Apropriação cultural ou racismo?

Vi recentemente no facebook uma ilustração que me parece ser a melhor explicação do que haveria de moralmente errado no que alguns ativismos (especialmente no movimento negro) entendem como “apropriação cultural”. Trata-se da imagem abaixo:

apropriação cultural

(Fonte: page Black Health Goddesses, créditos da imagem para Shannon Wright)

A metáfora utilizada é a da nota para um projeto em um contexto educacional (ou profissional): “Se você não entende apropriação cultural, imagine trabalhar em um projeto e conseguir um F, e então alguém copia você e consegue um A pelo seu trabalho.”  A imagem sugere que um exemplo disso é que o cabelo crespo das pessoas negras é tratado em geral como “feio”, enquanto que um corte de cabelo que imita o aspecto crespo em pessoas não-negras (chamado de cornrow) é visto como “bonito”.Assim, seguindo a analogia, o cabelo crespo de pessoas negras recebe um “F”, enquanto a imitação desse cabelo crespo por pessoas não-negras recebe um “A”, o que seria injustificado.

Concordo com a imagem em considerar tal cenário moralmente problemático. Não entrarei na discussão se o exemplo do corte de cabelo “imitando o crespo” por pessoas brancas é um bom exemplo disso ou não. O que desejo endossar explicitamente aqui é que é moralmente ruim que determinado traço cultural ou étnico seja tratado como ruim quando pessoas de certo background étnico/racial/cultural o adotam ou possuem, enquanto é tratado como bom quando as pessoas de outro background étnico/racial/cultural o adotam ou possuem, apenas em razão dessa diferença em background, sendo as primeiras em geral pertencentes ao background socialmente marginalizado, como pessoas negras e indígenas, e as segundas ao background socialmente favorecido, como pessoas brancas.

Portanto, estou de acordo com os ativistas contrários à apropriação cultural que isso é moralmente ruim. Contudo, discordo deles que o conceito “apropriação cultural” seja adequado ou necessário em nosso vocabulário moral para que questionemos moralmente esse tipo de tratamento diferenciado, e discordo de pelo menos parte deles que entendem que, em razão do aspecto questionável desse cenário, as pessoas do background étnico/racial/cultural socialmente favorecido deveriam se abster de adotar ou possuir aquele traço cultural ou étnico “imitado/copiado”.

O erro envolvido em ‘dar o A para um e F pro outro’ (metaforicamente) apenas em razão de serem de diferentes raças/etnias/culturas não está em ‘não preservar a cultura X ou Y’, mas sim em um viés racista de tratar o que é feito por um como menos valioso do que quando feito pelo outro apenas em razão de seu background étnico/racial/cultural diferenciado.

Entender que esse tratamento socialmente diferenciado é negativo por si só não nos compromete com a aceitação de nenhuma obrigação para manter a cultura das pessoas negras (ou de outras pessoas de background desfavorecido socialmente) separada ou “não imitada” pela cultura das pessoas brancas ou pelas pessoas brancas individualmente. O problema social do tratamento diferenciado se resolve por vindicar que o traço seja tratado como valioso quando é usado pelas pessoas negras também, não impedir que as brancas o usem. Portanto, não é necessário achar que pessoas brancas não deviam usar adereços/traços de culturas não brancas.

Como alguém poderia estabelecer que, a partir do erro moral desse tratamento diferenciado, as pessoas brancas deviam se abster de usar adereços/traços de culturas não brancas?

Como já dito, não basta apenas invocar que esse tratamento diferenciado é errado, porque ele é errado em razão do viés racista de quem trata diferencialmente entre o uso daquele traço por pessoas de uma raça/etnia/cultura socialmente desfavorecida e o uso daquele traço por pessoas de outra raça/etnia/cultura socialmente favorecida, não de algum viés racista presumido entre as pessoas da raça/etnia/cultura socialmente favorecida que usam aquele traço.

