Ciência cognitiva da religião informa: violência política extrema não é intrínseca ao Islã

Em alguns círculos, a discussão em torno dos grupos terroristas islâmicos é focada na religião. Desde cristãos conservadores aos neo-ateus, pensa-se que o Islã é a maior ameaça à civilização moderna ocidental, seja esta entendida em termos de identidade cristã ou de comprometimento com a razão, a ciência e direitos humanos básicos. E muitas pessoas que não pertencem a esses grupos temem que o terrorismo e a violência sejam realmente intrínsecas à religião islâmica.

A tese de que o terrorismo islâmico contemporâneo é uma decorrência intrínseca do Islã, porque a violência seria intrínseca a essa religião, é muitas vezes afirmada, mas poucas vezes apresentada com precisão e menos ainda evidenciada por provas robustas.

Em uma tentativa de precisar o que isso significaria, parece-me que essa tese é equivalente a afirmar que o Islã é causa necessária e/ou suficiente ao terrorismo islâmico. Necessária, porque não haveria terrorismo entre os árabes se, tudo o mais igual, a maioria deles não cressem no Alcorão. Suficiente, porque basta a existência do Islã para que haja esse tipo de violência.

Geralmente quem defende isso já começa equivocado quanto ao grau de homogeneidade das crenças assumidas pelos 1,6 bilhão de muçulmanos, os quais, de fato, também se dividem em diferentes correntes e diferem de opinião uns em relação aos outros, sendo que a maioria não está ligada às correntes mais extremistas que são as endossadas pelos grupos terroristas. Inclusive existem movimentos liberais (inclusive feminista) dentro do Islã, com o escopo de reformar a interpretação religiosa em uma direção menos conservadora.

Para uma visão mais nuançada da heterogeneidade entre os países muçulmanos, confira os resultados da extensa pesquisa de opinião realizada pelo Pew Research Center. Para consulta mais rápida acerca desse aspecto, recomendo o vídeo abaixo:

Qual é a principal linha de evidência dos proponentes desta tese que afirmam estar amparados na razão e na ciência, como o neo-ateu Sam Harris? A evidência apresentada geralmente é a associação entre o terrorismo cometido por esses grupos e a profissão de fé no Alcorão, com destaque para as passagens envolvendo violência contra infiéis, e o fato da maioria dos grupos terroristas serem islâmicos.

Entende-se que, se a religião contém elementos violentos em suas escrituras sagradas, os terroristas afirmam que sua motivação é a jihad contra os infiéis e outras crenças de verniz islâmico (como a recompensa celestial mensurada em virgens), e crentes dessa mesma religião estão sobre-representados nos grupos terroristas em operação, então já basta para que saibamos que a causa do terrorismo no Oriente Médio é a religião islâmica e que o Islã é a principal causa do terrorismo no mundo moderno.

É realmente estranho que pessoas que alegam representar o método científico esqueçam um princípio tão básico quanto o de que correlação não prova causação. Do fato de que terroristas islâmicos professem o islamismo e islâmicos estejam atualmente sobre-representados entre os grupos terroristas em operação não decorre que o Islã seja a causa da violência terrorista e da sobre-representação de seus fiéis entre os grupos terroristas.

(A rigor, é possível questionar como estão sendo contabilizados os grupos terroristas, uma vez que, por exemplo, guerras civis em países politicamente instáveis ou mesmo as guerras travadas pelas potências ocidentais no Oriente Médio envolvem mortes de civis inocentes, às vezes com o propósito de incitar o terror entre a população e a capitulação de seus líderes aos interesses políticos em jogo, mas não são geralmente tratadas como terrorismo por estarem ocorrendo no contexto de um conflito armado; mas este ponto não será desenvolvido aqui e não saberia afirmar o quão significante seria a mudança em termos de representação religiosa, o que de qualquer forma não afetaria o argumento aqui desenvolvido)

Para dar um exemplo interessante da importância dessa distinção, pode-se avaliar a afirmação corriqueira de que a monogamia veio a tornar-se o padrão de casamento na Europa por conta da religião cristã. É justificada essa hipótese?

