Mulheres com múltiplos parceiros sexuais e as hipóteses darwinistas sobre o acasalamento

Um artigo da Slate sobre antropologia evolucionária tem causado algum mal entendido. Denominado “Promiscuity is Pragmatic: Why women and other female primates seek out multiple partners“, e escrito pelo antropólogo evolucionário Eric Michael Johnson em 04/12/2013, o texto explora e mostra a evidência em favor de hipóteses darwinistas contemporâneas sobre acasalamento (basicamente, modelos de seleção sexual) que reconhecem a importância do acasalamento múltiplo (multiple mating) para o sucesso reprodutivo de fêmeas humanas e não humanas. É feito um contraste com hipóteses anteriores que negavam essa importância e, portanto, a ocorrência do acasalamento múltiplo como adaptação entre as fêmeas, atribuindo-a apenas aos machos, e questiona-se o quanto da persistência desse paradigma defasado não se deve à sua confirmação de preconceitos e estereótipos ocidentais.

Illustration by Nathaniel Gold.

(Ilustração por Nathaniel Gold, retirada da coluna da Slate aqui comentada)

O artigo é bem-referenciado e interessante, mas, infelizmente, tem sido utilizado de forma equivocada por alguns como a prova de que a psicologia evolucionária está errada ou é paroquial em questões de gênero e sexualidade, ou de que homens não tendem a ser mais promíscuos que mulheres, e assim por diante. Também penso que seu autor poderia ter explicado alguns conceitos para o público mais leigo na discussão técnica sobre seleção sexual, talvez na forma de notas explicativas, o que ajudaria a evitar esses mal entendidos e/ou o uso indevido de um conteúdo que, por si mesmo e adequadamente contextualizado, é excelente.

Se você é um leitor regular do blog, já deve saber que escrevi o texto “A psicologia evolucionária não implica que homens preferem mais o sexo que as mulheres” para resolver alguns mal entendidos nesse campo de estudos. Recomendo sua leitura, mas o presente texto é independentes e com diferente conteúdo (com alguma sobreposição, claro), ainda que ambos reforçam-se mutuamente.

Então, vamos corrigir os mal entendidos que podem surgir a partir dessa coluna no Slate, em quatro tópicos.

1. O assunto do texto são os modelos de seleção sexual que incorporam acasalamento múltiplo por fêmeas como adaptação para maximização de sucesso reprodutivo, não uma refutação de que homens tendem a ser mais promíscuos que as mulheres nem tampouco uma refutação de hipóteses da psicologia evolucionária sobre diferenças médias em comportamento sexual/reprodutivo entre os dois sexos

Algumas pessoas estão lendo uma frase nesse artigo que até hoje não consegui identificar. Seria algo como “isso prova que homens não tendem a ser mais promíscuos que as mulheres” ou “a psicologia evolucionária está errada, e é muito paroquial em suas hipóteses, já que é uma pseudociência mesmo ou no máximo uma protociência”. Por razões que agora a ciência já investiga, as pessoas de fato querem ler qualquer coisa que confirme seus tabus sobre certos assuntos!

Por um lado, o texto não tem como objetivo afirmar se são os homens ou se são as mulheres que tendem a ser, na média, mais promíscuos uns em relação aos outros (ou talvez com frequência média de comportamento sexual promíscuo equivalente). Apenas expõe como o acasalamento múltiplo e/ou promiscuidade pode ser adaptativo em fêmeas tanto quanto em machos, e que pode haver uma relação entre a variância em acasalamento e a variância no sucesso reprodutivo em fêmeas que ocasione seleção para traços favorecendo comportamento sexual feminino mais promíscuo e/ou com múltiplos parceiros (concomitantes ou sequencialmente) em certas circunstâncias ecológicas ou socioecológicas.

Nesse ponto, é importante lembrar que mesmo textos críticos (vide STEWART-WILLIANS, THOMAS, 2013, p. 153) ao anterior modelo de seleção sexual, como aplicado aos seres humanos, reconhecem que um dos achados mais importantes da psicologia evolucionária foi o de que homens tendem a ser mais promíscuos que as mulheres por razões evolucionárias.

