A violência do Estado contra uma mulher trans campeã das liberdades civis – e contra pessoas trans

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Grave este nome: Chelsea Manning. Essa mulher trans é uma campeã das liberdades civis de nosso tempo. Mas, por ter ousado desafiar o governo dos Estados Unidos ao revelar o ocultamento de crimes de guerra durante o conflito no Iraque, ela foi processada e condenada à prisão, onde hoje permanece.

A velha máxima de Henry David Thoureau em “Da Desobediência Civil” permanece verdadeira:

“Uma quantidade bastante reduzida [de pessoas] há que serve ao Estado também com sua consciência: são os heróis, patriotas, mártires, reformadores e homens, que acabam por isso necessariamente resistindo, mais do que servindo. Conquanto isso, o Estado os trata geralmente como inimigos.” (P. 16-17)

Chelsea Manning, inicialmente conhecida como Bradley Manning, era analista de inteligência do exército dos Estados Unidos, que vazou para o site Wikileaks documentos secretos sobre a política externa, revelando vários abusos cometidos pelo governo (confira este infográfico), incluindo as torturas na prisão de Guantánamo e a gravação de um incidente, que ficou conhecido como “Collateral Murder” (Assassinato Colateral) ,  onde militares americanos no Iraque atiram para matar civis, incluindo dois funcionários da Reuters (uma agência de notícias), em um total de 11 pessoas mortas, em um claro crime de guerra:

Quando descoberta, denunciada pelo ex-hacker Adrian Lemo (que trabalha para o governo norte-americano), Chelsea foi presa sem julgamento e submetida a tortura, conforme apontado pelo Relator Especial sobre tortura da ONU: foi deixada em confinamento solitário por 23 horas seguidas a cada dia durante 11 meses, e inclusive chegou a ser deixada nua à noite. Perceba que o único propósito para fazer isso é pressionar a pessoa para que delate outras, como em vários casos onde o governo norte-americano tem torturado prisioneiros para obter informações.

Durante o curso do processo, veio à público a condição de transgeneridade de Chelsea,  com a descoberta de fotos de Chelsea em trajes femininos, que ela teria enviado para uma supervisora por email para falar sobre sua (verdadeira) identidade de gênero.

Um dia após a sentença de condenação há 35 anos de prisão, ela fez uma declaração pública reconhecendo sua condição de mulher trans e solicitando o devido respeito, já que teria de começar a terapia hormonal na prisão:

“Na transição para esta nova fase na minha vida, eu quero que todos conheçam meu eu real. Eu sou Chelsea Manning. Eu sou uma mulher. Dada a forma como me sinto e tenho me sentido desde a infância, eu quero começar a terapia hormonal o mais rápido possível. Espero que vocês me apoiem nessa transição. E também peço que, começando hoje, vocês se refiram a mim por meu novo nome e usem o pronome feminino (exceto nas cartas para a prisão).”

Chelsea Manning é uma verdadeira heroína, uma das maiores campeãs das liberdades civis de nossos tempos. Ela foi quem preparou o caminho para vazamentos ainda maiores de abusos cometidos pelo governo norte-americano, como aquele feito por Edward Snowden (que inclusive já a citou como inspiração).

São nos momentos em que as liberdades civis mais estão ameaçadas que a emergência de heróis e heroínas, para catalisar e direcionar a indignação moral do público contra os abusos perpetrados pelos governos, é mais necessária, incluindo o recurso à desobediência civil. É a tese de Jason Brennan e de David Schmidtz em seu “The Brief History of Liberty“:

“Tese: A segurança dos direitos civis, e em última instância da sociedade liberal sob o império do Direito, depende tanto de uma cultura de liberdade e individualismo, como de heróis individuais catalisadores.” (P. 169)

Nesse sentido, traduzi para o português uma carta aberta escrita por ela em dezembro do ano passado, “I am a transgender woman and the government is denying my civil rights“, onde ela denuncia como o governo tem privado-a de seu direito de exercer sua identidade de gênero com autonomia e comenta sobre a situação de marginalização e de privação de direitos civis das pessoas trans em geral que ainda persiste nos Estados Unidos.

(No Brasil, também temos problemas como esses, como escrevi no C4SS, o que faz mais do que necessário o transfeminismo, como escreveu a Beatriz para o Mercado Popular, e que as pessoas trans sejam tratadas como sujeitas de direito com plena autonomia e real igualdade em nosso país, como salienta Bianca para o Mercado Popular)

E também traduzi o texto “Chelsea Manning Fights for Her Right to Exist. She Shouldn’t Have To“, escrito por Chase Strangio, advogado membro da American Civil Liberties Union (ACLU), uma das instituições mais importantes dos Estados Unidos na defesa das liberdades civis (de fato, representa o melhor que eu conheço em termos de civil libertarianism e gosto muito de sua atuação), onde denuncia como o governo continua a privar Chelsea de sua autodeterminação de gênero, em uma atitude claramente discriminatória e autoritária, que é representativa de sua atuação sistemática em relação à população trans nos EUA. O texto foi publicado no blog da ACLU no último dia 24.

A luta contemporânea de Chelsea Manning não pode ser esquecida por ninguém que valorize liberdade e igualdade. Uma injustiça tão absurda contra uma pessoa que nada mais fez do que expor abusos governamentais tão terríveis como crimes de guerra e tortura apenas revela o que há de ainda muito problemático no mundo em que vivemos. Chelsea Manning optou por seguir o caminho prescrito por Henry David Thoureau, “transforme a sua vida num contra-atrito que pare a máquina”. Na história ainda sendo escrita da emancipação humana, certamente Chelsea Manning ocupa uma posição de destaque.

***

Eu sou uma mulher trans e o governo está negando meus direitos civis

Por Chelsea Manning

É nos dito, pelo sistema legal e pelas forças armadas, que nós não fazemos parte deles. É tempo para as pessoas trans como eu falarem ao mundo algo diferente: nós existimos.

“O arco do universo moral é longo, mas se inclina em direção a justiça”, é como se lê a frase frequentemente citada de Martin Luther King.

Eu sou uma jovem mulher trans. E eu posso atestar quanto à parte do “longo”, mas eu espero que a inclinação em direção à justiça torne-se logo mais pronunciada.

