Não é só a esquerda que exibe convicções políticas para obter parceiros sexuais

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No ano passado, um colunista conservador da Folha de São Paulo, Luís Felipe Pondé, escreveu um artigo chamado “Por uma direita festiva“. Ele defende que existe um grande problema para os homens jovens da direita ou liberais: falta de acesso sexual às mulheres jovens do meio universitário. Em suas palavras,

“Ser jovem e liberal é péssimo para pegar mulher. Este é o desafio maior para jovens que não são de esquerda.

Um dos maiores desafios dos jovens que não são de esquerda não é a falta de acesso a bibliografia que seus professores boicotam (o que é verdade), nem a falta de empregos quando formados porque as escolas os boicotam (o que também é verdade), mas sim a falta de mulheres jovens, estudantes, que simpatizem com a posição liberal (como se fala no Brasil) ou de direita (quase um xingamento).”

Essa direita liberal é identificada por Pondé como todo direitista que não apoia regimes ditatoriais, “não estou falando de gente que gosta de tortura, tá?”, segundo ele mesmo. Na verdade, ele está falando principalmente da direita conservadora que se identifica com o liberalismo econômico e a democracia constitucional, não com o fascismo ou a supremacia branca. Ele não está falando de liberais progressistas, notem.

Mas esses direitistas encontram uma grande barreira sexual e afetiva no meio universitário, porque a disseminação de ideias de esquerda entre a população universitária do sexo feminino fez com que a adesão às ideias de esquerda fossem um pré-requisito para sexo ou relações afetivas com muitas dessas jovens:

“A esquerda festiva (que é quase toda ela) reproduziu porque teve muitas mulheres à mão. Imagine papos como: “Meu amor, se liberte da opressão sobre o corpo da mulher!”. Agora, imagine que você esteja num diretório de ciências sociais no final da noite ou num apê sem pai nem mãe (dela) por perto. Um pouco de vinho barato, quem sabe, um baseado? Um som legal, uma foto grande do Che (aquele assassino chique) na parede.

Ou imagine você dizendo para uma menina bonitinha algo assim: “O capital mata crianças de fome na África!”. Mesmo sendo ela uma jovem endurecida pela batalha contra a opressão da mulher (por isso tenta desesperadamente ser feia), seu coração jorrará ternura.

Imagine a energia de uma manifestação! Braços dados ou não, mas caminhando e cantando. Imagine a fuga, correndo juntos da polícia. Os corações batendo juntos!

E claro, imagine vocês no bar da faculdade (matando a aula, porque quem assiste aula não pega mulher): muita cerveja, muitas juras de revolta contra as injustiças sociais, muitas citações de Marx e Foucault.”

Sua conclusão é que a direita (masculina) precisa ser festiva também, e ajustar seu discurso para se tornar mais competitiva no mercado da escolha sexual feminina:

“O canal para uma direita festiva é: fale de liberdade, do sofrimento humano, de corpo, discuta documentários, diga que a vida não tem sentido, mas que a beleza existe, não se vista como o Sheldon, viaje para a Islândia, e (pelo amor de Deus!) não fale de economia. As meninas destetam economia, essa “ciência triste”, porque atrapalha a alegria da vida.”

E alega ainda que isto é justificado pelo darwinismo:

“Eu sei: vão dizer que estou afirmando que discutimos papo cabeça para pegar mulher, mas, lamento, é isso mesmo que estou dizendo, pelo menos em parte. Acordei hoje numa “vibe” darwinista. Sorry.”

Mas o fato é que o texto de Pondé não é suficientemente darwinista: primeiro, caso o fosse, não teria a afirmação ingênua de que, sem conversa e álcool, “mais da metade das meninas não iam querer transar –principalmente quando descobriram a dor do parto”.

Mesmo que os homens tendam em média a serem mais promíscuos, isso não significa que mulheres não se importam com sexo ou que não se interessam por múltiplos parceiros: as fêmeas humanas também podem maximizar seu sucesso reprodutivo acasalando-se com múltiplos parceiros, em determinadas situações.

Portanto, as nossas ancestrais passaram por seleção de traços comportamentais que as permitissem adotar uma estratégia mais “poliândrica” ou “extraconjugal” em determinadas circunstâncias, ainda que com as limitações impostas pelo custo e risco da gravidez.

Mas o fato de Pondé costumeiramente tentar justificar o sexismo e o patriarcado recorrendo à psicologia evolucionária, de modo pífio, não é minha crítica nesta ocasião. A crítica principal é que um texto suficientemente darwinista teria apontado que pessoas de todas as orientações políticas exibem suas convicções para atrair parceiros sexuais.

Isso ocorre porque as diferenças em convicções políticas das pessoas estão, na média, correlacionadas com diferenças em traços de personalidade e mesmo de habilidade cognitiva. E são estes traços comportamentais e cognitivos que tentamos exibir na hora de atrair parceiros sexuais e aliados sociais.

Os cinco fatores de personalidade são: abertura à experiência, conscienciosidade, afabilidade, extroversão e estabilidade (emocional).  Abertura à experiência mede o grau de “curiosidade, busca pela novidade, abertura da mente, interesse em cultura, ideias e estética” (MILLER, p. 204). Conscienciosidade mede o grau de “autocontrole, força de vontade, confiabilidade, coerência, fidedignidade e capacidade de retardar gratificações” (MILLER, p. 205). Afabilidade mede o grau de “cordialidade, gentileza, simpatia, empatia, confiança, complacência, modéstia, benevolência e pacificidade” (MILLER, p. 207); extroversão mede o grau em que a pessoa é “gregária, falante, engraçada, expressiva, assertiva, ativa, socialmente autoconfiante e em busca de emoção” (MILLER, p. 211). Estabilidade mede o grau de “adaptabilidade, equanimidade, maturidade e resistência ao stress” (MILLER, p. 210).

Já a habilidade cognitiva mais relevante é a inteligência geral, ou o chamado Q.I (quociente de inteligência). Perceba que não se está falando de qualquer inteligência: Q.I mede o chamado fator “g”, um fator geral de habilidade cognitiva que explica 40% da variância entre testes de habilidades cognitivas específicas e é obtido a partir da “média das correlações de um teste com cada um dos outros testes” (PLOMIN, DEFRIES, MCCLEARN, MCGUFFIN, p. 146). Todos esses testes correlacionam-se positivamente (se você sai-se bem em um, tende a sair-se bem nos demais) e os testes para habilidades cognitivas mais complexas tem uma correlação positiva ainda maior (PLOMIN, DEFRIES, MCCLEARN, MCGUFFIN, p. 146).

Também o Q.I não explica todo o sucesso de aprendizado, já que “personalidade, motivação e criatividade também desempenham um papel na forma como a pessoa se sai na vida” (PLOMIN, DEFRIES, MCCLEARN, MCGUFFIN, p. 146). 1/3 da diferença genética entre as pessoas em aprendizado é explicado pela diferença de Q.I entre elas, 1/3 é explicado pela diferença em aprendizados específicos (por exemplo, de leitura em relação ao de matemática) e 1/3 é explicado pela diferença em um fator geral para o desempenho acadêmico, independente do Q.I (PLOMIN, DEFRIES, MCCLEARN, MCGUFFIN, p. 187). Habilidades de aprendizagem geneticamente não são a mesma coisa que a habilidade cognitiva geral, ainda que se sobreponham.

Dito isso, é importante perceber que os traços de personalidade e a habilidade cognitiva geral são estáveis ao longo da vida, moderada ou significativamente hereditários (dependendo do fator, de 30% à 60% da diferença entre as pessoas é explicada pela diferença genética entre elas) e predizem uma série de comportamentos e resultados que as pessoas terão em suas vidas. Isso significa também, portanto, que eles foram e são importantes na escolha de parceiros reprodutivos.

Geoffrey Miller resume como a orientação política relaciona-se com estes 6 traços, em relação aos conservadores (objeto das preocupações de Pondé), aos progressistas que não defendem liberdade econômica (que, nos Estados Unidos, são denominados de “liberais” e são a esquerda majoritária do país), aos fascistas e aos libertários (que, nos Estados Unidos e aqui também, são os liberais que defendem liberdade econômica).

1) Os liberais (no sentido dos Estados Unidos) são “em média somente um pouco mais inteligentes que os conservadores, mas tendem a demonstrar uma abertura significativamente mais elevada (maior interesse em novidades e diversidade), nível mais baixo de conscienciosidade (menos aderência às normais sociais convencionais) e maior afabilidade (empatia mais abrangente e ‘corações sensíveis’).” (MILLER, p. 234)

2) Os conservadores “demonstram menor grau de abertura (mais tradicionalismo e xenofobia), maiores níveis de conscienciosidade (moralismo em relação aos valores da família, sentimento do dever, mentalidade cívica) e menor afabilidade (mais apoio teimoso e desumano para interesses próprios e nacionais).” (MILLER, p. 234)

3) Os fascistas “podem ser encarados basicamente como pessoas conservadoras com menor índice de estabilidade (mais medo, angústia, ansiedade e neurose) e um grau ainda mais baixo de afabilidade (somado a interesses agressivos em guerra, tortura e genocídio).” (MILLER, p. 234-235)

4) Os libertários “podem ser descritos basicamente como liberais com graus mais elevados de inteligência e conscienciosidade ligeiramente superior (fé em reciprocidade social e na ética do trabalho), uma afabilidade mais baixa (desgosto por exibições de simpatia exagerada) e uma dose extra de extroversão (entrosamento autoconfiante).”  (MILLER, p. 235)

Portanto, se exibir certas orientações políticas pode ajudar a predizer (mesmo que apenas por uma relação estatística e probabilística, não necessária) as habilidades comportamentais e cognitivas de uma pessoa, isso certamente será usado na hora de escolher parceiros sexuais. (Não exclusivamente, isso depende da estratégia sexual) E isso vale também para o conservadorismo.

Só que, por sinalizar e/ou estar correlacionado com algo diferente de uma posição de esquerda ou progressista, a orientação política de direita ou conservadora não será efetiva em atrair parceiros sexuais em determinados contextos.

Nesse ponto, remeto o leitor ao excelente tópico do livro “Spent” de Geoffrey Miller (que foi traduzido como “Darwin vai às compras”, um título mais chamativo…), “A ideologia como indicador de afabilidade”, onde ele mostra como exibir ideologias pode ser usado para indicar maior ou menor afabilidade que, por sua vez, a depender do contexto, uma coisa ou a outra será mais valorizada por potenciais parceiros reprodutivos. Transcrevo-o abaixo, boa leitura!

 ***

A ideologia como indicador de afabilidade

Por Geoffrey Miller. Original em “Darwin vai às compras” (título original: Spent), p. 340-344.

Jovens adultos de ambos os sexos frequentemente dedicam grandes quantidades de tempo, dinheiro e energia à sinalização de afabilidade por meio de suas ideologias. Por exemplo, numa primavera de 1986, houve uma repentina irrupção de excessiva afabilidade na Columbia University. Centenas de estudantes universitários invadiram o prédio da administração do campus e exigiram que a universidade vendesse todas as suas ações de empresas que faziam negócios na África do Sul. (Isso foi nos dias do apartheid, quando Nelson Mandela ainda estava na cadeia e os negros não podiam votar.) A espontaneidade, o ardor e a quase unanimidade das exigências dos estudantes eram desconcertantes. O que levaria norte-americanos majoritariamente brancos e de classe média a faltar aulas e arriscar ir para a cadeia por ocupar um prédio administrativo banal durante duas semanas, a fim de apoiar a liberdade política de pobres estrangeiros negros que viviam num país a 13 mil quilômetros de distância? O jornal conservador do campus publicou uma vinheta apresentando o protesto como um ritual primaveril anual de acasalamento, com folias dionisíacas pontuadas por slogans políticos sobre a causa arbitrária daquele ano. Inicialmente, a vinheta parecia condescendente, porém, retrospectivamente, pareceu conter alguma verdade. Embora os protestos atingissem os seus fins políticos somente de forma indireta e ineficiente, promoveram um acasalamento muito eficiente entre os jovens homens e mulheres que alegavam compartilhar ideologias similares. Todos pareciam namorar alguém que encontraram durante a ocupação. Em muitos casos, o compromisso político era muito tênue e o protesto terminou bem a tempo de os estudantes estudarem para as provas semestrais. Contudo, em certos casos, os relacionamentos sexuais facilitados pelo protesto duraram anos.

