Liberdade para o aborto

Madeleine Simms foi uma ativista social britânica que protagonizou a aprovação da Lei do Aborto da Grã-Bretanha, em 1967, por intermédio de sua participação na Abortion Law Reform Association (ALRA – Associação para Reforma da Lei do Aborto). A lei era menos pró-escolha do que ela mesmo desejava, mas foi uma importante conquista para o planejamento familiar e a liberdade de escolha entre as mulheres britânicas.

Posteriormente, ela participou como administradora em grupos relacionados ao controle de natalidade e planejamento familiar, como  o Birth Control Trust (ligado ao Galton Institute) e o Simon Population Trust, bem como atuou como diretora no Institute for Social Studies in Medical Care e também trabalhou na divisão de gestão de pesquisa do Departamento de Saúde britânico. Esteve sempre à frente da conscientização do público quanto aos direitos das mulheres e às questões de saúde sexual e reprodutiva. Faleceu em 2011, e você pode ler o obituário escrito no The Guardian aqui. download

 Madeleine Simms 

No texto abaixo, que saiu na Newsletter do Galton Institute de setembro de 1994, Madeleine Simms dá uma excelente resposta ao questionamento feito por Goodhart que saiu em uma Newsletter anterior, pondo em dúvida a ocorrência de abortos ilegais na Grã-Bretanha pré-1967 e insinuando a iniquidade da Lei do Aborto por ter supostamente estimulado abortos. Traduzi a partir do original, “Abortion Freedom” que você encontra aqui. Boa leitura!

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Liberdade para o aborto

Por Madeleine Simms 

Dr. Goodhart (Newsletter nº 13 do Galton Institute: Junho de 1994) reiterou sua visão já bastante conhecida de que dificilmente qualquer aborto ocorreu antes que a Lei do Aborto fosse aprovada, a despeito das ansiedades expressas sobre esse assunto por muitas organizações, e por funcionários de saúde pública nos precedentes trinta anos. Se alguém ignora toda essa evidência histórica e assume que Dr. Goodhart está correto em sua visão, que explicação seria oferecida para o fato de que, dentro de 5 anos de aprovação da Lei do Aborto, mais que 100.000 abortos foram realizados legalmente a cada ano? Parece-me que essas três explicações são possíveis, enquanto possam existir mais:

1) Uma vez que o aborto foi legalizado, milhares de mulheres que nunca tinham pensado em aborto antes repentinamente optaram pelo aborto ao invés da geração de filhos. Tal teria sido a influência disseminada e maligna da Lei do Aborto. Essa é a amplamente a visão de Dr. Goodhart.

2) Uma vez que o aborto foi legalizado, milhares de mulheres que previamente teriam ou tinham recorrido ao aborto ilegal, gradualmente levantaram suas cabeças acima do parapeito, e moveram-se do setor do aborto ilegal para o legal. Essa é amplamente minha visão.

3) Como resultado da aprovação da Lei do Aborto, as expectativas das mulheres foram elevadas. Cada vez mais elas tornaram-se conscientes de que não era necessário ter mais filhos do que elas quisessem e pudessem cuidar deles de modo apropriado. Muitos fatores sociais contribuíram para esse desenvolvimento, incluindo melhor educação para meninas, crescentes oportunidades de emprego, desejo maior por independência econômica e um declínio na crença religiosa. Essa explicação é compatível com qualquer uma das duas anteriores, e eu poderia aceitar que esses processos sociais aumentaram o número total de mulheres buscando e obtendo abortos nos anos que se seguiram à aprovação da lei.

Mesmo se o aborto não tivesse sido legalizado em 1967, ainda assim ocorreria um grande aumento nos abortos nas décadas subsequentes, devido a esses desenvolvimentos sociais, como tem ocorrido mesmo na Irlanda católica onde aborto ainda é ilegal, e que, portanto, exporta os abortos de sua classe média para a Inglaterra e o país de Gales, a despeito do fato de que as agências oferecendo informação sobre aborto na Irlanda tenham sido fechadas por decreto do governo. Já os abortos da classe trabalhadora são feitos nas ruelas próximas de suas residências.

O Irish Evening Echo do 9 de maio chamou atenção para o alto custo do aborto na Grã-Bretanha para mulheres irlandesas (500 libras) em uma época de recessão e de alto desemprego na Irlanda, uma vez que essas mulheres têm de pagar pelos custos de viajem e de hospedagem tanto quanto os custos da clínica. Um membro do Women’s Support Group irlandês é citado como tendo dito que, como uma consequência local disso, “Abortos em ruelas poderão subir”. Parece-me agora, como então, que manter o aborto ilegal simplesmente leva-o para a clandestinidade ou para o exterior.

Dr. Goodhart corretamente pontua que nós tivemos mais de 3 milhões de abortos desde 1967 – ao invés de 3 milhões de bebês não desejados. Isso é algo pelo qual certamente temos de ser profundamente gratos.

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