As diferenças em orientação sociossexual (disposição para ter relações sexuais fora de um relacionamento comprometido) encontradas em um estudo intercultural com uma amostragem muito significativa, com 200.000 participantes de 53 países (Lippa, R. A., 2009) foram significativas pelo modo padrão de medir essa correlação em psicologia. (Veja mais nessa discussão em meu texto anterior)

Por outro lado, o texto aborda modelos de seleção sexual na biologia evolucionária, não exclusivamente na psicologia evolucionária ou na antropologia evolucionária. Se há um problema com o modelo mais antigo, derivado de Bateman (e consolidado por Trivers, não mencionado no texto), este problema não é exclusivo da aplicação da ciência evolucionária ao ser humano, mas da biologia como um todo.

E é uma hipótese costumeira na psicologia evolucionária a de que mulheres têm maior tendência ao adultério durante a ovulação, pelos benefícios seletivos que a paternidade extra-marital pode conduzir em termos de sucesso reprodutivo.

Fora da ovulação, as mulheres tenderiam a preferir um perfil de parceiro sexual mais provedor/cooperativo, o que seria vantajoso para prover recursos para sua prole. Quando da ovulação, as mulheres tenderiam a atrair-se por um perfil de parceiro sexual com mais elevada taxa de testosterona e aparência mais robusta, o que seria vantajoso para ter uma prole mais atraente com maior probabilidade de sucesso sexual no futuro.

Perceba que isso de nenhuma forma implica que o acasalamento múltiplo nunca seja adaptativo para mulheres. Ao contrário, se essa hipótese for verdadeira, mostra que as mulheres têm predisposições para trair parceiros estáveis, que sua disposição sexual pode direcionar-se pelo menos para dois parceiros sexuais diferentes ao longo do período de um mês e, potencialmente, muito mais ao longo da vida inteira.

Isso inclusive vai de encontro a um dos artigos da ecologista comportamental Brooke A. Scelza que é mencionado na coluna, “Female choice and extra-pair paternity in a traditional human population“. Veja esse trecho do abstract:

“Seeking out extra-pair paternity (EPP) is a viable reproductive strategy for females in many pair-bonded species. Across human societies, women commonly engage in extra-marital affairs, suggesting this strategy may also be an important part of women’s reproductive decision-making.” (SCELZA, 2011, p. 889)

E agora compare com o que outra antropóloga evolucionária, Monique Borgerhoff Mulder, em paper em co-autoria com Gillian R. Brown e Kevin N. Laland, denominado “Bateman’s principles and human sex roles“, cujo objetivo é justamente criticar o paradigma de Bateman, tem a dizer sobre a psicologia evolucionária:

“Evolutionary psychologists assume that human behaviour is guided by evolved psychological mechanisms that were selected to solve problems commonly encountered by our hominin ancestors [65]. Bateman’s principles have formed the cornerstone of a large field of evolutionary psychology dedicated to understanding sex differences in human traits, such as mate-choice preferences, sexual jealousy and aggression (e.g. see Refs[66,67,68]). Human beings are commonly characterized as monogamous with polygamous tendencies, such that men are predisposed to commit paternal investment but seek out additional mating partners where possible, whereas women are predisposed to seek monogamous relationships but occasionally engage in extra-pair matings with high-quality males [69]. Evolutionary psychologists do consider within-sex variation in mating behaviour, commonly in terms of condition-dependent strategies; human beings are assumed to have inherited a diverse repertoire of sexual strategies, such that developmental, social and ecological conditions can evoke particular strategies that will have been adaptive in our evolutionary past [70,71].” (BORGERHOFF MULDER; LALAND; BROWN, 2009, p. 302)

Então, não é correto transformar a discussão do texto em uma carta contra a psicologia evolucionária, e, quando muito, pode-se apenas notar que os autores favorecidos por Eric Michael Johnson são antropólogos evolucionários, ligados ao paradigma da ecologia comportamental humana, que pode ser vista tanto como complementar quanto conflitiva à psicologia evolucionária.