A antropóloga Laura Fortunato, em seu paper “Reconstructing the History of Marriage Strategies in Indo-European–Speaking Societies: Monogamy and Polygyny“, fez uma reconstrução do padrão de mudança em estratégias de casamento na história das sociedades falantes de línguas indo-europeias, a partir de dados interculturais linguísticos e etnográficos e recorrendo à abordagem da filogenética comparativa, mostrando que a emergência do casamento monogâmico ocorreu na pré-história recente entre as populações indo-europeias.

Ou seja, mesmo que o cristianismo possa ter sido um fator de influência mais recente, essa evidência enfraquece a tese de que ele fosse necessário para essa prevalência (uma vez que já era um traço cultural remontando à pré-história, o que inclusive poderia facilitar a disseminação da religião nas populações indo-europeias) ou que fosse suficiente para a mesma (uma vez que, dada outra história cultural, o recurso a outras passagens da Bíblia poderia justificar a poligamia, de tal forma que esses traços culturais limitantes moldariam a religião como condição sine qua non à sua disseminação na população).

É bastante questionável o recurso às explicações genéricas do tipo “eles fazem isso porque a religião faz eles agirem assim”, mesmo quando usa-se a linguagem da memética para afirmá-lo.

Além dos mesmos problemas que poderiam ser levantados para explicações genéricas do tipo “eles fazem isso porque a cultura faz eles agirem assim” que são comuns no framework do anti-evolucionista Modelo Padrão das Ciências Sociais, como o de que seres humanos não são tabula rasa completamente moldáveis pela cultura ou religião em direções arbitrárias e desconectadas de realidades biológicas (genéticas, epigenéticas ou ecológico-adaptativas) subjacentes, também é de se mencionar a fraqueza de argumentar com base em “o Alcorão tem passagens que incitam o assassinato de infiéis”.

A existência dessas passagens é tão não preditivo do comportamento médio do crente muçulmano (nascido e criado nessa religião) quanto o fato de Jesus falar para dar a outra face e nunca se vingar não prevê o comportamento médio do crente cristão ou o fato de o Pentateuco afirmar como ordem divina que todos os caananitas deviam ser exterminados não prevê o comportamento médio do crente judeu.

Cada um desses casos é sujeito à investigação empírica, mas o fato é que o comportamento das pessoas não se ajusta 100% em relação às suas crenças (ou crenças oficiais de seu culto) e as religiões são mais flexíveis do que costumamos supor, inclusive sendo os fiéis capazes de deixar de lado trechos inconvenientes de suas escrituras por intermédio de métodos interpretativos que, a rigor, nem são tão engenhosos assim. Também destaque-se que a interpretação do que é aceitável pode mudar rapidamente.

Basta pensar que até o fim do século XVIII, os cristãos europeus aceitavam como um fato da vida que as autoridades seculares, legitimadas por Deus, pudessem executar pessoas em fogueiras, ou que os cristãos norte-americanos sulistas acreditavam até meados do século XIX que podiam possuir legitimamente escravos negros por conta da maldição de Noé sobre Cam e defender esse direito com armas se preciso fosse, ou que os cristãos brasileiros no início e meados do século XX considerassem normal a “defesa da honra” nos tribunais como argumento para não punir criminalmente o marido que assassinasse sua esposa adúltera. Outras religiões fornecem exemplos semelhantes, incluindo mesmo suicidas fanáticos (kamikazes) a serviço do Imperador japonês, considerado uma divindade para o xintoísmo, religião tradicional do Japão, na 2ª Guerra Mundial. Não somente religiões ou crenças assumidas como lugar-comum pelos seus crentes podem mudar, como o podem fazê-lo rapidamente em termos históricos.

