Mais sobre gênero e construção social

Eli Vieira escreveu hoje (14/07) uma resposta ao meu texto “Gênero é construção social – mas a biologia importa também“. A resposta não menciona o título do meu artigo, mas claramente volta-se contra alguns dos argumentos ali expostos. Na íntegra, da página dele no facebook:

“O artigo da Daphna Joel no PNAS (ver meu texto sobre gênero não ser construção social) alega que não há forma objetiva de classificar cérebros em masculino e feminino. Três respostas a essa alegação vieram. Em uma delas, os mesmos dados em análise multivariada permitem prever o sexo da pessoa cujo cérebro está sendo analisado com 70% de acerto. Eu falei em particular com alguns cientistas especialistas no assunto do gênero cerebral, e a opinião foi que o PNAS falhou em publicar aquele artigo com análise que parece ter sido escolhida a dedo para gerar o resultado que um grupo ideológico quer.

A melhor resposta que meu curto artigo recebeu simplesmente PREFERE acreditar em Joel APESAR DISSO. O que revela que quando é para ser politicamente correto e agradar os colegas de crença, o suposto interesse em dar uma avaliação imparcial morre rapidinho.

Sobre eu ter escolhido a definição de “construção social” do Paul Boghossian, foi em reconhecimento ao trabalho dele de separar joio de trigo nas alegações de construção social que parecem suficientemente ambíguas para se adequarem à afirmação que for mais conveniente no momento. Definições de “construção social” que aceitam que há também causas biológicas no gênero são anomalias dentro da vasta literatura construtivista, boa parte da qual merece o rótulo de pseudociência, como discutido num volume recente de filosofia da pseudociência editado pelo filósofo Massimo Pigliucci. De qualquer forma, nem faz muito sentido escolher o termo “construção social”, ao pé da letra, se você acredita que o fenômeno em questão é em parte o resultado de fatores biológicos.

Eu uso os termos “sexo” e “gênero” livremente não porque não sei da distinção geralmente feita entre eles. Mas porque rejeito a dicotomia “Nature vs. Nurture” implícita neles, que não é mais adequada.

As críticas justas ao meu texto são essas:

– Curto demais para assunto tão complicado.

– Deveria conter uma definição de trabalho de gênero. Mas eu posso responder que definições completas são teorias e que o propósito de discutir as evidências mais recentes é justamente começar a formar uma ideia mais clara do que é gênero. Conhecimento que as hipóteses de acadêmicos construtivistas estão atrapalhando, por seu compromisso frequente com o pós-modernismo e sua rejeição implícita da navalha de Hume e de facetas da racionalidade como objetividade e imparcialidade, valores indispensáveis na ciência.

Eu considero a comparação que fiz de gênero e castas indianas muito mais adequada para ilustrar que gênero não é construção social enquanto castas o são. Mas por algum motivo os críticos todos ignoraram isso e se focaram apenas na comparação com dinheiro.”

Sua réplica tem problemas claros, que pretendo comentar aqui brevemente.

Acredito que o foco em criticar o pós-modernismo (premissa que não ampara meu texto) denota qual é o principal problema do modo como Eli entende a construção social. Para ele, o debate da construção social é equivalente ao debate do pós-modernismo. Contudo, isso não é correto.

Primeiro, porque é possível defender que algumas coisas são socialmente construídas sem achar que não podemos ter conhecimento objetivo ou que toda forma de conhecimento é poder ou qualquer que seja a tese que se pretenda pós-modernista (não discutirei aqui a definição de pós-modernismo e as discussões associadas).

Segundo, porque o debate da construção social do gênero é menos um debate sobre epistemologia e mais um debate sobre ontologia social. São perguntas do tipo: Que categorias existem no mundo social? Gênero é um”tipo social” ou um “tipo biológico”? Se gênero for um “tipo social”, ele pode contar como “tipo natural” em algum sentido? Isso são questões ontológicas, não epistemológicas (mesmo que possam envolver epistemologia em algum grau). Mas Eli parece pensar que o debate resume-se a saber se podemos estudar empiricamente ou não as diferenças de comportamento entre os sexos e se elas podem envolver um componente genético.