Há um monte de questões não concluídas quando se diz respeito a proteger direitos civis de muitas pessoas. Essa luta é visível em toda história sobre ativistas reivindicando uma abrangente reforma de imigração nos Estados Unidos.  É óbvia quando manifestantes tomam as ruas após policiais brancos matarem pessoas de cor desarmadas e enfrentam poucas consequências, se alguma, como no recente caso da morte de Michael Brown em Ferguson e da morte de Eric Garner em Nova Iorque.

A luta por justiça para a comunidade transgênera/transexual é largamente invisível para nossos companheiros cidadãos, a despeito da excessiva discriminação sistemática contra as pessoas trans – aquelas cuja identidade de gênero difere do sexo que lhes foi atribuído no nascimento.

Infelizmente, parece-me que, quando se diz respeito a questões afetando a comunidade trans, muitas pessoas que são cisgêneras – uma palavra descrevendo aquelas pessoas cuja identidade de gênero está alinhada com o sexo que lhes foi atribuído no nascimento – foca demasiadamente sobre os aspectos médicos, legais e administrativos da identidade trans. Tal foco sobre essas definições institucionais de gênero é limitante, e frequentemente leva a obstáculos difíceis para muitas pessoas trans.

Tome algo tão básico como obter identificação de foto. Muitas pessoas necessitam de documentos de identidade com foto para seu emprego. Você precisa de um para dirigir, você frequentemente precisa de um para votar – especialmente com muitos estados dos Estados Unidos aprovando leis de “documentos de identificação de eleitores” desincentivadoras do sufrágio.

Para muitos na comunidade trans, apenas solicitar documentos de identificação básica é uma experiência hostil. É falado a você que você não faz parte dele, porque você não se enquadra em uma das pequenas categorias (boxes) oferecidas pelo sistema. E, para aqueles de nós nas forças armadas, essa violação de direitos civis em relação à identidade básica das pessoas trans é absolutamente ameaçadora para a vida da pessoa.

Nos Estados Unidos, no Reino Unido e em muitos países da Europa, há apenas duas opções disponíveis para designação de gênero em documentos de identificação emitidos pelo governo: masculino e feminino. Como resultado disso, é pressuposto que pessoas trans tenham um gênero que alinha-se com o gênero que lhes foi atribuído no nascimento – isto é, masculino para mulheres trans e feminino para homens trans – e é pressuposto que aqueles que não se conformam para nenhuma dessas escolhas não existam. Então pessoas trans são forçadas seja a usar um documento que não reflete sua identidade ou gastar o tempo, esforço e dinheiro necessário para alterar tais registros. Ambas as situações são frustrantes, embaraçadoras e podem expor-nos à humilhação, ao ridículo e mesmo à violência.

A despeito das premissas burocráticas, nós existimos.

Os desafios que pessoas trans são forçadas a navegar – mesmo em acessar identificação, mas em muitas coisas mais – são o resultado de um viés institucional que favorece pessoas cis e assume que pessoas trans são desviantes. Quando as políticas do nosso próprio governo enviam a mensagem que você não existe – ou que você não deveria existir, isso é devastador. A despeito de ampla evidência de que pessoas trans têm existido em muitas culturas ao longo da história, e do consenso médico de que pessoas trans podem viver vidas saudáveis e produtivas, muitos governos continuam a impor barreiras sobre pessoas trans que podem fazer quase impossível sobreviver.

Eu entrei com uma petição para mudar meu nome em janeiro deste ano. Mesmo com alguma assistência do advogado, a petição tomou quase quatro meses para ser elaborada e apresentada antes que eu mesmo fizesse isso em audiência perante um Tribunal. A audiência e o peticionamento foram públicos, e eu tive de pagar taxas para registrar e postar uma notícia legal em um jornal local custando-me quase $500,00. E, a despeito de fazer claro que eu identifico-me como do gênero feminino, e ter dois psiquiatras militares recomendando apoio para minha transição, mudar legalmente meu nome tem nenhum efeito sobre o status de gênero “legal” que o governo impõe sobre mim.

A identificação por foto não é a única coisa em desfavor das pessoas trans. De acordo com o National Center for Transgender Equality, uma a cada cinco pessoas trans nos Estados Unidos teve moradia negada por causa de sua identidade de gênero. Uma em dez tem sido despejada por causa disso.

Nós fomos banidos de servir nosso país nas forças armadas a menos que nós sirvamos como pessoas trans em segredo, como eu fiz.

Muitas pessoas trans – especialmente pessoas trans de cor de baixa renda – são também menos prováveis de ter acesso a assessoria jurídica ou cuidados de saúde, por causa de discriminação. Em situações como essas, onde direitos civis costumam ser alardeados, o problema não é apenas justa inclusão ou oportunidades iguais em instituições como sistemas de identificação do governo ou o voto – porque tais sistemas são inerentemente, se indiretamente, enviesados para favorecer pessoas cis, brancas, conformadas ao padrão esperado, de renda alta. Como podem pessoas trans mudar um sistema que nós sequer temos acesso?

Um médico, um juiz ou um pedaço de papel não deveriam ter o poder de falar a alguém quem ele ou ela é. Nós todos devemos ter o direito absoluto e inalienável de definir a nós mesmos, em nossos próprios termos e em nossas próprias linguagens, e de ser capaz de expressar nossa identidade e perspectivas sem medo de consequências e reprimenda. Nós todos devemos ser capazes de viver como seres humanos – e de ser reconhecidas como tais pelas sociedades em que nós vivemos.

Nós não deveríamos precisar constantemente defender nosso direito de existir.

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Chelsea Manning luta pelo direito dela de existir. Ela não deveria precisar fazê-lo.

 Por Chase Strangio

Nós não deveríamos precisar constantemente defender nosso direito de existir.

De dentro das casernas disciplinares dos Estados Unidos em Fort Leavenworth, estado do Kansas, onde ela está cumprindo uma sentença de 35 anos de prisão, isso é precisamente o que a condenada Wikileaker Chelsea Manning tem feito – lutar por sua existência.

Desde a primeira vez que foi diagnosticada com disforia de gênero em 2010, Chelsea têm lutado para ser reconhecida e ratificada pelo governo, pelo público e mesmo por alguns de seus apoiadores, como Chelsea.