Eu penso que há muito mais espaço para complementaridade entre ecologia comportamental humana e psicologia evolucionária, e que essa integração e/ou interação entre os campos é de extrema relevância para o estudo evolucionário do comportamento humano (seguindo BROWN; DICKINS; SEAR; LALAND, 2011), e penso que as críticas mais interessantes, relevantes e pertinentes a determinados paradigmas dentro da psicologia evolucionária vem justamente dos ecologistas comportamentais humanos (vide BORGERHOFF MULDER; HILL; SMITH, 2000BORGERHOFF MULDER; HILL; SMITH, 2001BORGERHOFF MULDER; LALAND; BROWN, 2009, p. 302). Posso falar por mim, mas não por Eric Michael Johnson, uma vez que ele não cita nada desse texto sobre qual sua opinião a este respeito, nem conheço outros textos deles que indicassem seu posicionamento.

2. Os princípios de Bateman sobre os efeitos diferenciais da seleção sexual sobre o comportamento sexual/reprodutivo de machos e fêmeas, relacionados à previsão da Teoria do Investimento Parental de Trivers, foram refutados até que ponto? O que exatamente foi falseado?

O artigo de Eric Michael Johnson dedica dois parágrafos ao paradigma de Bateman em matéria de seleção sexual. Basicamente, ele comenta que Bateman publicou em 1948 um dos papers mais influentes já escritos sobre evolução do comportamento sexual, que analisava padrões de herança genética entre as drosófilas, uma espécie de mosca-das-frutas, onde concluiu que a divisão entre machos ardentes e fêmeas tímidas era um atributo quase universal da reprodução sexual, levando em conta os custos diferentes que cada um tem com a reprodução. O raciocínio é como segue: como óvulos são fisiologicamente mais caros e em menor quantidade que esperma, então o sucesso reprodutivo da fêmea não aumenta por acasalar com mais de um macho, mas apenas por focar em escolher o “melhor” macho e direcionar sua energia para a prole, enquanto o sucesso reprodutivo do macho é aumentado por acasalar com múltiplas fêmeas, de modo que a resolução do trade-off quantidade versus qualidade em relação ao acasalamento é diferente entre os sexos. Contudo, um estudo de 2012 (GOWATYA, KYMD, ANDERSOND, 2012) replicou o estudo de Bateman e encontrou que Bateman chegou a uma conclusão equivocada sobre os padrões de acasalamento da drosófila.

Neste ponto, penso que o autor do texto comete um equívoco em optar por não explicar os Bateman’s principle (princípios de Bateman), e nem delimitar o que realmente foi falseado quanto às conclusões de Bateman, além de ocultar o papel da Teoria do Investimento Parental de Trivers para consolidar essas conclusões.

Essas omissões são ruins porque levam o leitor a pensar que a base para a comunidade científica adotar o paradigma de Bateman para a seleção sexual fossem puramente não-científicas, viés puro, quando isso não é verdade. E o autor apenas reforça isso ao falar logo em seguida sobre horizontes limitados na pesquisa científica tendendo a reforçar estereótipos ocidentais.

O estudo de Bateman chegou à conclusão de que o número da prole gerada por um macho da drosófila aumenta com o número de parceiras reprodutivas, enquanto a fêmea não tinha o número de sua prole aumentada por acasalar com vários machos. O estudo mais recente de 2012 encontrou incongruências em relação à maneira de contar o número da prole de machos e de fêmeas, não encontrando a evidência de seleção sexual encontrada por Bateman. Basicamente, problemas na metodologia, que invalidam sua conclusão sobre a drosófila.

Mas isso não invalida a questão mais geral suscitada por Bateman, ainda que não fosse aplicável especificamente às moscas-das-frutas. Foi essa questão mais geral que Robert Trivers, um dos maiores expoentes da sociobiologia, retomou quando destacou o paper de Bateman em seu próprio paper “Parental investment and sexual selection“, de 1975.