Isso não significa que religiões não sejam importantes na vida das pessoas ou de sociedades. Contudo, para entender isso, é preciso perguntar pela função da religião, em termos evolucionários. Pesquisas de ponta na atualidade se desenvolvem para uma compreensão científico-naturalista da religião, em torno do que se chama de “ciência cognitiva da religião”, conjugando psicologia, neurociência, antropologia evolucionária e outras disciplinas.

No paper “The Evolution of Religion: How Cognitive By-Products, Adaptive Learning Heuristics, Ritual Displays, and Group Competition Generate Deep Commitments to Prosocial Religions“, Scott Atran e Joseph Henrich mostram: 1) as condições cognitivas para o surgimento da religião, em torno dos conceitos de “detecção hiperativa (ou hipersensível) de agência” e da vantagem mnemônica de conceitos minimamente contraintuitivos, cujas funções adaptativas dizem respeito à informação sobre as condições do ambiente que o grupo transmite geração-após-geração na linguagem dos mitos (por exemplo, informações ecológicas relevantes; mas destaque-se que a religião em si surgiu como subproduto, não adaptação) ; 2) as condições que afetam sua evolução, passando pela função de sinalização custosa para a dinâmica das práticas rituais e pela função de fortalecimento da cooperação intragrupo para fazer melhor na competição intergrupo (seja violenta ou não) para a evolução de normas pró-sociais mais elaboradas.

Mas é importante perceber também que, mesmo que uma religião atribua contemporaneamente uma função salvífica especial ao combate armado, isso poderia predizer em alguma medida diferenças de comportamento entre pessoas de religiões diferentes, mas não de pessoas da mesma religião. Por exemplo, no catolicismo medieval após a 1ª cruzada, você tinha várias formas de se salvar, não sendo pré-requisito a vida monástica; por outro lado, dentro da vida monástica, não era preciso aderir às ordens religiosas guerreiras, como os Templários ou Hospitalários, podendo aderir às pacíficas, como os Beneditinos.

Portanto, diferenças individuais em vários aspectos significativos ao comportamento (como traços de personalidade e habilidade cognitiva, estes inclusive estáveis ao longo da vida e moderada/significativamente herdáveis geneticamente), bem como condições políticas, econômicas e sociais gerais, mas que afetem diferencialmente diferentes parcelas da sociedade, contam e muito, não sendo a religião capaz de moldar arbitrariamente ou completamente o comportamento de seus fiéis. Isso sem contar o comportamento oportunístico que usa deliberadamente a religião como pretexto para outros fins.

No caso do Islã, como tratam-se de correntes específicas, e como as que aceitam o terrorismo são extremistas e minoritárias, caberia entender o que influencia na adesão a essas correntes minoritárias extremistas, o que nos permite começar a efetivamente entender o fenômeno.

Primeiro, o contexto geopolítico e social do Oriente Médio é claramente importante para fornecer as condições gerais que afetam em maior ou menor grau vários países árabes, mas não afeta países não-árabes.

Em condições onde a influência do Ocidente é vista como negativa por muitos árabes em determinados países, seja pelas questões relativas ao conflito árabe-israelense ou pela aliança de potências ocidentais com governantes autoritários e corruptos que buscam o próprio enriquecimento por meio do poder, a insatisfação é traduzida em termos religiosos mais frequentemente pelo simples fato de que a religião nesses países é mais presente na vida das pessoas do que nos países ocidentais. Mas, mesmo sem essa religiosidade comunitária, esse tipo de insatisfação, especialmente aquela que levasse ao extremismo e à adoção do terrorismo, poderia ser traduzida na linguagem de ideologias nacionalistas (como o pan-arabismo) ou ‘esquerdistas radicais’.

A própria opção pela tática terrorista responde a razões de natureza política: um dos objetivos principais é fazer as potências ocidentais deixarem de interferir na política local, tentando fazê-las ceder com base no medo inspirado aos civis pelos ataques aleatórios voltados contra eles. Também é possível pensar na comparação dos grupos terroristas como uma forma de guerrilha, que adota essa tática por saber que em confronto aberto está em desvantagem em relação às forças armadas inimigas, mas que se diferencia por não pressupor uma ocupação do país por forças invasoras e por voltar-se principalmente contra civis, violando o Direito Humanitário Internacional.

