O que a tomada de decisão no jogo do Ultimato revela sobre a explicação do comportamento?

No chamado jogo do Ultimato (Ultimatum Game), dois jogadores têm a oportunidade de dividir uma quantia de dinheiro. Um deles recebe a quantia e decide qual será sua oferta sobre como o dinheiro será dividido entre os dois. Por exemplo, se for atribuído a ele uma quantia de R$100,00, ele pode fazer uma oferta de distribuição igual (R$50,00 para cada um), ou de distribuição desigual (por exemplo, R$90,00 para si mesmo, e apenas R$10,00 para o outro). Então, o segundo jogador terá duas opções: aceitar ou rejeitar a oferta. Se aceita, o dinheiro é dividido conforme a oferta. Se rejeita, ambos os jogadores nada receberão.

A teoria econômica padrão prevê que agentes auto-interessados, e cujas escolhas são racionais (ou seja, consistentes entre si, de modo que se você prefere A à B e B à C, você também prefere A à C), aceitarão qualquer oferta, desde que recebam uma quantia maior que zero. Isso porque, por exemplo, mesmo R$1,00 é melhor do que não ganhar nada.

Ocorre que é sabido que, ao menos em sociedades industrializadas, geralmente as ofertas giram em torno de 50% para cada, enquanto as ofertas de baixo valor (em torno de 20-30% do total para o 2º jogador) tem uma chance de 50% de serem rejeitadas. A tendência, portanto, é que os jogadores rejeitem ofertas cuja consequência seja a de que eles ganharão apenas 30% ou menos da quantia estipulada. Trata-se de um achado experimental bastante robusto.

Como se explica este desvio em relação à previsão da teoria econômica padrão?

Nos experimentos já realizados em relação a este jogo, notou-se que a rejeição das ofertas de baixo valor era acompanhada por declarações de que referida oferta era injusta ou não equitativa.

Esta “aversão à desigualdade” é encontrada em primatas não-humanos, como os macacos-capuchinhos, e o pronunciado desenvolvimento deste senso de equidade em seres humanos foi uma vantagem evolucionária, uma vez que, durante a evolução da cooperação, se tornou crítico para os indivíduos comparar seus próprios esforços e recompensas com aqueles dos outros, e ser capaz de reações negativas quando as expectativas são violadas.

Deve-se destacar que nossos ancestrais eram caçadores-coletores que praticavam caça conjunta e, portanto, o desenvolvimento de regras que governassem a distribuição do alimento obtido era crucial à cooperação para sua realização, que, por sua vez, era indispensável para fornecer uma dieta com quantidade substancial de carne que pudesse “custear” as necessidades energéticas aumentadas de um cérebro mais pesado (WILSON, 2013, p. 63).

De fato, como Gerald Gaus nos comenta, há uma tendência no ser humano em tratar o produto de modernas economias complexas de mercado como se fosse o produto de uma caçada conjunta que devesse ser distribuído conforme normas distributivas que evoluíram para esse cenário ancestral – ainda que isso possa piorar a condição dos mais pobres, por conta do conflito entre equidade e bem-estar humano gerado por esta aplicação indevida.

Mas qual seria o mecanismo causal próximo desse comportamento de rejeitar ofertas injustas, não equitativas, no jogo do Ultimato?

No clássico estudo de neuroeconomia “The neural basis of economic decision-making in the Ultimatum Game“, os pesquisadores (Sanfey AG, Rilling JK, Aronson JA, Nystrom LE, Cohen JD) usaram técnicas de Ressonância Magnética Funcional  (RMf) para monitorar a atividade cerebral dos jogadores. A RMf  é uma “técnica de imagem que usa campos magnéticos para construir uma representação detalhada, em três dimensões, dos níveis de atividade nas várias partes do cérebro em determinado momento (…) se baseia no aumento do consumo de oxigênio para produzir imagens da atividade cerebral” (STENBERG, Psicologia Cognitiva, p. 229). Duas áreas do cérebro destacaram-se neste experimento: córtex pré-frontal dorsolateral (sistema cognitivo) e ínsula anterior (sistema emocional).

O resultado foi bastante interessante: durante as ofertas de baixo valor, o 2º jogador apresentava ativação em ambas as áreas do cérebro, como se o cérebro estivesse em conflito entre a racionalidade de otimização econômica (ao qual tenderia o córtex pré-frontal dorsolateral) e a aversão emocional à distribuição não equitativa (ao qual tenderia a ínsula anterior).

Dessa forma,eles encontraram que a rejeição de ofertas injustas implica em maior ativação da ínsula anterior do que do córtex pré-frontal dorsolateral, enquanto ofertas aceitas apresentavam maior ativação do córtex pré-frontal dorsolateral que da ínsula anterior.

Importante destacar ainda, ao comparar-se ofertas não equitativas feitas por jogadores humanos com ofertas não equitativas similares feitas por computadores, percebeu-se que a ativação foi maior quando a oferta provinha de outro ser humano, o que sugere que a magnitude da ativação não é somente uma função da quantidade de dinheiro oferecida ao participante, mas que é sensível ao contexto de um tratamento (percebido como) injusto recebido de outra pessoa.

Portanto, o comportamento de aceitar ou rejeitar uma oferta não equitativa é explicado por meio da interação entre duas áreas do cérebro, sendo que o resultado específico será determinado por qual área tiver maior ativação.

Isso lança luz sobre um equívoco comum no entendimento da ciência comportamental humana: pensar que, como postulamos mecanismos psicológicos específicos para exercer funções específicas (sendo o conjunto desses mecanismos a mente), isso significa que o comportamento será determinado exclusivamente por um único mecanismo.

Por exemplo: Um conhecido resultado da psicologia evolucionária afirma que o mecanismo psicológico masculino ligado ao sexo tem uma predisposição para interação sexual de curto prazo com múltiplas parceiras. Isso apresenta evidentes vantagens evolucionárias como estratégia reprodutiva, conforme a teoria da seleção natural.

Mas isso não significa que todos os homens trairão ou terão uma vida sexual mais “promíscua”. Presumivelmente, o comportamento masculino nessa seara dependerá não somente do mecanismo psicológico ligado ao sexo, mas também, hipoteticamente, do mecanismo psicológico ligado à observância de regras culturais, ou a um mecanismo de empatia (nesse caso, para com uma parceira à qual se prometeu fidelidade), os quais tenderiam a um comportamento menos “promíscuo”.

Portanto, neste exemplo, o comportamento sexual masculino resultaria da interação entre mecanismos psicológicos que atuam como “vetores” em direções distintas. E, se esta hipótese for correta, poderíamos observar este conflito com técnicas de neuroimagem, caso soubéssemos as áreas cerebrais pertinentes.

Conclusão: A tomada de decisão no Jogo do Ultimato mostra uma importante faceta da explicação do comportamento humano, qual seja, a necessidade de levar-se em conta a interação entre processos neurobiológicos/psicológicos distintos (e até mesmo em direções contrapostas quanto ao resultado comportamental almejado) na determinação da resposta comportamental.

O ‘estado da arte’ da psicologia evolucionária – parte 4 (modularidade da mente)

Dando continuidade às três postagens anteriores desta série, aqui exporei o que o paper “Evolutionary Psychology: Controversies, Questions, Prospects, and Limitations”, escrito por Confer, Easton, Fleischman, Goetz, Lewis, Perilloux e Buss em 2010, e recomendado pelo Jerry Coyne em seu blog, tem a nos informar acerca de uma tese central da psicologia evolucionária quanto ao design da mente: sua modularidade, pela qual a mente não funciona como um “mecanismo de domínio geral”, mas sim como um conjunto de “mecanismos de domínios específicos” (ao qual pode estar associado o mecanismo de domínio geral). Esse questão é trabalhada nas páginas 114-115 do paper.

[P.S: A questão da cultura e da socialização é tratada na seção seguinte do paper, que será objeto da parte 5 desta série de postagens, portanto, não é contra este tipo de explicação que a presente seção está lidando]

Um questionamento que às vezes é feito em relação à psicologia evolucionária é uma suposta falta de parcimônia explicativa: postular um mecanismo de racionalidade de domínio geral seria mais parcimonioso que postular muitos mecanismos diferentes de domínio específico, contudo, a disciplina adota a ideia da mente como conjunto de vários mecanismos diferentes. O caminho tomado por psicólogos que rejeitam a psicologia evolucionária é justamente postular que o mecanismo de domínio geral poderia ser uma explicação mais satisfatória para o comportamento humano.