A Teoria do Investimento Parental de Trivers é mais geral por incluir não só a contribuição zigótica diferente entre machos e fêmeas para a reprodução bem-sucedida, como havia sido destacado por Bateman, mas o investimento parental pós-zigótico, como a provisão de recursos para a prole. Para um resumo do argumento:

“Trivers predicted that the sex with the largest parental investment, usually female, would become a limiting resource for which members of the other sex compete. When females invest more than males, the ratio of reproductively available males to females (the operational sex ratio [OSR] [4]) is assumed to be male-biased. In these situations, reproductive success would be expected to vary more amongst males than females, with females competing less intensely for mates and seeking out fewer partners than males [3,5]. Apparently in support of this argument, greater variance in male than female reproductive success has been reported in some insects, frogs, lizards, birds and mammals [3,6]. Conversely, in sex-role-reversal species with high levels of paternal investment, females are predicted to compete more intensely than males for mates because males limit female reproductive success [7].” (BORGERHOFF MULDER; LALAND; BROWN, 2009, p. 297)

A Teoria do Investimento Parental de Trivers não é refutada pelo paper de 2012 que replicou o estudo de Bateman entre as drosófilas, e seu raciocínio é claramente científico. Na medida em que a conclusão de Bateman sobre as drosófilas foram falseadas pelo estudo de 2012, as predições de Trivers não o foram.

Mas também cabe destacar que determinadas generalizações do estudo de Bateman devem ser julgadas conforme sua evidência para cada população específica entre as diferentes espécies. Trata-se do que Arnold denominou de Bateman’s Principles (princípios de Bateman) em seu paper “Bateman’s principles and the measurement of sexual selection in plants and animals“:

1º princípio: Machos apresentam maior variância no número da prole (ou sucesso reprodutivo) do que fêmeas;

2º princípio: Machos apresentam maior variância no número de parceiros sexuais (ou sucesso de acasalamento) que fêmeas;

3º princípio: há um relacionamento mais robusto entre a variância no sucesso reprodutivo (reproductive sucess) e a variância no sucesso de acasalamento (mating sucess) nos machos do que nas fêmeas.

Ou seja, os princípios de Bateman indicam que, entre os machos, a variância no sucesso reprodutivo é em grande medida determinado pela variância no sucesso de acasalamento, de modo que machos com mais acasalamentos reproduzem-se mais. Como há muita diferença no sucesso reprodutivo e no sucesso de acasalamento entre os machos, mais do que entre as fêmeas, isso significa que os machos têm de competir pelas fêmeas, enquanto estas estão na posição de escolher com qual macho acasalar, o que implica em pressões de seleção sexual sobre os machos. Dessa forma, a seleção opera favorecendo traços que aumentem o sucesso de acasalamento entre os machos, mas não entre as fêmeas, uma vez que naqueles, mas não nestas, trata-se de uma variável que impacta muito no sucesso reprodutivo.

Esses princípios ou hipóteses podem ser testados em relação a qualquer população, inclusive humana, pela determinação da variância no sucesso reprodutivo e da variância no sucesso de acasalamento entre machos e entre fêmeas, e o relacionamento das variâncias entre si respectivamente. Inclusive essas variâncias e o relacionamento entre elas podem diferir entre as populações dentro da espécie, inclusive da humana. É previsível que isso ocorra inclusive como função do sistema de associação marital e de herança de recursos de diferentes sociedades humanas, que, em última instância, depende da capacidade maior ou menor dos homens em monopolizar recursos e/ou das mulheres em controlá-los independentemente dos homens. Vide:

Hunter–gatherers lived in bands, probably with (serially) monogamous marriage, relatively low fertility, no heritable wealth of consequence and relatively egalitarian social systems. Since the adoption of agriculture and other intensive forms of plant/animal domestication, human social systems have been largely shaped by the existence of important resources (such as fields, gardens, livestock, fishing territories, etc.) that can be controlled or owned (by individuals or by groups) and passed down to future generations. Access to such resources greatly influences the future reproductive success of descendants and generates inequalities in wealth and political power [27]. Population densities increased with the advent of agriculture: more complex political systems emerged, correlating with human ethno-linguistic groups becoming larger and more politically complex [28,29]. Systems of wealth inheritance are fundamentally linked with systems of marriage and the associated transfers of wealth at marriage, and thus marriage and descent systems are products of the socio-economic system on which societies are based. As is well known to behavioural ecologists, if males are able to monopolize access to territory that has the resources required for breeding, then that resource can be used to attract females, who will mate polygynously, if need be, to acquire that resource. Thus, resource-defence polygyny, not dissimilar to that described in birds [30], is also common in humans [31]. As in other species, such polygynous systems can only really emerge where there are sufficient resources for females to raise their children without a great deal of individual help from fathers. Resources such as livestock are particularly associated with polygynous marriage and male-biased wealth inheritance [32]. If the number of grandchildren can be enhanced more by leaving livestock to sons (enabling them to marry earlier and more often) than to daughters, which is the case under resource-based polygyny, then patrilineal wealth inheritance norms doing just that will emerge [33].