Mas essas observações precisam ser suplementadas pelo fato de que, apesar de serem condições gerais geopolíticas que afetam vários países árabes em maior ou menor grau, criando um ambiente propício à radicalização política (que, em lugares de forte religiosidade comunitária, tende a usar essa mesma linguagem para expressar a insatisfação política), nem todos os muçulmanos juntarão-se a esses grupos, ao contrário, a maioria nunca o fará, ainda que, em alguns países específicos, proporções maiores encaram positivamente o grupo local específico. Portanto, as condições gerais afetam diferentes parcelas da população diferencialmente. Quem se junta, junta-se por quais razões?

A ciência cognitiva da religião pode oferecer uma resposta. O antropólogo Scott Atran é um pesquisador importante nessa área de aplicação da ciência cognitiva (e evolucionária) da religião à explicação da radicalização islâmica. Steven Pinker, em seu livro “Os Anjos Bons da Nossa Natureza”, sumariza os achados de Atran (e de mais dois antropólogos, Blackwell e Sugyama):

“[em relação aos terroristas suicidas,] enquanto a expectativa de uma agradável vida após a morte pode influir na percepção da relação custo-benefício (o que torna mais difícil imaginar um suicida ateu), este não pode ser o único impulsionador psicológico.

Usando entrevistas com terroristas suicidas malsucedidos ou em perspectiva, o antropólogo Scott Atran refutou muitos lugares comuns equivocados sobre eles. Longe de serem ignorantes, empobrecidos, niilistas ou doentes mentais, os terroristas suicidas tendem a ser bem-educados, de classe média, moralmente engajados e livres de psicopatologias evidentes. Atran concluiu que muitos dos seus motivos podem se encontrar no altruísmo nepotista.

O caso dos Tigres Tâmeis [grupo não islâmico] é relativamente simples. Eles usam equivalentes terroristas dos cerra-filas, selecionando combatentes para missões suicidas e ameaçando matar suas famílias caso recuem. Apenas um pouco mais sutis são os métodos do Hamas e outros grupos terroristas palestinos, que usam menos a força bruta e oferecem recompensas, sob a forma de generosos estipêndios mensais, pagamentos à vista e um enorme prestígio na comunidade. Embora em geral não fossem de esperar comportamentos extremos para se promover um payoff de condicionamento biológico, os antropólogos Aaron Blackwell e Lawrence Sugyama mostraram que pode não ser este o caso do terrorismo suicida.  Na Cisjordânia e em Gaza, muitos homens têm dificuldades para encontrar esposas porque suas famílias não podem arcar com o dote, ficando confinados ao casamento com primas, enquanto muitas mulheres são subtraídas do reservatório matrimonial por casamentos polígamos ou contraídos com os árabes mais prósperos de Israel. Blackwell e Sugyama registraram que 99% dos terroristas suicidas palestinos são homens e 86% solteiros, enqaunto 81% têm ao menos seis irmãos, um tamanho de família que excede a média palestina. Quando os antropólogos tabularam estes e outros números em um modelo demográfico simples, concluíram que quando um terrorista se faz explodir a recompensa financeira pode comprar noivas para seus irmãos a ponto de tornar o sacrifício compensador em termos reprodutivos.

