Meu texto contra a praxeologia e seus críticos

Quando publiquei o texto “Contra a praxeologia, a favor da ciência“, sabia que iria gerar muitas críticas entre aqueles que se consideram defensores de uma economia de livre mercado no Brasil. Isso ocorre porque uma grande parte das pessoas que se consideram liberais ou libertárias, especialmente entre as mais jovens, são muito influenciados pelo Instituto Mises Brasil e, portanto, sua tendência é a endossar automaticamente a praxeologia sem entrar numa discussão mais profunda em epistemologia e filosofia da ciência.

Uma coisa que observei das críticas feitas que vieram ao meu conhecimento, mesmo as vindas de pessoas que considero bastante inteligentes e/ou informadas, é que elas (na esmagadora maioria das vezes) não tentaram se engajar no debate de teoria de conhecimento que informa o texto. Isso para mim mostra que há, talvez, uma falta de vontade ou mesmo de conhecimento em entender as discussões de epistemologia e filosofia da ciência e nelas inserir uma defesa da praxeologia, entre as pessoas que esta endossam.

Uma linha comum foi dizer que eu não entendo o que seria a praxeologia. Na verdade, eu conheço a praxeologia desde 2008, e durante anos há aceitei, e a Escola Austríaca de Economia me influenciou muito no passado. Só vim a rejeitar a economia austríaca e endossar a economia mainstream/ortodoxa/neoclássica em 2012, e um dos grandes motivos para isso foram mudanças significativas na teoria do conhecimento subjacente às minhas convicções filosóficas.

Mas independente desse histórico pessoal, eu delineei o que era a praxeologia em seus principais pressupostos epistêmicos. Meu objetivo não era falar do raciocínio dentro dela, aceitando suas premissas, mas tentando encontrar alguma falha no encadeamento do raciocínio sob essas premissas. Meu objetivo explícito era mostrar que as premissas são falhas, e, por isso mesmo, o tal método não gera conhecimento validado.

Portanto, esclareci que ela:

1) tenta fazer uma “filosofia primeira” ou “saber primeiro”, “primeiro” no sentido de “fundante”, sob a qual todas as ciências humanas ou pelo menos a economia estariam fundadas, e que poderiam dar a estas uma base certa  e inabalável que asseguraria o conhecimento produzido como 100% correto, a partir de uma noção de verdade auto-evidente produzida a partir de contradições performativas; ou que, em uma forma mais branda, intencionaria uma análise conceitual (típica da filosofia analítica) do que significam conceitos como o de “ação”, mas que isso a faria deixar de ser praxeologia e tornar-se apenas a meta-teoria comum a todos os economistas austríacos;

2) não admite a falseabilidade, nem mesmo sob a forma de enunciados estruturados para ser falseáveis mesmo quando lidam diretamente com eventos empíricos, o que significa que mesmo quando se refere a fatos bem concretos a praxeologia trata sua ocorrência ou não ocorrência como ilustrações da teoria ao invés de testes dela;

3) pretende expressar as derivações lógicas do axioma da ação, de maneira que não oferece grande possibilidade de virmos a conhecer fatos novos descobertos por esse método (o máximo que há são diferenças de interpretação, mas que já estariam contidas no axioma fundamental e mais algumas hipóteses auxiliares como a existência da moeda);

4) baseia-se em uma incompatibilidade entre os métodos para estudar o ser humano e os métodos para estudar o restante da natureza (o axioma da ação seria o divisor desses mundos, e isso mesmo enquanto Mises achava possível uma explicação paralela à da praxeologia em termos determinísticos ao comportamento humano, a praxeologia que ele criou assume uma diferença qualitativa entre a ação humana e tudo o que ocorre no mundo; o que me parece uma contradição de Mises, mas não vou discutir isso aqui);

5) recorre à introspecção para definir o que seria a ação e, assim, assegurar sua natureza fundamentalmente distinta do comportamento de organismos sem ação (os quais teriam apenas comportamento) e de objetos inanimados pelo modo como nos auto-compreendemos em uma análise introspectiva da mente.

Em suma, o axioma da ação não é um ponto de partida “neutro” com o qual todos podem concordar. Ele é filosoficamente carregado de pressuposições metafísicas e epistemológicas que o tornam absolutamente controverso, ao invés de, como pretende ser, “auto-evidente” (e seu corolário, “irrefutável”). A própria ideia de contradições performativas produzindo auto-evidência depende de uma base filosófica que é, em si, controversa.

Tentar esquivar-se do debate filosófico substantivo sob uma invocação de que o axioma da ação é simplesmente auto-evidência que qualquer um pode (e tem de) aceitar, sem incorrer em uma filosofia bem específica subjacente, é trapacear intelectualmente. Não importa o quão vago o defensor da praxeologia tente formular o axioma da ação para convencer seu interlocutor da auto-evidência, quando a praxeologia é posta para derivar conclusões a partir do axioma da ação e considerá-las fundadas sob uma base inabalável que garante certeza, ela já está comprometida com premissas filosóficas controversas, senão não chegaria nas conclusões a que chega. E se sua discussão resumir-se a uma análise conceitual (típica da filosofia analítica) do que significa o conceito de “ação”, deixa de ser praxeologia para tornar-se apenas a meta-teoria comum a todos os economistas austríacos.