 

Within lineal family systems, patriliny is by far the most common pattern worldwide, but a significant minority (about 17%) of systems described in the Ethnographic Atlas [34], are matrilineal. Marriage bonds are often weak in matrilineal systems, with women frequently marrying several husbands over the course of their lives, as resources are passed down the female line. The ecology that is predictive of matriliny is biased towards systems where resources cannot be easily monopolized by males to attract females. In Africa, it is strongly associated with the absence of livestock [35,36]. African crop production is often not land-limited but labour-limited, so, whereas livestock offer women the promise of resources relatively easily accumulated, land of the type that is only of value after back-breaking field labour does not generally provide men with the opportunity to monopolize large areas to attract mates. Women will only remain married to men as long as they help them work the land. In other parts of the world, matriliny has been proposed to be associated with high male mortality and/or absence rates, either because of warfare, as in some matrilineal native American groups [37], or trade networks and ocean fishing as in the Pacific ([38]; F. M. Jordan 2007, unpublished PhD thesis). Whatever the underlying ecology, women in matrilineal systems rely on mothers, daughters and sisters to support their family, as help from males is often transitory. Paternity uncertainty tends to be high in matrilineal systems, although the extent to which this is a cause or consequence of matrilineal descent systems is a matter of debate [39]. In the case of correlations between subsistence and kinship systems, understanding of how fitness is maximized at the individual level helps explain larger scale cross-cultural patterns. (MACE; JORDAN, 2011, p. 405)

Portanto, é rápido demais concluir que a relevância do estudo de Bateman resumiu-se a um viés da comunidade científica na direção de estereótipos ocidentais. Ao contrário, como a própria Teoria do Investimento Parental de Trivers é reforçada em sua evidência pelas espécies onde os ‘papéis de sexo’ (em relação ao investimento parental) são invertidos e, portanto, são os machos que fazem o maior investimento, não as fêmeas, e os princípios de Bateman podem ser testados independentemente em cada população.

3. A contribuição da ecologia comportamental humana devidamente contextualizada: o investimento parental não é o único fator a ser considerado em relação às consequências sobre o sucesso reprodutivo do acasalamento múltiplo entre as fêmeas humanas

Se o artigo não demonstra que a Teoria do Investimento Parental de Trivers ou os princípios (ou hipóteses) de Bateman carecem de relevância, qual é a contribuição que ele documenta?

A contribuição, derivada principalmente da ecologia comportamental humana, é a de que, no passado, o equívoco foi concentrar-se no investimento parental como a variável-chave para determinar as consequências sobre o sucesso reprodutivo da estratégia de acasalamento múltiplo, quando outros fatores podem ser mais relevantes em determinadas condições ecológicas, em sua interação com o próprio investimento parental.

Um estudo que vai nessa direção é o “Serial Monogamy as Polygyny or Polyandry?” de Monique Borgerhoff Mulder, onde esta destaca o caso de uma comunidade na África onde as mulheres são as principais investidoras parentais, mas, ainda assim, beneficiam-se mais do que os homens da monogamia serial (ou seja, casamentos e divórcios seguidos de novo casamento). Em sua conclusão, ela destaca:

The Pimbwe results suggest that we should think about serial monogamy as a form not just of polygyny but also of polyandry. This finding will not surprise authors such as Sarah Hrdy, Barbara Smuts, and Patty Gowaty, who have been encouraging human behavioral ecologists to focus more on the strategies of women. However, this plea is usually interpreted as a call to pay more attention to the female side of the conventional model—male competition and female choice. The argument here is that we need to revise the simple Triversian assumptions, and more specifically that the source of our limited understanding of women’s strategies lies in an overemphasis on the parental investment model. Pimbwe women, despite being the principal investors, mate multiply, and may be doing so because of being so choosy, although this appears not to be a strategy open to all women. Mate number and mate quality are not necessarily traded off against each other.