Mas existem motivos para duvidar que o comportamento humano seja inteiramente derivado de mecanismos de racionalidade “comum”, de domínio geral. A emoção do ciúme romântico provê um exemplo: apenas quando psicólogos evolucionários hipotetizaram diferenças entre os sexos quanto a esse aspecto comportamental, que tais diferenças foram descobertas.

Essa diferença seria previsível, em vista da “incerteza da paternidade“, que foi um problema adaptativo persistente para os homens, de tal modo que o ciúme masculino seria especialmente provocado por indícios de infidelidade sexual, enquanto o feminino poderia estar centrado em infidelidade emocional (isto é, uma distração de longo prazo de comprometimento e recursos). Ambos os sexos experimentam os dois tipos de ciúme, contudo, evidência empírica abundante de estudos empregando mais que meia dúzia de diferentes métodos experimentais (desde testes relacionados com a memória até exames neurológicos quanto à ativação neural) apoiam a existência de diferenças entre os sexos na ponderação relativa dada aos indícios de infidelidade.

Foi apenas após esta descoberta que outros ofereceram explicações post hoc para sua existência invocando a racionalidade de domínio geral, tal como “racionalidade combinada com o desejo geral das pessoas em manter o que é seu”. Mas perceba: nenhuma explicação de domínio geral previu a diferença entre os sexos na experiência do ciúme. As explicações existentes são reações à descoberta proveniente de uma predição bem-sucedida utilizando-se o raciocínio da psicologia evolucionária.

Quais seriam, então, as principais desvantagens de apelar para explicações de domínio geral? As seguintes: falha preditiva, explosão combinatória, pobreza do estímulo e especificidade de contexto.

a) Falha preditiva:

O pensamento racional de domínio geral é tipicamente invocado como uma explicação post hoc para achados empíricos novos descobertos como consequência de novas hipóteses da psicologia evolucionária. Isso ocorre porque, de fato, é difícil mencionar casos em que novos achados empíricos foram preditos ou descobertos por meio de explicações dessa natureza. Por consequência, parece faltar poder preditivo e heurístico.

Hipóteses sobre prioridades motivacionais são exigidas para explicação de fenômenos empiricamente descobertos, ainda que elas não sejam contidas nas teorias da racionalidade de domínio geral.

Um mecanismo de domínio geral, no caso do ciúme, não poderia explicar como seria “racional” para os homens se preocuparem com indícios de certeza de paternidade ou para mulheres se preocuparem com indícios emocionais de desvio de recursos. Mesmo assumindo que os homens “racionalmente” projetam que outros homens tendo sexo com suas parceiras leva à incerteza da paternidade, por que os homens, em primeiro lugar, se preocupariam com o adultério feminino?

Para explicar diferenças entre os sexos nas preocupações motivacionais, o mecanismo de “racionalidade” deve ser associado com hipóteses auxiliares que especificam as origens das diferenças sexuais nas prioridades motivacionais.

Portanto, ao requerer fatores explicativos adicionais post hoc para cada novo achado empírico, postular “racionalidade” é que sofre do problema de falta de parcimônia.

b) Explosão combinatória:

Teorias de racionalidade de domínio geral implicam um cálculo deliberado de fins e um espaço de amostragem de meios para alcançar esses objetivos. Realizar as computações necessárias para examinar essa amostragem requer mais tempo do que é disponível para resolução de muitos problemas adaptativos, que devem ser resolvidos em tempo real.

Por exemplo, um homem volta do trabalho mais cedo, e descobre sua esposa na cama com outro homem. Essa circunstância tipicamente leva para ciúme imediato, raiva, violência e às vezes homicídio. Em uma situação dessas, o homem para para racionalmente deliberar se aquele ato lança dúvidas sobre sua paternidade de uma prole futura e em última instância sobre sua aptidão (fitness) reprodutiva, para depois ficar enraivecido como consequência de deliberação racional?

A preditibilidade e rapidez da resposta masculina aos indícios de ameaças à paternidade mostra quem um circuito psicológico especializado entrou em ação, ao invés de um mecanismos de racionalidade deliberativa de domínio geral.

Adaptações psicológicas direcionadas, por sua ativação em resposta aos indícios de seus problemas adaptativos correspondentes, operam mais eficientemente e efetivamente para muitos desses problemas. Um mecanismo de domínio geral precisaria avaliar todas as alternativas que pudesse definir, de modo que, sendo as permutações como elas são, alternativas aumentam exponencialmente na medida em que a complexidade do problema aumenta.

Portanto, a explosão combinatória (lembre de análise combinatória na matemática) paralisaria um mecanismo de domínio geral, dado o volume de computação necessário para conseguir decidir determinado comportamento.

c) Pobreza do estímulo:

A infidelidade sexual do parceiro sexual feminino tem sido estatisticamente associada ao aumento da incerteza na paternidade ao longo do tempo evolucionário.

Entretanto, é altamente improvável que os homens pudessem aprender essa regularidade estatística durante seu desenvolvimento.

Para fazê-lo, os homens teriam de observar uma grande amostragem de instâncias de infidelidade sexual (que tendem a ser realizadas em segredo), e, então, associá-las com indícios potencialmente detectáveis de ausência de paternidade que poderiam ser exibidos nove meses, ou mesmo vários anos, mais tarde (por exemplo, falta de semelhança fenotípica com o pai putativo).

Em contraste a isso, a seleção natural favoreceria adaptações especializadas que exploram regularidades estatísticas que não sejam detectáveis ontogeneticamente.

d) A especificidade ao contexto da racionalidade:

De uma perspectiva evolucionária, não existe nenhum critério de domínio geral para “racionalidade”.

É frequentemente reprodutivamente racional para um homem solteiro tomar riscos de vida para mudanças de curso, descontando o futuro, contudo, tomar esse tipo de risco seria reprodutivamente irracional da perspectiva de um homem que tem uma esposa e três filhos pequenos para proteger.

O que poderia ter sido racional da perspectiva de um homem atraente de alto status em nosso passado ancestral (por exemplo, assegurar múltiplas parceiras através de poliginia ou de contato sexual de curto prazo) poderia ser evolutivamente irracional da perspectiva de uma mulher atraente de alto status, que poderia ficar melhor assegurando um parceiro de longo prazo de alta qualidade genética que estivesse disposto e capacitado a investir nela e em sua prole.

Portanto, o “racional” difere entre problemas adaptativos, sexos, faixa etária e circunstâncias de vida, não existe nenhum critério de domínio geral único e unívoco para a racionalidade.

A conclusão desta parte do paper, portanto, é que mecanismos de domínio geral como “a racionalidade” falham em prover explicações alternativas plausíveis para fenômenos psicológicos descobertos por psicólogos evolucionários, por serem invocados post hoc, falharem em gerar novas predições empíricas e em especificar prioridades motivacionais subjacentes, sofrerem de explosão combinatória paralisadora e implicarem na detecção de regularidades estatísticas que não podem ser, ou que são improváveis de serem, aprendidas ou deduzidas ontogeneticamente. Não há também um único critério de racionalidade que seja independente do domínio adaptativo.

Obs: Notei que, nesta seção do paper, é reiterado o exemplo da diferença entre os sexos quanto ao ciúme (estatisticamente). Isso é uma vantagem, do ponto de vista didático, pois permite explorar como a explicação baseada em mecanismos de domínio específico não sofrem dos mesmos problemas que a explicação baseada em mecanismo de domínio geral, contudo, também é uma desvantagem, pois poderia parecer ao leitor que há uma dependência de que esta hipótese sobre a diferença entre a psicologia masculina e feminina seja verdadeira. Tal dependência não ocorre, uma vez que o ponto central desta seção é mostrar que o processamento de informação no cérebro é tanto mais adaptativo quanto mais rápido ele possa lidar com regularidades estatísticas que foram problemas adaptativos persistentes no tempo evolucionário, e que, portanto, não é plausível que a seleção natural tenha deixado que cada geração de seres humanos tenha de aprender, a partir do zero, como lidar com estas regularidades estatísticas. Portanto, torna-se plausível que a mente sofra adaptações no sentido de processar a informação para determinado problema adaptativo de um modo específico, centrado nas especificidades daquele problema.