Em uma carta aberta publicada em dezembro no Guardian, ela refletiu:

“Nós todos devemos ter o direito absoluto e inalienável de definir a nós mesmos, em nossos próprios termos e em nossas próprias linguagens, e de ser capaz de expressar nossa identidade e perspectivas sem medo de consequências e reprimenda. Nós todos devemos ser capazes de viver como seres humanos – e de ser reconhecidas como tais pelas sociedades em que nós vivemos.”

Neste mês, depois de um ano e meio de luta, incluindo registrar cerca de duas dezenas de requerimentos, numerosas petições formais, uma carta de demanda, e uma ação federal movida pela ACLU [American Civil Liberties Union], Chelsea Manning finalmente recebeu algum reconhecimento de sua humanidade. Em 11 de fevereiro, ela começou tratamento hormonal para sua diagnosticada disforia de gênero.

Mas, mesmo com essa vitória, a luta de Chelsea continua.

O governo está recusando-se a permitir que Chelsea deixe o cabelo dela crescer, o que é permitido para outras prisioneiras femininas. Ao contrário, ele está forçando-a a ficar de cabeça quase raspado em conformidade com padrões de cabelo masculino.

Enquanto isso, em sua apelação criminal, o governo recusou respeitar a identidade feminina de Chelsea e está lutando para usar pronomes masculinos e seu primeiro nome na documentação legal desse caso – um claro sinal de que eles buscam para cada vez mais desumanizá-la na medida em que ela luta por sua liberdade. Ao redor do país, incontáveis outras mulheres e homens trans em prisões, cadeias e centros de detenção de imigração estão lutado para serem ouvidos, para receberem tratamento e para sobreviver a condições insuportáveis. Em outras palavras: para simplesmente existirem.

Na última semana, o Southern Poverty Law Center processou o Departamento Correcional da Geórgia em nome de Ashley Diamond, uma mulher trans à qual foi negado o tratamento hormonal medicamente necessário do qual ela dependia por 17 anos antes de seu aprisionamento. Em resposta a seus apelos por tratamento, os funcionários da prisão da Geórgia zomaram dela chamando-a de “coisa ele-ela” e ridicularizando suas necessidades de saúde e segurança.

Da prisão, Ashely escreve: “É incrível como uma falta menor com a lei tornou-se uma sentença de morte. Isso é sobre mais que apenas tratamento hormonal. Isso é sobre violações brutas de direitos humanos. Três anos de tortura já é suficiente.”

De fato. Três dias poderiam ser suficientes, três anos é um pesadelo.

Ao redor do espectro político, pessoas questionam o valor de pessoas trans em receber o cuidado médico de que nós precisamos. Programas na televisão zombam de nossa existência e, mesmo na esteira de uma tragédia, os meios de comunicação pensam que é admissível apagar nossa humanidade essencial por se recusar a honrar nossas vidas e gêneros na morte.

Como o ativista trans de Ohio, Cherno Biko, explicou:

“Nossa luta não é por igualdade, é por libertação e sobrevivência. Nossos corpos estão sendo criminalizados e policiados ao ponto de extinção. É crucial que nós canalizemos nossa energia e recursos para os mais vulneráveis de nossas comunidades.”

Enquanto nós lamentamos as muitas mulheres trans que temos perdidos esse ano, nós devemos também de estar com essas pessoas trans vivendo sob condições insuportavelmente violentas. Expostas a privações e degradação impensáveis, nossos irmãos e irmãs trans encarcerados estão cotidianamente defendendo seu direito de existir.

O que é uma exigência incrivelmente modesta, ainda que verdadeiramente brava e resiliente. Até que mais nenhuma pessoa trans seja sujeita ao medo da morte por ser quem elas são, lutar pela sobrevivência trans dentro e fora das prisões é nosso dever e privilégio.

De Chelsea a Ashley, passando pelas inúmeras pessoas cujos nomes não sabemos, nós te vemos, nós te defendemos e nós te apoiaremos.

Por que os acadêmicos tendem a ser de esquerda?

Os acadêmicos – pesquisadores e professores universitários-, principalmente nas ciências humanas, são conhecidos por tenderem a ser de esquerda. Qual a explicação para esse fenômeno?

Como toda questão politicamente sensível, essa gera respostas polarizadas.

Uma resposta, comumente formulada pela direita conservadora, é de que existe uma captura das instituições educacionais por uma esquerda que deseja o poder acima de tudo. Uma versão influente, que foi propagada pelos seguidores de Olavo de Carvalho, é que trata-se do “marxismo cultural”, derrubando valores ocidentais para implantar o marxismo. Em texto do mesmo nome, Olavo explica essa ideia:

“Desmentido pelos fatos, o marxismo iria à forra por meio da auto-inversão: em vez de transformar a condição social para mudar as mentalidades, iria mudar as mentalidades para transformar a condição social. (…)

Em poucas décadas, o marxismo cultural tornou-se a influência predominante nas universidades, na mídia, no show business e nos meios editoriais do Ocidente. Seus dogmas macabros, vindo sem o rótulo de “marxismo”, são imbecilmente aceitos como valores culturais supra-ideológicos pelas classes empresariais e eclesiásticas cuja destruição é o seu único e incontornável objetivo. Dificilmente se encontrará hoje um romance, um filme, uma peça de teatro, um livro didático onde as crenças do marxismo cultural, no mais das vezes não reconhecidas como tais, não estejam presentes com toda a virulência do seu conteúdo calunioso e perverso.

Tão vasta foi a propagação dessa influência, que por toda parte a idéia antiga de tolerância já se converteu na “tolerância libertadora” proposta por Marcuse: “Toda a tolerância para com a esquerda, nenhuma para com a direita”. Aí aqueles que vetam e boicotam a difusão de idéias que os desagradam não sentem estar praticando censura: acham-se primores de tolerância democrática.