Atran estabeleceu que terroristas suicidas também podem ser recrutados sem esses incentivos diretos. Provavelmente o mais eficaz apelo do martírio é a oportunidade de se unir a um alegre coletivo de irmãos. As células terroristas, muitas vezes começam como gangues de rapazes subempregados e solteiros, que se reúnem em cafés, repúblicas, clubes de futebol, barbearias ou salas de bate-papo na internet, e subitamente acham um sentido para suas vidas no compromisso com um novo pelotão. Em todas as sociedades rapazes fazem loucuras para provar sua coragem e compromisso, especialmente em grupos, em que os indivíduos podem fazer algo que sabem ser tolo porque pensam que todos os outros no grupo acham que é legal (…). O comprometimento com o grupo é intensificado pela religião, não simplesmente uma promessa literal do Paraíso, mas o sentimento de relevância espiritual que provém do empenho em uma cruzada, uma vocação, um rito de passagem, ou uma jihad. A religião também pode transformar um compromisso com a causa em um valor sagrado – um bem que não pode ser trocado por coisa alguma, inclusive a própria vida. O compromisso pode ser alimentado pela sede de vingança, que no caso do islamismo militante assume a forma de revanche pelos danos e humilhações sofridos por todos os muçulmanos em todas as partes do planeta e em todos os momentos da história, ou por afrontas históricas tais como a presença de soldados infiéis no solo sagrado do islã. (…)

Os imames locais têm importância marginal em sua radicalização, já que rapazes que pretendem vencer o inferno raramente buscam a orientação dos mais velhos na comunidade.” (PINKER, p. 487-489)

Portanto, os principais fatores que explicam a adesão de alguns muçulmanos, especialmente homens jovens solteiros, aos grupos terroristas são: vantagens para os parentes no ‘mercado’ marital e pertença a grupos sociais com grande apoio mútuo e coordenação de ação. A busca por essas vantagens ou oportunidades não é aleatória, mas firmemente amparada em aspectos da psicologia humana que foram moldadas pela evolução por seleção natural de nossa mente (e que nem sempre contribuem para a nossa felicidade individual ou para o maior bem-estar e oportunidades de todas as pessoas).

Por fim, para deixar mais claro ao leitor que a ciência cognitiva da religião desconfirma essas pretensões de que a violência ou o terrorismo seriam intrínsecos ao Islã, traduzi o texto abaixo, de autoria do próprio Atran, onde este responde à provocação feita por Sam Harris em seu blog, acusando Atran de desonestidade intelectual ou doença mental. Atran mostra como a linha defendida aqui é muito mais frutífera em termos científicos. (Obs: caso queira ler mais posicionamentos de Atran nessa questão além do texto abaixo, veja a discussão aqui e aqui)

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Aqui vem ele de novo: As inverdades de Sam Harris

Por Scott Atran 

Sam Harris postou um texto recente em seu blog sobre minha visão dos Jihadistas que não é convidativo ao debate intelectual sério, se não é que faz feio mesmo. Ele afirma que eu disse a ele em seguida a uma “uma palestra delirante e envaidecida” que “nenhum deles (conectados com suicídio em atentados à bomba) acredita no paraíso”. O que eu realmente disse a ele (como eu tenho feito a muitos outros) foi exatamente o que cada líder de um grupo jihadista que eu entrevistei já me disse, que qualquer um que busque tornar-se um mártir para obter virgens no paraíso seria rejeitado de imediato. Eu também disse (e escrevi vários artigos e um livro expondo a evidência) que, conquanto ideologia seja importante, o melhor preditor (no sentido de uma análise de regressão) de disposição a cometer um ato de violência jihadista é a pertença da pessoa a uma rede de interação (network) social orientada para ação, tal como um grupo de ajuda de vizinhança ou mesmo times esportivos (veja Atran, TALKING TO THE ENEMY, Penguin, 2010).

As visões de Harris sobre a religião ignoram o progresso considerável em estudos cognitivos sobre o assunto sobre as últimas duas décadas, que apresenta que as crenças religiosas centrais não têm conteúdo proposicional fixo (Atran & Norenzayan, “Religion’s Evolutionary Landscape,” BEHAVIORAL AND BRAIN SCIENCES, 2004). De fato, crenças religiosas, em sendo absurdas (sejam ou não reconhecidas como tais), não podem ser mesmo processadas como inteligíveis porque seu conteúdo semântico é contraditório (por exemplo, um ser senciente e poderoso fisicamente mas incorpóreo, uma divindade que é uma em três, etc.). É precisamente a natureza inefável das crenças religiosas centrais que dá conta, em parte, de sua adaptabilidade social e política ao longo do tempo em ajudar a sustentar e estreitar elos (bond) dentro de grupos (Atran & Ginges, “Religious and Sacred Imperatives in Human Conflict,” SCIENCE, 2012). De fato, são os rituais provocadores de êxtase que Harris descreve como sendo associados com tais crenças que os imuniza contra o escrutínio lógico e empírico que ordinariamente acompanha a checagem/verificação de crenças (see Atran & Henrich, “The Evolution of Religion,” BIOLOGICAL THEORY, 2010).