Referências:

COYNE, Jerry. Is evolutionary psychology worthless? 10/12/2012 –> http://whyevolutionistrue.wordpress.com/2012/12/10/is-evolutionary-psychology-worthless/

CONFER, Jaime C; EASTON, Judith A.; FLEISCHMAN, Diana S.; GOETZ, Cari D.; LEWIS, David M. G.; PERILLOUX, Carin; BUSS, David M. Evolutionary Psychology: Controversies, Questions, Prospects, and Limitations. In: American Psychological Association, Vol. 65, No. 2, 2010, p.110 –126 –>  http://homepage.psy.utexas.edu/homepage/group/busslab/pdffiles/evolutionary_psychology_AP_2010.pdf

Existem explicações biológicas para a cultura de estupro?

Quem acompanha o blog (especialmente quem tenha lido meu artigo acadêmico “Sobre o Naturalismo em Ética e Política”, bem como as postagens do blog onde discuto o assunto: aqui, aqui e aqui), sabe que eu defendo o naturalismo filosófico, e, portanto, entendo que devemos pensar as questões sobre conhecimento a partir da ciência e levando-se em conta o rigor epistêmico da nossa ciência mais robusta e bem-sucedida em termos preditivos (as ciências naturais).

Além disso, já deixei claro que sou contrário ao Modelo Padrão das Ciências Sociais (aqui) e que defendo a rejeição de hipóteses nas ciências humanas que sejam incompatíveis com conhecimento oriundo das ciências naturais (aqui). Concordo com Robert Foley:

“A capacidade do Modelo Padrão das Ciências Sociais de explicar os humanos, em última análise, repousa na adequação do conceito de cultura. Como conceito analítico e evolucionário, essa adequação é passível de questionamento. (…) Os humanos anteriores à humanidade aqui descritos são prova da inadequação da cultura como instrumento analítico, uma vez que está claro que os hominídeos extintos situam-se exatamente sobre o divisor de águas daquilo que, em geral, é entendido por cultura. A complexidade dos comportamentos dos quais eles eram capazes não pode ser restringida à cultura, e o fato de termos evitado por completo a abordagem cultural permitiu que aprendêssemos muito mais.” (FOLEY, 2003, p. 246-247)

Foley abre algumas exceções, como os modelos de coevolução gene-cultura, uma vez que aquilo que é geralmente referido pelo termo “cultura”, especialmente os construtos mentais que estão na base da complexidade do comportamento  humano, pode ter grande impacto sobre o modo como a evolução passou a operar. Contudo, esses modelos reduzem a cultura a um conceito muito mais limitado e específico do que aquele geralmente empregado no Modelo Padrão das Ciências Sociais (FOLEY, 2003, p. 247). Por exemplo, temos o “modelo de transmissão (cultural) de Henrich”:

“Henrich’s model (30) demonstrates that under certain critical conditions, directly biased transmission can lead to cumulative adaptation of a culturally inherited skill, even when the transmission process is inaccurate. Each individual in a population of size N has a z value, zi, that measures their level of ability at some cultural skill or in some cultural domain. Members of this population attempt to learn from the maximally skilled individual (i.e., direct bias), but an imperfect learning process leads on average to a loss of skill (a reduction in z value), determined by the parameter α. However, individual errors or “inaccurate inferences” during transmission (the extent of which are governed by a parameter β) occasionally allow some learners to acquire a z value greater than that of their model. Henrich shows that as population size, N, increases, the more likely it is that the positive combined effect of these occasional inaccurate inferences and the selective choice of cultural model to copy will outweigh the degrading effect of low-fidelity transmission. This results in an increase in the mean level of skill in the population, z. He terms this “cumulative adaptive evolution” and derives the critical population size necessary, N*, for this to occur for specific ratios of α and β (30,31).” (POWELL ET AL, 2009, p. 1.300)

Então, você pode estar se perguntando: como um sujeito como você pode adotar o termo “cultura de estupro”, e ainda assim ser um crítico das abordagens “culturalistas” ao ser humano? Você não estaria abrindo um precedente perigoso, aceitando uma abordagem feminista ao invés de uma científica para abordar um fenômeno social tal como o modo como sociedades lidam com diversas instâncias do estupro?

Índice

Na verdade, eu não estou abrindo exceção nenhuma à minha adesão ao pensamento científico, e ao estudo das causas inatas e biológicas do comportamento humano. Eu discordo frontalmente daquilo que Pinker retratou como sendo “feminismo radical de gênero” (a partir de uma distinção que já considerei em alguma medida insatisfatória, mas que agora vejo mais sua importância, sobre a qual escreverei futuramente):

“O feminismo de gênero afirma que as mulheres continuam a ser escravizadas por um difuso sistema de dominância masculina, o sistema de gênero, no qual ‘bebês bissexuais são transformados em personalidades do sexo masculino e do sexo feminismo, uns destinados a comandar, os outros a obedecer’. Opõe-se à tradição liberal clássica e vincula-se ao marxismo, pós-modernismo, construcionismo social e ciência radical. (…) O feminismo de gênero é uma doutrina empírica comprometida com três afirmações sobre a natureza humana. A primeira é que as diferenças entre homens e mulheres não têm nenhuma relação com a biologia, sendo 100% construídas socialmente. A segunda é que os humanos possuem um único motivo social – o poder – e que a vida social somente pode ser compreendida com base em como ele é exercido. A terceira é que as interações humanas emergem não dos motivos das pessoas ao lidar umas com as outras como indivíduos, mas dos motivos de grupos ao lidar com outros grupos – neste caso, o sexo masculino dominando o feminismo.” (PINKER, p. 461-462)

Não conheço a fundo como as principais expoentes desse feminismo de gênero justamente criticado por Pinker usam (e abusam) o termo “cultura de estupro”, mas eu entendo que essa terminologia não é um monopólio delas.

“Cultura de estupro” é uma abreviação útil para dizer algo como: “Elementos culturais que negligenciam/subestimam/normalizam certos tipos de estupro ou formas danosas (às vítimas) de lidar com ele, que fazem parte da cultura respeitável/padrão de uma sociedade”.

Eu já escrevi um texto no Mercado Popular, “Por uma trégua de 24 horas onde não há estupro (e nem cultura de estupro)“, onde explico o conceito, recorrendo à libertária bleeding heart Sarah Skwire, que propõe entender a cultura de estupro como um conjunto de círculos concêntricos que giram em torno do estupro.

Alguns exemplos de atividades enquadradas no conceito seriam: proteção legal para certos tipos de estupros, como o conjugal; o instinto de proteção institucional que vemos em caso de estupros ocorridos em quartéis, prisões, igrejas, campus universitários, etc.; a indiferença para com as vítimas e a má gestão das evidências físicas por parte da polícia e instalações médica; cobertura midiática que enfatiza o efeito do crime sobre os autores, não sobre as vítimas;  “cegueira cultural” aos estupros que não se conformam ao estereótipo padrão do “estranho salta de trás de arbustos, agarra a mulher, estupra e foge”; argumentos como “a vítima não deveria estar naquele lugar/beber/usar essa roupa/ir a essa festa”; pretextos do tipo “garotos serão garotos” ou “homens não podem ser estuprados”, etc.

Perceba que “cultura de estupro” é aplicado de forma graduada à proporção em que diferentes sociedades realmente apresentem esses elementos culturais em sua cultura “respeitável” ou “padrão”. Isso significa que, para os objetivos desta definição, excluímos as “subculturas criminosas”, como aquelas ligadas à pedofilia, por serem claramente desviantes em relação à cultura padrão e amplamente condenadas.

Veja que isso não me compromete com uma explicação específica sobre como esses elementos culturais, esses círculos concêntricos que compõem a “cultura de estupro”, emergem e tornam-se persistentes em sociedades específicas.

“Cultura de estupro”, portanto, é um termo observacional, uma forma útil de classificar uma série de práticas culturais. Não é uma explicação, mas sim algo que demanda uma explicação. E a explicação definitiva para semelhante fenômeno não reside simplesmente em “discriminação contra a mulher”, porque, mesmo enquanto este seja um fator próximo determinante e estreitamente associado, é também preciso explicar o porquê da discriminação contra a mulher emergir.

Inclusive, em certos casos, ocorre uma falácia de circularidade: determinado elemento cultural que se pretende explicar já supõe a discriminação contra a mulher e a discriminação contra a mulher ainda assim é usada como uma explicação.

Entendo que uma explicação naturalista/científica para a “cultura de estupro” perpassa por uma teoria mais ampla que dê conta, tanto da instância específica da “cultura de estupro” como do domínio mais geral do “controle da sexualidade feminina”. Por outro lado, a “cultura de estupro” precisa ser examinada por meio de uma teoria mais ampla que dê conta da coerção sexual em espécies não humanas.

