Mais sobre gênero e construção social

Eli Vieira escreveu hoje (14/07) uma resposta ao meu texto “Gênero é construção social – mas a biologia importa também“. A resposta não menciona o título do meu artigo, mas claramente volta-se contra alguns dos argumentos ali expostos. Na íntegra, da página dele no facebook:

“O artigo da Daphna Joel no PNAS (ver meu texto sobre gênero não ser construção social) alega que não há forma objetiva de classificar cérebros em masculino e feminino. Três respostas a essa alegação vieram. Em uma delas, os mesmos dados em análise multivariada permitem prever o sexo da pessoa cujo cérebro está sendo analisado com 70% de acerto. Eu falei em particular com alguns cientistas especialistas no assunto do gênero cerebral, e a opinião foi que o PNAS falhou em publicar aquele artigo com análise que parece ter sido escolhida a dedo para gerar o resultado que um grupo ideológico quer.

A melhor resposta que meu curto artigo recebeu simplesmente PREFERE acreditar em Joel APESAR DISSO. O que revela que quando é para ser politicamente correto e agradar os colegas de crença, o suposto interesse em dar uma avaliação imparcial morre rapidinho.

Sobre eu ter escolhido a definição de “construção social” do Paul Boghossian, foi em reconhecimento ao trabalho dele de separar joio de trigo nas alegações de construção social que parecem suficientemente ambíguas para se adequarem à afirmação que for mais conveniente no momento. Definições de “construção social” que aceitam que há também causas biológicas no gênero são anomalias dentro da vasta literatura construtivista, boa parte da qual merece o rótulo de pseudociência, como discutido num volume recente de filosofia da pseudociência editado pelo filósofo Massimo Pigliucci. De qualquer forma, nem faz muito sentido escolher o termo “construção social”, ao pé da letra, se você acredita que o fenômeno em questão é em parte o resultado de fatores biológicos.

Eu uso os termos “sexo” e “gênero” livremente não porque não sei da distinção geralmente feita entre eles. Mas porque rejeito a dicotomia “Nature vs. Nurture” implícita neles, que não é mais adequada.

As críticas justas ao meu texto são essas:

– Curto demais para assunto tão complicado.

– Deveria conter uma definição de trabalho de gênero. Mas eu posso responder que definições completas são teorias e que o propósito de discutir as evidências mais recentes é justamente começar a formar uma ideia mais clara do que é gênero. Conhecimento que as hipóteses de acadêmicos construtivistas estão atrapalhando, por seu compromisso frequente com o pós-modernismo e sua rejeição implícita da navalha de Hume e de facetas da racionalidade como objetividade e imparcialidade, valores indispensáveis na ciência.

Eu considero a comparação que fiz de gênero e castas indianas muito mais adequada para ilustrar que gênero não é construção social enquanto castas o são. Mas por algum motivo os críticos todos ignoraram isso e se focaram apenas na comparação com dinheiro.”

Sua réplica tem problemas claros, que pretendo comentar aqui brevemente.

Acredito que o foco em criticar o pós-modernismo (premissa que não ampara meu texto) denota qual é o principal problema do modo como Eli entende a construção social. Para ele, o debate da construção social é equivalente ao debate do pós-modernismo. Contudo, isso não é correto.

Primeiro, porque é possível defender que algumas coisas são socialmente construídas sem achar que não podemos ter conhecimento objetivo ou que toda forma de conhecimento é poder ou qualquer que seja a tese que se pretenda pós-modernista (não discutirei aqui a definição de pós-modernismo e as discussões associadas).

Segundo, porque o debate da construção social do gênero é menos um debate sobre epistemologia e mais um debate sobre ontologia social. São perguntas do tipo: Que categorias existem no mundo social? Gênero é um”tipo social” ou um “tipo biológico”? Se gênero for um “tipo social”, ele pode contar como “tipo natural” em algum sentido? Isso são questões ontológicas, não epistemológicas (mesmo que possam envolver epistemologia em algum grau). Mas Eli parece pensar que o debate resume-se a saber se podemos estudar empiricamente ou não as diferenças de comportamento entre os sexos e se elas podem envolver um componente genético.

Eli justifica rejeitar rejeita tratar sexo como categoria biológica e gênero como categoria social por rejeitar a contraposição entre “nature x nurture“. Novamente, a ideia dele é jogar a questão para a epistemologia, ao invés da ontologia. Bem, eu também rejeito o “nature x nurture” se essa rejeição significa que concordamos que todo comportamento advém da interação entre fatores genéticos e ambientais. Inclusive aceito que a evolução é relevante para entender não só anatomia e fisiologia, mas comportamento e cognição humanos. Portanto, estamos de acordo em relação a esses pontos. Esclarecido isso, examinemos como esse argumento dele poderia ser reconstruído de forma mais clara:

  1. Não há contraposição entre “nature x nurture
  2. Se não há contraposição entre “nature x nurture“, então todo comportamento têm um componente biológico (ou genético, em uma formulação mais estrita).
  3. Se um comportamento têm componente biológico/genético, então categorias associadas a ele são biológicas e não podem ser sociais nem podem ser socialmente construídas. (poderíamos parafrasear como “uma gota de explicação biológica impede que uma categoria seja social”)
  4. Gênero envolve comportamentos que têm componente biológico/genético.
  5. Logo, gênero não é categoria social.