Eli justifica rejeitar rejeita tratar sexo como categoria biológica e gênero como categoria social por rejeitar a contraposição entre “nature x nurture“. Novamente, a ideia dele é jogar a questão para a epistemologia, ao invés da ontologia. Bem, eu também rejeito o “nature x nurture” se essa rejeição significa que concordamos que todo comportamento advém da interação entre fatores genéticos e ambientais. Inclusive aceito que a evolução é relevante para entender não só anatomia e fisiologia, mas comportamento e cognição humanos. Portanto, estamos de acordo em relação a esses pontos. Esclarecido isso, examinemos como esse argumento dele poderia ser reconstruído de forma mais clara:

  1. Não há contraposição entre “nature x nurture
  2. Se não há contraposição entre “nature x nurture“, então todo comportamento têm um componente biológico (ou genético, em uma formulação mais estrita).
  3. Se um comportamento têm componente biológico/genético, então categorias associadas a ele são biológicas e não podem ser sociais nem podem ser socialmente construídas. (poderíamos parafrasear como “uma gota de explicação biológica impede que uma categoria seja social”)
  4. Gênero envolve comportamentos que têm componente biológico/genético.
  5. Logo, gênero não é categoria social.

Mas a premissa 3 é claramente questionável. A “sociabilidade” em si é explicável biologicamente. Não somente os seres humanos são sociáveis no reino animal (e há evidências para sociabilidade inclusive entre alguns tipos de microorganismos; Strassmann, Queller, 2011) e todos os grandes primatas são sociáveis (mesmo o orangotango, que passa a maior parte do tempo de forma solitária, interage socialmente). Ou seja, (3) implicaria que o “social” sempre é “biológico” e, portanto, “não social”!

Uma forma de revisar (3) sem precisar abandonar totalmente o raciocínio feito por ele seria relaxar a ideia de que toda categoria biológica não é uma categoria social. Então (3) se tornaria (3′): “Se um comportamento têm componente biológico/genético, então categorias associadas a ele são biológicas. Mas isso não impede que elas sejam ao mesmo tempo categorias sociais ou socialmente construídas.”

Nesse caso, considerando o falado acima sobre a sociabilidade como sendo biologicamente explicável, de (3′) se seguiria que todo tipo social é um tipo biológico. E Eli poderia continuar sustentando que gênero é categoria biológica. Mas aí nem poderíamos entender o porquê de Eli ser tão preocupado em dizer que gênero não é categoria social, afinal, seu raciocínio leva à conclusão de que afirmar que gênero é categoria biológica não é suficiente para dizer que ele não é categoria social. Ou seja, se gênero é categoria social, então ele é categoria biológica trivialmente. Por outro lado, dificilmente Eli gostaria de manter esse raciocínio mesmo robustecido por (3′), uma vez que aí também seriam categorias biológicas o dinheiro, as castas hindus, e assim por diante.

No meu texto ofereci outra alternativa: considerar que tipos sociais podem ser tipos naturais de fato, mas sem confundi-los com tipos biológicos, seguindo a formulação de Ali Khalidi (2015).

Ainda dentro da questão da rejeição por Eli da diferença entre sexo e gênero, ele parece incorrer em mais dois erros.

Primeiro, parece achar que aceitar explicações biológicas/genéticas para o comportamento (e, portanto, para as diferenças médias de comportamento entre as pessoas) necessariamente envolve aceitar explicações biológicas/genéticas para as diferenças médias entre os sexos. Mas não há essa implicação: é perfeitamente possível que possamos explicar a diferença de comportamento entre as pessoas com base na genética (como já fazemos por meio das técnicas de genética comportamental), mas não possamos explicar a diferença de comportamento entre dois grupos de pessoas com base na genética. E uma questão bem discutida dentro da genética comportamental é que não podemos inferir a partir da proporção da diferença dentro do grupo atribuível à genética qual seria a proporção da diferença entre grupos atribuível à genética (isso foi levantado no debate sobre a possibilidade de diferenças de comportamento entre populações étnicas ser atribuível à genética, sendo denominado de Jensen’s Error o equívoco de tentar inferir uma coisa a partir da outra. Vide Milkman, 1978). Então, são questões empíricas que precisam ser resolvidas uma-a-uma.