Um campo promissor é compreender isso em termos da função a que serve o controle da sexualidade feminina. Sara Bizarro traz-nos o conceito de “angústia da paternidade”:

“De facto, o controle social da fecundidade das mulheres pode ser considerado como essencial pelo menos nas primeiras sociedades. Isto porque, segundo os antropólogos, o parentesco é a matriz essencial de qualquer relação social. As tribos não podem reproduzir-se exclusivamente dentro de si próprias (o incesto constante levaria ao desaparecimento da tribo). Como tal, a base da relação das tribos entre si está na troca de mulheres fecundas. Mas, para a união da tribo é necessário garantir a paternidade, principalmente a paternidade dentro da tribo e não, por exemplo, numa tribo inimiga. Para tal, é necessário que as mulheres estejam sobre a dominação dos homens, isto não porque elas sejam consideradas promíscuas à partida, mas porque a maternidade é evidente e a paternidade é apenas aparente. (…) A angústia da paternidade parece assim ser a resposta às perguntas iniciais: Porque é que a mulher sempre foi vista como inferior e, de algum modo, perigosa? Porque é que os homens se esforçaram por dominar as mulheres? O esforço masculino de domínio sobre o feminino parece ser uma tentativa de evitar a angústia da paternidade. Afinal a sabedoria popular portuguesa diz: “Filhos de minhas filhas meus netos são, filhos de meus filhos serão ou não”.” (Sara Bizarro, In: Intelecto nº 5)

Isso também pode ser encarado da perspectiva evolucionária (Sara Bizarro usa o conceito a partir de uma perspectiva etnográfica). O macho do Homo Sapiens geralmente utiliza uma estratégia reprodutiva que envolve, não apenas o simples ato da cópula, mas também a aquisição de recursos para a fêmea e a prole. Isso cria o risco de que se esteja adquirindo recursos para os filhos de outro macho, e esse é um exemplo de brecha que seria facilmente explorada por “estratégias evolucionárias parasitárias”. Como resultado, é favorecido um comportamento de controle da sexualidade da fêmea, para evitar que esta tenha filhos de outro macho.

Nesse sentido, nos esclarece Frans de Wall, em uma linguagem mais informal:

“Já se supôs que a família nuclear teria surgido originalmente de uma tendência do macho a acompanhar a fêmea com quem se acasalou para manter rivais infanticidas à distância. Essa prática poderia ter se expandido de modo a incluir o cuidado paterno com a prole. Por exemplo, o pai poderia ajudar a companheira a localizar árvores com frutos maduros, capturar e partilhar presas ou carregar os filhos. Ele próprio poderia ter se beneficiado do talento feminino para usar instrumentos de precisão (as fêmeas dos grandes primatas não humanos são mais hábeis do que os machos) e da coleta pela fêmea de nozes e frutas silvestres. A fêmea, por sua vez, pode ter começado a oferecer sexo para impedir que seu protetor fosse embora atrás de qualquer rabo-de-saia. Quanto mais ambos os lados investiam nesse arranjo, mais passava a estar em jogo. Assim, tornou-se cada vez mais importante para o macho que a prole de sua companheira fosse dele, e só dele.

Na natureza, não há almoço grátis. Se as bonobos fêmeas pagaram por seu arranjo com intumescimentos genitais contínuos, as mulheres pagaram pelo delas com a diminuição da liberdade sexual. E a motivação para o controle masculino só fez aumentar quando nossos ancestrais deixaram a vida nômade e passaram a acumular bens materiais. Além de transmitirem genes à geração seguinte, agora também legavam riqueza. Considerando a diferença de tamanho entre os sexos aliada à excelente cooperação entre os homens, é provável que a dominância masculina sempre tenha caracterizado nossa linhagem; portanto, a herança provavelmente acompanhou a linha paterna. Com cada homem tentando assegurar que as economias de toda a sua vida terminassem nas mãos certas, as de seus descendentes, tornou-se inevitável a obsessão por virgindade e castidade. O ‘patriarcado’, como é conhecido, pode ser visto simplesmente como uma consequência da ajuda masculina na criação da prole.” (DE WALL, p. 139-140)

É importante perceber que esta demanda evolucionária pelo controle da sexualidade feminina também teria como resultado o repúdio ao estupro. E de fato é possível perceber que todas as culturas humanas condenam alguma forma de estupro, em especial o violento praticado por desconhecidos. Mas não implica que todo estupro tivesse a mesma repressão. Por exemplo, a motivação do controle da sexualidade feminina para assegurar a paternidade da prole é neutra em relação ao estupro conjugal.

E aqui é importante perceber que a estratégia reprodutiva humana não envolve apenas a família nuclear, mas também a cópula casual, na margem. E aqui a coerção sexual poderia ser mesmo uma estratégia reprodutiva de última instância, extrema:

“O estudo científico do estupro e suas ligações com a natureza humana ganhou relevo no ano 2000 com a publicação de “A natural history of rape”. Thornhill e Palmer começaram com uma observação básica: um estupro pode resultar em concepção, a qual poderia propagar os genes do estuprador, incluindo qualquer gene que o houvesse tornado propenso a cometer estupro. Portanto, uma psicologia masculina que incluísse a capacidade de estuprar não teria sido excluída no processo de seleção natural, e poderia ter sido selecionada. Thornhill e Palmer argumentaram que o estupro provavelmente não é uma estratégia de acasalamento típica, devido ao risco de o homem ser ferido pela vítima e seus parentes e ao risco do ostracismo na comunidade. Mas poderia ser uma tática oportunista, tornando-se mais provável quando o homem fosse incapaz de obter o consentimento de mulheres, fosse alienado da comunidade (portanto não se intimidasse com o ostracismo) e estivesse a salvo de detenção ou punição (como em época de guerra ou pogrom). Thornill e Palmer esboçaram, então, duas teorias. O estupro oportunista poderia ser uma adaptação darwiniana que foi especificamente selecionada, como no caso de certos insetos que possuem um apêndice sem outra função além de restringir uma fêmea durante uma cópula forçada. Ou o estupro poderia ser subproduto de duas outras características da mente masculina: o desejo por sexo e a capacidade de praticar violência oportunista para atingir um objetivo.” (PINKER, p. 492-493)

Eu entendo que para muitas pessoas, seja de inclinação mais conservadora, seja de sensibilidade feminista, isso que tenho dito até agora possa soar duro, mesmo insensível. Mas isso aqui não é uma discussão sobre a moralidade ou a política do estupro, mas sim sobre a explicação científica do estupro. Nenhum tema pode ser tabu para que a ciência o examine. E os fatos podem ser duros. Como bem colocou John Stuart Mill, não há nada mais insensível que a lei da gravidade, que pode te fazer quebrar o pescoço, mas ninguém acha que isso seja argumento contra sua existência.

Contudo, o estudo evolucionário sobre o estupro mostra o quão esse crime é grave:

“A teoria de Thornhill e Palmer reforça muitos aspectos de uma análise do feminismo de equidade. Prognostica que, do ponto de vista de uma mulher, o estupro e o sexo consensual são totalmente diferentes. Afirma que a repugnância das mulheres pelo estupro não é um sintoma de repressão neurótica, nem um constructo social que poderia facilmente ser o inverso em uma cultura diferente. Prognostica que o sofrimento causado pelo estupro é mais intenso que o sofrimento causado por outros traumas físicos ou violações corporais. Isso justifica que nos empenhemos mais arduamente em prevenir o estupro e que castiguemos os perpetradores com mais severidade do que fazemos em outros tipos de agressão.” (PINKER, p. 494)

Em um artigo interessante (que ainda resenharei aqui no blog), denominado “Feminism, Primatology, and Ethical Naturalism“, Larry Anhart argumenta que exploração patriarcal pode ser condenada sob a base de sua contrariedade às necessidades e capacidades naturais das mulheres.

A ética naturalizada que defendo incorporaria o estupro como uma prática condenável necessariamente, uma vez que, sendo a parte da ecologia humana preocupada em determinar o que contribuir para o bem-estar de humanos, grupos humanos e indivíduos humanos, em ambientes naturais e sociais específicos (FLANAGAN, p. 30), é de fácil constatação o modo como o estupro afeta o bem-estar das mulheres, e também dos homens.

Como o núcleo da ética é a cooperação voluntária, a partir do qual a teoria de direitos libertária pode ser inferida, o estupro também fere o preceito básico de que as interações humanas devem basear-se em consentimento e vontade, ou seja, o voluntarismo básico preconizado pelo libertarianismo.