Por meio do marxismo cultural, toda a cultura transformou-se numa máquina de guerra contra si mesma, não sobrando espaço para mais nada.” (CARVALHO, Olavo, 2002)

O grande problema dessa visão é que ela exige acreditar em uma conspiração em curso contra os ditos valores ocidentais, cujo objetivo seja a subversão das bases da sociedade. Isso pressupõe, primeiro, que você já acredite que os valores conservadores são os melhores para fundamentar a ordem social, além da escassa evidência de que, mesmo se os soviéticos ou os marxistas internacionais tivessem um plano para ‘subverter’ valores e tornar mais fácil a revolução em outros países, que as tendências culturais mais amplas na sociedade ocidental realmente esteja sob controle de um pequeno grupo com objetivos políticos bem definidos. Marxismo cultural é teoria da conspiração.

Outra versão, dessa vez vinda da esquerda, é que os acadêmicos tendem a ser de esquerda porque, se você estuda mais e realmente pesquisa a fundo, você perceberá que a esquerda tem ideias melhores para a sociedade. Uma previsão disso também é que pessoas de esquerda tendem a ser mais inteligentes que as pessoas da direita.

De fato, que os auto-identificados como de esquerda tendam a ser mais inteligentes que os auto-identificados como de direita é confirmado em pesquisas realizadas nos Estados Unidos (ressalvando-se que lá a esquerda geralmente não professa o marxismo, mas uma forma de liberalismo social estatizante, que tende à social-democracia, tanto é que são denominados de “liberais”), mensurando o Q.I médio de ambos os grupos.

Contudo, Steven Pinker, em seu livro “Os Anjos Bons da Nossa Natureza”, mostra que a correlação não ocorre com qualquer ideia de esquerda, mas com aquelas ideias de esquerda que são comuns ao liberalismo clássico:

“Em primeiro lugar, na medida em que a inteligência está relacionada com a classe social, qualquer correlação com o liberalismo [leia-se: esquerda política dos EUA], caso não seja estatisticamente controlada, pode simplesmente refletir os preconceitos políticos da classe média alta. Mas a restrição decisiva é que a escada rolante da razão prevê apenas que a inteligência se relacionaria com o liberalismo clássico, que valoriza a autonomia e o bem-estar dos indivíduos acima das restrições de tribo, autoridade e tradição. Espera-se que a inteligência tenha relação com o liberalismo clássico porque este é em si uma consequência da intercambialidade de perspectivas que é inerente à razão enquanto tal. A inteligência não precisa ser correlacionada com outras ideologias que se amontoam nas coalizões de centro-esquerda contemporâneas, como o populismo, o socialismo, o politicamente correto, as políticas de identidade e o movimento verde. Na verdade, o liberalismo clássico é às vezes inerente às facções libertárias e contrárias ao politicamente correto nas atuais coalizões à direita do centro. Mas no conjunto as pesquisas de Haidt mostram que são as pessoas que identificam suas políticas com a palavra “liberal” que mais se inclinam a enfatizar a equidade e a autonomia, virtudes supremas do liberalismo clássico, em detrimento da comunidade, da autoridade e da pureza. E, conforme vimos no capítulo 7, os autodenominados liberais estão nos primeiros postos nas questões ligadas à autonomia pessoal, com as posições que eles iniciaram décadas atrás sendo cada vez mais aceitas pelos conservadores de hoje.

(…) Entre mais de 20 mil jovens adultos que tinham participado do National Longitudinal Study of Adolescent Health, o QI médio se elevava de modo constante, dos que se identificavam como “muito conservadores” (94,8) para os que diziam ser “muito liberais” (106,4). A pesquisa General Social Survey mostra uma correlação semelhante, embora contendo um acréscimo de que a inteligência acompanha mais de perto o liberalismo clássico que o liberalismo de esquerda. Os entrevistados mais inteligentes eram menos inclinados a concordar com a afirmação (esquerdista, mas não liberal clássica) de que o governo tem a responsabilidade de redistribuir a renda dos ricos para os pobres, enquanto se inclinavam mais a concordar que o governo devia ajudar os negros americanos a compensar a discriminação histórica que sofreram (uma posição liberal que é especificamente motivada pelo valor da equidade).” (PINKER, p.  )

 

Portanto, o problema dessa visão é que a correlação não é com ideias de esquerda em geral, mas com noções mais libertárias de autonomia. Outra questão é que também evidência adicional seria requerida para sustentá-la.

Mas nós não precisamos nos restringir a essas hipóteses. Principalmente porque o mais importante é se já temos algum teste sistemático de uma série de hipóteses formuladas em ciência social acerca disso. Nós já o temos. Ele encontra-se no paper “Why are professors liberal?“, por Neil Gross e Ethan Fosse.

Antes de explicar o teste produzido no paper, é preciso deixar claro aqui que o questionamento é porque os professores universitários tendem a ser mais liberais que a população em geral, em contraposição ao conservadorismo dentro do espectro esquerda-direita nos Estados Unidos. Essa tendência à esquerda é bem mensurada lá.

Para dar uma perspectiva visual, apresento abaixo um gráfico do pesquisador Adam Bonica, o qual mediu a tendência pró-esquerda (liberal) e pró-direita (conservador) de uma série de ocupações profissionais nos Estados Unidos, por intermédio das contribuições financeiras a candidatos específicos. No caso, o eixo horizontal mede o quão liberais ou conservadores em média são os candidatos (conforme votos dos mesmos enquanto congressistas) aos quais esse grupo ocupacional faz doações financeiras, e o eixo vertical mede o quão grande é a doação realizada. Veja que os “professors” estão bem mais à esquerda do centro do que uma série de outras ocupações:

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 (Imagem originalmente aqui)

Dito isso, o paper de Gross e Fosse analisa uma série de hipóteses já feitas (mas nunca dantes testadas) sobre o porquê da academia americana ter essa configuração política, sendo que há evidências de que isso também ocorre em vários outros países.

Para ficar mais claro ao leitor como eles procederam ao teste, irei listar abaixo cada uma das hipóteses e quais foram os resultados encontrados em relação à hipótese (confirmando-a ou não em maior ou menor medida), para, depois, descrever a conclusão dos pesquisadores no sentido da necessidade de uma nova hipótese para dar conta dos resultados, mas que precisa de mais testes.