Mas a premissa 3 é claramente questionável. A “sociabilidade” em si é explicável biologicamente. Não somente os seres humanos são sociáveis no reino animal (e há evidências para sociabilidade inclusive entre alguns tipos de microorganismos; Strassmann, Queller, 2011) e todos os grandes primatas são sociáveis (mesmo o orangotango, que passa a maior parte do tempo de forma solitária, interage socialmente). Ou seja, (3) implicaria que o “social” sempre é “biológico” e, portanto, “não social”!

Uma forma de revisar (3) sem precisar abandonar totalmente o raciocínio feito por ele seria relaxar a ideia de que toda categoria biológica não é uma categoria social. Então (3) se tornaria (3′): “Se um comportamento têm componente biológico/genético, então categorias associadas a ele são biológicas. Mas isso não impede que elas sejam ao mesmo tempo categorias sociais ou socialmente construídas.”

Nesse caso, considerando o falado acima sobre a sociabilidade como sendo biologicamente explicável, de (3′) se seguiria que todo tipo social é um tipo biológico. E Eli poderia continuar sustentando que gênero é categoria biológica. Mas aí nem poderíamos entender o porquê de Eli ser tão preocupado em dizer que gênero não é categoria social, afinal, seu raciocínio leva à conclusão de que afirmar que gênero é categoria biológica não é suficiente para dizer que ele não é categoria social. Ou seja, se gênero é categoria social, então ele é categoria biológica trivialmente. Por outro lado, dificilmente Eli gostaria de manter esse raciocínio mesmo robustecido por (3′), uma vez que aí também seriam categorias biológicas o dinheiro, as castas hindus, e assim por diante.

No meu texto ofereci outra alternativa: considerar que tipos sociais podem ser tipos naturais de fato, mas sem confundi-los com tipos biológicos, seguindo a formulação de Ali Khalidi (2015).

Ainda dentro da questão da rejeição por Eli da diferença entre sexo e gênero, ele parece incorrer em mais dois erros.

Primeiro, parece achar que aceitar explicações biológicas/genéticas para o comportamento (e, portanto, para as diferenças médias de comportamento entre as pessoas) necessariamente envolve aceitar explicações biológicas/genéticas para as diferenças médias entre os sexos. Mas não há essa implicação: é perfeitamente possível que possamos explicar a diferença de comportamento entre as pessoas com base na genética (como já fazemos por meio das técnicas de genética comportamental), mas não possamos explicar a diferença de comportamento entre dois grupos de pessoas com base na genética. E uma questão bem discutida dentro da genética comportamental é que não podemos inferir a partir da proporção da diferença dentro do grupo atribuível à genética qual seria a proporção da diferença entre grupos atribuível à genética (isso foi levantado no debate sobre a possibilidade de diferenças de comportamento entre populações étnicas ser atribuível à genética, sendo denominado de Jensen’s Error o equívoco de tentar inferir uma coisa a partir da outra. Vide Milkman, 1978). Então, são questões empíricas que precisam ser resolvidas uma-a-uma.

Segundo, entende que gênero e sexo biológico não seriam sujeitos de nenhum uso diferente, apenas porque atribuímos às mesmas pessoas serem de um gênero específico que é associado com um sexo específico (por exemplo, gênero feminino com sexo feminino), ao menos na maioria dos casos. Contudo, ele esquece que gênero é usado não só como atributo de pessoas, mas também de comportamentos, roupas, traços, jogos, e assim por diante, enquanto sexo não é usado dessa forma. É estranho dizer que “esse comportamento é macho”, mas é comum que se diga “esse comportamento é masculino/de homem/de macho”. Apenas organismos têm sexo, mas entidades que não são organismos podem ter gênero. Assim, a relação entre sexo e gênero é bem clara: sexo é um atributo de 1ª ordem, enquanto gênero é um atributo de 2º ordem que se refere ao sexo, mas não se reduz a ele.