As generalizações de Harris de suas próprias experimentações com ressonâncias magnética funcionais entre algumas dezenas de estudantes universitários como apoiando suas visões de religião como sendo simplesmente crenças falsas são desapontadoras. Como Pat Churchland aposta: “Não há nenhum único exemplo [no trabalho de Harris] do que nós temos aprendido da neurociência que possa impactar nossos julgamentos morais a respeito dessa questão específica. Podem existir exemplos, mas ele não nos oferece nenhum.” (comunicação pessoal em 24/02/2011; veja também o trabalho de ressonância magnética funcional por nossa equipe de neuroeconomistas liderados por Greg Berns na edição temática  “The Biology of Conflict,” PHILOSOPHICAL TRANSACTIONS OF THE ROYAL SOCIETY, 2012).

Declarações descontextualizadas sobre se Islã, ou qualquer religião, é inerentemente compatível ou incompatível com violência política extrema – ou democracia ou qualquer outra doutrina política contemporânea pertinente – é sem sentido nenhum. Pessoas fazem crença religiosa – seja Islã, Cristandade, judaísmo, budismo, etc. – compatível com violência ou não violência de acordo sobre como elas interpretam suas crenças religiosas. E como pessoas interpretam as prescrições religiosas (p. ex. os dez mandamentos), tanto como os aspectos transcendentais das ideologias políticas, quase invariavelmente muda ao longo do tempo. Por exemplo, às vésperas da Segunda Guerra Mundial, líderes eclesiásticos e políticos na Itália fascista e na Espanha defendiam que catolicismo e democracia foram inerentemente incompatíveis, e muitos calvinistas e protestantes luteranos acreditaram que Deus abençoou o regime autoritário. Como Martinho Lutero proclamou, “se o Imperador me chama, Deus me chama” – um sentimento que Lutero, como muitos primeiros cristãos, acreditavam ser santificados pelo comando de Jesus para “dar a César o que é de César, e dar a Deus o que é de Deus”. Entretanto, os princípios da democracia liberal moderna primeiro firmaram raízes e cresceram para sua extensão completa no coração das terras cristãs europeias e coloniais. Como Benjamin Franklin o expressou em sua proposta para o mote da nova república americana: “Rebelião contra tirania é obediência a Deus”. Ou, como o Concílio Coordenador da Revolução Iemenita para Mudança (Coordinating Council of Yemeni Revolution for Change) coloca-o, um Islã de “direitos humanos básicos, igualdade, justiça, liberdade de expressão, liberdade de manifestação e liberdade para os sonhos!” (National Yemen, “The Facts As They Are,” Youth Revolutionary Council Addresses International Community, April 25, 2011).

Que há uma corrente contemporânea repugnantemente violenta no Islã, não há dúvida. Facções do movimento da identidade cristã, da interpretação Tâmil Tiger do hinduísmo como exigindo ataques suicidas contra inimigos budistas, a interpretação do Império japonês do zen-budismo como um chamado à guerra de extermínio contra os chineses, todos produziram comportamentos cruéis e bárbaros que tem afetado adversamente milhões de pessoas. Mas a abordagem de Harris nesses temas é tão cientificamente desinformada e falsa quanto uma ameaça para aqueles que buscam uma saída prática e razoável do pântano do obscurantismo.