Por fim, deixo o leitor com a advertência da feminista liberal McElroy:

“Precisamos de metodologia científica para pôr à prova qualquer afirmação empírica. (…) Uma das vítimas do novo dogma sobre o estupro foi a pesquisa. Não é mais ‘sexualmente correto’ conduzir estudos sobre as causas do estupro porque – como sabe qualquer pessoa que pense corretamente – só existe uma causa: o patriarcado. Décadas atrás, no auge do feminismo liberal e da curiosidade sexual, a atitude em relação às pesquisas era mais refinada” (McELROY, In: PINKER, p. 492)

Parto humano e cooperação social

Uma imagem que comumente vem à mente quando se pensa na cooperação social dos ancestrais dos seres humanos é a de caçadores coordenando seu comportamento em conjunto para abater uma presa. E os caçadores são homens.

Deixando de lado neste texto a discussão acerca de quão ancestral seja a prática da caçada cooperativa entre seres humanos, cabe perguntar se outra prática cooperativa não é tão ou até mais antiga do que a caçada em conjunto, mas que, talvez, chame “menos atenção” por ser menos “visível” ou menos “pública” do que a caçada.

Nesse sentido, a assistência ao parto humano é uma importante prática cooperativa, e que trata diretamente de um assunto evolucionário de grande importância: o nascimento bem-sucedido e a prevenção da mortalidade infantil (e materna).

A paleontóloga Karen Rosenberg, da Universidade de Delaware, é referência no estudo da evolução do parto humano, e afirmou, em recente entrevista, que seu interesse nesta área teve, como um de seus motivos, a constatação de que grande parte da ciência da evolução humana focava em atividades masculinas como a caça, não prestando atenção ao que as mulheres estavam fazendo.

Em matéria escrita para a Scientific American, denominada “The Evolution of Human Birth” (2001), ela e Wenda R. Trevathan detalham sua hipótese. A base da tese delas reside em que, para os humanos atuais, o parto é difícil e arriscado, mas, se retrocedermos no tempo, voltando para os ancestrais humanos cada vez mais distantes, chegará um momento em que o parto não era difícil nem arriscado (tal como não o é para chimpanzés, por exemplo, que tem um ancestral comum com os seres humanos). A questão, então, é definir quando, nessa história evolucionária que levou os humanos a se distinguirem de outros grandes primatas como o chimpanzé, o parto começou a demandar/necessitar de assistência à mãe? (ROSENBERG; TREVATHAN, p. 78).

Essa pergunta pode ser respondida, primeiro, respondendo-se o porquê do parto ser arriscado e difícil para as mães de nossa espécie. Isso ocorre basicamente por dois motivos: 1) a postura bípede, ereta, do corpo, que estreita o canal do parto; 2) o tamanho da cabeça e dos ombros do feto em comparação ao tamanho do canal do parto.

Então, precisamos procurar, no registro fóssil, como essas duas características (bipedalismo e aumento do tamanho do crânio) evoluíram. Sabe-se que o bipedalismo evolui primeiro, então, deve ser analisado primeiro.

As autoras alertam que, embora um padrão comportamental tão complexo como a assistência ao parto por uma “parteira” não se fossiliza, os ossos pélvicos se fossilizam e, por outro lado, é possível estimar o tamanho do crânio de um infante baseado em extensivo conhecimento acerca do tamanho dos crânios de adultos, de modo que se possa determinar quão “apertado” seria o canal do parto em relação às proporções corporais do feto (ROSENBERG; TREVATHAN, p. 79).

No ramo da árvore evolucionária do qual o homo sapiens (humano moderno) surgirá, a ocorrência do bipedalismo obrigatório ocorre pela primeira vez no gênero Australopithecus, dos quais o famoso esqueleto denominado “Lucy” faz parte (gênero: Australopithecus; espécie: Australopithecus afarensis), há mais de quatro milhões de anos. Lucy é uma das fontes de conhecimento sobre a pélvis do Australopithecus (ROSENBERG; TREVATHAN, p. 80), sendo que Lucy era uma fêmea.

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(A.L. 288 – 1 –“Lucy”)

Cabe destacar que, entre o Australopithecus e o ancestral comum entre o homem e o chimpanzé, existiram outras espécies que já tinham andar bípede. O uso acima do termo “bipedalismo obrigatório” não foi por acaso. Ainda que o gênero Australopithecus tenha sido o pioneiro no bipedalismo obrigatório, o Ardipithecus Ramidus (que menciono aqui por nosso conhecimento acerca dele ser maior e menos controverso do que de outros espécimes ainda mais antigos: Sahelanthropus tchadensis, Orrorin tugenensis e Ardipithecus Kadabba) tinha, como atributo, o bipedalismo facultativo, que existe quando a estrutura anatômica do esqueleto permite também uma locomoção quadrúpede, que, no caso do Ardipithecus, servia à locomoção em um ambiente arbóreo (SU, p. 2013).

As autoras sugerem, de fato, que a assistência ao parto possivelmente apareceu há 5 milhões de anos atrás com o advento do bipedalismo, que restringiu o tamanho e molde do canal do parto (ROSENBERG; TREVATHAN, p. 79), entretanto, elas destacam que a estrutura anatômica do bipedalismo obrigatório, por si só, não introduz dificuldade suficiente para que as mães necessitem da assistência, de modo que o fator principal para a fixação deste padrão comportamental na espécie humana seria a expansão no tamanho do cérebro, e, por conseguinte, do crânio que ocorreu em especial com o surgimento do gênero posterior ao do Austrolopithecus, qual seja, o gênero Homo, há pouco mais de 2 milhões de anos atrás (ROSENBERG; TREVATHAN, p. 81).

Perceba que, nos humanos atuais, ainda que o crânio aumente consideravelmente durante 2 anos após o nascimento da criança, o tamanho do crânio do feto já é grande, comparado ao de outras espécimes de primatas, quando do parto. Considerando as restrições que o bipedalismo obrigatório impõe à estrutura da pélvis e, portanto, do canal do parto na mãe, isso significa que o aumento do tamanho do crânio no feto incrementou a dificuldade e o risco no parto, em especial do parto feito sozinho pela mãe.

Com isso, as autoras sugerem que, ao longo da evolução do gênero Homo (com a “progressiva” ampliação do tamanho do cérebro nas espécies deste gênero), a seleção natural teria favorecido o comportamento de buscar assistência durante o nascimento, porque essa ajuda compensaria as dificuldades advindas de infantes com grandes crânios, pélvis designada para o andar ereto, e de que a saída do feto no parto seja “rotacional” (ROSENBERG; TREVATHAN, p. 81), prevenindo assim excessiva mortalidade infantil e materna (ROSENBERG; TREVATHAN, p. 79).

Também destacam que o motivador da busca de assistência pelas mães não era apenas a mitigação dos riscos envolvidos, como também sentimentos de ansiedade, medo e dor (ROSENBERG; TREVATHAN, p. 81).

Dessa forma, também se explicaria o costume quase universal de assistência ao parto ao longo das culturas atualmente existentes (ROSENBERG; TREVATHAN, p. 79). Isso é verdadeiro, mesmo em face de contra-exemplos, como o do povo !Kung do deserto de Kahalari, na África. Apesar deste povo ter o parto solitário como ideal cultural, uma mulher geralmente não dará à luz sozinha, antes que já tenha dado à luz outras vezes, com sucesso, na presença de mães, irmãs ou de outras mulheres (ROSENBERG; TREVATHAN, p. 79).

Na entrevista feita com Rosenberg mencionada anteriormente, já agora em 2013, ela afirma que se pode ter certeza de que essa prática acontecia há 100.000 anos, entre os homens de Neandertal (p. s. nossa espécie e o homem de Neandertal têm um ancestral comum bem próximo), e provavelmente no Homo erectus, entre 300.000 anos e 2 milhões de anos atrás, onde foi alcançado o limite da expansão da pélvis para se ajustar a um feto cada vez maior em seu crânio, conforme ela tem trabalhado para demonstrar.

Logo, quando se pensa em “cooperação social humana” daqui por diante, deve-se ter em mente que uma das atividades cooperativas mais antigas na linhagem evolucionária humana é a assistência no parto, e a atividade de “parteira”, e que, portanto, a existência de cada um de nós hoje dependeu de um número extraordinário de partos bem-sucedidos no passado, os quais, em sua maioria, só o foram porque as mães do passado, há centenas de milhares e/ou milhões de anos (a depender do tempo exato em que esse padrão comportamental foi fixado no gênero Homo e se surgiu no gênero Australopithecus), foram assistidas e auxiliadas por outras pessoas, muito provavelmente outras mulheres. Portanto, o desempenho do papel de “parteira”, ao longo de gerações, foi crucial para a persistência e sucesso evolucionário do Homo Sapiens.