Hipótese 1: As características sociodemográficas dos acadêmicos explicam sua tendência à esquerda

Descrição: a tendência à esquerda dos acadêmicos estaria relacionada com grande proporção da geração dos baby boomers dentro da academia, tendência a ter menos filhos que a média da população, aumento das mulheres na academia, residência em áreas urbanas, subrepresentação do sul dos Estados Unidos entre as origens/localizações dos acadêmicos, maior probabilidade de nascimento no estrangeiro ou de ter morado um período no estrangeiro.

Mecanismos: a geração dos baby boomers viveu uma intensificação da tendência à esquerda dentro da academia; ter mais filhos relaciona-se com conservadorismo na medida em que conservadores religiosos dão maior valor a ter filhos e maiores famílias são mais caras, direcionando apoio para menos impostos e menos descontos sobre o salário (pautas defendidas pelo Partido Republicano); mulheres tendem a ser mais de esquerda que os homens; residentes de áreas altamente urbanas tendem a ser mais de esquerda que os de áreas rurais ou menos urbanizadas; o Sul dos Estados Unidos tende a ser mais conservador que as outras regiões do país; ter nascido em outro país ou ter vivido por um período em outro país significa maior exposição a outras culturas e maior internacionalismo.

Variáveis usadas para teste da hipótese: pertença à geração baby boomer; número de crianças que os respondentes tinham; ser do sexo feminino; ter vivido em uma grande cidade aos 16 anos; viver ao tempo da entrevista fora da região Sul dos Estados Unidos; ter vivido em outro país aos 16 anos; ter nascido no estrangeiro.

Resultado do teste para a correlação entre variáveis e carreira acadêmica: Acadêmicos tendem a ter menos filhos, são mais prováveis de ter residido em uma área urbana ou país estrangeiro enquanto estavam crescendo, e mais prováveis de ter nascido no estrangeiro, entretanto, as mulheres permanecem subrepresentadas na academia ao longo de todo o período e professores são muito semelhantes aos outros americanos em termos de pertença à geração baby boomer e residência fora da região Sul dos Estados Unidos.

Resultado do teste para o quanto as variáveis explicam a tendência à esquerda entre aqueles na carreira acadêmica: ajustando para outros fatores, os únicos fatores sociodemográficos que dão conta de mais que 1% da diferença política entre acadêmicos e não acadêmicos são o número de crianças e viver em uma área urbana aos 16 anos. Juntos esses dois explicam 5,6% da diferença. Contudo, se for especificado o número de mulheres com formação para além da pós-graduação (o que é distinto do número de mulheres na academia, e combina esta variável com a variável de realização educacional da hipótese 2), isso explica 10,5% da diferença, o que significa que quase todas as mulheres na academia tendem mais à esquerda que homens com credenciais educacionais equivalentes.

Hipótese 2: Altos níveis de realização educacional entre acadêmicos explicam sua tendência à esquerda

Descrição: Quanto mais anos de educação as pessoas têm, mais confortáveis elas tendem a ser com diversidade social, mais tolerantes com dissidência política, menos tradicionais em seu pensamento e orientação para ação, mais tendentes a serem céticas em relação à religião e mais coerentes e delimitadas em suas visões de mundo. Acadêmicos tendem a ter mais anos de educação que as demais pessoas.

Mecanismo: socialização na cultura iluminista institucionalizada nas escolas; ganhos cognitivos (cognitive upgrading); exposição à cultura dos pares e a estudantes de diversas formações e origens; processos de diferenciação de classe pelos quais estudantes de classe média-média e média-alta simbolicamente abraçam tolerância para distanciar-se a si mesmos da cultura putativamente autoritária da classe trabalhadora; alguma evidência para a experiência da educação superior como politicamente e socialmente transformadora (alargamento de horizontes) para alguns estudantes e em alguns tipos de escolarização.

Variáveis usadas para teste da hipótese: grau em que a formação dos respondentes vai além da graduação.

Resultado do teste para a correlação entre variáveis e carreira acadêmica: Acadêmicos são 12 vezes mais prováveis que não-acadêmicos de terem formação para além da graduação.

Resultado do teste para o quanto as variáveis explicam a tendência à esquerda entre aqueles na carreira acadêmica: ajustando para outros fatores, maior realização educacional entre acadêmicos explica 19,8% da diferença política entre acadêmicos e não acadêmicos.

Hipótese 3: Mais altos níveis de intelectualismo entre os acadêmicos explicam sua tendência à esquerda

Descrição: Os intelectuais, caracterizados por terem mentes criativas, críticas e contemplativas, são frequentemente críticos sociais, especialmente dentro das humanidades, recorrendo a concepções gerais do desejável que muitas vezes conflitam com as práticas institucionais e políticas prevalecentes. O intelectualismo está relacionado com a tendência à esquerda.

Mecanismo: Hierarquias de status na academia criam grandes grupos de acadêmicos perpetuamente frustrados que canalizam ressentimento e alienação na crítica social; o ceticismo organizado dentro da estrutura normativa da ciência; concentração maior de intelectuais geograficamente e socialmente intensificando sentimento político. (Na prática, a hipótese costuma ser apresentada de modo a identificar tautologicamente intelectualismo com convicções de esquerda, o que é criticado por Gross e Fosse)

Variáveis usadas para teste da hipótese: pontuação em uma escala de um teste de habilidade verbal (vocabulário); pontuação em escala padronizada medindo a tolerância à expressão de ideias controversas (especialmente aquelas que seriam controversas mesmo para um viés de esquerda).

Resultado do teste para a correlação entre variáveis e carreira acadêmica: Acadêmicos possuem habilidade verbal acima da média e exibem mais altos níveis de tolerância à expressão de ideias controversas.

Resultado do teste para o quanto as variáveis explicam a tendência à esquerda entre aqueles na carreira acadêmica: ajustando para outros fatores, maior habilidade verbal não explica nada, mas o maior nível de tolerância explica 10,3% da diferença política entre acadêmicos e não acadêmicos. Contudo, se for combinado maior habilidade verbal com formação para além da graduação (variável da hipótese 2), isso explica 59,4% da diferença, e, se for combinado maior tolerância com maior realização educacional, isso explica 19% da diferença.

Hipótese 4: As características religiosas dos acadêmicos explicam sua tendência à esquerda

Descrição: A academia é composta por mais judeus, protestantes não conservadores e céticos do que a média da população. Estes grupos tendem mais à esquerda que outros grupos religiosos.

