é a de apresentar a discussão que sempre houve das evidências de forma mais explícita para o público, sem precisar enfatizar mais um ponto do que outro:

“The key is to simply be scientifically accurate— describe effect sizes, unpack the importance of those effect sizes, explore their ramifications, describe distribution overlap, and importantly focus on within-sex differences as well as between-sex differences. The field of evolutionary psychology, indeed the field of evolutionary biology, is beginning to move in that direction (e.g., see the many chapters in the recent edited volume by Buss & Hawley, 2011).” (BUSS, 2013, p. 175)

Segundo, a dimensão do effect size encontrada não deveria ser subestimada, uma vez que ele é maior (.74, .80 e em alguns estudos mesmo .1,00) do que o geralmente encontrado em psicologia (por volta de .20 à .30). (BUSS, 2013, p. 175)

Quanto à sua importância, o effect size nem sequer precisava ser grande, uma vez que mesmo diferenças pequenas podem ter consequências muito impactantes no mundo real (Rosenthal, Rosnow, Rubin, 1999). Por exemplo, o tráfico de pessoas é um evento de baixa frequência, mas prejudica enormemente milhares de mulheres ao redor do mundo. E existe fundamentalmente por conta da psicologia sexual masculina, mesmo que seja apenas um número limitado de homens que regularmente recorram à prostituição. Portanto, a importância deve ser medida não só em termos de effect size, mas em termos de fitness, custos físicos e custos psicológicos (BUSS, 2013, p. 175-176)

Buss também salienta, contra todas aquelas vozes que acusam a psicologia evolucionária de ser uma pseudociência ou quando muito uma protociência, que foi apenas com a emergência deste campo que foi possível acumular conhecimento empírico para responder ou começar a responder às seguintes questões, que merecem ser transcritas aqui na íntegra:

“1. Do men and women differ in the value they place on different qualities in a long-term mate, and if so,were these sex differences limited to the United States or to Western cultures, or were they universal across cultures (Buss, 1989b)?

2. Do mate preferences vary depending on the type of mate sought, such as a short-term casual sex partner versus a long-term committed mate (Buss &Schmitt, 1993; Kenrick, Sadalla,Groth,&Trost, 1990; Li & Kenrick, 2006)?

3. Do mate preferences vary as a function of theoretically relevant social and ecological variables, such as cultural norms about premarital sex, operational sex ratio, or parasite prevalence (Buss, 1989b; Gangestad & Buss, 1993; Gangestad, Haselton, & Buss, 2006)?

4. Do women’s mate preferences vary as a function of their ovulation cycle (Larson, Pillsworth,&Haselton, 2012)?

5. Do expressed mate preferences correspond to actual behavioral measures of revealed mate preferences (Hitsch, Hortac¸su, & Ariely, 2010)?

6. To what degree, and in which contexts, do mate preferences influence actual mating and marital decisions (Buss, 2003; Li et al., in press)?

7. Does one’s personal mate value influence an individual’s ability to translate their mate preferences into their actual mating decisions (Buss, 2003)?

8. Do women and men adjust their mate preferences up or down depending on their own mate value (Buss & Shackelford, 2008)?

9. Do mate value discrepancies within romantic relationships predict sexual infidelity and relationship dissolution (Buss & Shackelford, 1997)?

10. To what degree do cultural institutions, such as arranged marriages, limit the ability of individuals to seek the potential mates they desire (Buss, 2003)?

11. Can the mate preferences of one sex be used to predict the content of attraction tactics used by the opposite sex (Buss, 1988a; Schmitt & Buss, 1996)?

12. Can the mate preferences of one sex be used to predict the ways in which women and men derogate their mating competitors through the verbal slings and arrows of gossip (Buss&Dedden, 1990; Schmitt & Buss, 1996), and are there sex differences in the qualities of mating rivals that produce emotional distress (Buss, Shackelford, Choe, Buunk, & Dijkstra, 2000)?

13. Can the mate preferences of one sex be used to predict the mate poaching tactics used by the opposite sex (Schmitt & Buss, 2001)?