Parece cínico e perigoso sugerir que a exibição pública e barulhenta da ideologia dos indivíduos funcione como uma espécie de ritual de cortejo para atrair parceiros sexuais, porque existe o risco de trivializar o discurso político, que é exatamente o que a vinheta conservadora fez quando satirizou os protestos antiapartheid na Columbia. A melhor maneira de evitar essa armadilha é não ignorar a lógica da sinalização custosa do comportamento político humano, e sim analisá-la séria e respeitosamente como um exemplo dramático de exibição da personalidade.

Os seres humanos são animais ideológicos. Demonstram fortes motivações e capacidades para aprender, criar, recombinar e disseminar sistemas de ideias carregadas de valores, frequentemente com um desprezo virtual por qualquer evidência empírica que as solape. Contudo, sempre pareceu difícil prever a sobrevivência de ideologias conspícuas que se burlam da realidade empírica. Felizmente, a teoria da sinalização custosa não exige recompensas em termos de sobrevivência, mas sociais e reprodutivas. Se uma ideologia notavelmente exibida se relaciona de forma confiável a certas características de personalidade social e sexualmente desejadas, então a verdade empírica da ideologia é irrelevante. Com efeito, as ideologias que, do ponto de vista empírico, são as mais enganosas e autoprejudiciais podem, com frequência, constituir os indicadores de personalidade mais confiáveis.

Nas sociedades modernas, a grande maioria das pessoas tem pouco poder político, porém tem fortes convicções políticas que divulgam insistentemente, com frequência e em alto e bom tom, quando as condições sociais o favorecem (protestos políticos, jantares, segundo encontro de namorados). Esse comportamento desconcerta os economistas, que consideram qualquer atitude ideológica – até mesmo votar – como desperdício de tempo e energia que pouco beneficia os indivíduos. Não obstante, se considerarmos os ganhos individuais resultantes da expressão de um posicionamento político como mais sociais e sexuais, lançaremos luz sobre numerosos e antigos enigmas da psicologia política. Por que centenas de questionários mostram que os homens são, na média, mais conservadores, autoritários, orientados pelos direitos e menos guiados pela empatia do que as mulheres? Por que as pessoas normalmente se tornam mais conservadoras quando passam da jovem idade adulta para a meia-idade? Por que há mais homens que mulheres se candidatando a cargos políticos? Por que a maioria das revoluções ideológicas é iniciada por homens jovens e solteiros?

Nenhum desses fenômenos faz sentido caso os interpretemos como reflexos racionais de interesse político. Em termos políticos, econômicos, evolucionários e psicológicos, todos possuem interesses egoístas igualmente fortes, portanto todos deveriam engajar-se em quantidades iguais de comportamentos ideológicos, se estes funcionassem para patrocinar o interesse político. Não obstante, a teoria da seleção sexual nos ensinou que nem todos posseum interesses reprodutivos igualmente fortes. Os homens têm bem mais a ganhar dos inúmeros atos sexuais com múltiplas parceiras do que as mulheres, porque eles podem potencialmente produzir proles com centenas ou milhares de mulheres diferentes, enquanto elas só podem gerar cerca de uma dúzia de descendentes durante toda a vida. Consequentemente, os homens jovens deveriam ser particularmente atrevidos em seu comportamento reprodutivo, já que têm o máximo a ganhar e o mínimo a perder com um comportamento de galanteio arriscado (tal como tornar-se um revolucionário político). Essas previsões são evidentes para todos os teóricos da seleção sexual; menos óbvias são as maneiras como a ideologia política é utilizada para anunciar diferentes aspectos da personalidade do indivíduo no decorrer da vida.

Os adultos, especialmente quando jovens, tendem a tratar as orientações políticas alheias como traços de personalidade. O conservadorismo é interpretado como indício de uma personalidade ambiciosa e egoísta que terá desempenho excelente em proteger e suprir um parceiro sexual. O liberalismo [Nota = leia-se como progressismo, já que se trata da esquerda norte-americana] é enxergado como indicação de uma personalidade amorosa e empática, excelente para cuidar de crianças e construir relacionamentos. Tendo em vista a diferença sexual, bem documentada e universal em todas as culturas, no que diz respeito aos critérios de escolha de parceiros entre os seres humanos, em que os homens preferem mulheres mais jovens e férteis e as mulheres, homens mais velhos, ricos e de status elevado [Nota = vide esse texto para uma análise mais nuançada e elaborada pelo próprio Miller, em co-autoria com outros pesquisadores, da questão da diferença entre os sexos em escolha de parceiro sexual], a expressão de ideologias mais liberais pelas mulheres e de ideologias mais conservadoras pelos homens não causa surpresa. Os homens usam o conservadorismo político para alardear (inconscientemente) sua provável ascendência social e econômica; já as mulheres usam o liberalismo político para alardear habilidades de cuidado com a prole. A mudança que ocorre da juventude liberal para a meia-idade conservadora reflete um aumento relevante para o esforço de procurar parceiros sexuais, na ascendência social e no poder salarial, e não apenas uma mudança racional nos interesses próprios dos indivíduos.

De modo mais sutil, já que a procura por parceiros sexuais é um jogo social no qual a atratividade de um comportamento depende de quantas outras pessoas já se comportam assim, a ideologia política se desenvolve sob a dinâmica instável da imitação social e da escolha de estratégias, não apenas como um processo de simples otimização, considerando-se um conjunto específico de interesses próprios. Isso explica porque o corpo discente inteiro de uma universidade americana pôde agir repentinamente como se o destino político de um país que virtualmente desconhecia um ano antes importasse para eles. O modo consensualmente aceito de exibir a afabilidade simplesmente deslocou-se, de forma rápida e caprichosa, de um problema político a outro. Quando um número suficiente de estudantes decidiu que atitudes diante do apartheid eram o teste crucial para verificar se um indivíduo tinha coração tornou-se impossível para os outros permanecerem apáticos quanto a isso.

O que fazer para melhorar a sociedade se a maior parte das pessoas trata as ideias políticas como exibição de cortejos definidores de traços de personalidade, em vez de sugestões racionais para aperfeiçoar o mundo? A solução pragmática, para não dizer cínica, é trabalhar com a parte evoluída da mente humana, reconhecendo que os indivíduos reagem a ideias políticas não apenas como cidadãos preocupados com o sistema de governo moderno, mas também como primatas hipersociais em busca de status. Essa opinião não surpreenderá os marqueteiros políticos (peritos em sondagens de opinião pública, doutores na interpretação particular de informações, redatores de discursos) que ganham a vida explorando nossa concupiscência por ideologia, mas pode causar estranheza entre os cientistas sociais que possuem uma visão mais racionalista da natureza humana. Não obstante, para compreender grande parte do comportamento de consumo, precisamos reconhecer a natureza fundamentalmente ideológica de muitas decisões de compra e a maneira como todos usam produtos, de formas diferentes, para sinalizar traços de personalidade.

 Referências:

MILLER, Geoffrey. Darwin vai às compras: sexo, evolução e consumo. Tradução: Elena Galdano. Rio de Janeiro: BestSeller, 2012.

PLOMIN, Robert; DEFRIES, John C.; MCCLEARN, Gerald E.; MCGUFFIN, Peter. Genética do Comportamento. Tradução: Sandra Maria Mallmann da Rosa. Revisão técnica: Jeny Rachid Cursino Santos. Porto Alegre: Artmed, 2011.

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Retrospectiva do 2º ano do blog

No último dia 18, o blog completou 2 anos de existência. Tendo em vista a data comemorativa, penso que seja correto fazer uma breve retrospectiva desse 2º ano de operação do blog. (Assim como foi feito no aniversário de 1 ano)

Certamente, esse foi um ano extremamente frutífero em minha produção não só neste espaço, mas em outros sites dos quais participo.

Atuei como editor do Mercado Popular, de março de 2014 até dia 20 de janeiro deste ano (a saída da edição ocorre em face de que iniciarei o mestrado), e publiquei neste site 44 textos (originais; não contando 21 republicações) até a presente data. Permaneço como colunista do mesmo, nesta condição participando desde sua fundação, em novembro de 2013.

Um dos artigos que publiquei no Mercado Popular foi republicado em um jornal impresso de circulação gratuita na cidade de Rio Branco (no Rio Grande do Sul), o “O Federalista”, no final de novembro de 2014. Seu título é “Conheça a oposição liberal contra a ditadura militar“.

Fui convidado pelo Erick Vasconcelos em março também para ser colunista da seção em língua portuguesa do C4SS (Center for a Stateless Society – Centro por uma Sociedade sem Estado). Os textos escritos para o C4SS tem um formato que facilita sua republicação em outros espaços, além de serem traduzidos para o inglês pelo Erick, e o alcance certamente foi muito bom. Como uma lembrança memorável, um de meus textos foi publicado na versão impressa do China Post, de Taiwan. No total, tenho 31 textos publicados neste site.

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(Pode ler no site aqui; para a versão em português, clique aqui)

Fui convidado pela equipe original do Liberzone para participar do seu site, em fevereiro. Como meu foco era a escrita para o Mercado Popular e para o C4SS, publiquei apenas 5 textos neste site. Atualmente, a equipe mudou, então, não tenho mais quaisquer ligações com este site desde junho/julho do ano passado. A equipe original agora trabalha com o site de mídia Spotniks, cujo editorial é libertário/liberal.

Também fui convidado para escrever dois textos no site dos Estudantes Pela Liberdade, um indicando cinco livros, e outro com um breve guia para a obra do filósofo David Schmidtz.

Aqui no blog, pude publicar 39 textos neste 2º ano de funcionamento, sendo que o total de publicações desde seu início é de 104 textos. Claramente o fato de eu ter participado do Mercado Popular, do C4SS e (por um breve período) do Liberzone fez com que eu tivesse de diminuir o ritmo de publicação aqui em meu blog pessoal. Mas se levarmos em conta que em seu 1º ano eu publiquei 65 textos, e em seu 2º ano eu publiquei 121 textos nos sites de que participo mais aqui no blog, então certamente o 2º ano contou com o dobro de produtividade. O alcance do blog também mais que triplicou em relação ao ano anterior, alcançando 33.641 visualizações em 1 ano.

Além da participação na blogosfera liberal, pude publicar três artigos acadêmicos. Dois são referentes à discussão filosófica sobre o naturalismo e sua aplicação para elucidar os problemas da ética e da filosofia política: “Sobre o Naturalismo em Ética e Política” e “A Genealogia da Ética Naturalizada“. O outro, em co-autoria com Lucas Nutels, refere-se à reforma do Estado de Bem-Estar Social na Europa: “Helping in the right way: A new approach to European Welfare State“.