Referências:

ROSENBERG, Karen R.; TREVATHAN, Wenda R. The Evolution of Human Birth. In: Scientific American, edição de novembro de 2001, p. 76-81 –> http://www.udel.edu/anthro/krosenberg/305/RosenbergTrevathan.pdf

Entrevista com Karen Rosenberg, por Jessica Shugart, em 02/04/2013 –> http://scicom.ucsc.edu/publications/QandA/2013/rosenberg.html

Su, D. F. (2013) . The Earliest Hominins: Sahelanthropus, Orrorin, and Ardipithecus. In: Nature Education Knowledge 4(4):11 –> http://www.nature.com/scitable/knowledge/library/the-earliest-hominins-sahelanthropus-orrorin-and-ardipithecus-67648286

O ‘estado da arte’ da psicologia evolucionária – parte 3 (falseabilidade/testabilidade)

Dando continuidade às duas postagens anteriores desta série, aqui exporei o que o paper “Evolutionary Psychology: Controversies, Questions, Prospects, and Limitations”, escrito por Confer, Easton, Fleischman, Goetz, Lewis, Perilloux e Buss em 2010, e recomendado pelo Jerry Coyne em seu blog, tem a nos informar acerca de um problema que diz respeito ao próprio status científico da psicologia evolucionária: se suas hipóteses apresentam ou não falseabilidade e/ou testabilidade (apenas serão científicas se forem falseáveis/testáveis). Esse questionamento é abordado nas páginas 112-114 do paper.

A lógica do teste de hipóteses na psicologia evolucionária é a mesma daquela nas demais ciências: o pesquisador formula uma hipótese sobre um mecanismo psicológico evoluído primeiro, e, então, gera predições testáveis sobre os atributos ou características do design daquele mecanismo que não tenham sido previamente descobertas ou documentadas (CONFER ET AL, p. 112).

(Note que, ao dizer “características de design”, é no sentido padrão da biologia evolucionária para atributos ou partes componentes de uma adaptação que tenham sido selecionados, “projetados” por uma história passada de seleção natural, sem envolver qualquer projeto intencional; CONFER ET AL, p. 112)

Confer e os demais citam como exemplo desta metodologia a pesquisa sobre “memória adaptativa”: a hipótese de que os sistemas evoluídos de memória seriam pelo menos em alguma medida “domínio-específicos”, ou seja, sensitivos a certos tipos de conteúdo ou informação, e a memória humana seria, então, especialmente sensitiva aos conteúdos relevantes para a aptidão (fitness) evolucionária, como sobrevivência (comida, predadores, etc.) e reprodução (encontrar parceiros, etc.). (CONFER ET AL, p. 112)

Fazendo experimentos envolvendo cenários onde se designavam tarefas para a memória, envolvendo uma tarefa de “priming” (que é o efeito experimental relativo ao acesso mais rápido a uma palavra se precedida há pouco tempo por outra que compartilhe determinadas características linguísticas; vide FRANÇA; LEMLE; PEDERNEIRA; GOMES, p. 284), com uma tarefa surpresa adicional de recordação, os proponentes dessa hipótese constataram que palavras previamente avaliadas como possuindo relevância para a sobrevivência foram lembradas em taxas mais altas que as palavras avaliadas com relevância em uma variedade de condições para cenários de controle (CONFER ET AL, p. 112). Com experimentação adicional, a hipótese foi sendo cada vez mais corroborada, levando a que seus proponentes concluíssem que processamento de sobrevivência é um dos melhores procedimentos de codificação já identificados pela pesquisa em memória humana. (CONFER ET AL, p. 112) Se esses resultados não tivessem sido alcançados, a hipótese teria sido falseada.

Outro exemplo deriva de uma coleção que hipóteses derivadas da “teoria de gerenciamento do erro” (error management theory), que foram testadas e estiveram sob o risco de serem falseadas. A teoria de gerenciamento do erro propõe que, em um mundo incerto no qual os sinais observáveis estão apenas probabilisticamente relacionados ao verdadeiro estado da realidade que indicariam, existem duas maneiras de errar, que seriam ou inferir que um estado existe quando ele não existe (falso positivo) ou inferir que um estado não existe quando ele existe (falso negativo), contudo, como os custos de incorrer em cada tipo de erro foram frequentemente assimétricos (diferenciados) nas circunstâncias evolucionariamente relevantes de sobrevivência e reprodução, a seleção natural favoreceria vieses cognitivos que errassem na direção menos custosa. (CONFER ET AL, p. 112-113)

Exemplo: O custo de falhar em detectar uma cobra a partir de algum sinal observável poderia levar à morte, enquanto o custo de erroneamente inferir uma cobra que não existe resulta em um gasto trivial de energia ao evitar desnecessariamente uma situação que não causaria dano algum. (CONFER ET AL, p. 112) Então, a seleção natural favoreceria que você errasse na direção de inferir erroneamente a cobra (ou outro agente perigoso), ao invés de errar na direção de inferir erroneamente que não existe nenhuma cobra.

(Um adendo aqui: isso pode ser importante inclusive para explicar a origem evolucionária da religião; vide ATRAN; HENRICH, 2010, p. 20)

Hipóteses produzidas a partir dessa teoria, quanto aos vieses adaptativos selecionados, desde os domínios da percepção acústica e visual, até o de inferências sobre a motivação sexual e homicida de outras pessoas:

a) “Descent illusion hypothesis” (em uma tradução livre, seria algo como “hipótese da ilusão [na visão] descendente”): Prediz que as pessoas podem fazer estimativas assimétricas quanto à distância, dependendo se avaliam a partir do topo ou a partir da base de uma estrutura alta, tendo em vista os perigos associados com cair de alturas elevadas. Testes com base nessa hipótese mostram que as pessoas percebem distâncias vistas do topo de estruturas altas 38% maiores do que percebem a mesma distância quando vistas da base, confirmando a predição. (CONFER ET AL, p. 113)

b) “Auditory looming bias” (em uma tradução livre, algo como “viés de iminência/proximidade auditiva”): seres humanos superestimam a proximidade de sons se aproximando em relação aos sons que estejam se distanciando, por conta dos perigos historicamente maiores associados com objetos e predadores se aproximando, e não se afastando. (CONFER ET AL, p. 113)

c) “Commitment skepticism bias” em mulheres (em uma tradução livre, algo como “viés de ceticismo quanto ao comprometimento”): mulheres subestimam os níveis de comprometimento romântico (comparado aos homens) que são baseados em sinais tais como declarações de amor. (CONFER ET AL, p. 113)

Não passa despercebido aos autores do paper que a ciência de confirmar e falsificar hipóteses é mais complexa do que os exemplos sugeririam. As hipóteses geralmente estão embutidas dentro de um panorama teórico mais amplo. Por exemplo: teoria do fitness inclusivo de Hamilton –> teoria do investimento parental, que determina que o sexo que investe mais na prole será o mais seletivo na hora de escolher parceiros –> hipótese de que, em espécies com investimento paternal, fêmeas usam pistas acerca da disposição de investir como um critério para seleção de parceiro –> predição evolucionária de que mulheres preferem, como potenciais parceiros, homens que expressam uma boa vontade de investir nelas e em suas proles. (CONFER ET AL, p. 113)

Assim como no restante da psicologia, a avaliação de cada hipótese da psicologia evolucionária, assim como das mais amplas teorias dentro do qual estão embutidas, reside no peso cumulativo da evidência empírica. (CONFER ET AL, p. 113)

Apesar de ser um domínio científico relativamente jovem, centenas de estudos empíricos foram conduzidos para testar hipóteses, tendo confirmado algumas, falseado outras, e deixado outras ainda em aberto. Entre as hipóteses já confirmadas, por múltiplos métodos, em múltiplas amostras, por diferentes investigadores, são citadas: (CONFER ET AL, p. 113)

a) adaptações anti-caronistas (anti-free-rider) em grupos cooperativos (caronista é quem se aproveita dos benefícios, sem pretender arcar com os custos);

b) adaptações de detecção de trapaçeiro (cheater) em troca social;

c) superioridade feminina na memória de posicionamento espacial como parte de uma adaptação de coleta extrativista (gathering);

d) atributos funcionais das estratégias de relacionamentos (de cunho sexual) de curto prazo;

e) táticas de trapaça em relacionamentos (de cunho sexual) diferenciadas em relação aos sexos;

f) adaptações anti-predação em crianças.