14. Can the mate preferences of one sex influence behavioral tactics used for mate retention in longterm dating relationships and actual marriages (Buss, 1988b; Buss & Shackelford, 1997)?

15. Do sex differences in mate preferences predict sex differences in causes of divorce across cultures (Betzig, 1989)?

16. Are standards of beauty arbitrary and infinitely culturally variable, as mainstream psychologists long assumed, or do women and men have evolved standards of attractiveness that are universal across cultures (Sugiyama, 2005)?

17. Do men and women have different standards of beauty, such as prioritizing facial versus body cues, depending on whether they are seeking a long-term or short-term mate (Confer, Perilloux, & Buss, 2010)?

18. Do men and women get into predictable forms of conflict due to conflicting mating strategies (Buss, 1989a, 1996; Haselton, Buss, Oubaid, & Angleitner, 2005)?

19. Do men and women attempt to deceive potential mates inways predictable from theirmating strategies (Haselton et al., 2005)?

20. Do women and men experience predictable forms of sexual regret from missed sexual opportunities and retrospective errors in sexual choice (Galperin et al., in press)?” (BUSS, 2013, p. 172)

Também recomendo o texto de um conhecido crítico de problemas da Psicologia Evolucionária, Jerry Coyne, denominado “Is evolutionary psychology worthless?“, onde este biólogo reconhece que, apesar de já ter feito críticas de teorias infundadas/distorções populares/excessos especulativos nessa seara, nunca chegou ao ponto de considerar que essa disciplina fosse de nenhuma utilidade, ao contrário, há coisas boas nela e cada vez mais está ficando melhor.

Coyne demonstra aceitar o status científico da psicologia evolucionária, pois comenta que a disciplina tem amadurecido no sentido de uma concentração crescente em evidências e testabilidade, ao invés de “contar histórias”. Cita como áreas muito promissoras:

 “Incest avoidance, especially in those societies that haven’t made a connection between incest and birth defects.  Also, the proximate cues for avoiding incest, as in the failure of children raised in a kibbutz to marry.

Humans’ innate fear of harmful creatures or features, as in spiders and heights, and the lack of innate fears of more modern dangers.

The variance in offspring number between males and females in various societies, and the differential “pickiness” of males and females when choosing mates

The evolution of concealed ovulation in humans as opposed to other primates.

The use of odors and immune-system matching (i.e., MHC genes) as cues for mates.

The cause of sexual dimorphisms (e.g., size differences between males and females).

The cause of physical and physiological differences between human ethnic groups (was it sexual selection, drift, or something else?)

Gene-culture coevolution, as in the evolution of lactose tolerance.

The evolution or morality using comparative studies with other primates.

The evolution of language (see The Language Instinct by Pinker).

Parent-offspring conflict, and cases in which kin are favored over nonkin.

Why we like food that is bad for us (e.g. fats and sweets), and why we feel disgust at certain foods or odors”

Também recomenda-se o paper “Evolutionary Psychology: Controversies, Questions, Prospects, and Limitations”, escrito por Confer, Easton, Fleischman, Goetz, Lewis, Perilloux e Buss em 2010. O leitor pode consultar a série daqui do blog (ainda incompleta) que resume este paper: parte 1, parte 2, parte 3, parte 4.

Portanto, alegar que a psicologia evolucionária seguia ou segue estereótipos ocidentais modernas por defender que mulheres não se interessam por sexo ou que os homens preferem mais o sexo do que as mulheres é completamente equivocado, uma vez que não corresponde à realidade da discussão científica travada nesta disciplina.

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Daqui do blog: “O ‘estado da arte’ da psicologia evolucionária – parte 1 (introdução)”, 28/06/2013.

Daqui do blog: “O ‘estado da arte’ da psicologia evolucionária – parte 2 (bases teóricas)”, 12/08/2013.

Daqui do blog: “O ‘estado da arte’ da psicologia evolucionária – parte 3 (falseabilidade/testabilidade)“, 20/09/2013.