Participei ainda de dois cursos onlines na plataforma coursera, concluídos com êxito: “Animal Behavior” e “Introduction to Neuroeconomics: how the brain makes decisions“. No início deste mês, tornei-me membro da Human Behavior & Evolution Society.

Além de ter sido um ano de intenso aprendizado (ou também por conta disso), pude fazer muitos contatos com pessoas que compartilham ideias semelhantes, principalmente no que diz respeito à filosofia política, mas também em relação à uma visão de mundo naturalista e darwinista. Muitas delas participam (ou já participaram) do grupo “A Esquerda Libertária – Left-Libertarianism” no facebook, com discussões muito interessantes.

Que venha o 3º ano de blog!

Conheça a ala libertária do Partido Democrata dos Estados Unidos

Você já ouviu falar na ala libertária do Partido Democrata?

Ela é representada pelo Democratic Freedom Caucus, que pode ser traduzido como Fórum da Liberdade Democrata. Trata-se de uma corrente interna ao Partido Democrata que defende visões libertárias sobre direitos civis, economia e serviços públicos, criada em 1996 por Hanno Beck, Mike O’Mara e Andrew Spark.

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(Logo do Fórum da Liberdade Democrata)

Deve-se destacar que não se trata apenas de uma imitação da ala libertária do Partido Republicano, ou mesmo do Partido Libertário. A abordagem do Fórum da Liberdade Democrata tem traços distintivos, como a ênfase geolibertária na substituição dos impostos sobre o trabalho e a produção por impostos sobre o valor da terra e sobre a extração de recursos naturais, e a defesa de leis firmes contra a fraude ao consumidor, propaganda enganosa, práticas fraudulentas de contratação trabalhista e poluição do ar e da água, além de um foco na abolição do bem-estar oferecido pelo governo às grandes corporações enquanto advogam pela melhora do bem-estar governamental aos necessitados em termos de autonomia pessoal e eficiência, na medida em que essa assistência não possa ser fornecida pelo setor não governamental.

Portanto, pode-se dizer que o Fórum da Liberdade Democrata defende um libertarianismo/liberalismo de esquerda, que prioriza liberdade individual (inclusive econômica) e justiça social.

Enquanto não seja um membro do Fórum da Liberdade Democrata nem identifique-se como democrata (ainda que reconheça ter ligeiramente votado mais nos democratas que nos republicanos por motivos estratégicos), Andrew Cohen expressou-se em um sentido que elucida a opção desses libertários pelo Partido Democrata:

“O mundo em que nós vivemos sempre pareceu-me injusto e nunca pensei dos Estados Unidos como uma sociedade de oportunidades iguais (sim, eu penso que iguais oportunidades, propriamente definidas, são requeridas por equidade e justiça). Eu não vejo os republicanos sequer pretendendo oferecer algo para fazer o mundo mais justo; os democratas oferecem isso (pelo menos pretendem fazê-lo).”

Para que o leitor possa conhecer melhor o que eles defendem e como atuam dentro do Partido Democrata, traduzi três textos de seu site: “Bem-vindo ao Fórum da Liberdade Democrata”, “Princípios do Fórum da Liberdade Democrata” e “Guia para Ativistas”. Boa leitura!

Bem-vindo ao Fórum da Liberdade Democrata

(Texto original aqui)

O Fórum da Liberdade Democrata (DFC – Democratic Freedom Caucus) promove os valores sobre os quais foi fundado o Partido Democrata: liberdade individual, democracia constitucional e responsabilidade social.

Nós apoiamos a Declaração de Direitos (Bill of Rights), que descreve o que é entendido por liberdade individual e limites constitucionais sobre o governo.

O DFC defende políticas orientadas para a liberdade, que enfatizam: promover o interesse público ao invés do favoritismo para interesses especiais; construir incentivos para melhorar a qualidade e eficiência dos serviços públicos; defender as liberdades civis; e igual liberdade para todos, o que é essencial para o progresso humano.

Princípios do Fórum da Liberdade Democrata

(Texto original aqui)

Propósito:

O Fórum da Liberdade Democrata (DFC – Democratic Freedom Caucus) é uma corrente pró-liberdade e progressista dentro do Partido Democrata. O propósito do DFC é promover liberdade individual, democracia constitucional e responsabilidade social. Atividades do DFC incluem campanhas eleitorais, defesas legislativas e educação do público.

Princípios:

A) Liberdade pessoal:

Liberdade de expressão, imprensa, religião, crença, filosofia, estilo de vida e atividade política não devem ser violadas. Indivíduos deveriam ter a liberdade de se engajar em qualquer atividade que não viole a liberdade dos outros. Liberdade também inclui o direito de auto-defesa legítima.

B) Liberdade econômica:

1) Direitos de propriedades baseados em justiça. Há duas formas de propriedade:

Produtos feitos por seres humanos, tais como carros, casas e maquinário; e terra, que refere-se às locações espaciais, junto com os recursos naturais dentro dessas locações. Cada indivíduo tem o direito de manter os frutos do seu trabalho. Entretanto, desde que nenhuma pessoa fez a terra, propriedade sobre a terra precisa ser tratada em algum sentido diferentemente de outros tipos de propriedade, para prevenir uma elevada concentração da propriedade da terra e de recursos naturais.

Impostos sobre renda, vendas ou construções tomam os frutos do trabalho, então eles são os tipos mais danosos de tributos. O imposto menos danoso é o imposto sobre o valor da terra, ou sobre a extração de recursos naturais, porque esses não são produtos do trabalho, mas recursos fixos.

2) Abolição do bem-estar corporativo: Governo não deveria subsidiar interesses especiais. Leis de licenciamento não deveriam ser monopolísticas.

3) Proteção do consumidor: Devem existir leis robustas contra fraude cometidas pelas empresas e falsa propaganda.

4) Proteção do trabalhador: Devem existir leis robustas contra fraudes em práticas de contratação trabalhista, tais como enganar os trabalhadores acerca da segurança dos ambientes de trabalho.

5) Proteção ambiental: Devem existir leis robustas contra poluir o ar ou a água que outros devam usar. O governo não deveria subsidiar os desenvolvedores.

6) Livre comércio entre países livres: Nós deveríamos entrar em livre comércio com outros países livres ao mesmo tempo em que nós estamos entrando em liberdade dentro de nosso próprio país, por remover os obstáculos que dificultam produtividade aqui. É injusto autorizar importações de produtos estrangeiros feitos com trabalho escravo (em países com pouca liberdade, a falta de liberdade dos trabalhadores às vezes pode estar na fronteira com a escravidão).

C) Governo limitado:

1) Serviços públicos essenciais: O governo somente poderia prover aqueles serviços que não podem ser providos adequadamente pelo setor não governamental naquele período, e que são necessários por interesse público. O governo não pode prover quaisquer serviços que possam ser adequadamente providos pelo setor não governamental.

2) Incentivos para o governo: Para esses serviços essenciais que precisam ser providos pelo governo, nós devemos tentar introduzir incentivos conducentes à eficiência governamental.

3) Democracia constitucional: A Declaração de Direitos dos Estados Unidos (as dez primeiras emendas da constituição americana) deve ser cumprida. Em qualquer nível, o governo deve ter uma declaração de direitos clara, que possa ser imposta em face do mesmo.

4) Direitos de júri: O direito a um genuíno julgamento por júri é um dos mais importantes meios de prevenir o governo de violar sua constituição e os direitos individuais. Júris deveriam ser informados do seu tradicional direito de julgar a constitucionalidade de uma lei, em adição ao julgamento dos fatos, como aplicado ao caso específico. Nem promotoria nem defesa devem ser autorizadas a preencher um júri de modo que o faça enviesado ou não representativo.

5) Defesa dos Estados Unidos, não a polícia do mundo: As forças armadas devem defender o território dos Estados Unidos, ao invés de ser o policial global. Nossas forças armadas certamente não devem ser usadas para sustentar ditadores estrangeiros nem para subsidiar corporações multinacionais.

D) Responsabilidade social:

Em caso de serviços essenciais, tais como infra-estrutura ou assistência aos necessitados, somente podem haver cortes nesses serviços se serviços adequados possam ser providos pelo setor não governamental. Os beneficiários de assistência governamental também tem a responsabilidade de ajudar a si mesmos se eles forem capazes. Um objetivo da assistência governamental deveria ser tentar levar às pessoas ao ponto onde elas possam tomar conta de si mesmas, se for possível.

Guia para Ativistas

(Texto original aqui)

Comunicação:

Para qualquer ativista do DFC que gostaria de participar na política democrata ou em um clube democrata local, uma abordagem-chave é recomendada: escutem para encontrar que questões e candidatos estão sendo comentados, e ouvir as visões de diferentes membros, de modo que você sentirá quais pessoas devem estar mais abertas às visões orientadas para a liberdade.

Então, na medida em que você consiga conhecê-los, e na medida em que elas o conheçam e confiem em você, eles estão mais abertos a sugestões e comentários, especialmente aqueles envolvidos em uma abordagem de transição responsável em direção à mais liberdade.

Conversas um-por-um parecem funcionar melhor. Quando você escuta alguém que soa especialmente aberto às visões orientadas para a liberdade, você poderia dar para essa pessoa alguma literatura ou indicar um site.

Por exemplo, você deve dar a elas uma cópia do flyer do DFC (que pode ser impresso na seção de Princípios do site do DFC, ou deve indicar o próprio site para elas: http://www.democraticfreedomcaucus.org).

Outro site útil é o de uma revista virtual, The Progress Report, que tem muitos artigos relevantes de um ponto de vista orientada para a liberdade.

O livro, Reinventing Government, por David Osborne e Ted Gaebler, também apresenta maneiras práticas para introduzir incentivos e escolha nos serviços públicos, melhorar a qualidade e a eficiência de custo, e que é convincente para muitos democratas.

Você deve considerar voluntariar-se para um comitê no clube democrata local, que dará a você a oportunidade para influência significante, bem como para diálogo com outros democratas.

Temas:

Muitos democratas são certamente bons em apoiar muitas liberdades civis, tais como liberdade de expressão, liberdade de religião, privacidade, etc. Mas muitos democratas não são familiares ainda com liberdade econômica, então aqui é onde atenção especial é necessária, e a abordagem correta é necessária.

Sobre liberdade econômica, nós encontramos que uma boa maneira de conseguir a atenção de companheiros democratas é focar sobre três temas principais:

1) Livrar-se do bem-estar corporativo (incluindo subsídios, favoritismo regulatório, leis de licenciamento monopolístico, etc.), que prejudica a economia e causa desigualdade extrema.

2) Introduzir incentivos e escolha do cliente nos serviços públicos, para melhorar qualidade e eficiência de custo. Por exemplo, propor vouchers educacionais não sectários, que possam ser usados para qualquer escola que satisfaça as mesmas exigências das escolas públicas (inscrições abertas, não discriminação, não sectárias, etc.), ao invés de vouchers educacionais religiosos, que muitos democratas consideram ser uma violação da garantia da Primeira Emenda de que o governo não deve favorecer nenhuma religião sobre as demais.

Muitos exemplos do uso de incentivos e da escolha do cliente para serviços públicos são dados no livro Reinventing Government, mencionado acima.

3) Tirar os impostos de cima do trabalho e da produção (diminuindo ou abolindo os impostos sobre o salário, impostos sobre as vendas, o imposto de renda, os impostos sobre construções, etc., que punem o trabalho e a produtividade, e aumentam os preços aos consumidores), e, ao invés, usar um imposto sobre a terra e sobre os recursos naturais, que nenhuma pessoa produziu – é o único tipo de imposto que não é um tributo sobre trabalho ou produção.