Por fim, algumas palavras sobre sua tentativa de tirar a credibilidade de Daphna et al, 2015. Ele demonstra não ter lido as respostas que ela (e demais autores do paper) deram aos comentários críticos. Ela já aceitava que poderíamos prever com certo grau de acurácia, a partir da composição de um cérebro, qual o sexo provável da pessoa que tem aquele cérebro. Mas ela negava o inverso: a partir do sexo da pessoa, qual a provável composição do cérebro. Inclusive o fato dela aceitar isso antes mesmo dos comentários críticos formulados a esse paper de 2015 pode ser demonstrado por se checar o paper dela (de sua exclusiva autoria) de 2011, “Male or Female? Brains are Intersex”, no Frontiers of Integrative Neuroscience.

In claiming that brains do not have sex (i.e., that brains cannot be divided into “male” brains and “female” brains), I do not claim that we cannot predict one’s sex on the basis of the structure of his/her brain. The latter would be possible with accuracy above chance if the “male”/”female” form of a sufficient number of non-dimorphic sex differences were known (although it would be much more accurate and easy to predict one’s sex according to the form of his/her external genitalia). We are discussing here the reverse problem, that is, whether we can predict the structure of one’s brain on the basis of one’s sex. The findings reviewed here lead to the conclusion that although we can predict that on average, females will have more brain characteristics with the “female” form than with the “male” form and vice versa for males, we cannot predict the particular array of “male/female” brain characteristics of an individual on the basis of her/his sex. (DAPHNA, 2013, p. 2-3)

Eu já referi qual é o argumento dela no texto original. Ela não nega que haja diferenças no cérebro entre os sexos. O que ela nega é que haja dismorfismo. Genitálias são claramente dismórficas. Nós olhamos para alguém de um sexo e já sabemos de que modo sua genitália é com grande acurácia, sendo raros os casos de interssexualidade. Em relação ao cérebro, se usarmos o mesmo padrão que usamos para genitálias (se elas são masculinas, femininas ou interssexuais), somos forçados a concluir que os cérebros são interssexuais. De fato, ela em co-autoria com Anne Fausto-Sterling tem um paper só pra discutir esse aspecto conceitual: “Beyond sex differences: new approaches for thinking about variation in brain structure and function” (2016), publicado na Philosophical Transactions of Royal Society B. Um trecho:

McCarthy & Konkle made precisely these points in a carefully crafted article in which they distinguished between sex dimorphism and sex difference. In this opinion piece, they argued that we apply the term sexual dimorphism only to those aspects of difference—for example, male and female genitalia or X and Y chromosomes—that truly come (or nearly so) in just two forms. McCarthy & Konkle argued that scientists use care not to refer to male and female brains as dimorphic when actually referring to sex difference, as in most mammals sex-related brain differences consist of overlapping populations with mean differences. Indeed, sexual dimorphism is extremely rare (if it exists at all) in the human brain (e.g. [4,6–9]), including in regions showing very large differences between females and males (e.g. [10–16]). (DAPHNA, FAUSTO-STERLING, 2016)

Então, ao contrário do que Eli pensa, a publicação do artigo de Daphna et al, 2015, não foi um equívoco do PNAS e está baseada em sólida pesquisa anterior e posterior, que articula uma série de considerações conceituais e empíricas em sua crítica ao tratamento do cérebro como possuindo dismorfismo sexual, ao contrário de apenas diferença.

P.s. para aprofundamento na discussão sobre ontologia social e gênero, recomendo os papers “Gender is a Natural Kind with a Historical Essence” por Theodore Bach (2012) e “The Social Construction of Human Kinds” por Ásta Kristjana Sveinsdóttir (2013). Em relação a como construtivismo social e naturalismo podem ser compatíveis e, portanto, como falar em construção social não implica em aderência ao pós-modernismo e posições similares, recomendo novamente Ron Mallon, em seu paper “A Field Guide to Social Construction” (2007).

Referências:

DAPHNA, Joel. Male or Female? Brains are Intersex. 2011. (http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3176412/pdf/fnint-05-00057.pdf)

DAPHNA, Joel et al. Sex beyond the genitalia: The human brain mosaic. 2015. (http://www.pnas.org/content/112/50/15468.short)

DAPHNA, Joel; FAUSTO-STERLING, Anne. Beyond sex differences: new approaches for thinking about variation in brain structure and function. 2016. (http://people.socsci.tau.ac.il/mu/daphnajoel/files/2016/02/JoelFaustoSterling2016.pdf)

KHALIDI, Muhammad Ali. Natural Categories and Human Kinds: Classification in the Natural and Social Sciences. 2015. (http://www.cambridge.org/us/academic/subjects/philosophy/philosophy-science/natural-categories-and-human-kinds-classification-natural-and-social-sciences?format=PB)

MILKMAN, Roger. A Simple Exposition of Jensen’s Error. 1978. (http://jeb.sagepub.com/content/3/3/203.abstract)

STRASSMANN, Joan E.; QUELLER, David C. Evolution of cooperation and control of cheating in a social microbe. 2011. (http://www.pnas.org/content/108/Supplement_2/10855.full.pdf)

 

 

 

 

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