Mecanismo: A politização do protestantismo conservador, mais forte entre as comunidades de classe média baixa e de classe trabalhadora, envolve um maior conservadorismo político, e essas crenças religiosas limitam escolhas ocupacionais e aspirações educacionais vistas como perigosas à fé, de modo que estão sub-representados entre os acadêmicos; judeus são sobre-representados entre os acadêmicos, e mais prováveis que os não-judeus de serem de esquerda; ceticismo em relação à religião é mais comum entre acadêmicos.

Variáveis usadas para teste da hipótese: identificação dos respondentes como judeus, sem afiliação religiosa, ou membros de denominações protestantes não teologicamente conservadoras.

Resultado do teste para a correlação entre variáveis e carreira acadêmica: Judeus e pessoas sem afiliação religiosa estão sobre-representados na academia, enquanto protestantes conservadores estão sub-representados.

Resultado do teste para o quanto as variáveis explicam a tendência à esquerda entre aqueles na carreira acadêmica: ajustando para outros fatores, as três variáveis juntas explicam 14,7% da diferença política entre acadêmicos e não acadêmicos, sendo a ausência de afiliação religiosa a variável mais significativa. Acadêmicos sem afiliação religiosa ou protestantes não teologicamente conservadores com formação para além da gradução (variável da hipótese 2) tendem mais à esquerda que membros de outras religiões com equivalente realização educacional.

Hipótese 5: As posições de classe dos acadêmicos explicam sua tendência à esquerda

Descrição: Na concepção mais influente, intelectuais são definidos estruturalmente pela posse de altos níveis de capital cultural e níveis moderados de capital econômico (Bordieu). Essa característica determina uma tendência à esquerda. Outras concepções: maior dependência econômica aos gastos governamentais com educação, serviços sociais, artes, etc.; acadêmicos não são auto-empregados; maior sindicalização entre os acadêmicos.

Mecanismos: na concepção mais influente, privados de sucesso econômico em relação àqueles no mundo empresarial, intelectuais são menos prováveis de desejar a preservação da ordem socioeconômica e mais dispostos à redistribuição e podem abraçar visões políticas ou sociais não convencionais para distinguirem-se culturalmente das classes empresariais, mas sob a limitação de que seu sucesso material depende de manter o domínio da alta cultura que as elites usam para legitimar sua dominância; campos nos quais acadêmicos tendem a vir de posições de classes menos elevadas (como ciência social, humanidades e ciência natural) tendem mais à esquerda que aqueles nos quais o contrário é verdadeiro (Direito, medicina, administração de empresas); acadêmicos aspirantes que percebem sua mobilidade bloqueada tendem ao radicalismo; outras concepções: interesse econômico direto em maior gasto governamental defendido pela esquerda; o auto-emprego induz a maior apoio à transmissão intergeracional do capital e menores impostos; sindicatos tem maior afinidade com visões à esquerda.

Variáveis usadas para teste da hipótese: medida de inconsistência de status, primeiro padronizando anos de educação e renda familiar constante e criando uma variável que seja a soma de ambos (medindo o total nível de capital econômico e cultural), e, segundo, criando uma medida que reflete a diferença entre educação padronizada e renda padronizada (medindo a disparidade da renda em relação ao nível de educação); medida da realização educacional parental; variável indicando se respondentes “dificilmente teriam” confiança nas empresas grandes dos Estados Unidos (medindo grau de diferenciação das classes empresariais); grau em que respondentes são empregados públicos, auto-empregados e membros de sindicatos.

Resultado do teste para a correlação entre variáveis e carreira acadêmica: Acadêmicos tendem a vir de famílias melhor educadas e exibem maior disparidade entre seus níveis de educação e sua renda, são muito mais prováveis de estarem empregados no setor público, muito menos prováveis de serem auto-empregados, e em algum grau mais prováveis de pertencer a sindicatos, mas não são mais prováveis de faltar confiança nas grandes empresas.

Resultado do teste para o quanto as variáveis explicam a tendência à esquerda entre aqueles na carreira acadêmica: ajustando para outros fatores, a variável de inconsistência de status explica 13% da diferença política entre acadêmicos e não acadêmicos, mas as demais variáveis juntas explicam apenas uma pequena proporção.

Hipótese 6: Intelectualismo à parte, os “valores de emprego” distintivos dos acadêmicos influenciam suas convicções políticas, explicando sua tendência à esquerda

Descrição: Estudantes que colocam valor mais alto em fazer um trabalho significativo do que em ganhar tanto dinheiro quanto possível optam mais pela carreira acadêmica.

Mecanismo: As pessoas que colocam mais alto valor em ganhar tanto dinheiro quanto possível ao invés de em fazer um trabalho significativo, e optam pelo meio empresarial, tendem a ser mais conservadoras, o que diminui a representação do conservadorismo na academia.

Variáveis usadas para teste da hipótese: resposta à pergunta se “trabalho significativo” é a mais importante coisa em um emprego, relativamente ao potencial de renda, grau de segurança no emprego, ou boas oportunidades de promoção.

Resultado do teste para a correlação entre variáveis e carreira acadêmica: enquanto 80% dos acadêmicos reportam que trabalho significativo está entre as mais importantes qualidades que eles procuram em um emprego, aproximadamente 60% dos não-acadêmicos pensam o mesmo.

Resultado do teste para o quanto as variáveis explicam a tendência à esquerda entre aqueles na carreira acadêmica: tudo o mais igual, preferência por um trabalho significativo aumenta a diferença política entre acadêmicos e não acadêmicos, mas, ajustando para outros fatores, não a explicam.

Conclusões de Neil Gross e Ethan Fosse: 

Quanto à existência de uma tendência à esquerda entre os acadêmicos: confirmaram o que muitos estudos já haviam mostrado antes, especificamente em sua amostra os resultados apresentavam que a diferença em auto-identificação política entre acadêmicos e não acadêmicos era 1,5 vezes aquela entre negros e brancos, cerca de duas vezes maior que aquela entre os 10% mais ricos e 10% mais pobres medida pela renda familiar constante, e mais que sete vezes maior que aquela entre homens e mulheres. Entre uma lista de 136 ocupações, para o período 1974-2008, estão juntos com a categoria “escritores e jornalistas” como sendo as ocupações de maior proporção de auto-identificados como de esquerda (liberais) e, no período 2000-2008, chega a ser sozinha a de maior proporção.