Há muitos defensores proeminentes da liberdade individual que endossaram essa deriva para um imposto sobre o valor da terra: Thomas Jefferson, Thomas Paine, Benjamin Franklin, John Stuart Mill, a Heartland Foundation, e muitos outros. Também é endossado por oitos economistas vencedores do Nobel.

Muitos democratas ficam intrigados com essa abordagem. De fato, em muitas das cidades que estão tentando isso nos Estados Unidos, as Secretarias democratas têm aberto o caminho. Tirar os impostos sobre o trabalho e a produção, e estabelecer um imposto sobre o valor da terra tem se mostrado como algo que leva à maior criação de empregos, mais habitação acessível, desenvolvimento econômico, e menor dispersão urbana (urban sprawl).

É relevante pontuar para os companheiros democratas que o Partido Democrata foi fundado por Thomas Jefferson e outros “liberais clássicos” (a palavra “liberal” originalmente referia-se à liberdade), em contraste aos neoliberais. Como Jefferson, liberais clássicos opõem-se ao bem-estar corporativo e à burocracia, e apoiam a Declaração de Direitos na íntegra.

Clubes democratas locais:

Qualquer um que gostaria de participar em um clube democrata local pode encontrar o mais próximo ao olhar na lista de contatos de condado e estado no Democratic National Committee’s Democratic Web (em: http://www.democrats.org/about/in_your_state/).

Comitês das Pessoas locais

Uma das maneiras para ajudar o Partido Democrata a mover-se na direção de políticas mais práticas é conectar-se com seu local Comitê das Pessoas, que é eleito nas primárias do Partido Democrata (às vezes chamado Ward Committeemen e Ward Committeewomen). Tipicamente, há dois Comitês das Pessoas locais: um masculino, e um feminino. O Comitê das Pessoas local encontra-se com outros no Partido Democrata da cidade ou condado.

Comitês das Pessoas têm o potencial de influenciar quais candidatos são endossados e promovidos pelo Partido, e podem influenciar a direção do Partido Democrata local.

Também, eleitores podem entrar em contado com seus Comitês das Pessoas locais, descobrir que políticas e candidatos eles defendem, e se eles estão abertos para políticas alternativas.

Se o atual Comitê das Pessoas parece razoavelmente mente aberta, então nesse caso deve ser melhor para manter essas pessoas no secretariado, e não ir contra elas na eleição das primárias. Somente em casos onde o Comitê das Pessoas continua a ser fechado às alternativas é que pode ser apropriado apoiar um candidato diferente para aquela posição local.

Também, às vezes um assento do Comitê está vago, se ninguém tem candidatado-se àquela posição, ou se o o Presidente da seção do condado não tem apontado alguém para preencher a vacância entre as eleições do Comitê das Pessoas.

Usualmente é fácil conseguir na cédula de votação para candidatar-se para o Comitê das Pessoas do Partido Democrata, uma vez que apenas precisa de um punhado de assinaturas.

Se você ainda não é familiar com seus dois Comitês das Pessoas locais, você pode encontrar quem eles são entrando em contado com o clube democrata local ou o Partido Democrata do condado.

Nós também recomendamos que você participe da lista de e-mail do DFC para notícias e ativismo: DFC_talk. Você também pode inscrever-se diretamente no site do DFC – veja a page para “Get Involved”.

Ciência cognitiva da religião informa: violência política extrema não é intrínseca ao Islã

Em alguns círculos, a discussão em torno dos grupos terroristas islâmicos é focada na religião. Desde cristãos conservadores aos neo-ateus, pensa-se que o Islã é a maior ameaça à civilização moderna ocidental, seja esta entendida em termos de identidade cristã ou de comprometimento com a razão, a ciência e direitos humanos básicos. E muitas pessoas que não pertencem a esses grupos temem que o terrorismo e a violência sejam realmente intrínsecas à religião islâmica.

A tese de que o terrorismo islâmico contemporâneo é uma decorrência intrínseca do Islã, porque a violência seria intrínseca a essa religião, é muitas vezes afirmada, mas poucas vezes apresentada com precisão e menos ainda evidenciada por provas robustas.

Em uma tentativa de precisar o que isso significaria, parece-me que essa tese é equivalente a afirmar que o Islã é causa necessária e/ou suficiente ao terrorismo islâmico. Necessária, porque não haveria terrorismo entre os árabes se, tudo o mais igual, a maioria deles não cressem no Alcorão. Suficiente, porque basta a existência do Islã para que haja esse tipo de violência.

Geralmente quem defende isso já começa equivocado quanto ao grau de homogeneidade das crenças assumidas pelos 1,6 bilhão de muçulmanos, os quais, de fato, também se dividem em diferentes correntes e diferem de opinião uns em relação aos outros, sendo que a maioria não está ligada às correntes mais extremistas que são as endossadas pelos grupos terroristas. Inclusive existem movimentos liberais (inclusive feminista) dentro do Islã, com o escopo de reformar a interpretação religiosa em uma direção menos conservadora.

Para uma visão mais nuançada da heterogeneidade entre os países muçulmanos, confira os resultados da extensa pesquisa de opinião realizada pelo Pew Research Center. Para consulta mais rápida acerca desse aspecto, recomendo o vídeo abaixo:

Qual é a principal linha de evidência dos proponentes desta tese que afirmam estar amparados na razão e na ciência, como o neo-ateu Sam Harris? A evidência apresentada geralmente é a associação entre o terrorismo cometido por esses grupos e a profissão de fé no Alcorão, com destaque para as passagens envolvendo violência contra infiéis, e o fato da maioria dos grupos terroristas serem islâmicos.

Entende-se que, se a religião contém elementos violentos em suas escrituras sagradas, os terroristas afirmam que sua motivação é a jihad contra os infiéis e outras crenças de verniz islâmico (como a recompensa celestial mensurada em virgens), e crentes dessa mesma religião estão sobre-representados nos grupos terroristas em operação, então já basta para que saibamos que a causa do terrorismo no Oriente Médio é a religião islâmica e que o Islã é a principal causa do terrorismo no mundo moderno.

É realmente estranho que pessoas que alegam representar o método científico esqueçam um princípio tão básico quanto o de que correlação não prova causação. Do fato de que terroristas islâmicos professem o islamismo e islâmicos estejam atualmente sobre-representados entre os grupos terroristas em operação não decorre que o Islã seja a causa da violência terrorista e da sobre-representação de seus fiéis entre os grupos terroristas.

(A rigor, é possível questionar como estão sendo contabilizados os grupos terroristas, uma vez que, por exemplo, guerras civis em países politicamente instáveis ou mesmo as guerras travadas pelas potências ocidentais no Oriente Médio envolvem mortes de civis inocentes, às vezes com o propósito de incitar o terror entre a população e a capitulação de seus líderes aos interesses políticos em jogo, mas não são geralmente tratadas como terrorismo por estarem ocorrendo no contexto de um conflito armado; mas este ponto não será desenvolvido aqui e não saberia afirmar o quão significante seria a mudança em termos de representação religiosa, o que de qualquer forma não afetaria o argumento aqui desenvolvido)

Para dar um exemplo interessante da importância dessa distinção, pode-se avaliar a afirmação corriqueira de que a monogamia veio a tornar-se o padrão de casamento na Europa por conta da religião cristã. É justificada essa hipótese?

A antropóloga Laura Fortunato, em seu paper “Reconstructing the History of Marriage Strategies in Indo-European–Speaking Societies: Monogamy and Polygyny“, fez uma reconstrução do padrão de mudança em estratégias de casamento na história das sociedades falantes de línguas indo-europeias, a partir de dados interculturais linguísticos e etnográficos e recorrendo à abordagem da filogenética comparativa, mostrando que a emergência do casamento monogâmico ocorreu na pré-história recente entre as populações indo-europeias.

Ou seja, mesmo que o cristianismo possa ter sido um fator de influência mais recente, essa evidência enfraquece a tese de que ele fosse necessário para essa prevalência (uma vez que já era um traço cultural remontando à pré-história, o que inclusive poderia facilitar a disseminação da religião nas populações indo-europeias) ou que fosse suficiente para a mesma (uma vez que, dada outra história cultural, o recurso a outras passagens da Bíblia poderia justificar a poligamia, de tal forma que esses traços culturais limitantes moldariam a religião como condição sine qua non à sua disseminação na população).

É bastante questionável o recurso às explicações genéricas do tipo “eles fazem isso porque a religião faz eles agirem assim”, mesmo quando usa-se a linguagem da memética para afirmá-lo.

Além dos mesmos problemas que poderiam ser levantados para explicações genéricas do tipo “eles fazem isso porque a cultura faz eles agirem assim” que são comuns no framework do anti-evolucionista Modelo Padrão das Ciências Sociais, como o de que seres humanos não são tabula rasa completamente moldáveis pela cultura ou religião em direções arbitrárias e desconectadas de realidades biológicas (genéticas, epigenéticas ou ecológico-adaptativas) subjacentes, também é de se mencionar a fraqueza de argumentar com base em “o Alcorão tem passagens que incitam o assassinato de infiéis”.

A existência dessas passagens é tão não preditivo do comportamento médio do crente muçulmano (nascido e criado nessa religião) quanto o fato de Jesus falar para dar a outra face e nunca se vingar não prevê o comportamento médio do crente cristão ou o fato de o Pentateuco afirmar como ordem divina que todos os caananitas deviam ser exterminados não prevê o comportamento médio do crente judeu.

Cada um desses casos é sujeito à investigação empírica, mas o fato é que o comportamento das pessoas não se ajusta 100% em relação às suas crenças (ou crenças oficiais de seu culto) e as religiões são mais flexíveis do que costumamos supor, inclusive sendo os fiéis capazes de deixar de lado trechos inconvenientes de suas escrituras por intermédio de métodos interpretativos que, a rigor, nem são tão engenhosos assim. Também destaque-se que a interpretação do que é aceitável pode mudar rapidamente.

Basta pensar que até o fim do século XVIII, os cristãos europeus aceitavam como um fato da vida que as autoridades seculares, legitimadas por Deus, pudessem executar pessoas em fogueiras, ou que os cristãos norte-americanos sulistas acreditavam até meados do século XIX que podiam possuir legitimamente escravos negros por conta da maldição de Noé sobre Cam e defender esse direito com armas se preciso fosse, ou que os cristãos brasileiros no início e meados do século XX considerassem normal a “defesa da honra” nos tribunais como argumento para não punir criminalmente o marido que assassinasse sua esposa adúltera. Outras religiões fornecem exemplos semelhantes, incluindo mesmo suicidas fanáticos (kamikazes) a serviço do Imperador japonês, considerado uma divindade para o xintoísmo, religião tradicional do Japão, na 2ª Guerra Mundial. Não somente religiões ou crenças assumidas como lugar-comum pelos seus crentes podem mudar, como o podem fazê-lo rapidamente em termos históricos.

Isso não significa que religiões não sejam importantes na vida das pessoas ou de sociedades. Contudo, para entender isso, é preciso perguntar pela função da religião, em termos evolucionários. Pesquisas de ponta na atualidade se desenvolvem para uma compreensão científico-naturalista da religião, em torno do que se chama de “ciência cognitiva da religião”, conjugando psicologia, neurociência, antropologia evolucionária e outras disciplinas.