Mas e quanto às hipóteses que foram falseadas, que falharam em testes empíricos? Exemplos: (CONFER ET AL, p. 113)

a) Teoria do altruísmo de parentesco em relação à homossexualidade masculina, segundo a qual a homossexualidade é uma adaptação que envolve substituir (por parte daqueles cujas perspectivas de relacionamento heterossexual sejam nada promissoras) o esforço direto por conseguir uma parceira sexual pelo investimento em parentes, tal como o filho de seus irmãos e irmãs;

b) Hipótese de que homens têm uma preferência evolucionária pela virgindade em relacionamentos (de cunho sexual) de longo prazo;

c) E pelo menos uma versão da hipótese do “macho competitivamente em desvantagem”, acerca de estupro.

No paper, há uma digressão um pouco maior sobre a hipótese já refutada acerca da homossexualidade masculina como uma forma de direcionar o investimento que seria em relação aos próprios filhos para os filhos de parentes consanguíneos. Em um teste direto envolvendo amostras de homens heterossexuais e homossexuais, pareados por idade, educação e etnia, foram analisados generosidade em relação a membros da família, investimento financeiro e emocional, tendências “avunculares” (relacionadas com a situação de ser “tio”) tal como dar presentes ou dinheiro para sobrinhos ou sobrinhas, e sentimentos gerais de proximidade em relação aos parentes genéticos. Os resultados foram conclusivos no sentido de que não havia nenhuma evidência de qualquer predição-chave feita pela hipótese do “altruísmo de parentesco em relação à homossexualidade masculina”. Testes subsequentes também não acharam nenhuma diferença significativa entre homossexuais e heterossexuais nesses quesitos. Com base na atual evidência empírica, a hipótese foi refutada. (CONFER ET AL, p. 113-114)

Dessa forma, o ponto-chave dessa seção do paper é demonstrar que as hipóteses da psicologia evolucionária formulam predições específicas e precisas sobre características de design que não se sabe se existem antes que um teste empírico seja feito, de tal forma que tais hipóteses são passíveis de serem falseadas empiricamente. Claro que as hipóteses, como em qualquer campo da ciência, irão variar quanto à sua qualidade, precisão e grau de embasamento em fundamentos teóricos bem estabelecidos, e qualquer hipótese mal feita merece crítica científica. Contudo, a ideia de que as hipóteses da psicologia evolucionária sejam, em regra, apenas um “contar histórias” é completamente errado, conforme se depreende dos exemplos citados acima. (CONFER ET AL, p. 114)

Referências:

COYNE, Jerry. Is evolutionary psychology worthless? 10/12/2012 –> http://whyevolutionistrue.wordpress.com/2012/12/10/is-evolutionary-psychology-worthless/

CONFER, Jaime C; EASTON, Judith A.; FLEISCHMAN, Diana S.; GOETZ, Cari D.; LEWIS, David M. G.; PERILLOUX, Carin; BUSS, David M. Evolutionary Psychology: Controversies, Questions, Prospects, and Limitations. In: American Psychological Association, Vol. 65, No. 2, 2010, p.110 –126 –> http://homepage.psy.utexas.edu/homepage/group/busslab/pdffiles/evolutionary_psychology_AP_2010.pdf

ATRAN, Scott; HENRICH, Joseph. The Evolution of Religion: How Cognitive By-Products , Adaptive Learning Heuristics, Ritual Displays, anda Group Competition Generate Deep Commitments to Prosocial Religions. Biological Theory 5(1) 2010, 18–30. Konrad Lorenz Institute for Evolution and Cognition –> http://www2.psych.ubc.ca/~henrich/pdfs/BIOT_a_00018.pdf

FRANÇA, Aniela I.; LEMLE, Miriam; PEDERNEIRA, Isabella L. e GOMES, Juliana N. (dezembro de 2005). Conexões conceptuais: Um estudo psicolinguístico de priming encoberto. Linguística. Rio de Janeiro, v. 1, n. 2, pp. 283-298 –> http://www.letras.ufrj.br/poslinguistica/revistalinguistica/wp-content/uploads/2012/09/artigo-6-conexoes-conceptuais-um-estudo-psicolinguitico-de-priming-encoberto.pdf

Daqui do blog: “O ‘estado da arte’ da psicologia evolucionária – parte 1 (introdução)”, 28/06/2013 –> https://libertarianismoedarwinismo.wordpress.com/2013/06/28/o-estado-da-arte-da-psicologia-evolucionaria-parte-1-introducao/

Daqui do blog: “O ‘estado da arte’ da psicologia evolucionária – parte 2 (bases teóricas)”, 12/08/2013 –> https://libertarianismoedarwinismo.wordpress.com/2013/08/12/o-estado-da-arte-da-psicologia-evolucionaria-parte-2-bases-teoricas/

Macacos pagos desigualmente: aversão à desigualdade em primatas não humanos

Está circulando um vídeo, onde o primatólogo Frans de Wall expõe, em uma palestra, a gravação de um experimento feito com dois macacos-capuchinhos, no qual, pela mesma tarefa, cada um recebe um pagamento diferente por parte do cientista humano, sendo que um recebe uma uva (recompensa melhor) e outro uma azeitona (recompensa pior).

Ocorre que o macaco que recebe a azeitona, vendo que o outro recebe a uva, começa a rejeitar a azeitona, atirando-a para longe quando a recebe. Inclusive, quando recebe a pedra (objeto da tarefa), ele tenta checar se há algo errado com a pedra, e fica claro que o macaco esperaria receber a mesma recompensa que o outro (a uva), mas que fica contrariado ao receber um pagamento desigual.

Recomendo muito que o vídeo seja assistido antes de se prosseguir a leitura. Seja no facebook (https://www.facebook.com/photo.php?v=459681287463034), seja no youtube (https://www.youtube.com/watch?v=NQIzuwAeARg). O vídeo é intitulado “Dois macacos pagos desigualmente”.

Algumas pessoas, entretanto, erroneamente criticam o experimento, considerando que ele não prova que os macacos tenham um senso de justiça, ou que você não poderia extrapolar um resultado alcançado com primatas não humanos para seres humanos, uma vez que estes seriam mais complexos e “sociais”.

Sem querer fazer uma revisão completa das críticas e das respostas às críticas ao vídeo, cabe destacar que as objeções, em geral, advém de mal entendidos sobre o que o experimento pretende, e de como a ciência funciona, e inclusive de como a ética pode ter se originado.

No seu livro “Invariances”, Robert Nozick pontua que, segundo a Teoria dos Jogos, em situações que envolvem interação entre mais de um agente e o resultado da ação de um depende da ação feita pelo(s) outro(s), para cada indivíduo existe uma ação sua que é seu “nível de segurança”, isto é, uma ação cujo resultado garante que o agente consiga pelo menos o melhor resultado entre os piores resultados das ações disponíveis ao mesmo (NOZICK, 2001, p. 244).

Por exemplo, se eu tenho uma ação “A” que pode produzir os resultados “3” ou “8”, e outra ação disponível, “B”, que pode produzir os resultados “4” ou “7”, e o resultado que minha ação terá depende do comportamento de uma outra pessoa, meu nível de segurança reside na ação “B”, que me garante pelo menos o recebimento de “4”, ou seja, independente do comportamento da outra pessoa, eu não receberei menos que “4”.

Então, prossegue Nozick que, em muitas situações de interação entre pessoas, existe alguma combinação de suas ações em que ambas ficarão melhor do que seus potenciais níveis de segurança naquela situação e que isso abre espaço para cooperação em benefício mútuo (NOZICK, 2001, p. 244). No exemplo acima, supondo que se ambos agissem da forma “A”, cada um obteria o resultado “8”, então uma capacidade de cooperar bem desenvolvida permitiria que eles tirassem um benefício maior de suas ações.

Dessa forma, a coordenação do comportamento por meio de normas éticas poderia surgir, por intermédio da evolução por seleção natural, desde que essa forma de regular o comportamento capacitasse os indivíduos a obterem melhores resultados no sentido evolucionário, maiores que seus níveis de segurança, e que não fossem alcançáveis por intermédio de outras formas de coordenação de comportamento, como o condicionamento pavloviano e o condicionamento operante.