This paper also offers albeit very preliminary empirical evidence depicting the nature of women’s strategies in serial monogamy (though further analysis is still required). Sarah Hrdy (2000:82) was on the right track when she appended to her question “Why is polyandry so rare in humans?” another question: “Or is it?” Hrdy drew the distinction between the extremely rare cases of “formal polyandry,” in which women marry groups of men simultaneously, and the possibly much more common “informal polyandry,” both of which result from a constellation of factors, including a shortage of women (Peters and Hunt 1975), the difficulty for a single man to make adequate provisions for a family (Haddix 2001), and the custom of men sharing their wife or wives with potential allies (see discussion in Hrdy 2000). This informal polyandry Guyer (1994) labeled as “polyandrous motherhood,” depicting the reproductive careers of women who raise the children of different men (e.g., Schuster 1979). (BORGERHOFF MULDER, 2009, p. 145-146)

Infelizmente, não consegui acesso ao estudo mencionado no texto da Slate, mas o paper de Brooke Scelza, uma antropóloga evolucionária com uma pesquisa fascinante, também parece bastante interessante dado o resumo oferecido. Veja também a citação acima de MACE; JORDAN, 2011, p. 405, no tópico anterior.

Então, a Teoria do Investimento Parental continua a ser muito importante e relevante, mas é preciso prestar atenção a outros fatores que podem levar mesmo ao sexo que mais investe na prole a acasalar multiplamente, seja sequencialmente ou concomitantemente.

4. Promiscuidade, ou elevada orientação sociossexual, é equivalente ao acasalamento múltiplo? Ou: à guisa de uma possível interação entre psicologia evolucionária e ecologia comportamental humana.

Apesar dos comentários acima realizados, uma questão talvez ainda tenha ficado pendente para o leitor. Afinal, promiscuidade é equivalente ao acasalamento múltiplo? O texto de Eric Michael Johnson não esclarece esta questão importante.

Orientação sociossexual é a disposição para ter relações sexuais fora de um relacionamento comprometido e é o conceito análogo ao de promiscuidade na linguagem comum.

Acasalamento múltiplo, por sua vez, inclui poliandria, que é quando uma mulher está casada ou coabitando com dois ou mais homens concomitantemente, e monogamia serial, que é quando uma mulher relaciona-se monogamicamente, mas sucessivamente, com mais de um homem.

Não é possível chamar a poliandria ou a monogamia serial de promiscuidade, uma vez que falta à promiscuidade o caráter de relacionamento comprometido e a expectativa de alguma provisão de recursos para a prole.

Por exemplo, na poliandria, a mulher terá mais de um homem para ajudá-la a prover recursos para a prole, e, na monogamia serial, o mesmo resultado pode ser obtido (pense nos pagamentos de pensão no Brasil moderno) e/ou um dos motivos para divórcio pode ser o da inadequada provisão de recursos à prole propiciada pelo primeiro marido. Seja sucessivamente ou concomitantemente, na monogamia serial e na poliandria respectivamente, há também laços afetivos de pair-bonding entre os parceiros reprodutivos, os quais estão ausentes nas relações promíscuas.

(O caso das relações extraconjugais teria o mesmo efeito da promiscuidade, no sentido esboçado aqui, quando trata-se de amantes ocasionais que não proveem recursos à prole, mas, por definição, também depende da existência de um relacionamento compromissado ao tempo da relação, e recai na previsão da psicologia evolucionária antes abordada.)