Segundo, entende que gênero e sexo biológico não seriam sujeitos de nenhum uso diferente, apenas porque atribuímos às mesmas pessoas serem de um gênero específico que é associado com um sexo específico (por exemplo, gênero feminino com sexo feminino), ao menos na maioria dos casos. Contudo, ele esquece que gênero é usado não só como atributo de pessoas, mas também de comportamentos, roupas, traços, jogos, e assim por diante, enquanto sexo não é usado dessa forma. É estranho dizer que “esse comportamento é macho”, mas é comum que se diga “esse comportamento é masculino/de homem/de macho”. Apenas organismos têm sexo, mas entidades que não são organismos podem ter gênero. Assim, a relação entre sexo e gênero é bem clara: sexo é um atributo de 1ª ordem, enquanto gênero é um atributo de 2º ordem que se refere ao sexo, mas não se reduz a ele.

Por fim, algumas palavras sobre sua tentativa de tirar a credibilidade de Daphna et al, 2015. Ele demonstra não ter lido as respostas que ela (e demais autores do paper) deram aos comentários críticos. Ela já aceitava que poderíamos prever com certo grau de acurácia, a partir da composição de um cérebro, qual o sexo provável da pessoa que tem aquele cérebro. Mas ela negava o inverso: a partir do sexo da pessoa, qual a provável composição do cérebro. Inclusive o fato dela aceitar isso antes mesmo dos comentários críticos formulados a esse paper de 2015 pode ser demonstrado por se checar o paper dela (de sua exclusiva autoria) de 2011, “Male or Female? Brains are Intersex”, no Frontiers of Integrative Neuroscience.

In claiming that brains do not have sex (i.e., that brains cannot be divided into “male” brains and “female” brains), I do not claim that we cannot predict one’s sex on the basis of the structure of his/her brain. The latter would be possible with accuracy above chance if the “male”/”female” form of a sufficient number of non-dimorphic sex differences were known (although it would be much more accurate and easy to predict one’s sex according to the form of his/her external genitalia). We are discussing here the reverse problem, that is, whether we can predict the structure of one’s brain on the basis of one’s sex. The findings reviewed here lead to the conclusion that although we can predict that on average, females will have more brain characteristics with the “female” form than with the “male” form and vice versa for males, we cannot predict the particular array of “male/female” brain characteristics of an individual on the basis of her/his sex. (DAPHNA, 2013, p. 2-3)

Eu já referi qual é o argumento dela no texto original. Ela não nega que haja diferenças no cérebro entre os sexos. O que ela nega é que haja dismorfismo. Genitálias são claramente dismórficas. Nós olhamos para alguém de um sexo e já sabemos de que modo sua genitália é com grande acurácia, sendo raros os casos de interssexualidade. Em relação ao cérebro, se usarmos o mesmo padrão que usamos para genitálias (se elas são masculinas, femininas ou interssexuais), somos forçados a concluir que os cérebros são interssexuais. De fato, ela em co-autoria com Anne Fausto-Sterling tem um paper só pra discutir esse aspecto conceitual: “Beyond sex differences: new approaches for thinking about variation in brain structure and function” (2016), publicado na Philosophical Transactions of Royal Society B. Um trecho:

McCarthy & Konkle made precisely these points in a carefully crafted article in which they distinguished between sex dimorphism and sex difference. In this opinion piece, they argued that we apply the term sexual dimorphism only to those aspects of difference—for example, male and female genitalia or X and Y chromosomes—that truly come (or nearly so) in just two forms. McCarthy & Konkle argued that scientists use care not to refer to male and female brains as dimorphic when actually referring to sex difference, as in most mammals sex-related brain differences consist of overlapping populations with mean differences. Indeed, sexual dimorphism is extremely rare (if it exists at all) in the human brain (e.g. [4,6–9]), including in regions showing very large differences between females and males (e.g. [10–16]). (DAPHNA, FAUSTO-STERLING, 2016)

Então, ao contrário do que Eli pensa, a publicação do artigo de Daphna et al, 2015, não foi um equívoco do PNAS e está baseada em sólida pesquisa anterior e posterior, que articula uma série de considerações conceituais e empíricas em sua crítica ao tratamento do cérebro como possuindo dismorfismo sexual, ao contrário de apenas diferença.