Como uma nota final, devo também mencionar que sou um pesquisador à frente de vários projetos de ciência em campo multidisciplinares e de vários anos patrocinados pelo Departamento de Defesa, incluindo “Motivação, Ideologia e o Processo Social na Radicalização”, aspectos dos quais são ensinados ao pessoal militar desde os oficiais generais. E sou constantemente convidado para dar breves apresentações desses assuntos para a Casa Branca, o Congresso e os governos aliados. Eu não sei de nenhum interesse operacional ou demandas comparáveis entre as agências políticas, de defesa e de inteligência dos Estados Unidos e de seus aliados pelas reflexões de Harris sobre êxtase religioso. Na estranha visão de mundo de Harris, que é admitidamente popular entre muitos que acreditam que a missão da razão é pôr fim à religião para salvar a espécie, falha em aplicar essas reflexões para parar violência direcionada religiosamente ao redor do globo pode bem ser outro sinal das ideias “loucas” que ele regularmente atribui àqueles que recusam sua verdade.

Aqui foi o que Harris escreveu:

“Eu tenho lutado há tempos para entender como liberais [N.T.: em sentido americano] bem-educados, inteligentes podem falhar em perceber os perigos únicos do Islã. Em “O Fim da Fé”, eu argumento que tais pessoas não sabem o que seria realmente acreditar em Deus ou no paraíso – e, portanto, imaginam que ninguém mais realmente o faça. Os sintomas dessa cegueira podem ser bastante chocantes. Por exemplo, eu uma vez encontrei o antropólogo Scott Atran depois que ele ter apresentado uma de suas palestras delirantes e envaidecidas sobre as origens do terrorismo jihadista. De acordo com Atran, pessoas que decapitam jornalistas, diretores de filme e trabalhadores de ajuda humanitária aos gritos de “Alahu akbar!” ou explodem-se a si mesmos em multidões de inocentes são levadas a se comportar mal dessa maneira não por causa de suas crenças profundamente internalizadas sobre a jihad e o martírio, mas por causa de sua experiência de estreitamento de elos (bonding) em clubes de futebol e barbearias. (Realmente.) Então, perguntei a Atran diretamente:

‘Você está dizendo que nenhum suicida a bomba mulçumano jamais explodiu a si mesmo com a expectativa de conseguir o paraíso?’

‘Sim,’ ele disse, ‘é o que eu estou dizendo. Ninguém acredita no paraíso.”

Em um momento como esse, é impossível saber se você está na presença de doença mental ou um caso terminal de desonestidade intelectual. A crença de Atran – aparentemente compartilhada por muitas pessoas – está tão em contraste com o que pode ser razoavelmente entendido das declarações e ações dos jihadistas que não admite nenhuma resposta. A noção de que ninguém acredita no Paraíso é mais louca que a crença no Paraíso.”

http://www.samharris.org/blog/item/islam-and-the-misuses-of-ecstasy

Scott Atran é um antropólogo francês e americano que é Diretor de Pesquisa em Antropologia no Centro Nacional da Pesquisa Científica em Paris, Pesquisador Sênior Convidado da Universidade de Oxford na Inglaterra,  Presidential Scholar no College John Jay de Justiça Criminal em Nova York, e também possui atribuições na Universidade de Michigan. Ele tem estudado e escrito sobre terrorismo, violência e religião, e tem feito trabalho de campo com terroristas e fundamentalistas islâmicos, bem como com líderes políticos.

Uma resposta em “Ciência cognitiva da religião informa: violência política extrema não é intrínseca ao Islã

  1. Eu tenho acompanhado essa discussão na mídia dos EUA.

    A coisa tomou outras proporções no programa do Bill Maher com o Ben Affleck e o Sam Harris, eu assisti ao programa na semana em que ele passou e nem imaginei a repercussão que teria, já que Maher já tinha falado tanto disso antes, e ele disse depois e tendo a concordar que a presença do ator é o que fez a mídia se importar tanto, acho que é parte isso, mas também por causa da presença do Sam Harris que tem sido fonte de polêmica no assunto e a forma agressiva que a discussão tomou.

    De qualquer maneira eu me pergunto qual é o problema com o Sam Harris, o cara usa uma máscara da racionalidade e razoabilidade para falar uma quantidade inacreditável de besteira.