No cenário proposto pelo antropólogo evolucionário Robert Foley, o ancestral comum entre o ser humano e o chimpanzé e os australopitecos mais provavelmente mantinham um sistema de acasalamento sem pair-bonding, enquanto determinadas mudanças nas condições ecológicas (uma dieta baseada em carne; FOLEY, 2001, p. 181-182)  e nas capacidades cognitivas (habilidade de atenção focada; FOLEY, 2009, p. 3.274) na história da evolução humana permitem inferir que a capacidade para laços afetivos de pair-bonding surgiram cedo na história do gênero Homo, ao redor de 1 milhão de anos-800.000 anos atrás aproximadamente:

“The critical question is how a change in ecological energetics through fire and cooking shaped social evolution. One possibility is that it placed a greater emphasis on bonding between individual males and females, which strengthened smaller family units within the larger community structure. Cooking, spatial patterns shaped by hearth structures and specialized roles by sex were factors that both changed male–female relationships and produced the nested social structures that characterize humans (i.e. family units embedded within larger kin-based communities). Indirect evidence for this type of change may be provided by the very marked increase in the symmetry and quality of mode 2B Acheulean bifaces. The knapping skills indicate not only novel cognitive skills (Wynn 1988) when compared with mode 1 or mode 2A (and now demonstrated by neuroimaging; Stout & Chaminade 2007), but also the human skill of focused attention. The ability to focus attention so single-mindedly on the making of an object, and its constant repetition across three continents and many millennia, is testament to a high level of attention in practical operations. However, it may also allow us to infer the coevolutionary development of close male–female bonding at this time supported by a similar focused attention, most commonly expressed psychologically as our propensity for infatuation, the love-struck gaze.” (FOLEY, 2009, p. 3.274)

Portanto, não é possível confundir o acasalamento múltiplo com a promiscuidade, ainda que esta seja uma espécie daquele. E essa diferenciação parece-me essencial para reconciliar os achados da psicologia evolucionária e da ecologia comportamental humana.

Em uma breve síntese, a ecologia comportamental humana utiliza medidas de como as respostas comportamentais humanas de populações contemporâneas variam adaptativamente conforme a mudança em condições ecológicas que impactam o sucesso reprodutivo do indivíduo, otimizando-o, sem verificar qual o mecanismo – genéticos, psicológicos, etc. – que causa aquele comportamento (o que é referido como phenotipical gambit); já a psicologia evolucionária hipotetiza qual deve ser o design dos mecanismos psicológicos para que estes pudessem otimizar o sucesso reprodutivo nas condições do Pleistoceno.

Sugiro que o resultado sobre acasalamento múltiplo em mulheres encontrado pelos ecologistas comportamentais não apresenta ainda claras repercussões sobre como isso é causado em termos fenotípicos, ou seja, do mecanismo psicológico com o qual os psicólogos evolucionários estão preocupados. Já o resultado sobre promiscuidade maior em homens do que em mulheres dos psicólogos evolucionários está relacionado diretamente com diferentes preferências estáveis que homens e mulheres apresentariam, afetando suas estratégias reprodutivas, o que destoa da ênfase comportamentalista dos ecologistas comportamentais.

A reconciliação, penso eu, poderia dar-se nos seguintes termos: há condições ecológicas ou socioecológicas em que mulheres ganham benefícios reprodutivos por acasalar-se com múltiplos parceiros (especialmente por meio de melhor acesso a recursos para a prole ou maior diversidade e/ou qualidade genética da prole através de poliandria ou monogamia serial), mas os homens tenderam, em média, a ganhar mais de acasalamentos múltiplos que sejam também promíscuos (especialmente pelo maior acesso à reprodução com menor provisão de recursos à prole resultante) do que as mulheres, de modo que as preferências que evoluíram ao nível do mecanismo psicológico fazem com que homens sejam mais predispostos, em média, à promiscuidade, o que é medido pela maior média de orientação sociossexual entre os homens.

Será interessante saber se já existem estudos que tentem discriminar estes aspectos e, assim, permitam testar essa minha singela proposta de reconciliação entre os achados dos dois campos.

Referências

[A COMPLETAR]

3 respostas em “Mulheres com múltiplos parceiros sexuais e as hipóteses darwinistas sobre o acasalamento

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