Quanto à divergência no grau de tendência à esquerda entre questões sociais e questões econômicas: estudos anteriores já haviam encontrado que acadêmicos são mais robustamente tendentes à esquerda nas questões sociais do que nas questões econômicas, e eles confirmaram isso também em sua amostra, contudo, o resultado achado (nenhuma diferença entre acadêmicos e não acadêmicos em tendência à esquerda nas questões econômicas) deve ser interpretado com cautela, dado alguns dados faltantes no estudo longitudinal utilizado (e em face de outros estudos que detectam uma diferença, mesmo que menor do que daquela para questões sociais).

Quanto às variáveis que melhor explicam a diferença política entre acadêmicos e não acadêmicos: Acadêmicos são mais de esquerda que não acadêmicos porque uma maior proporção deles possuem credenciais educacionais avançadas (para além da graduação), exibem uma disparidade entre seus níveis de educação e renda, identificam-se como judeus, não religiosos ou protestantes não teologicamente conservadores, e expressam maior tolerância para ideias controversas.

Quanto à confirmação ou não das hipóteses revisadas: apesar das variáveis acima serem relevantes para explicar a diferença política, as hipóteses revisadas não o são, porque 1) a associação das variáveis com a diferença política pode ser direcionada por diferentes mecanismos causais, e as hipóteses não especificam bem processos causais pertinentes; 2) pelo menos uma das hipóteses que recebeu apoio empírico – a do intelectualismo – têm problemas conceituais, não sendo claro o que exatamente esse apoio implica; 3) desde que mais de uma (não todas) hipóteses receberam apoio parcial, e foram descobertas algumas intrigantes interações com credenciais educacionais para além da graduação, surge a indagação sobre como todas as hipóteses, e os mecanismos causais subjacentes às mesmas, devem ser pensadas juntas, e nenhuma delas nos ajuda a responder isso; 4) quanto à auto-identificação política (excetuando o que diz respeito às atitudes sociais), os modelos utilizados deixam ainda uma porção significativa da diferença política inexplicada.

Quanto à sugestão de uma nova hipótese a partir dos dados encontrados: eles propõem uma hipótese pela qual a tendência dos acadêmicos americanos à esquerda é uma função de um sistemático “crivo” (sorting) entre jovens adultos que já são inclinados à esquerda para dentro da academia e jovens adultos que já são inclinados à direita para fora da academia, respectivamente. O “crivo” funcionaria por meio de um processo de aspiração ocupacional e educacional que é direcionado pela reputação política de certas profissões, mediada por meio de representações culturais tais como “estereótipos vocacionais” ou “imagens ocupacionais”. A aquisição de uma reputação política pela profissão acadêmica é uma questão histórica complexa que se desenvolveu ao longo do século XX.

Por outro lado, pessoas jovens formam suas aspirações educacionais e ocupacionais a partir de uma exposição cultural a um arranjo abrangente de modelos ocupacionais, mas suas circunstâncias sociais limitam o número de opções que consideram seriamente para si mesmos. Entre as pessoas jovens com identidades políticas mais salientes, seu liberalismo (esquerdismo) ou conservadorismo (direitismo) limitam os horizontes de possibilidade ocupacional e educacional, tornando incogitável ou mais difícil de cogitar entrar em certos ramos. A filtragem realizada pelo crivo depende, portanto, de uma auto-seleção.

O crivo funciona junto com outras variáveis que moldam aspirações como status socioeconômico familiar, raça e gênero, é sensível a variações intergeracionais na proporção de pessoas jovens politizadas, e provavelmente tem uma aplicabilidade restrita a certas profissões (nem todas detém uma reputação política).

A hipótese pode ser estendida para dar conta da variação política entre disciplinas e instituições de ensino, uma vez que estas constroem identidades coletivas e reputações organizacionais não simplesmente ao redor de imperativos intelectuais e organizacionais, mas também ao redor de modelos culturais que incluem imagens idealizadas da personalidade intelectual, ou seja, noções acerca das qualidades e características que fazem de alguém um ótimo acadêmico naquela área específica. Isso significa que campos cujas imagens de personalidade intelectual sejam mais inclinadas a incorporar aspectos tendentes à esquerda atrairão mais estudantes inclinados à esquerda, como no exemplo da sociologia, que veio a ser muito definida como estudo de desigualdades de classe, raça e gênero. E como instituições de elite buscam atrair aqueles acadêmicos que melhor incorporem essas imagens idealizadas, terão um corpo docente mais tendente à esquerda.

Quanto à evidência para a hipótese proposta: os dados de seu estudo não fornecem evidência direta, sendo necessários testes adicionais, mas já existe apoio advindo de evidência produzida em outros testes. Um estudo encontrou que duas vezes mais estudantes de esquerda do que estudantes de direita aspiram a completar o doutorado; estudantes conservadores em uma grande universidade pública, entrevistados, manifestaram não buscar imitar o corpo docente; em estudo sobre a religiosidade de cientistas acadêmicos em universidades de elite, foi detectado que os altos níveis de ceticismo religioso não advém da socialização profissional, mas da maior tendência dos céticos religiosos em tornarem-se cientistas; em uma análise de dados públicos, foi encontrado que conservadorismo, adesão ao Partido Republicano e identidade evangélica são associados com menor confiança na educação superior e diminuídas avaliações do prestígio ocupacional dos acadêmicos; em entrevistas com 66 acadêmicos americanos em seis disciplinas, 81% dos que se identificavam como de esquerda reportam que suas visões políticas foram formadas enquanto estavam crescendo ou na universidade, bem antes que interesses de classe associados com o trabalho acadêmico futuro pudessem plausivelmente exercer alguma influência.

Uma vez descrito esses interessantes resultados, uma coisa me chamou atenção: eles podem ajudar a testar a hipótese avançada por Julian Sanchez em seu artigo “Why Do Intellectuals Favor Government Solutions?” (tradução em português aqui), o qual tentou responder o questionamento trazido por Robert Nozick em seu clássico artigo “Why Do Intellectuals Oppose Capitalism?”. Por que os setores mais altamente educados e inteligentes das populações ocidentais não acatam uma visão mais favorável em relação às economias de mercado livre, ao invés favorecendo intervenções governamentais?

