Ser novo keynesiano e defender elevada liberdade econômica é possível

Algumas pessoas acreditam que “keynesianismo” é sinônimo de defender algo muito próximo de uma economia planejada. Elas estão erradas.

Um dos motivos é de que, mesmo o keynesianismo defendendo a intervenção maior do Estado na macroeconomia por meio das políticas monetária e fiscal, isso não significa que ele defenda maior intervenção do Estado na microeconomia. Enquanto corrente macroeconômica, nada tem a dizer, a princípio, sobre o que o Estado teria a fazer na microeconomia.

E o consenso hoje na economia é que, na microeconomia, apesar de existirem algumas falhas de mercado, o melhor é deixar à livre concorrência e à livre iniciativa que cumpram seu papel por meio do sistema de preços, o que permitirá maior eficiência e maior bem-estar. A grande disputa reside na macroeconomia mesmo.

Uma forma de verificar o quão errado é esse raciocínio que conflaciona keynesianismo com rejeição da liberdade econômica e dos mercados é analisar o chamado “novo keynesianismo”, que é a posição teórica atualmente mais consolidada em macroeconomia. (Embora eu tenda a concordar com o monetarismo de mercado*, o fato é que este último ainda é muito recente; e, de qualquer maneira, incorpora o principal insight dos novo keynesianos, que é a rigidez nominal dos preços/salários)

Em artigo mais antigo neste blog, “O erro científico do keynesianismo e a emergência da macroeconomia novo-clássica“, mostra-se que o grande erro científica do keynesianismo tinha sido ignorar as expectativas racionais e assumir que o governo poderia manipular um trade-off estável entre inflação e desemprego.

A partir da “crítica de Lucas“, direcionada contra esse trade-off keynesiano, a macroeconomia novo-clássica expôs o papel das expectativas racionais (“os agentes fazem o melhor uso possível da informação limitada que possuem e conhecem a distribuição da probabilidade pertinente”) tanto para o equilíbrio geral da economia como para as oscilações em seu produto (os ciclos econômicos).

O modelo de Lucas para explicar as oscilações econômicas baseava-se na informação imperfeita: cada agente é pensado como tendo informação limitada e recebendo informação sobre alguns preços mais frequentemente do que sobre outros, e, mesmo com essas limitações, o agente ainda “otimiza”, o que significa que suas decisões de oferta e demanda devem ser funções de variáveis reais, incluindo os preços relativos percebidos. Com base na informação limitada possuída – “listas” contendo os preços absolutos, passados e presentes, de vários bens – os agentes fariam a melhor estimativa possível de todos os preços relativos que influenciam suas decisões de oferta e demanda. Como eles não possuem toda a informação para computar perfeitamente os preços relativos pertinentes, os agentes cometem erros na sua estimativa. (LUCAS; SARGENT, p. 60)

Por exemplo, sobre certas circunstâncias, os agentes tenderão temporariamente a errar no sentido de que o aumento geral em todos os preços absolutos significaria um aumento no preço relativo do bem que eles estão vendendo e, na média, todo mundo está cometendo o mesmo equívoco, o produto agregado aumentará acima do que poderia ter sido. Ou seja, o produto  aumentará acima do que poderia ter sido sempre que o nível agregado de preços estiver acima do que os agentes teriam esperado com base na informação prévia e, da mesma forma, o produto médio da economia diminuirá sempre que o nível agregado de preços vier a ser mais baixo que os agentes esperavam. (LUCAS; SARGENT, p. 60)

Contudo, sob a égide das expectativas racionais, pouco se poderia esperar da intervenção governamental na economia. Esta só poderia afetar o comportamento dos agentes econômicos no agregado se e somente se fosse uma surpresa para estes. O conhecimento de políticas passadas do governo permite que os agentes neutralizem os efeitos destas, e, portanto, apenas políticas inesperadas teriam efeito. Por outro lado, os mercados rapidamente poderiam ajustar-se aos erros dos agentes econômicos cometidos pela informação imperfeita detida por cada um deles, na direção do equilíbrio geral.