    O cara falou e continua a falar a favor de tortura, ataque nuclear defensivo (hã?), discriminação em verificações em aeroportos, e faz umas generalizações absurdas sobre o mundo muçulmano e umas simplificações sobre religião que são hilárias, se não trágicas.

    O sujeito tenta fazer uma análise dentro do escopo da ciência social sem partir da vida material das pessoas. Ele acha que o que está escrito no Corão importa mais do que as condições socioeconômicas e geopolítica em que se encontram as sociedades nas quais vivem os humanos, e que as ideias de alguma forma possuem significado isolado e determinam o comportamento das pessoas a despeito da suas vidas reais. Este cara está brincando? O livro sagrado do Islã assim como o do Cristianismo é cheio de contradições, é a condição de vida das pessoas que determinarão como elas os interpretarão que é o que importa.

    Ele realmente parece pensar que a razão pela qual os palestinos realizam atentados terroristas contra Israel é por causa da religião, não por causa da ocupação! Sério? Todo o terrorismo moderno, desde o atentado em 2001 nos EUA é um fenômeno geopolítico! É o imperialismo britânico, americano e soviético que os fizeram nascer.

    E ele ainda ataca os palestinos dizendo que eles falam em matar todos os israelenses. Desde quando intenção é pior do que o crime em si? Para ele Israel está justificado em matar dezenas de civis porque os palestinos desejam matar mais israelenses. O quê? Ele exige do povo oprimido racionalidade e razoabilidade apesar de haver líderes israelenses que falam em genocídio também!

    Ele lê o Corão, vê uma passagem feia e diz que é por causa disso que o mundo não é perfeito. Pelo amor de Deus! E quanto as passagens bonitas? Quando foi que as passagens pacíficas e contrárias a riqueza e favoráveis a pobreza de Jesus fez todos os cristãos serem pacifistas e desistirem de seus bens materiais? Nunca! E se as passagens bonitas não determinam como as pessoas agem não faz sentido pensar que as passagens ruins vão determinar algo.

    Sim, as religiões dividiram as pessoas, mas isto é natureza humana, somos tribais em nossos corações, se não fosse por religião seríamos mais divididos ainda, pois ainda haveria árabes, persas, italianos, ingleses, gregos, africanos das mais diversas etnias e assim por diante, ou seja, as pessoas ainda se dividiriam em grupos com diferentes línguas, costumes, e moradas, a religião na verdade serve como um elo para muitos diferentes grupos que não o teriam sem ela. Se não fosse a forte identidade muçulmana seria outra coisa a que as pessoas se agarrariam.

    Quer dizer, Sam Harris é um engodo, ele não é só perigoso no sentido de ser uma figura pública dando munição para malucos que querem jogar uma bomba atômica no Oriente Médio, mas ele é também alguém que trabalha sem qualquer resquício de rigorosidade intelectual.

    Recomendo o livro Are Muslims Distinctive? De M. Steven Fish no qual ele encontra tanto vantagens no mundo muçulmano como a propensão para baixas taxas de homicídios as quais o autor atribui as baixas desigualdades e a maior integração social através de valores comuns do Islã e as desvantagens em relação a um maior conservadorismo médio dos muçulmanos em comparação com os não muçulmanos.

    Ele derrapa em algumas conclusões como quando não percebe tanta diferença na religiosidade de muçulmanos e cristãos perdendo o significado da diferença entre a frequencia a templos entre os homens, homens muçulmanos vão muito mais a templos do que homens cristãos, já as mulheres muçulmanas vão muito menos do que as mulheres cristãs, mas no mundo muçulmano isto não quer dizer que elas sejam menos religiosas. Mas mesmo assim é um grande livro, um pouco desatualizado nos dados, eu comecei a refazer suas estatísticas em relação aos assassinatos e descobri uma variação ainda maior favoravelmente aos muçulmanos, mas ainda assim um bom livro que faz um trabalho sério ao contrário do Sam Harris.

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