Sanchez discorda do que Nozick sugere que poderia estar por trás disso – os critérios dentro da academia do que seria melhor (baseados principalmente em alta inteligência verbal) contrastam com o fato que aqueles com resultados acadêmicos e intelectuais inferiores recebem maiores recompensas materiais na distribuição de renda produzida por economias de mercado, o que assemelha-se às noções que enfatizam a disparidade entre educação e renda -, e propõe uma hipótese bem semelhante àquela de Gross e Fosse: as pessoas que já são mais favoráveis às soluções governamentais para problemas sociais e econômicos tendem a optar mais pela carreira acadêmica.

O mecanismo proposto por Sanchez, entretanto, é diferente. Transcrevo:

Se as melhores soluções para os problemas sociais são geralmente governamentais ou políticas, então em uma sociedade democrática, fazer o trabalho de um intelectual bom com as palavras é uma maneira de contribuir essencialmente para a abordagem daqueles problemas. Se as melhores soluções são geralmente privadas, então isso é verdadeiro em uma medida muito menor: as maneiras mais importantes de se cumprir um dever cívico, nesse caso, são mais prováveis de englobar formas mais diretas de participação, como doar dinheiro, voluntariado, trabalhar com inovações tecnológicas ou médicas que melhorem a qualidade de vida, e vários tipos de atividade empresarial socialmente consciente.

Você deve, portanto, esperar um natural efeito de seleção: Aqueles que se sentem de forma decisiva moralmente motivados a contribuir para a diminuição dos males sociais naturalmente gravitarão em direção a carreiras que reflitam sua visão sobre como isso é mais bem alcançado. A escolha de uma carreira como um intelectual bom com as palavras pode, em si mesmo, ser o resultado de uma crença prévia de que problemas sociais são mais bem abordados por meio de mecanismos que são mais dependentes de argumento, persuasão e advocacia pública – isto é, mecanismos políticos.

Entretanto, parece igualmente possível que um desejo post hoc de justificar a escolha de tal carreira possa ter um papel enviesador. Uma pessoa sem gostos materiais extravagantes pode viver de forma bastante confortável como um acadêmico ou escritor, e o trabalho por si só é muito interessante e intrinsecamente atraente. Mas empregos intelectuais desse tipo tendem a não deixar alguém com recursos para devotar grandes quantias de dinheiro para causas beneficentes sem reduzir significativamente o consumo de pequenos luxos: comer fora, shows, eletrônicos, viagens de férias, cursos para crianças, etc.

Se o mundo é principalmente melhorado por meio da iniciativa privada, então o percurso mais correto moralmente disponível para uma pessoa altamente inteligente de gostos materiais moderados seria seguir uma carreira bem menos interessante por si mesma em negócios ou finanças, viver um estilo de vida de classe média, e devotar sua riqueza para várias causas boas. Nesse cenário, no final das contas, o intelectual que pudesse contribuir com milhões para caridade tal como um financista ou um advogado de alto nível, mas que preferisse ter sua remuneração na forma de tempo de leitura e de trabalho interessante, não é, obviamente, melhor do ponto de vista moral que o advogado ou financista real que usa sua remuneração monetária para comprar prazeres materiais. Ambos estão negando sacrificar satisfação pessoal em prol de ajudar aos outros – apenas um tem escolhido uma forma de remuneração que não é facilmente tributada e redistribuída. Se esforços privados são ineficazes ou relativamente desimportantes em comparação com ação política, entretanto, o intelectual pode ter certeza que ele está satisfazendo suas obrigações morais ao pagar impostos e escrever persuasivamente em apoio aos remédios políticos apropriados. (Tradução em língua portuguesa)

Alguns poderiam objetar que Fosse e Gross forneceram evidência que vai contra esse mecanismo: o mecanismo subjacente não é a maximização de uma preferência politicamente informada, pela qual pessoas com tendência à esquerda e à direita procurariam características específicas do ambiente de trabalho que refletissem seus visões de mundo e ideologias políticas, uma vez que não foi encontrada evidência que uma preferência por trabalho significativo (ou priorização de mais alta renda, em contraste) explicassem a diferença política entre acadêmicos e não acadêmicos, e, como já referido, a formação de aspirações educacionais e ocupacionais por pessoas jovens é limitada por circunstâncias sociais que diminuem o número de opções que elas consideram seriamente para si mesmas. Portanto, não a teoria da escolha racional, mas a psicologia social da identidade, é que dirige o processo.

Mas deve-se observar que a evidência encontrada não necessariamente desconfirma a hipótese de Sanchez.

Primeiro, porque o que conta como “trabalho significativo” pode ter diferentes significados para acadêmicos e não acadêmicos; ambos valorizam isso em proporções parecidas, contudo, o que conta como “trabalho significativo” pode diferir na maneira proposta por Sanchez.

Segundo, a hipótese de Sanchez é menos geral que a de Fosse e Gross: enquanto estes avaliam a tendência à esquerda em geral (cujo principal efeito é fornecido pela tendência à esquerda nas questões sociais) entre acadêmicos em geral, aquele avalia a tendência à esquerda exclusivamente em questões econômicas, e foca sob um subconjunto dos acadêmicos, que seriam os “intelectuais”, dentro dos campos das humanidades e das ciências sociais. Esses últimos campos poderiam ser optados mais por aqueles que favorecem soluções governamentais porque, pelas características intrínsecas a essas áreas, há mais espaço para discutir, criticar e propor formas de mudar a sociedade, conforme Sanchez, e o modelo de personalidade intelectual nesses campos envolveria exatamente o aprofundamento nesse tipo de argumentação e crítica, conforme Fosse e Gross.

Logo, penso que a hipótese de que pessoas já tendentes a alinharem-se com a esquerda optem mais pela carreira acadêmica, pelos motivos acima discutidos relacionadas à reputação ocupacional e representações culturais do que seria um acadêmico modelo, seja a real razão pela qual os acadêmicos sejam mais tendentes à esquerda.