P.s. para aprofundamento na discussão sobre ontologia social e gênero, recomendo os papers “Gender is a Natural Kind with a Historical Essence” por Theodore Bach (2012) e “The Social Construction of Human Kinds” por Ásta Kristjana Sveinsdóttir (2013). Em relação a como construtivismo social e naturalismo podem ser compatíveis e, portanto, como falar em construção social não implica em aderência ao pós-modernismo e posições similares, recomendo novamente Ron Mallon, em seu paper “A Field Guide to Social Construction” (2007).

Referências:

DAPHNA, Joel. Male or Female? Brains are Intersex. 2011. (http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3176412/pdf/fnint-05-00057.pdf)

DAPHNA, Joel et al. Sex beyond the genitalia: The human brain mosaic. 2015. (http://www.pnas.org/content/112/50/15468.short)

DAPHNA, Joel; FAUSTO-STERLING, Anne. Beyond sex differences: new approaches for thinking about variation in brain structure and function. 2016. (http://people.socsci.tau.ac.il/mu/daphnajoel/files/2016/02/JoelFaustoSterling2016.pdf)

KHALIDI, Muhammad Ali. Natural Categories and Human Kinds: Classification in the Natural and Social Sciences. 2015. (http://www.cambridge.org/us/academic/subjects/philosophy/philosophy-science/natural-categories-and-human-kinds-classification-natural-and-social-sciences?format=PB)

MILKMAN, Roger. A Simple Exposition of Jensen’s Error. 1978. (http://jeb.sagepub.com/content/3/3/203.abstract)

STRASSMANN, Joan E.; QUELLER, David C. Evolution of cooperation and control of cheating in a social microbe. 2011. (http://www.pnas.org/content/108/Supplement_2/10855.full.pdf)

 

 

 

 

Gênero é construção social – mas a biologia importa também

No último dia 11, Eli Vieira escreveu um texto denominado “Por que gênero não é construção social”. Concordo com a importância de estudar empiricamente o gênero e os comportamentos associados, contudo, acredito que seu texto erra no ponto central, ao negar que gênero seja uma construção social. O objetivo do presente artigo é mostrar por que o gênero é sim um construto social, mas que a biologia importa também.

  1. O que é construção social?

Eli parafraseia a noção de construção social como entendida por Paul Boghossian:

“o que se quer dizer quando se alega que uma coisa é socialmente construída é que ela foi criada intencionalmente por uma sociedade em particular para atender a seus próprios interesses, e é contingente aos caprichos dessa sociedade de tal forma que essa coisa não existiria de outro jeito (não existiria, por exemplo, se essa sociedade tivesse interesses diferentes, ou se a construção tivesse sido feita por uma sociedade diferente).”

É essa forma de entender a construção social em que Eli sustenta todo o seu argumento. Contudo, não é a única forma de entender essa questão e, portanto, é menos incontroversa do que Eli parece supor.

Enquanto ficará faltando aqui uma discussão mais aprofundada da análise de Boghossian, o modo como Eli entende essa noção a partir dele parece-me demasiado “convencionalista”. Algo é apenas um construto social quando dele podemos afirmar que o usamos por uma convenção arbitrária. Mas mesmo o exemplo usado por Eli de construto convencional (dinheiro) pode ser questionado.

Nós determinamos o que o dinheiro é por pensar que ele é X ou Y? Em um certo nível (que Eli parece estar se referindo), sim, uma vez que nós determinamos que coisa contará como dinheiro em nossa sociedade, por exemplo, o real ao invés do dólar, o papel-moeda ao invés do ouro, e assim por diante. Mas em outro nível podemos perguntar o que todas essas coisas (dólar x real, papel-moeda x ouro, etc.) tem em comum que as fazem “ser dinheiro”. E podemos empregar o conceito da economia: é dinheiro tudo aquilo que é um meio comumente usado de troca e uma medida e reserva de valor (Mason, 2016).