O defensor dessa ideia de que pessoas brancas deviam se abster de usar adereços/traços de culturas não brancas precisa defender a mais que há um dever moral relativo à preservação  das culturas não brancas de forma incólume, sem imitação pela cultura europeia/de descendência europeia ou pessoas brancas. Esse dever não se estenderia à preservação da cultura européia ou da descendência européia e, portanto, não impediria pessoas não brancas de usar adereços/traços da cultura ‘branca’. Por fim, esse dever de preservação cultural pode ser um fim em si mesmo ou um meio para alcançar outro fim moralmente legítimo (até onde eu sei, alguns ativistas afirmam que esse objetivo seria o ‘protagonismo’ na luta negra ou indígena).

Um ponto importante: não deve ser confundido esse dever de preservação cultural ‘anti-imitações’ com o direito ou liberdade das minorias de preservarem sua cultura. Negar às minorias o direito de preservar sua cultura seria um erro evidente. Aqui o ponto é se há um dever de não imitar traços de uma cultura minoritária que não seja a sua enquanto pertencente a um background étnico/racial/cultural socialmente favorecido.

Um argumento em prol desse dever moral de preservação cultural ‘anti-imitações’ pode ser fornecido? Acredito que não.

Temos razões independentes fortes para considerar que não existe esse dever, razões estas que são relacionadas desde ao valor da liberdade individual para adotar diferentes estilos de vida e culturas até considerar o modo de entender a dinâmica cultural pressuposto por esse dever como simplificador e limitante (portanto, inadequado), entre outras. Além disso, o defensor desse dever moral ainda tem a dificuldade de demonstrar o porquê de não ser discriminatório considerar que as pessoas europeias ou de descendência europeia não podem querer preservar sua cultura incólume às imitações pelas pessoas de outras etnias/raças/culturas também, um ônus que não somente é mais difícil de demonstrar do que muitos desses defensores parecem achar, como também levanta questões importantes (pragmáticas ou não) a respeito da relação entre política identitária em prol das minorias à esquerda e o ressurgimento do nacionalismo branco/europeu à direita.

Dessa forma, como o conceito de “apropriação cultural” foca a questão em termos de preservar culturas a salvo de imitações e parece envolver a ideia de que existe esse dever preservacionista, esse conceito não é adequado para explicarmos o que há de ruim no cenário da imagem. O que há de ruim é entendido sem apelo a tal dever, com base no viés racista que leva a esse tratamento social diferenciado. Inclusive a explicação do erro disso com base no racismo é suficiente para que todos considerem errado esse tratamento diferenciado (independente se aceitam ou não uma adicional obrigação por parte das pessoas brancas de se absterem de imitar traços da cultura negra).

Logo, minha conclusão é que o caráter moralmente questionável desse problema social é suficientemente explicado pelo conceito de “racismo”, não pelo conceito de “apropriação cultural”, e, assim, o reconhecimento desse problema por si só não provê quaisquer razões para adotarmos esse último conceito.

Nesse ponto, considero que uma perspectiva interessante trazida ao debate sobre a política da identidade foi feito pelo filósofo negro (que cresceu em Gana, país africano) Kwame Anthony Appiah

appiah

(Foto do filósofo Appiah. Fonte: Wikipédia)

 

A defesa de uma posição cosmopolita dentro da política de identidade é uma de suas principais contribuições à filosofia política e certamente deve ser de interesse para todos aqueles que se interessam por movimentos em defesa de minorias. Recomendo o capítulo “Identity, Authenticity, Survival: Multicultural Societies and Social Reproduction” escrito por ele na coletânea “Multiculturalism: examining the politics of recognition” (edição brasileira:”Multiculturalismo: Examinando a Política de Reconhecimento”) e o ensaio “The Case for Contamination“.