No paper “The Evolution of Religion: How Cognitive By-Products, Adaptive Learning Heuristics, Ritual Displays, and Group Competition Generate Deep Commitments to Prosocial Religions“, Scott Atran e Joseph Henrich mostram: 1) as condições cognitivas para o surgimento da religião, em torno dos conceitos de “detecção hiperativa (ou hipersensível) de agência” e da vantagem mnemônica de conceitos minimamente contraintuitivos, cujas funções adaptativas dizem respeito à informação sobre as condições do ambiente que o grupo transmite geração-após-geração na linguagem dos mitos (por exemplo, informações ecológicas relevantes; mas destaque-se que a religião em si surgiu como subproduto, não adaptação) ; 2) as condições que afetam sua evolução, passando pela função de sinalização custosa para a dinâmica das práticas rituais e pela função de fortalecimento da cooperação intragrupo para fazer melhor na competição intergrupo (seja violenta ou não) para a evolução de normas pró-sociais mais elaboradas.

Mas é importante perceber também que, mesmo que uma religião atribua contemporaneamente uma função salvífica especial ao combate armado, isso poderia predizer em alguma medida diferenças de comportamento entre pessoas de religiões diferentes, mas não de pessoas da mesma religião. Por exemplo, no catolicismo medieval após a 1ª cruzada, você tinha várias formas de se salvar, não sendo pré-requisito a vida monástica; por outro lado, dentro da vida monástica, não era preciso aderir às ordens religiosas guerreiras, como os Templários ou Hospitalários, podendo aderir às pacíficas, como os Beneditinos.

Portanto, diferenças individuais em vários aspectos significativos ao comportamento (como traços de personalidade e habilidade cognitiva, estes inclusive estáveis ao longo da vida e moderada/significativamente herdáveis geneticamente), bem como condições políticas, econômicas e sociais gerais, mas que afetem diferencialmente diferentes parcelas da sociedade, contam e muito, não sendo a religião capaz de moldar arbitrariamente ou completamente o comportamento de seus fiéis. Isso sem contar o comportamento oportunístico que usa deliberadamente a religião como pretexto para outros fins.

No caso do Islã, como tratam-se de correntes específicas, e como as que aceitam o terrorismo são extremistas e minoritárias, caberia entender o que influencia na adesão a essas correntes minoritárias extremistas, o que nos permite começar a efetivamente entender o fenômeno.

Primeiro, o contexto geopolítico e social do Oriente Médio é claramente importante para fornecer as condições gerais que afetam em maior ou menor grau vários países árabes, mas não afeta países não-árabes.

Em condições onde a influência do Ocidente é vista como negativa por muitos árabes em determinados países, seja pelas questões relativas ao conflito árabe-israelense ou pela aliança de potências ocidentais com governantes autoritários e corruptos que buscam o próprio enriquecimento por meio do poder, a insatisfação é traduzida em termos religiosos mais frequentemente pelo simples fato de que a religião nesses países é mais presente na vida das pessoas do que nos países ocidentais. Mas, mesmo sem essa religiosidade comunitária, esse tipo de insatisfação, especialmente aquela que levasse ao extremismo e à adoção do terrorismo, poderia ser traduzida na linguagem de ideologias nacionalistas (como o pan-arabismo) ou ‘esquerdistas radicais’.

A própria opção pela tática terrorista responde a razões de natureza política: um dos objetivos principais é fazer as potências ocidentais deixarem de interferir na política local, tentando fazê-las ceder com base no medo inspirado aos civis pelos ataques aleatórios voltados contra eles. Também é possível pensar na comparação dos grupos terroristas como uma forma de guerrilha, que adota essa tática por saber que em confronto aberto está em desvantagem em relação às forças armadas inimigas, mas que se diferencia por não pressupor uma ocupação do país por forças invasoras e por voltar-se principalmente contra civis, violando o Direito Humanitário Internacional.

Mas essas observações precisam ser suplementadas pelo fato de que, apesar de serem condições gerais geopolíticas que afetam vários países árabes em maior ou menor grau, criando um ambiente propício à radicalização política (que, em lugares de forte religiosidade comunitária, tende a usar essa mesma linguagem para expressar a insatisfação política), nem todos os muçulmanos juntarão-se a esses grupos, ao contrário, a maioria nunca o fará, ainda que, em alguns países específicos, proporções maiores encaram positivamente o grupo local específico. Portanto, as condições gerais afetam diferentes parcelas da população diferencialmente. Quem se junta, junta-se por quais razões?

A ciência cognitiva da religião pode oferecer uma resposta. O antropólogo Scott Atran é um pesquisador importante nessa área de aplicação da ciência cognitiva (e evolucionária) da religião à explicação da radicalização islâmica. Steven Pinker, em seu livro “Os Anjos Bons da Nossa Natureza”, sumariza os achados de Atran (e de mais dois antropólogos, Blackwell e Sugyama):

“[em relação aos terroristas suicidas,] enquanto a expectativa de uma agradável vida após a morte pode influir na percepção da relação custo-benefício (o que torna mais difícil imaginar um suicida ateu), este não pode ser o único impulsionador psicológico.

Usando entrevistas com terroristas suicidas malsucedidos ou em perspectiva, o antropólogo Scott Atran refutou muitos lugares comuns equivocados sobre eles. Longe de serem ignorantes, empobrecidos, niilistas ou doentes mentais, os terroristas suicidas tendem a ser bem-educados, de classe média, moralmente engajados e livres de psicopatologias evidentes. Atran concluiu que muitos dos seus motivos podem se encontrar no altruísmo nepotista.

O caso dos Tigres Tâmeis [grupo não islâmico] é relativamente simples. Eles usam equivalentes terroristas dos cerra-filas, selecionando combatentes para missões suicidas e ameaçando matar suas famílias caso recuem. Apenas um pouco mais sutis são os métodos do Hamas e outros grupos terroristas palestinos, que usam menos a força bruta e oferecem recompensas, sob a forma de generosos estipêndios mensais, pagamentos à vista e um enorme prestígio na comunidade. Embora em geral não fossem de esperar comportamentos extremos para se promover um payoff de condicionamento biológico, os antropólogos Aaron Blackwell e Lawrence Sugyama mostraram que pode não ser este o caso do terrorismo suicida.  Na Cisjordânia e em Gaza, muitos homens têm dificuldades para encontrar esposas porque suas famílias não podem arcar com o dote, ficando confinados ao casamento com primas, enquanto muitas mulheres são subtraídas do reservatório matrimonial por casamentos polígamos ou contraídos com os árabes mais prósperos de Israel. Blackwell e Sugyama registraram que 99% dos terroristas suicidas palestinos são homens e 86% solteiros, enqaunto 81% têm ao menos seis irmãos, um tamanho de família que excede a média palestina. Quando os antropólogos tabularam estes e outros números em um modelo demográfico simples, concluíram que quando um terrorista se faz explodir a recompensa financeira pode comprar noivas para seus irmãos a ponto de tornar o sacrifício compensador em termos reprodutivos.

Atran estabeleceu que terroristas suicidas também podem ser recrutados sem esses incentivos diretos. Provavelmente o mais eficaz apelo do martírio é a oportunidade de se unir a um alegre coletivo de irmãos. As células terroristas, muitas vezes começam como gangues de rapazes subempregados e solteiros, que se reúnem em cafés, repúblicas, clubes de futebol, barbearias ou salas de bate-papo na internet, e subitamente acham um sentido para suas vidas no compromisso com um novo pelotão. Em todas as sociedades rapazes fazem loucuras para provar sua coragem e compromisso, especialmente em grupos, em que os indivíduos podem fazer algo que sabem ser tolo porque pensam que todos os outros no grupo acham que é legal (…). O comprometimento com o grupo é intensificado pela religião, não simplesmente uma promessa literal do Paraíso, mas o sentimento de relevância espiritual que provém do empenho em uma cruzada, uma vocação, um rito de passagem, ou uma jihad. A religião também pode transformar um compromisso com a causa em um valor sagrado – um bem que não pode ser trocado por coisa alguma, inclusive a própria vida. O compromisso pode ser alimentado pela sede de vingança, que no caso do islamismo militante assume a forma de revanche pelos danos e humilhações sofridos por todos os muçulmanos em todas as partes do planeta e em todos os momentos da história, ou por afrontas históricas tais como a presença de soldados infiéis no solo sagrado do islã. (…)

Os imames locais têm importância marginal em sua radicalização, já que rapazes que pretendem vencer o inferno raramente buscam a orientação dos mais velhos na comunidade.” (PINKER, p. 487-489)

Portanto, os principais fatores que explicam a adesão de alguns muçulmanos, especialmente homens jovens solteiros, aos grupos terroristas são: vantagens para os parentes no ‘mercado’ marital e pertença a grupos sociais com grande apoio mútuo e coordenação de ação. A busca por essas vantagens ou oportunidades não é aleatória, mas firmemente amparada em aspectos da psicologia humana que foram moldadas pela evolução por seleção natural de nossa mente (e que nem sempre contribuem para a nossa felicidade individual ou para o maior bem-estar e oportunidades de todas as pessoas).

Por fim, para deixar mais claro ao leitor que a ciência cognitiva da religião desconfirma essas pretensões de que a violência ou o terrorismo seriam intrínsecos ao Islã, traduzi o texto abaixo, de autoria do próprio Atran, onde este responde à provocação feita por Sam Harris em seu blog, acusando Atran de desonestidade intelectual ou doença mental. Atran mostra como a linha defendida aqui é muito mais frutífera em termos científicos. (Obs: caso queira ler mais posicionamentos de Atran nessa questão além do texto abaixo, veja a discussão aqui e aqui)

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Aqui vem ele de novo: As inverdades de Sam Harris

Por Scott Atran 

Sam Harris postou um texto recente em seu blog sobre minha visão dos Jihadistas que não é convidativo ao debate intelectual sério, se não é que faz feio mesmo. Ele afirma que eu disse a ele em seguida a uma “uma palestra delirante e envaidecida” que “nenhum deles (conectados com suicídio em atentados à bomba) acredita no paraíso”. O que eu realmente disse a ele (como eu tenho feito a muitos outros) foi exatamente o que cada líder de um grupo jihadista que eu entrevistei já me disse, que qualquer um que busque tornar-se um mártir para obter virgens no paraíso seria rejeitado de imediato. Eu também disse (e escrevi vários artigos e um livro expondo a evidência) que, conquanto ideologia seja importante, o melhor preditor (no sentido de uma análise de regressão) de disposição a cometer um ato de violência jihadista é a pertença da pessoa a uma rede de interação (network) social orientada para ação, tal como um grupo de ajuda de vizinhança ou mesmo times esportivos (veja Atran, TALKING TO THE ENEMY, Penguin, 2010).

As visões de Harris sobre a religião ignoram o progresso considerável em estudos cognitivos sobre o assunto sobre as últimas duas décadas, que apresenta que as crenças religiosas centrais não têm conteúdo proposicional fixo (Atran & Norenzayan, “Religion’s Evolutionary Landscape,” BEHAVIORAL AND BRAIN SCIENCES, 2004). De fato, crenças religiosas, em sendo absurdas (sejam ou não reconhecidas como tais), não podem ser mesmo processadas como inteligíveis porque seu conteúdo semântico é contraditório (por exemplo, um ser senciente e poderoso fisicamente mas incorpóreo, uma divindade que é uma em três, etc.). É precisamente a natureza inefável das crenças religiosas centrais que dá conta, em parte, de sua adaptabilidade social e política ao longo do tempo em ajudar a sustentar e estreitar elos (bond) dentro de grupos (Atran & Ginges, “Religious and Sacred Imperatives in Human Conflict,” SCIENCE, 2012). De fato, são os rituais provocadores de êxtase que Harris descreve como sendo associados com tais crenças que os imuniza contra o escrutínio lógico e empírico que ordinariamente acompanha a checagem/verificação de crenças (see Atran & Henrich, “The Evolution of Religion,” BIOLOGICAL THEORY, 2010).