Portanto, mesmo um construto social como o dinheiro não é ontologicamente determinado por nossos desejos e vontades arbitrários. O construto “dinheiro” possui uma natureza que é independente de nós, mesmo enquanto sejam nossas práticas de troca que fazem objetos particulares (como papel-moeda ou ouro) serem instâncias dessa categoria.

Uma objeção possível aqui é que “dinheiro” é um termo criado pelas sociedades humanas para designar certas coisas, logo não pode ter uma natureza independente das convenções linguísticas e, nesse sentido, sua natureza seria definida convencionalmente. Contudo, tal objeção tende a provar demais: “água” também designa certas coisas (um líquido transparente que tomamos quando sentimos sede, que encontramos nos mares e rios, e assim por diante) como um termo criado por convenções linguísticas, mas aquilo a que a água se refere e que foi descoberto cientificamente, H20, não é convencional. Perceba que a natureza da água é ser H20. Portanto, é trivial que qualquer termo da linguagem dependa de certas convenções gramaticais, mas o objeto da referência de um termo não precisa ser ele mesmo constituído convencionalmente.

Outra questão que se costuma confundir nesse debate é que dizer que algo é socialmente construído é dizer que não podemos falar objetivamente sobre esse algo ou que esse algo seja uma ilusão irreal. Não há essa conexão necessária entre esses tipos de afirmação.

Por exemplo, dentro da filosofia da raça, a afirmação de que raça é uma construção social contrapõe-se à visão cética de que raça não existe. Afirmar que raça é uma construção social significa afirmar sua existência como entidade real, mas que não é fundada em diferenças genéticas (Mallon, 2013). Para seguir a linha de raciocínio, se o construto “raça” for social, isso produz diferenças reais para as pessoas rotuladas como sendo de certa raça socialmente subordinada, levando-a a ser tratada diferencialmente pelas pessoas com consequências negativas, e isso pode afetar mesmo sua biologia (por exemplo, se uma dessas consequências negativas for a maior exposição a certas doenças na infância).

Khalidi (2015) defende uma visão naturalista dos “tipos naturais” segundo o qual estes são todas aquelas categorias que nos permitem fazer inferências causais, e é pela ciência empírica que descobrimos quais categorias são aptas para isso. Se seguirmos essa abordagem, podemos concluir que “tipos sociais” (que são construtos sociais) também podem contar como tipos naturais na medida em que nos permitem fazer inferências causais. Assim apenas os construtos sociais que fossem efetivamente convencionais é que não contariam como tipos naturais, por serem desprovidos de propriedades causais em seu próprio direito.

David Sloan Wilson (2005) introduz uma distinção interessante entre construtivismo social radical e construtivismo social moderado. O construtivismo social radical endossa a tese de que “tudo é possível” em relação às práticas humanas, ou seja, estes variam de forma ilimitada sem nenhum mecanismo discernível. Em contraste, o construtivismo social moderado endossa a tese de que o comportamento humano é flexível e, portanto, varia em diferentes ambientes, mas que a direção, a magnitude, entre outras variáveis, dessa variação pode ser predita por meio de um mecanismo (que, portanto, restringe as formas que essa variação pode assumir). Para Wilson, enquanto o construtivismo social radical é incompatível com a ciência evolucionista do comportamento humano, o moderado é perfeitamente compatível, sendo sua veracidade uma questão de constatação empírica.

Para mais discussões sobre como construção social pode ser entendida naturalisticamente, recomendo “Naturalistic Approaches to Social Construction” (2013), por Ron Mallon.

  1. O que é gênero?

Em nenhum momento Eli chega a definir o que ele entende por gênero. Então, é difícil saber se ele têm em mente que os estudos de gênero costumam distinguir entre sexo biológico e gênero. O sexo biológico é uma categoria natural, enquanto o gênero é uma categoria social. O quanto gênero e sexo são conectados necessariamente seria uma questão empírica.