Assim, termino o presente texto deixando um trecho do capítulo citado de Appiah que considero pertinente para esse debate. Enquanto não seja diretamente sobre pessoas brancas imitarem traços da cultura negra ou indígena, traz à tona a questão das identidades sociais de pessoas negras e homossexuais, o modo como elas foram tradicionalmente pensadas negativamente mas agora novas formas de pensá-la positivamente tem emergido para que negros e homossexuais sejam respeitados enquanto negros e homossexuais e, por fim, como tudo isso se relaciona com a identidade individual das pessoas negras e homossexuais. Vale muito a pena para reflexão:

These old restrictions suggested life-scripts for the bearers of these identities, but they were negative ones. In order to construct a life with dignity, it seems natural to take the collective identity and construct positive life-scripts instead. An African-American after the Black Power movement takes the old script of self-hatred, the script in which he or she is a nigger, and works, in community with others, to construct a series of positive Black life-scripts. In these life-scripts, being a Negro is recoded as being Black, and this requires, among other things, refusing to assimilate to white norms of speech and behavior. And if one is to be Black in a society that is racist then one has to deal constantly with assaults on one’s dignity. In this context, insisting on the right to live a dignified life will not be enough. It will not even be enough to require being treated with equal dignity despite being Black, for that will require a concession that being Black counts naturally or to some degree against one’s dignity. And so one will end up asking to be respected as a Black.

The same example holds for gay identity. An American homosexual after Stonewall and gay liberation takes the old script of self-hatred, the script of the closet, the script in which he is a faggot, and works, in community with others, to construct a series of positive gay life-scripts. In these lifescripts, being homosexual, is recoded as being gay, and this requires, among other things, refusing to stay in the closet. And if one is to be out of the closet in a society that deprives homosexuals of equal dignity and respect then one has to deal constantly with assaults on one’s dignity. In this context, the right to live as an “open homosexual” will not be enough. It will not even be enough to be treated with equal dignity despite being homosexual, for that will require a concession that being homosexual counts naturally or to some degree against one’s dignity. And so one will end up asking to be respected as a homosexual

This is the sort of story Taylor tells, with sympathy, about Quebec. I am sympathetic to the stories of gay and black identity I have just told. I see how the story goes. It may even be historically, strategically necessary for the story to go this way. But I think we need to go on to the next necessary step, which is to ask whether the identities constructed in this way are ones we—I speak here as someone who counts in America as a gay black man—can be happy with in the longer run. Demanding respect for people as blacks and as gays requires that there are some scripts that go with being an African-American or having same-sex desires. There will be proper ways of being black and gay, there will be expectations to be met, demands will be made. It is at this point that someone who takes autonomy seriously will ask whether we have not replaced one kind of tyranny with another. If I had to choose between the world of the closet and the world of gay liberation, or between the world of Uncle Tom’s Cabin and Black Power, I would, of course, choose in each case the latter. But I would like not to have to choose. I would like other options. The politics of recognition requires that one’s skin color, one’s sexual body, should be acknowledged politically in ways that make it hard for those who want to treat their skin and their sexual body as personal dimensions of the self. And personal means not secret, but not too tightly scripted. I think (and Taylor, I gather, does not) that the desire of some Quebecois to require people who are “ethnically” francophone to teach their children in French steps over a boundary. I believe (to pronounce on a topic Taylor does not address) that this is, in some sense, the same boundary that is crossed by someone who demands that I organize my life around my “race” or my sexuality.

It is a familiar thought that the bureaucratic categories of identity must come up short before the vagaries of actual people’s lives. But it is equally important to bear in mind that a politics of identity can be counted on to transform the identities on whose behalf it ostensibly labors. Between the politics of recognition and the politics of compulsion, there is no bright line. (APPIAH, 1994, p. 161-163)

Referências:

APPIAH, Kwame Anthony. “Identity, Authenticity, Survival: Multicultural Societies and Social Reproduction”. In: GUTMANN, Amy. (ed.) Multiculturalism: examining the politics of recognition. 1994.

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