Daqui do blog: “O ‘estado da arte’ da psicologia evolucionária – parte 4 (modularidade da mente)“, 24/04/2014.

Ser novo keynesiano e defender elevada liberdade econômica é possível

Algumas pessoas acreditam que “keynesianismo” é sinônimo de defender algo muito próximo de uma economia planejada. Elas estão erradas.

Um dos motivos é de que, mesmo o keynesianismo defendendo a intervenção maior do Estado na macroeconomia por meio das políticas monetária e fiscal, isso não significa que ele defenda maior intervenção do Estado na microeconomia. Enquanto corrente macroeconômica, nada tem a dizer, a princípio, sobre o que o Estado teria a fazer na microeconomia.

E o consenso hoje na economia é que, na microeconomia, apesar de existirem algumas falhas de mercado, o melhor é deixar à livre concorrência e à livre iniciativa que cumpram seu papel por meio do sistema de preços, o que permitirá maior eficiência e maior bem-estar. A grande disputa reside na macroeconomia mesmo.

Uma forma de verificar o quão errado é esse raciocínio que conflaciona keynesianismo com rejeição da liberdade econômica e dos mercados é analisar o chamado “novo keynesianismo”, que é a posição teórica atualmente mais consolidada em macroeconomia. (Embora eu tenda a concordar com o monetarismo de mercado*, o fato é que este último ainda é muito recente; e, de qualquer maneira, incorpora o principal insight dos novo keynesianos, que é a rigidez nominal dos preços/salários)

Em artigo mais antigo neste blog, “O erro científico do keynesianismo e a emergência da macroeconomia novo-clássica“, mostra-se que o grande erro científica do keynesianismo tinha sido ignorar as expectativas racionais e assumir que o governo poderia manipular um trade-off estável entre inflação e desemprego.

A partir da “crítica de Lucas“, direcionada contra esse trade-off keynesiano, a macroeconomia novo-clássica expôs o papel das expectativas racionais (“os agentes fazem o melhor uso possível da informação limitada que possuem e conhecem a distribuição da probabilidade pertinente”) tanto para o equilíbrio geral da economia como para as oscilações em seu produto (os ciclos econômicos).

O modelo de Lucas para explicar as oscilações econômicas baseava-se na informação imperfeita: cada agente é pensado como tendo informação limitada e recebendo informação sobre alguns preços mais frequentemente do que sobre outros, e, mesmo com essas limitações, o agente ainda “otimiza”, o que significa que suas decisões de oferta e demanda devem ser funções de variáveis reais, incluindo os preços relativos percebidos. Com base na informação limitada possuída – “listas” contendo os preços absolutos, passados e presentes, de vários bens – os agentes fariam a melhor estimativa possível de todos os preços relativos que influenciam suas decisões de oferta e demanda. Como eles não possuem toda a informação para computar perfeitamente os preços relativos pertinentes, os agentes cometem erros na sua estimativa. (LUCAS; SARGENT, p. 60)

Por exemplo, sobre certas circunstâncias, os agentes tenderão temporariamente a errar no sentido de que o aumento geral em todos os preços absolutos significaria um aumento no preço relativo do bem que eles estão vendendo e, na média, todo mundo está cometendo o mesmo equívoco, o produto agregado aumentará acima do que poderia ter sido. Ou seja, o produto  aumentará acima do que poderia ter sido sempre que o nível agregado de preços estiver acima do que os agentes teriam esperado com base na informação prévia e, da mesma forma, o produto médio da economia diminuirá sempre que o nível agregado de preços vier a ser mais baixo que os agentes esperavam. (LUCAS; SARGENT, p. 60)

Contudo, sob a égide das expectativas racionais, pouco se poderia esperar da intervenção governamental na economia. Esta só poderia afetar o comportamento dos agentes econômicos no agregado se e somente se fosse uma surpresa para estes. O conhecimento de políticas passadas do governo permite que os agentes neutralizem os efeitos destas, e, portanto, apenas políticas inesperadas teriam efeito. Por outro lado, os mercados rapidamente poderiam ajustar-se aos erros dos agentes econômicos cometidos pela informação imperfeita detida por cada um deles, na direção do equilíbrio geral.