O sexo biológico é definido pelos cromossomos sexuais e pelos diferentes caracteres sexuais primários e secundários. Sua origem está na reprodução sexuada e define alguns organismos como “macho” e outros como “fêmea”. O macho e a fêmea da espécie humana têm diferentes potenciais reprodutivos: enquanto a fêmea arrisca-se a passar por uma série de transformações corporais que levam ao nascimento de uma criança e que a deixam temporariamente inapta à concepção de um novo filho, o macho não passa por nenhuma dessas circunstâncias. Portanto, a reprodução é biologicamente mais custosa para a fêmea que para o macho, e essa diferença é chave para a teoria das estratégias sexuais dentro da psicologia evolucionista (Buss, Schmitt, 1993).

O gênero é definido pelas diferentes expectativas e papéis atribuídos aos machos e às fêmeas da espécie humana, atribuindo a uma série de traços e comportamentos a característica de ser “masculino” e “feminino”. Ou seja, o gênero possui uma conotação normativa dentro de uma dada sociedade, como aquilo que é próprio ao homem e aquilo que é próprio à mulher, mas também preditiva, como aquilo que se espera do homem e como aquilo que se espera da mulher. Sua eficácia preditiva depende do quanto as pessoas de cada gênero realmente correspondem ao comportamento prescrito e/ou previsto como sendo aquele do seu sexo biológico. Sua origem é controversa, mas endosso a posição segundo a qual essa diferenciação por gênero está relacionada com a divisão do trabalho como propiciada originalmente por certas diferenças biológicas básicas (homens tendem a ser mais fortes fisicamente que mulheres e a reprodução é mais custosa para as mulheres do que para os homens) e pelo potencial de monopolização/dominância de recursos pelos homens em prejuízo das mulheres. É uma posição semelhante à do feminismo radical (Reilly-Cooper, 2015), mas também da teoria construtivista biossocial (Eagly, Woody, 2012) e corroborada dentro da ecologia comportamental humana (Mulder, Laland, Brown, 2009): a desigualdade (hierarquia) de gênero é maior ou menor conforme varia a estrutura da família e a distribuição dos recursos e as sociedades com menor desigualdade de gênero apresentam menores diferenças comportamentais entre os sexos (Mace, Jordan, 2011; Hyde, Petersen, 2010; Eagly, Woody, 1999).

Enquanto não concorde totalmente com a teoria construtivista biossocial (por aceitar maiores diferenças inatas em alguns traços comportamentais e cognitivos entre os sexos que as autoras dessa teoria parecem admitir, por exemplo, em relação à maior tendência masculina ao comportamento sexual promíscuo, como revisei em meu texto “A psicologia evolucionária não implica que homens preferem mais o sexo que as mulheres”, 2014, e “Mulheres com múltiplos parceiros sexuais e as hipóteses darwinistas sobre o acasalamento”, 2015), o esquema dessa teoria é muito útil para entender como o gênero surge a partir do sexo biológico por intermédio de processos de construção social.

gênero

(Eagly, Woody, 1999)

Dito isso, parece-me que não está claro por qual critério Eli pode diferenciar entre “gênero” (ou o “cerne não socialmente construído do gênero”), de um lado, e “algumas coisas associadas como papéis e expressões de gênero” (ou “propriedades auxiliares socialmente construídas”), de outro. Uma clarificação analítica da relação entre sexo biológico e gênero seria mais elucidativa do que essa distinção entre cerne e propriedades auxiliares do gênero.

  1. O gênero é socialmente construído ou biologicamente determinado?

Eli apresenta de forma bastante clara a razão que ele encontra para não considerar gênero como construção social: “o gênero em si não é construção social – porque culturas diferentes chegam a categorias similares de gênero com base em diferenças naturais no corpo e no comportamento”.