As generalizações de Harris de suas próprias experimentações com ressonâncias magnética funcionais entre algumas dezenas de estudantes universitários como apoiando suas visões de religião como sendo simplesmente crenças falsas são desapontadoras. Como Pat Churchland aposta: “Não há nenhum único exemplo [no trabalho de Harris] do que nós temos aprendido da neurociência que possa impactar nossos julgamentos morais a respeito dessa questão específica. Podem existir exemplos, mas ele não nos oferece nenhum.” (comunicação pessoal em 24/02/2011; veja também o trabalho de ressonância magnética funcional por nossa equipe de neuroeconomistas liderados por Greg Berns na edição temática  “The Biology of Conflict,” PHILOSOPHICAL TRANSACTIONS OF THE ROYAL SOCIETY, 2012).

Declarações descontextualizadas sobre se Islã, ou qualquer religião, é inerentemente compatível ou incompatível com violência política extrema – ou democracia ou qualquer outra doutrina política contemporânea pertinente – é sem sentido nenhum. Pessoas fazem crença religiosa – seja Islã, Cristandade, judaísmo, budismo, etc. – compatível com violência ou não violência de acordo sobre como elas interpretam suas crenças religiosas. E como pessoas interpretam as prescrições religiosas (p. ex. os dez mandamentos), tanto como os aspectos transcendentais das ideologias políticas, quase invariavelmente muda ao longo do tempo. Por exemplo, às vésperas da Segunda Guerra Mundial, líderes eclesiásticos e políticos na Itália fascista e na Espanha defendiam que catolicismo e democracia foram inerentemente incompatíveis, e muitos calvinistas e protestantes luteranos acreditaram que Deus abençoou o regime autoritário. Como Martinho Lutero proclamou, “se o Imperador me chama, Deus me chama” – um sentimento que Lutero, como muitos primeiros cristãos, acreditavam ser santificados pelo comando de Jesus para “dar a César o que é de César, e dar a Deus o que é de Deus”. Entretanto, os princípios da democracia liberal moderna primeiro firmaram raízes e cresceram para sua extensão completa no coração das terras cristãs europeias e coloniais. Como Benjamin Franklin o expressou em sua proposta para o mote da nova república americana: “Rebelião contra tirania é obediência a Deus”. Ou, como o Concílio Coordenador da Revolução Iemenita para Mudança (Coordinating Council of Yemeni Revolution for Change) coloca-o, um Islã de “direitos humanos básicos, igualdade, justiça, liberdade de expressão, liberdade de manifestação e liberdade para os sonhos!” (National Yemen, “The Facts As They Are,” Youth Revolutionary Council Addresses International Community, April 25, 2011).

Que há uma corrente contemporânea repugnantemente violenta no Islã, não há dúvida. Facções do movimento da identidade cristã, da interpretação Tâmil Tiger do hinduísmo como exigindo ataques suicidas contra inimigos budistas, a interpretação do Império japonês do zen-budismo como um chamado à guerra de extermínio contra os chineses, todos produziram comportamentos cruéis e bárbaros que tem afetado adversamente milhões de pessoas. Mas a abordagem de Harris nesses temas é tão cientificamente desinformada e falsa quanto uma ameaça para aqueles que buscam uma saída prática e razoável do pântano do obscurantismo.

Como uma nota final, devo também mencionar que sou um pesquisador à frente de vários projetos de ciência em campo multidisciplinares e de vários anos patrocinados pelo Departamento de Defesa, incluindo “Motivação, Ideologia e o Processo Social na Radicalização”, aspectos dos quais são ensinados ao pessoal militar desde os oficiais generais. E sou constantemente convidado para dar breves apresentações desses assuntos para a Casa Branca, o Congresso e os governos aliados. Eu não sei de nenhum interesse operacional ou demandas comparáveis entre as agências políticas, de defesa e de inteligência dos Estados Unidos e de seus aliados pelas reflexões de Harris sobre êxtase religioso. Na estranha visão de mundo de Harris, que é admitidamente popular entre muitos que acreditam que a missão da razão é pôr fim à religião para salvar a espécie, falha em aplicar essas reflexões para parar violência direcionada religiosamente ao redor do globo pode bem ser outro sinal das ideias “loucas” que ele regularmente atribui àqueles que recusam sua verdade.

Aqui foi o que Harris escreveu:

“Eu tenho lutado há tempos para entender como liberais [N.T.: em sentido americano] bem-educados, inteligentes podem falhar em perceber os perigos únicos do Islã. Em “O Fim da Fé”, eu argumento que tais pessoas não sabem o que seria realmente acreditar em Deus ou no paraíso – e, portanto, imaginam que ninguém mais realmente o faça. Os sintomas dessa cegueira podem ser bastante chocantes. Por exemplo, eu uma vez encontrei o antropólogo Scott Atran depois que ele ter apresentado uma de suas palestras delirantes e envaidecidas sobre as origens do terrorismo jihadista. De acordo com Atran, pessoas que decapitam jornalistas, diretores de filme e trabalhadores de ajuda humanitária aos gritos de “Alahu akbar!” ou explodem-se a si mesmos em multidões de inocentes são levadas a se comportar mal dessa maneira não por causa de suas crenças profundamente internalizadas sobre a jihad e o martírio, mas por causa de sua experiência de estreitamento de elos (bonding) em clubes de futebol e barbearias. (Realmente.) Então, perguntei a Atran diretamente:

‘Você está dizendo que nenhum suicida a bomba mulçumano jamais explodiu a si mesmo com a expectativa de conseguir o paraíso?’

‘Sim,’ ele disse, ‘é o que eu estou dizendo. Ninguém acredita no paraíso.”

Em um momento como esse, é impossível saber se você está na presença de doença mental ou um caso terminal de desonestidade intelectual. A crença de Atran – aparentemente compartilhada por muitas pessoas – está tão em contraste com o que pode ser razoavelmente entendido das declarações e ações dos jihadistas que não admite nenhuma resposta. A noção de que ninguém acredita no Paraíso é mais louca que a crença no Paraíso.”

http://www.samharris.org/blog/item/islam-and-the-misuses-of-ecstasy

Scott Atran é um antropólogo francês e americano que é Diretor de Pesquisa em Antropologia no Centro Nacional da Pesquisa Científica em Paris, Pesquisador Sênior Convidado da Universidade de Oxford na Inglaterra,  Presidential Scholar no College John Jay de Justiça Criminal em Nova York, e também possui atribuições na Universidade de Michigan. Ele tem estudado e escrito sobre terrorismo, violência e religião, e tem feito trabalho de campo com terroristas e fundamentalistas islâmicos, bem como com líderes políticos.

Mulheres com múltiplos parceiros sexuais e as hipóteses darwinistas sobre o acasalamento

Um artigo da Slate sobre antropologia evolucionária tem causado algum mal entendido. Denominado “Promiscuity is Pragmatic: Why women and other female primates seek out multiple partners“, e escrito pelo antropólogo evolucionário Eric Michael Johnson em 04/12/2013, o texto explora e mostra a evidência em favor de hipóteses darwinistas contemporâneas sobre acasalamento (basicamente, modelos de seleção sexual) que reconhecem a importância do acasalamento múltiplo (multiple mating) para o sucesso reprodutivo de fêmeas humanas e não humanas. É feito um contraste com hipóteses anteriores que negavam essa importância e, portanto, a ocorrência do acasalamento múltiplo como adaptação entre as fêmeas, atribuindo-a apenas aos machos, e questiona-se o quanto da persistência desse paradigma defasado não se deve à sua confirmação de preconceitos e estereótipos ocidentais.

Illustration by Nathaniel Gold.

(Ilustração por Nathaniel Gold, retirada da coluna da Slate aqui comentada)

O artigo é bem-referenciado e interessante, mas, infelizmente, tem sido utilizado de forma equivocada por alguns como a prova de que a psicologia evolucionária está errada ou é paroquial em questões de gênero e sexualidade, ou de que homens não tendem a ser mais promíscuos que mulheres, e assim por diante. Também penso que seu autor poderia ter explicado alguns conceitos para o público mais leigo na discussão técnica sobre seleção sexual, talvez na forma de notas explicativas, o que ajudaria a evitar esses mal entendidos e/ou o uso indevido de um conteúdo que, por si mesmo e adequadamente contextualizado, é excelente.

Se você é um leitor regular do blog, já deve saber que escrevi o texto “A psicologia evolucionária não implica que homens preferem mais o sexo que as mulheres” para resolver alguns mal entendidos nesse campo de estudos. Recomendo sua leitura, mas o presente texto é independentes e com diferente conteúdo (com alguma sobreposição, claro), ainda que ambos reforçam-se mutuamente.

Então, vamos corrigir os mal entendidos que podem surgir a partir dessa coluna no Slate, em quatro tópicos.

1. O assunto do texto são os modelos de seleção sexual que incorporam acasalamento múltiplo por fêmeas como adaptação para maximização de sucesso reprodutivo, não uma refutação de que homens tendem a ser mais promíscuos que as mulheres nem tampouco uma refutação de hipóteses da psicologia evolucionária sobre diferenças médias em comportamento sexual/reprodutivo entre os dois sexos

Algumas pessoas estão lendo uma frase nesse artigo que até hoje não consegui identificar. Seria algo como “isso prova que homens não tendem a ser mais promíscuos que as mulheres” ou “a psicologia evolucionária está errada, e é muito paroquial em suas hipóteses, já que é uma pseudociência mesmo ou no máximo uma protociência”. Por razões que agora a ciência já investiga, as pessoas de fato querem ler qualquer coisa que confirme seus tabus sobre certos assuntos!

Por um lado, o texto não tem como objetivo afirmar se são os homens ou se são as mulheres que tendem a ser, na média, mais promíscuos uns em relação aos outros (ou talvez com frequência média de comportamento sexual promíscuo equivalente). Apenas expõe como o acasalamento múltiplo e/ou promiscuidade pode ser adaptativo em fêmeas tanto quanto em machos, e que pode haver uma relação entre a variância em acasalamento e a variância no sucesso reprodutivo em fêmeas que ocasione seleção para traços favorecendo comportamento sexual feminino mais promíscuo e/ou com múltiplos parceiros (concomitantes ou sequencialmente) em certas circunstâncias ecológicas ou socioecológicas.

Nesse ponto, é importante lembrar que mesmo textos críticos (vide STEWART-WILLIANS, THOMAS, 2013, p. 153) ao anterior modelo de seleção sexual, como aplicado aos seres humanos, reconhecem que um dos achados mais importantes da psicologia evolucionária foi o de que homens tendem a ser mais promíscuos que as mulheres por razões evolucionárias.

As diferenças em orientação sociossexual (disposição para ter relações sexuais fora de um relacionamento comprometido) encontradas em um estudo intercultural com uma amostragem muito significativa, com 200.000 participantes de 53 países (Lippa, R. A., 2009) foram significativas pelo modo padrão de medir essa correlação em psicologia. (Veja mais nessa discussão em meu texto anterior)

Por outro lado, o texto aborda modelos de seleção sexual na biologia evolucionária, não exclusivamente na psicologia evolucionária ou na antropologia evolucionária. Se há um problema com o modelo mais antigo, derivado de Bateman (e consolidado por Trivers, não mencionado no texto), este problema não é exclusivo da aplicação da ciência evolucionária ao ser humano, mas da biologia como um todo.