Outra linha comum de crítica foi dizer que meu argumento resumiu-se a “defino ciência de um jeito; a praxeologia não entra nesse meu conceito de ciência; então rejeito a praxeologia”. Se a questão fosse apenas disso, eu não precisaria argumentar em favor de como entendo que o conhecimento é validado pela ciência e de que essa é a melhor forma de fazê-lo. Na verdade, sequer precisaria ter escrito um texto longo se fosse apenas isso.

Meu ponto não é simplesmente que a praxeologia não tem os atributos que eu arbitrariamente digo que são “da ciência”, mas sim que ela não tem os atributos que fazem o conhecimento ser obtido de forma válida pelas razões que esclareço sobre a natureza da aquisição do conhecimento (e eu chamo isso de ciência, mas poderia chamá-la de X que não faria diferença).

Daí minha preocupação em comparar a economia empírica (mainstream) com a praxeologia. Enquanto a economia empírica apresenta as características que nos levam ao saber validado (não importando se o rotulamos de científico ou não), a praxeologia não passa nesse teste.

Por fim, é realmente má leitura ou não leitura alegar que eu defendo que a ciência é infalível, e este seria meu erro fundamental. Como naturalista, eu sou contra qualquer ideia de um saber fundante que garanta certeza absoluta, inclusive em relação à ciência, à matemática e à lógica.

Meu endosso do(s) método(s) científico(s) não é baseado em um fundacionalismo sob o qual o empirismo é infalível, mas sim sob a base pragmática de que é a forma de adquirir conhecimento com o maior sucesso preditivo.

Também minha citação sobre a falseabilidade deve ser entendida conforme expus: não concordo que a estrutura dedutiva falseável dos enunciados da ciência empírica (enquanto distinta da matemática e da lógica) garanta que possamos saber ao menos o que é falso com 100% de certeza, uma vez que, como deixo claro lá, Popper ainda tentava (erroneamente) compreender o confronto da ciência com a experiência a partir de enunciados específicos da ciência confrontando-se cada um por si sozinho com a experiência, enquanto Quine, corretamente, viu que o confronto implica a participação do “todo da ciência” (ou um considerável subconjunto da mesma) e, portanto, a subdeterminação da teoria em relação aos fatos.

Portanto, dado o falibilismo endossado pelos naturalistas como eu, onde podemos estar errados até mesmo sobre a matemática e a lógica, é impossível que eu tenha afirmado ou afirme que a ciência empírica oferece certeza absoluta.

6 respostas em “Meu texto contra a praxeologia e seus críticos

  1. Valdenor Júnior, conheci seu blog faz pouco tempo( uns 40 min) e fiquei muito feliz quando percebi que não sou o único que se identifica com ideias libertárias e não concorda com a praxeologia. É como você disse: os defensores do livre mercado no país são muito influenciados pelo Instituto Mises Brasil. E, por isso, estou um tanto perdido; sei que devo deixar de lado a Escola Austríaca e partir pra outra, no entanto, não sei para onde ir. Não sei o quanto posso aproveitar dos austríacos, ou mesmo se posso aproveitar alguma coisa. Outro ponto que me incomoda é uma possível negação da ciência por parte dos libertários(em questões como aquecimento global, por exemplo), esta pertubação – acredito eu – é fruto de uma ignorância por parte da minha pessoa com relação a filosofia da ciência e método científico. Pretendo fazer economia, mas a questão epostemológica me pertuba(Qual o método mais correto? Essa pergunta me incomoda, porque não sei a resposta). Dando uma rápida olhada no seu blog, pensei que talvez você pudesse me ajudar e venho aqui através deste comentário pedir sua ajuda. Estou disposto a estudar a área da teoria do conhecimento, principalmente, com relação a economia, peço(não escrevi “só peço”, porque não tem nada de “só” no que te peço, embora pareça mais educado para algumas pessoas) que me indique conteúdo de qualquer tipo(sites,livros,videos,revistas, sei lá, pensadores e etc) nesta área e sobre libertarianismo bleeding heart, que na minha ignorância não faço a menor ideia do que seja.

    Me desculpe o incômodo, desde já agradeço.
    Serei muito grato a qualquer contribuição de sua parte.

  2. Pra ser franco, acredito que a sua argumentação poderia ter sido bem mais simples, embora eu tenha gostado dos textos. Por favor me corrija se eu estiver errado.
    É comum dizerem que o axioma da ação é infalível por que, se você tentar invalidá-lo, estará realizando uma ação com propósito. Entretanto, me parece que existem dois problemas simples no axioma:
    Se por “ação proposital” entende-se ação guiada por uma razão/intenção, a existência de ações humanas sem propósito – creio que seja o caso de instintos e reflexos, não? – tornam o axioma errado;
    Se por “ação proposital” entende-se qualquer ação, o axioma é meramente tautológico.

  3. Gostei do texto. Esclarecedor. No início também me empolguei com a praxeologia. Conheço o Instituto Mises Brasil e seus artigos desde 2009. Li parte do livro Ação Humana. Não concordo com tudo o que leio dos artigos austríacos. Mas agora vi que sem conhecer o termo bleeding-heart é disso que intuia sem racionalizar. Gosto mais de Hayek do que de Mises. Acredito que a tríade ação-tempo-conhecimento é incompleta. Acredito que falta a convivência, a interdependência, e outras variáveis que agora não me recordo. Seriam sete. Vejam que falo de crenças pessoais. Talvez a praxeologia possa ser válida para o hedonismo.

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