Dada a discussão das duas seções anteriores, já é possível ver problemas com essa formulação. Primeiro, porque a diferença natural entre os sexos biológicos nos caracteres corporais de nenhuma forma exclui a construção social do gênero, ao contrário é assumido por algumas das teorias construtivistas. Segundo, porque Eli menciona rapidamente que existe evidência para diferenças inatas em comportamento entre pessoas de diferentes sexos sobre as quais as categorias de gênero poderiam se basear, mas não menciona a evidência para quanto o uso social das categorias de gênero causa diferenças em comportamento entre pessoas de diferentes sexos (tal como exemplificado acima pela menor diferença entre os sexos conforme a maior igualdade de gênero de uma sociedade). Terceiro, mesmo se diferenças comportamentais tem um componente inato, Eli poderia concordar (acredito pelo menos) que categorizar um comportamento estatisticamente médio das mulheres como sendo “comportamento de mulher, não de homem” é um erro de categorização, uma vez que vai do nível descritivo (comportamentos onde o sexo biológico é um fator preditivo) para o prescritivo (comportamentos definidos como próprios a um gênero e impróprios a outro), além de esquecer que a diferença em médias ainda significa que, para dado traço, a maioria de homens e mulheres se sobrepõe na distribuição daquele traço.

Uma forma interessante de ver como a influência genética não impede a construção social é examinar o caso da orientação política. A orientação política de uma pessoa também é parcialmente herdável, no sentido de que parte da diferença entre as pessoas em orientação política é atribuível à diferença genética entre elas (Funk et al, 2009; Funk et al, 2013; Hatemi et al, 2014). Além disso, diferenças em orientação política correlacionam-se com diferenças em outros traços humanos muito mais básicos, como personalidade, fundamentos morais e uso de raciocínio analítico versus holístico (Jost et al, 2008; Hirsh et al, 2010; Haidt et al, 2009; Haidt et al, 2014). Por outro lado, parece muito estranho dizer que algo como “ser liberal” ou “ser conservador” ou “ser comunista” e assim por diante seja “natural”. Durante milhares de anos de história escrita sequer existiam essas orientações políticas. Claramente a orientação política seria algo construído socialmente porque orientações políticas são ideias sobre como a sociedade deve ser, e essas ideias foram criadas historicamente.

Como resolver esse quebra-cabeça? A questão é perceber que a influência genética e o aprendizado social não precisam ser excludentes, mas complementares. Nós podemos explicar como as ideias políticas surgem e são adquiridas pelas pessoas por meio de processos de evolução cultural baseada em vieses de imitação e de aprendizado social (Bandura, 1971; Henrich et al, 2008). Ao mesmo tempo, podemos investigar como a genética afeta a probabilidade de uma pessoa assumir certa posição em relação à média dos demais e/ou em relação à média de uma escala, quaisquer que sejam as efetivas ideias que preenchem essas posições em uma dada sociedade. Por exemplo, supondo que uma pessoa tenda a ser “do centro” hoje por razões genéticas, isso significa que ela teria tendido a ser “do centro” há 100 anos atrás ou tenderia a ser “do centro” daqui há 100 anos, mas o que é ser “do centro” é diferente hoje do que foi há 100 anos atrás e do que será daqui há 100 anos.

Um raciocínio muito similar pode ser aplicado à questão do gênero. Por exemplo, Eli menciona que “[h]á evidência de que homens e mulheres fazem em média decisões de carreira diferentes, mesmo em sociedades igualitárias”. Isso pode ser explicado por uma diferença inata voltada para carreiras específicas, mas isso é bastante improvável, uma vez que as carreiras modernas são muito diferentes daquilo que poderia ter evoluído no contexto de nossos ancestrais caçadores-coletores. Alternativamente, poderíamos postular que essa diferença, então, se deve a características mais gerais, por exemplo, preferência média por trabalhar com coisas versus pessoas, e essa preferência é melhor satisfeita ou não conforme carreiras foram historicamente sendo construídas para terem mais ou menos dessas coisas, ou o quanto determinada carreira necessita ter mais ou menos dessas coisas. Contudo, outra alternativa é que pessoas tenham um viés de preferir trabalhar com pessoas que sejam parecidas com elas se essa opção estiver disponível e não for muito custosa, e por qualquer que seja o motivo (genético ou não) as pessoas tendem a ser mais parecidas com ou acharem mais parecidas pessoas do seu próprio sexo do que aquelas do sexo oposto, e mesmo nas sociedades mais igualitárias ainda há tratamento desigual (explícito ou implícito) por gênero.