E é uma hipótese costumeira na psicologia evolucionária a de que mulheres têm maior tendência ao adultério durante a ovulação, pelos benefícios seletivos que a paternidade extra-marital pode conduzir em termos de sucesso reprodutivo.

Fora da ovulação, as mulheres tenderiam a preferir um perfil de parceiro sexual mais provedor/cooperativo, o que seria vantajoso para prover recursos para sua prole. Quando da ovulação, as mulheres tenderiam a atrair-se por um perfil de parceiro sexual com mais elevada taxa de testosterona e aparência mais robusta, o que seria vantajoso para ter uma prole mais atraente com maior probabilidade de sucesso sexual no futuro.

Perceba que isso de nenhuma forma implica que o acasalamento múltiplo nunca seja adaptativo para mulheres. Ao contrário, se essa hipótese for verdadeira, mostra que as mulheres têm predisposições para trair parceiros estáveis, que sua disposição sexual pode direcionar-se pelo menos para dois parceiros sexuais diferentes ao longo do período de um mês e, potencialmente, muito mais ao longo da vida inteira.

Isso inclusive vai de encontro a um dos artigos da ecologista comportamental Brooke A. Scelza que é mencionado na coluna, “Female choice and extra-pair paternity in a traditional human population“. Veja esse trecho do abstract:

“Seeking out extra-pair paternity (EPP) is a viable reproductive strategy for females in many pair-bonded species. Across human societies, women commonly engage in extra-marital affairs, suggesting this strategy may also be an important part of women’s reproductive decision-making.” (SCELZA, 2011, p. 889)

E agora compare com o que outra antropóloga evolucionária, Monique Borgerhoff Mulder, em paper em co-autoria com Gillian R. Brown e Kevin N. Laland, denominado “Bateman’s principles and human sex roles“, cujo objetivo é justamente criticar o paradigma de Bateman, tem a dizer sobre a psicologia evolucionária:

“Evolutionary psychologists assume that human behaviour is guided by evolved psychological mechanisms that were selected to solve problems commonly encountered by our hominin ancestors [65]. Bateman’s principles have formed the cornerstone of a large field of evolutionary psychology dedicated to understanding sex differences in human traits, such as mate-choice preferences, sexual jealousy and aggression (e.g. see Refs[66,67,68]). Human beings are commonly characterized as monogamous with polygamous tendencies, such that men are predisposed to commit paternal investment but seek out additional mating partners where possible, whereas women are predisposed to seek monogamous relationships but occasionally engage in extra-pair matings with high-quality males [69]. Evolutionary psychologists do consider within-sex variation in mating behaviour, commonly in terms of condition-dependent strategies; human beings are assumed to have inherited a diverse repertoire of sexual strategies, such that developmental, social and ecological conditions can evoke particular strategies that will have been adaptive in our evolutionary past [70,71].” (BORGERHOFF MULDER; LALAND; BROWN, 2009, p. 302)

Então, não é correto transformar a discussão do texto em uma carta contra a psicologia evolucionária, e, quando muito, pode-se apenas notar que os autores favorecidos por Eric Michael Johnson são antropólogos evolucionários, ligados ao paradigma da ecologia comportamental humana, que pode ser vista tanto como complementar quanto conflitiva à psicologia evolucionária.

Eu penso que há muito mais espaço para complementaridade entre ecologia comportamental humana e psicologia evolucionária, e que essa integração e/ou interação entre os campos é de extrema relevância para o estudo evolucionário do comportamento humano (seguindo BROWN; DICKINS; SEAR; LALAND, 2011), e penso que as críticas mais interessantes, relevantes e pertinentes a determinados paradigmas dentro da psicologia evolucionária vem justamente dos ecologistas comportamentais humanos (vide BORGERHOFF MULDER; HILL; SMITH, 2000BORGERHOFF MULDER; HILL; SMITH, 2001BORGERHOFF MULDER; LALAND; BROWN, 2009, p. 302). Posso falar por mim, mas não por Eric Michael Johnson, uma vez que ele não cita nada desse texto sobre qual sua opinião a este respeito, nem conheço outros textos deles que indicassem seu posicionamento.

2. Os princípios de Bateman sobre os efeitos diferenciais da seleção sexual sobre o comportamento sexual/reprodutivo de machos e fêmeas, relacionados à previsão da Teoria do Investimento Parental de Trivers, foram refutados até que ponto? O que exatamente foi falseado?

O artigo de Eric Michael Johnson dedica dois parágrafos ao paradigma de Bateman em matéria de seleção sexual. Basicamente, ele comenta que Bateman publicou em 1948 um dos papers mais influentes já escritos sobre evolução do comportamento sexual, que analisava padrões de herança genética entre as drosófilas, uma espécie de mosca-das-frutas, onde concluiu que a divisão entre machos ardentes e fêmeas tímidas era um atributo quase universal da reprodução sexual, levando em conta os custos diferentes que cada um tem com a reprodução. O raciocínio é como segue: como óvulos são fisiologicamente mais caros e em menor quantidade que esperma, então o sucesso reprodutivo da fêmea não aumenta por acasalar com mais de um macho, mas apenas por focar em escolher o “melhor” macho e direcionar sua energia para a prole, enquanto o sucesso reprodutivo do macho é aumentado por acasalar com múltiplas fêmeas, de modo que a resolução do trade-off quantidade versus qualidade em relação ao acasalamento é diferente entre os sexos. Contudo, um estudo de 2012 (GOWATYA, KYMD, ANDERSOND, 2012) replicou o estudo de Bateman e encontrou que Bateman chegou a uma conclusão equivocada sobre os padrões de acasalamento da drosófila.

Neste ponto, penso que o autor do texto comete um equívoco em optar por não explicar os Bateman’s principle (princípios de Bateman), e nem delimitar o que realmente foi falseado quanto às conclusões de Bateman, além de ocultar o papel da Teoria do Investimento Parental de Trivers para consolidar essas conclusões.

Essas omissões são ruins porque levam o leitor a pensar que a base para a comunidade científica adotar o paradigma de Bateman para a seleção sexual fossem puramente não-científicas, viés puro, quando isso não é verdade. E o autor apenas reforça isso ao falar logo em seguida sobre horizontes limitados na pesquisa científica tendendo a reforçar estereótipos ocidentais.

O estudo de Bateman chegou à conclusão de que o número da prole gerada por um macho da drosófila aumenta com o número de parceiras reprodutivas, enquanto a fêmea não tinha o número de sua prole aumentada por acasalar com vários machos. O estudo mais recente de 2012 encontrou incongruências em relação à maneira de contar o número da prole de machos e de fêmeas, não encontrando a evidência de seleção sexual encontrada por Bateman. Basicamente, problemas na metodologia, que invalidam sua conclusão sobre a drosófila.

Mas isso não invalida a questão mais geral suscitada por Bateman, ainda que não fosse aplicável especificamente às moscas-das-frutas. Foi essa questão mais geral que Robert Trivers, um dos maiores expoentes da sociobiologia, retomou quando destacou o paper de Bateman em seu próprio paper “Parental investment and sexual selection“, de 1975.

A Teoria do Investimento Parental de Trivers é mais geral por incluir não só a contribuição zigótica diferente entre machos e fêmeas para a reprodução bem-sucedida, como havia sido destacado por Bateman, mas o investimento parental pós-zigótico, como a provisão de recursos para a prole. Para um resumo do argumento:

“Trivers predicted that the sex with the largest parental investment, usually female, would become a limiting resource for which members of the other sex compete. When females invest more than males, the ratio of reproductively available males to females (the operational sex ratio [OSR] [4]) is assumed to be male-biased. In these situations, reproductive success would be expected to vary more amongst males than females, with females competing less intensely for mates and seeking out fewer partners than males [3,5]. Apparently in support of this argument, greater variance in male than female reproductive success has been reported in some insects, frogs, lizards, birds and mammals [3,6]. Conversely, in sex-role-reversal species with high levels of paternal investment, females are predicted to compete more intensely than males for mates because males limit female reproductive success [7].” (BORGERHOFF MULDER; LALAND; BROWN, 2009, p. 297)

A Teoria do Investimento Parental de Trivers não é refutada pelo paper de 2012 que replicou o estudo de Bateman entre as drosófilas, e seu raciocínio é claramente científico. Na medida em que a conclusão de Bateman sobre as drosófilas foram falseadas pelo estudo de 2012, as predições de Trivers não o foram.

Mas também cabe destacar que determinadas generalizações do estudo de Bateman devem ser julgadas conforme sua evidência para cada população específica entre as diferentes espécies. Trata-se do que Arnold denominou de Bateman’s Principles (princípios de Bateman) em seu paper “Bateman’s principles and the measurement of sexual selection in plants and animals“:

1º princípio: Machos apresentam maior variância no número da prole (ou sucesso reprodutivo) do que fêmeas;

2º princípio: Machos apresentam maior variância no número de parceiros sexuais (ou sucesso de acasalamento) que fêmeas;

3º princípio: há um relacionamento mais robusto entre a variância no sucesso reprodutivo (reproductive sucess) e a variância no sucesso de acasalamento (mating sucess) nos machos do que nas fêmeas.

Ou seja, os princípios de Bateman indicam que, entre os machos, a variância no sucesso reprodutivo é em grande medida determinado pela variância no sucesso de acasalamento, de modo que machos com mais acasalamentos reproduzem-se mais. Como há muita diferença no sucesso reprodutivo e no sucesso de acasalamento entre os machos, mais do que entre as fêmeas, isso significa que os machos têm de competir pelas fêmeas, enquanto estas estão na posição de escolher com qual macho acasalar, o que implica em pressões de seleção sexual sobre os machos. Dessa forma, a seleção opera favorecendo traços que aumentem o sucesso de acasalamento entre os machos, mas não entre as fêmeas, uma vez que naqueles, mas não nestas, trata-se de uma variável que impacta muito no sucesso reprodutivo.

Esses princípios ou hipóteses podem ser testados em relação a qualquer população, inclusive humana, pela determinação da variância no sucesso reprodutivo e da variância no sucesso de acasalamento entre machos e entre fêmeas, e o relacionamento das variâncias entre si respectivamente. Inclusive essas variâncias e o relacionamento entre elas podem diferir entre as populações dentro da espécie, inclusive da humana. É previsível que isso ocorra inclusive como função do sistema de associação marital e de herança de recursos de diferentes sociedades humanas, que, em última instância, depende da capacidade maior ou menor dos homens em monopolizar recursos e/ou das mulheres em controlá-los independentemente dos homens. Vide:

Hunter–gatherers lived in bands, probably with (serially) monogamous marriage, relatively low fertility, no heritable wealth of consequence and relatively egalitarian social systems. Since the adoption of agriculture and other intensive forms of plant/animal domestication, human social systems have been largely shaped by the existence of important resources (such as fields, gardens, livestock, fishing territories, etc.) that can be controlled or owned (by individuals or by groups) and passed down to future generations. Access to such resources greatly influences the future reproductive success of descendants and generates inequalities in wealth and political power [27]. Population densities increased with the advent of agriculture: more complex political systems emerged, correlating with human ethno-linguistic groups becoming larger and more politically complex [28,29]. Systems of wealth inheritance are fundamentally linked with systems of marriage and the associated transfers of wealth at marriage, and thus marriage and descent systems are products of the socio-economic system on which societies are based. As is well known to behavioural ecologists, if males are able to monopolize access to territory that has the resources required for breeding, then that resource can be used to attract females, who will mate polygynously, if need be, to acquire that resource. Thus, resource-defence polygyny, not dissimilar to that described in birds [30], is also common in humans [31]. As in other species, such polygynous systems can only really emerge where there are sufficient resources for females to raise their children without a great deal of individual help from fathers. Resources such as livestock are particularly associated with polygynous marriage and male-biased wealth inheritance [32]. If the number of grandchildren can be enhanced more by leaving livestock to sons (enabling them to marry earlier and more often) than to daughters, which is the case under resource-based polygyny, then patrilineal wealth inheritance norms doing just that will emerge [33].