A macroeconomia novo keynesiana veio questionar essa premissa final, de quão rápida era a capacidade da economia como um todo de ajustar-se em face de uma crise econômica.

Para os novo keynesianos, o ciclo econômico não é explicado pela informação imperfeita, mas pela rigidez nominal de salários/preços. O problema é, antes de tudo, psicológico: diante de determinados choques na oferta ou na demanda agregadas, seria ótimo (no sentido econômico) que os agentes econômicos imediatamente cortassem preços e salários para ajustar-se ao choque, mantendo-se a mesma tendência de crescimento e de nível do produto total da economia. Contudo, os agentes relutam em fazer estes cortes, seja porque tem planejamentos internos sobre quando alterar os preços dos seus produtos e a troca de preços não é sem custo (“custo de menus”), seja porque cortar salários dos trabalhadores induz insatisfação nestes. Por exemplo, ao invés de diminuir um pouco o salário de cada trabalhador, a tendência das empresas é de demitir alguns deles, enquanto mantém o salário dos demais. A evidência empírica é clara nesse sentido.

Dessa forma, como os preços/salários não se ajustam rapidamente, o ajuste ocorre na taxa de crescimento e no nível do produto total da economia, que desacelerá e/ou diminuirá.

Portanto, a política monetária do Banco Central poderia ser útil para lidar com este problema de ajuste, uma vez que o problema maior está nos cortes nominais, não nos reais. Por meio de uma política monetária expansionista, é possível que os salários reais sejam cortados sem que os salários nominais o sejam, o que permitiria minorar os efeitos sobre o emprego e, por consequência, sobre o produto total da economia, quando de uma crise econômica. Também preconizam o uso da política fiscal contracíclica, principalmente quando os juros estão aproximando-se de zero, o que tornaria sem efeito uma política monetária mais expansionista. O governo poderia gastar mais durante as crises para que a demanda agregada não caia muito.

Um dos principais expoentes desse ramo é o economista Gregory Mankiw. Escreveu a entrada sobre o assunto na The Concise Encyclopedia of Economics e seu livro “Macroeconomia” aborda muito bem a questão da rigidez nominal. Mas também defende uma economia mais livre, com maior liberdade econômica.

Exatamente: um novo keynesiano que defende liberdade para os mercados. Em um artigo, ele demonstra o grande consenso liberal em economia (vide original aqui e tradução aqui), com o qual ele está alinhado.

Por outro lado, Bryan Caplan mostra que, pelas próprias premissas do modelo novo keynesiano, regulações trabalhistas que dificultam ainda mais o ajuste dos salários nominais (portanto, reforçando o aspecto psicológico que por si só já dificulta isso) são prejudiciais para a economia e para o bem-estar das pessoas, uma vez que contribuem para que a demanda agregada caia e, com ela, o nível de emprego também, o que aumenta a taxa de desemprego.

Logo, ser novo keynesiano e defender elevada liberdade econômica não é contraditório.

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*NOTA: Monetarismo de Mercado é uma corrente em macroeconomia, baseada nos seguintes postulados: 1) A inflação é determinada principalmente pela expectativa de inflação futura e secundariamente pela quantidade de moeda (não juros); 2) A política monetária deve ser determinada pelos prediction markets (mercados preditivos ou de previsão); 3) A meta do Banco Central não deve ser a estabilização da inflação (como no sistema de metas inflacionárias brasileiro), mas sim a estabilização do PIB nominal, principalmente para países grandes não muito abertos; 4) A administração da demanda agregada pela política monetária do Banco Central deve ser desvinculada da regulação do sistema bancário; 5) A Grande Recessão de 2008 foi causada por um erro do FED na política monetária dos EUA. Para um panorama geral desta corrente, consulte este texto e este paper. Veja este artigo do Arthur Niculitcheff analisando o atual estado da economia brasileira.

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