Dado o quadro acima da teoria construtivista biossocial do gênero, também é possível perceber que mesmo diferenças cerebrais entre os sexos não necessitam ser evidência de diferenças inatas entre os sexos. Por uma questão simples de superveniência (uma espécie de relação metafísica), não há diferenças mentais sem diferenças físicas. Portanto, cérebros que respondem de forma diferente dado os mesmos ambientes apresentam diferenças físicas trivialmente. Mas essas diferenças físicas podem originar-se no desenvolvimento infantil conforme o cérebro é calibrado para circunstâncias ambientais específicas, e uma destas pode ser o quão categorias de gênero afetam o modo como as pessoas são tratadas, recompensadas, punidas, e assim por diante.

Por fim, eu concordo com a pesquisa de Daphna et al (2015; vejam também as réplicas dela aos comentários críticos, Daphna et al, 2016a; 2016b) segundo a qual os cérebros humanos são melhor caracterizados como intersexuais do que como masculinos versus femininos. Sumarizando o argumento dela, a categorização dos sexos biológicos ocorre por meio de caracteres dismórficos, que são pronunciadamente dicotômicos. Se aplicarmos os mesmos critérios que usamos para classificar genitálias aos cérebros, fica claro que cérebros nem de longe correspondem à dicotomia das genitálias. Isso por óbvio não decide questões sobre genética versus não-genética. Os cérebros poderiam ser muito mais dicotomizados do que são, e isso poderia ocorrer por conta da socialização diferenciada também. Mas o fato deles serem menos dicotomizados do que se poderia pensar sugere que as diferenças genéticas em comportamento estão muito mais ligadas à genética pessoal do que a genética relativa ao sexo ao qual se pertence, como já tínhamos razão para pensar.

Fundamentalmente os seres humanos são pessoas, independente da categoria natural sexo biológico e da categoria social do gênero, e devem ser tratados como pessoas, não como homens versus mulheres. Mas essas categorias naturais e sociais são muito relevantes, tanto para explicar o que ocorre em nossas sociedades, como também para descobrirmos como modificar aquilo que é indesejável.

Referências:

BANDURA, Albert. Social Learning Theory. 1971. (http://www.jku.at/org/content/e54521/e54528/e54529/e178059/Bandura_SocialLearningTheory_ger.pdf)

BRITO JÚNIOR, Valdenor Monteiro. A psicologia evolucionária não implica que homens preferem mais o sexo que as mulheres. 2014. (https://libertarianismoedarwinismo.wordpress.com/2014/11/10/a-psicologia-evolucionaria-nao-implica-que-homens-preferem-mais-o-sexo-que-as-mulheres/)

BRITO JÚNIOR, Valdenor Monteiro. Mulheres com múltiplos parceiros sexuais e as hipóteses darwinistas sobre o acasalamento. 2015. (https://libertarianismoedarwinismo.wordpress.com/2015/01/04/mulheres-com-multiplos-parceiros-sexuais-e-as-hipoteses-darwinistas-sobre-o-acasalamento/)

BUSS, David M.; SCHMITT, David P. Sexual Strategies Theory: An Evolutionary Perspective on Human Mating. 1993. (http://www.bradley.edu/dotAsset/165805.pdf)

DAPHNA, Joel et al. Sex beyond the genitalia: The human brain mosaic. 2015. (http://www.pnas.org/content/112/50/15468.short)

DAPHNA, Joel et al. Reply To Del Giudice Et Al., Chekroud Et Al., And Rosenblatt: Do brains of females and males belong to two distinct populations? 2016a. (http://people.socsci.tau.ac.il/mu/daphnajoel/files/2016/03/Response_to_Del-Guidice_Chekroud_Rosenblatt2016.pdf)

DAPHNA, Joel et al. Why differences between brains of females and brains of males do not “add up” to create two types of brains. 2016b. (http://people.socsci.tau.ac.il/mu/daphnajoel/files/2016/03/Joel_PNAS2016_reply_to_Glezerman.pdf)

FUNK, Carolyn et al. Genetic and Environmental Transmission of Political Orientations. 2013. (http://faculty.ucmerced.edu/sites/default/files/mhibbing/files/funk_et_al._2013_0.pdf)

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