 

Within lineal family systems, patriliny is by far the most common pattern worldwide, but a significant minority (about 17%) of systems described in the Ethnographic Atlas [34], are matrilineal. Marriage bonds are often weak in matrilineal systems, with women frequently marrying several husbands over the course of their lives, as resources are passed down the female line. The ecology that is predictive of matriliny is biased towards systems where resources cannot be easily monopolized by males to attract females. In Africa, it is strongly associated with the absence of livestock [35,36]. African crop production is often not land-limited but labour-limited, so, whereas livestock offer women the promise of resources relatively easily accumulated, land of the type that is only of value after back-breaking field labour does not generally provide men with the opportunity to monopolize large areas to attract mates. Women will only remain married to men as long as they help them work the land. In other parts of the world, matriliny has been proposed to be associated with high male mortality and/or absence rates, either because of warfare, as in some matrilineal native American groups [37], or trade networks and ocean fishing as in the Pacific ([38]; F. M. Jordan 2007, unpublished PhD thesis). Whatever the underlying ecology, women in matrilineal systems rely on mothers, daughters and sisters to support their family, as help from males is often transitory. Paternity uncertainty tends to be high in matrilineal systems, although the extent to which this is a cause or consequence of matrilineal descent systems is a matter of debate [39]. In the case of correlations between subsistence and kinship systems, understanding of how fitness is maximized at the individual level helps explain larger scale cross-cultural patterns. (MACE; JORDAN, 2011, p. 405)

Portanto, é rápido demais concluir que a relevância do estudo de Bateman resumiu-se a um viés da comunidade científica na direção de estereótipos ocidentais. Ao contrário, como a própria Teoria do Investimento Parental de Trivers é reforçada em sua evidência pelas espécies onde os ‘papéis de sexo’ (em relação ao investimento parental) são invertidos e, portanto, são os machos que fazem o maior investimento, não as fêmeas, e os princípios de Bateman podem ser testados independentemente em cada população.

3. A contribuição da ecologia comportamental humana devidamente contextualizada: o investimento parental não é o único fator a ser considerado em relação às consequências sobre o sucesso reprodutivo do acasalamento múltiplo entre as fêmeas humanas

Se o artigo não demonstra que a Teoria do Investimento Parental de Trivers ou os princípios (ou hipóteses) de Bateman carecem de relevância, qual é a contribuição que ele documenta?

A contribuição, derivada principalmente da ecologia comportamental humana, é a de que, no passado, o equívoco foi concentrar-se no investimento parental como a variável-chave para determinar as consequências sobre o sucesso reprodutivo da estratégia de acasalamento múltiplo, quando outros fatores podem ser mais relevantes em determinadas condições ecológicas, em sua interação com o próprio investimento parental.

Um estudo que vai nessa direção é o “Serial Monogamy as Polygyny or Polyandry?” de Monique Borgerhoff Mulder, onde esta destaca o caso de uma comunidade na África onde as mulheres são as principais investidoras parentais, mas, ainda assim, beneficiam-se mais do que os homens da monogamia serial (ou seja, casamentos e divórcios seguidos de novo casamento). Em sua conclusão, ela destaca:

The Pimbwe results suggest that we should think about serial monogamy as a form not just of polygyny but also of polyandry. This finding will not surprise authors such as Sarah Hrdy, Barbara Smuts, and Patty Gowaty, who have been encouraging human behavioral ecologists to focus more on the strategies of women. However, this plea is usually interpreted as a call to pay more attention to the female side of the conventional model—male competition and female choice. The argument here is that we need to revise the simple Triversian assumptions, and more specifically that the source of our limited understanding of women’s strategies lies in an overemphasis on the parental investment model. Pimbwe women, despite being the principal investors, mate multiply, and may be doing so because of being so choosy, although this appears not to be a strategy open to all women. Mate number and mate quality are not necessarily traded off against each other.

This paper also offers albeit very preliminary empirical evidence depicting the nature of women’s strategies in serial monogamy (though further analysis is still required). Sarah Hrdy (2000:82) was on the right track when she appended to her question “Why is polyandry so rare in humans?” another question: “Or is it?” Hrdy drew the distinction between the extremely rare cases of “formal polyandry,” in which women marry groups of men simultaneously, and the possibly much more common “informal polyandry,” both of which result from a constellation of factors, including a shortage of women (Peters and Hunt 1975), the difficulty for a single man to make adequate provisions for a family (Haddix 2001), and the custom of men sharing their wife or wives with potential allies (see discussion in Hrdy 2000). This informal polyandry Guyer (1994) labeled as “polyandrous motherhood,” depicting the reproductive careers of women who raise the children of different men (e.g., Schuster 1979). (BORGERHOFF MULDER, 2009, p. 145-146)

Infelizmente, não consegui acesso ao estudo mencionado no texto da Slate, mas o paper de Brooke Scelza, uma antropóloga evolucionária com uma pesquisa fascinante, também parece bastante interessante dado o resumo oferecido. Veja também a citação acima de MACE; JORDAN, 2011, p. 405, no tópico anterior.

Então, a Teoria do Investimento Parental continua a ser muito importante e relevante, mas é preciso prestar atenção a outros fatores que podem levar mesmo ao sexo que mais investe na prole a acasalar multiplamente, seja sequencialmente ou concomitantemente.

4. Promiscuidade, ou elevada orientação sociossexual, é equivalente ao acasalamento múltiplo? Ou: à guisa de uma possível interação entre psicologia evolucionária e ecologia comportamental humana.

Apesar dos comentários acima realizados, uma questão talvez ainda tenha ficado pendente para o leitor. Afinal, promiscuidade é equivalente ao acasalamento múltiplo? O texto de Eric Michael Johnson não esclarece esta questão importante.

Orientação sociossexual é a disposição para ter relações sexuais fora de um relacionamento comprometido e é o conceito análogo ao de promiscuidade na linguagem comum.

Acasalamento múltiplo, por sua vez, inclui poliandria, que é quando uma mulher está casada ou coabitando com dois ou mais homens concomitantemente, e monogamia serial, que é quando uma mulher relaciona-se monogamicamente, mas sucessivamente, com mais de um homem.

Não é possível chamar a poliandria ou a monogamia serial de promiscuidade, uma vez que falta à promiscuidade o caráter de relacionamento comprometido e a expectativa de alguma provisão de recursos para a prole.

Por exemplo, na poliandria, a mulher terá mais de um homem para ajudá-la a prover recursos para a prole, e, na monogamia serial, o mesmo resultado pode ser obtido (pense nos pagamentos de pensão no Brasil moderno) e/ou um dos motivos para divórcio pode ser o da inadequada provisão de recursos à prole propiciada pelo primeiro marido. Seja sucessivamente ou concomitantemente, na monogamia serial e na poliandria respectivamente, há também laços afetivos de pair-bonding entre os parceiros reprodutivos, os quais estão ausentes nas relações promíscuas.

(O caso das relações extraconjugais teria o mesmo efeito da promiscuidade, no sentido esboçado aqui, quando trata-se de amantes ocasionais que não proveem recursos à prole, mas, por definição, também depende da existência de um relacionamento compromissado ao tempo da relação, e recai na previsão da psicologia evolucionária antes abordada.)

No cenário proposto pelo antropólogo evolucionário Robert Foley, o ancestral comum entre o ser humano e o chimpanzé e os australopitecos mais provavelmente mantinham um sistema de acasalamento sem pair-bonding, enquanto determinadas mudanças nas condições ecológicas (uma dieta baseada em carne; FOLEY, 2001, p. 181-182)  e nas capacidades cognitivas (habilidade de atenção focada; FOLEY, 2009, p. 3.274) na história da evolução humana permitem inferir que a capacidade para laços afetivos de pair-bonding surgiram cedo na história do gênero Homo, ao redor de 1 milhão de anos-800.000 anos atrás aproximadamente:

“The critical question is how a change in ecological energetics through fire and cooking shaped social evolution. One possibility is that it placed a greater emphasis on bonding between individual males and females, which strengthened smaller family units within the larger community structure. Cooking, spatial patterns shaped by hearth structures and specialized roles by sex were factors that both changed male–female relationships and produced the nested social structures that characterize humans (i.e. family units embedded within larger kin-based communities). Indirect evidence for this type of change may be provided by the very marked increase in the symmetry and quality of mode 2B Acheulean bifaces. The knapping skills indicate not only novel cognitive skills (Wynn 1988) when compared with mode 1 or mode 2A (and now demonstrated by neuroimaging; Stout & Chaminade 2007), but also the human skill of focused attention. The ability to focus attention so single-mindedly on the making of an object, and its constant repetition across three continents and many millennia, is testament to a high level of attention in practical operations. However, it may also allow us to infer the coevolutionary development of close male–female bonding at this time supported by a similar focused attention, most commonly expressed psychologically as our propensity for infatuation, the love-struck gaze.” (FOLEY, 2009, p. 3.274)

Portanto, não é possível confundir o acasalamento múltiplo com a promiscuidade, ainda que esta seja uma espécie daquele. E essa diferenciação parece-me essencial para reconciliar os achados da psicologia evolucionária e da ecologia comportamental humana.

Em uma breve síntese, a ecologia comportamental humana utiliza medidas de como as respostas comportamentais humanas de populações contemporâneas variam adaptativamente conforme a mudança em condições ecológicas que impactam o sucesso reprodutivo do indivíduo, otimizando-o, sem verificar qual o mecanismo – genéticos, psicológicos, etc. – que causa aquele comportamento (o que é referido como phenotipical gambit); já a psicologia evolucionária hipotetiza qual deve ser o design dos mecanismos psicológicos para que estes pudessem otimizar o sucesso reprodutivo nas condições do Pleistoceno.

Sugiro que o resultado sobre acasalamento múltiplo em mulheres encontrado pelos ecologistas comportamentais não apresenta ainda claras repercussões sobre como isso é causado em termos fenotípicos, ou seja, do mecanismo psicológico com o qual os psicólogos evolucionários estão preocupados. Já o resultado sobre promiscuidade maior em homens do que em mulheres dos psicólogos evolucionários está relacionado diretamente com diferentes preferências estáveis que homens e mulheres apresentariam, afetando suas estratégias reprodutivas, o que destoa da ênfase comportamentalista dos ecologistas comportamentais.

A reconciliação, penso eu, poderia dar-se nos seguintes termos: há condições ecológicas ou socioecológicas em que mulheres ganham benefícios reprodutivos por acasalar-se com múltiplos parceiros (especialmente por meio de melhor acesso a recursos para a prole ou maior diversidade e/ou qualidade genética da prole através de poliandria ou monogamia serial), mas os homens tenderam, em média, a ganhar mais de acasalamentos múltiplos que sejam também promíscuos (especialmente pelo maior acesso à reprodução com menor provisão de recursos à prole resultante) do que as mulheres, de modo que as preferências que evoluíram ao nível do mecanismo psicológico fazem com que homens sejam mais predispostos, em média, à promiscuidade, o que é medido pela maior média de orientação sociossexual entre os homens.

Será interessante saber se já existem estudos que tentem discriminar estes aspectos e, assim, permitam testar essa minha singela proposta de reconciliação entre os achados dos dois campos.

Referências

[A COMPLETAR]