A macroeconomia novo keynesiana veio questionar essa premissa final, de quão rápida era a capacidade da economia como um todo de ajustar-se em face de uma crise econômica.

Para os novo keynesianos, o ciclo econômico não é explicado pela informação imperfeita, mas pela rigidez nominal de salários/preços. O problema é, antes de tudo, psicológico: diante de determinados choques na oferta ou na demanda agregadas, seria ótimo (no sentido econômico) que os agentes econômicos imediatamente cortassem preços e salários para ajustar-se ao choque, mantendo-se a mesma tendência de crescimento e de nível do produto total da economia. Contudo, os agentes relutam em fazer estes cortes, seja porque tem planejamentos internos sobre quando alterar os preços dos seus produtos e a troca de preços não é sem custo (“custo de menus”), seja porque cortar salários dos trabalhadores induz insatisfação nestes. Por exemplo, ao invés de diminuir um pouco o salário de cada trabalhador, a tendência das empresas é de demitir alguns deles, enquanto mantém o salário dos demais. A evidência empírica é clara nesse sentido.

Dessa forma, como os preços/salários não se ajustam rapidamente, o ajuste ocorre na taxa de crescimento e no nível do produto total da economia, que desacelerá e/ou diminuirá.

Portanto, a política monetária do Banco Central poderia ser útil para lidar com este problema de ajuste, uma vez que o problema maior está nos cortes nominais, não nos reais. Por meio de uma política monetária expansionista, é possível que os salários reais sejam cortados sem que os salários nominais o sejam, o que permitiria minorar os efeitos sobre o emprego e, por consequência, sobre o produto total da economia, quando de uma crise econômica. Também preconizam o uso da política fiscal contracíclica, principalmente quando os juros estão aproximando-se de zero, o que tornaria sem efeito uma política monetária mais expansionista. O governo poderia gastar mais durante as crises para que a demanda agregada não caia muito.

Um dos principais expoentes desse ramo é o economista Gregory Mankiw. Escreveu a entrada sobre o assunto na The Concise Encyclopedia of Economics e seu livro “Macroeconomia” aborda muito bem a questão da rigidez nominal. Mas também defende uma economia mais livre, com maior liberdade econômica.

Exatamente: um novo keynesiano que defende liberdade para os mercados. Em um artigo, ele demonstra o grande consenso liberal em economia (vide original aqui e tradução aqui), com o qual ele está alinhado.

Por outro lado, Bryan Caplan mostra que, pelas próprias premissas do modelo novo keynesiano, regulações trabalhistas que dificultam ainda mais o ajuste dos salários nominais (portanto, reforçando o aspecto psicológico que por si só já dificulta isso) são prejudiciais para a economia e para o bem-estar das pessoas, uma vez que contribuem para que a demanda agregada caia e, com ela, o nível de emprego também, o que aumenta a taxa de desemprego.

Logo, ser novo keynesiano e defender elevada liberdade econômica não é contraditório.

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*NOTA: Monetarismo de Mercado é uma corrente em macroeconomia, baseada nos seguintes postulados: 1) A inflação é determinada principalmente pela expectativa de inflação futura e secundariamente pela quantidade de moeda (não juros); 2) A política monetária deve ser determinada pelos prediction markets (mercados preditivos ou de previsão); 3) A meta do Banco Central não deve ser a estabilização da inflação (como no sistema de metas inflacionárias brasileiro), mas sim a estabilização do PIB nominal, principalmente para países grandes não muito abertos; 4) A administração da demanda agregada pela política monetária do Banco Central deve ser desvinculada da regulação do sistema bancário; 5) A Grande Recessão de 2008 foi causada por um erro do FED na política monetária dos EUA. Para um panorama geral desta corrente, consulte este texto e este paper. Veja este artigo do Arthur Niculitcheff analisando o atual estado da economia brasileira.