Portanto, é interessante procurar pelos elementos que tornariam possível a emergência da capacidade, distintivamente humana, de criar regras morais e de atuar em conformidade com elas. Um deles, sem dúvida, é a capacidade para cooperação, isto é, a “sociabilidade”.

Só que a sociabilidade não é distintivamente humana e, entre os primatas, a sociabilidade é uma “plesiomorfia”, isto é, um traço mantido desde os primórdios desse ramo, e não uma característica singular dos homínídeos e dos humanos (FOLEY, 2003, p. 218). Segundo Robert Foley, a sociabilidade faz parte do cerne da adaptação dos primatas, sendo que, das aproximadamente 150 espécies de macacos e de macacos antropóides, apenas uma única não vive em algum tipo de ambiente social, e ainda assim isso é controvertido (caso do Orangotango), de modo que se conclui que “a tarefa de explicar as origens da sociabilidade e da sociedade cabe mais aos primatologistas que aos antropólogos, uma vez que à época do surgimento dos hominídeos ela já se encontrava bem estabelecida” (FOLEY, 2003, p. 218).

Tendo acrescentado a “sociabilidade” ao conjunto do quebra-cabeças evolutivo que levará ao surgimento da moralidade humana e do senso de justiça humano, pode-se perguntar que tipo de capacidades permitem que o indivíduo aufira mais vantagens de seu comportamento cooperativo, agregando assim mais valor evolutivo ao instinto mais geral para ser sociável.

Uma delas, certamente, é aquela que o vídeo traz: capacidade de comparar sua porção com a porção do outro + capacidade de comparar sua atividade com a atividade do outro, atividades estas ligadas de alguma maneira ao recebimento da porção + capacidade de reagir à subtração indevida de sua porção.

Sem isso, em determinados contextos, a estratégia parasitária de sempre pegar uma porção maior para si em detrimento daquela dos outros poderia passar a predominar e, assim, inviabilizar evolucionariamente determinadas formas de cooperação específicas, dentre elas a caçada em comum, uma vez que a persistência evolucionária desta depende de que o indivíduo consiga se beneficiar mais de estar dentro do esquema de caçada conjunta do que fora dele.

Os macacos-capuchinhos praticam caçada conjunta, segundo o próprio Frans de Wall em seu livro “Eu, Primata”: “(…) os selvagens capuchinhos caçam esquilos gigantes. Apanhar presa tão ágil, que pode chegar a um quarto do peso de um macho capuchinho médio, é dificílimo no espaço tridimensional da floresta, tão difícil quanto a caçada de macacos por chimpanzés. Incapazes de capturar um esquilo sozinhos, os caçadores capuchinhos precisam de ajuda.” (DE WALL, 2005, p. 254).

Ele prossegue dizendo que o experimento feito (este que vocês assistiram), buscou replicar a questão central da cooperação nesse tipo de situação: “fornecer compensações não só para quem fizer a captura, mas para todos os participantes” (DE WALL, 2005, p. 254).

Ele então narra o experimento, inclusive destacando a primeira parte do mesmo que não aparece no vídeo que está sendo divulgado: “Pusemos dois macacos de lado a lado e fizemos a troca 25 vezes seguidas. Trocávamos alternadamente com um e com outro. Quando ambos recebiam pepino, isso era chamado de equidade. Nessa situação, os macacos fizeram troca o tempo todo e comeram alegremente a comida. Mas, quando demos uvas a um deles e continuamos a dar pepino ao outro, as coisas tomaram um rumo inesperado. Chamamos a isso desigualdade. As preferências alimentares dos nossos macacos refletem os preços no supermercado; portanto, uvas são a melhor recompensa. Ao notar o aumento do salário do seu parceiro, os macacos que haviam ficado perfeitamente satisfeitos em trabalhar por pepino de repente entraram em greve. Não só mostraram relutância em participar, mas também ficaram agitados, jogaram os pedregulhos para fora da jaula de testes e até algumas fatias de pepino. Um alimento que normalmente não recusariam tornou-se menos do que desejável: tornou-se repulsivo!” (DE WALL, 2005, p. 254).

O próprio De Wall acrescenta que a “aversão à desigualdade” encontrada entre esses macacos não é tão sofisticada quando o senso de equidade humano mais desenvolvido: “Admito que nossos macacos apresentaram uma forma egocêntrica dessa reação. Em vez de acatar o nobre princípio da equidade geral, zangaram-se por receber menos na troca. Se a equidade geral fosse a preocupação deles, os macacos que se viram em vantagem teriam trocado algumas uvas com o outro ou recusado totalmente as uvas, coisa que nunca fizeram. Alguns dos afortunados ganhadores de uva até suplementaram sua refeição com as fatias de pepino rejeitadas pelo vizinho. E se mostraram alegres, em contraste com seus pobres parceiros, que, no fim do teste, estavam emburrados num canto.” (DE WALL, 2005, p. 256-257)

Frans de Wall publicou, junto com Sarah F. Brosnan, os resultados desse experimento em um paper denominado “Monkeys reject unequal pay”, em 2003, cujo “abstract” esclarece que, durante a evolução da cooperação, se tornou crítico para os indivíduos comparar seus próprios esforços e recompensas com aqueles dos outros, e ser capaz de reações negativas quando as expectativas são violadas, por meio de um mecanismo de aversão à desigualdade, sendo que o experimento deles demonstraria que um primata não humano reage negativamente à distribuição desigual de recompensas, efeito este inclusive amplificado quando o outro macaco recebe a recompensa sem fazer nenhum esforço (DE WALL; BROSNAN, 2003, Abstract).

E adivinhem quem é outro primata que também faz caçadas conjuntas, inclusive tendo-as feito durante o seu passado evolucionário? O ser humano. Em nosso passado pré-histórico, caçador-coletor, uma dieta com quantidade substancial de carne fez significativa contribuição às necessidades energéticas de um cérebro mais pesado, e “as vantagens da cooperação na busca de carne levaram à formação de grupos altamente organizados” (WILSON, 2013, p. 63).

Assim, a constatação sobre a aversão à desigualdade em macacos capuchinhos, e de seu valor evolucionário, pode ser extrapolada em relação ao ser humano, tendo em vista seu benefício evolucionário no Ambiente de Adaptação Evolucionária pré-histórico e caçador-coletor.

Logo, a capacidade humana para regular seu comportamento em conformidade com normas éticas que reflitam um senso de equidade foi construída evolutivamente, tendo sido antecedida por pré-adaptações, uma delas sendo provavelmente a aversão à desigualdade, que tornaram possível que aquela capacidade de normatização ética, e que dependia de um processamento cognitivo superior aos dos primatas não humanos, pudesse emergir entre os hominídeos e ser proveitosa para o sucesso evolucionário humano.

Referências:

DE WALL, Frans. Eu, primata: por que somos como somos. (original: Our inner ape – a leading primatologist explain why we are who we are) Tradução: Laura Teixeira Motta. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

DE WALL, Frans B. M.; BROSNAN, Sarah F.  Monkeys reject unequal pay. In: Nature 425, 297-299, 18/09/2003 –> http://www.nature.com/nature/journal/v425/n6955/abs/nature01963.html

NOZICK, Robert. Invariances: the structure of the objective world. The Belknap Press of Harvard University Press, 2001.

FOLEY, Robert. Os Humanos Antes da Humanidade: uma perspectiva evolucionista. Tradução: Patrícia Zimbres. São Paulo: Editora UNESP, 2003.

WILSON, Edward O. A Conquista Social da Terra. Tradução: Ivo Korytovski. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

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O ‘estado da arte’ da psicologia evolucionária – parte 2 (bases teóricas)

Dando continuidade à postagem anterior com a parte 1 desta série, aqui iniciarei a expor o conteúdo do paper “Evolutionary Psychology: Controversies, Questions, Prospects, and Limitations”, escrito por Confer, Easton, Fleischman, Goetz, Lewis, Perilloux e Buss em 2010, e recomendado pelo Jerry Coyne em seu blog, de modo que um conhecido crítico da psicologia evolucionária realmente reconheceu o valor desta disciplina enquanto ciência, com a indicação deste paper, que nos permite ter uma visão do “estado da arte” desse ramo. Abordarei as primeiras páginas do paper (p. 110-112), que contém sua introdução e a discussão do arcabouço teórico da psicologia evolucionária.

A psicologia evolucionária tem como objeto o estudo do comportamento humano como um produto de mecanismos psicológicos evoluídos que dependem de inputs (estímulos) internos e ambientais para o seu desenvolvimento, ativação e expressão no comportamento manifesto (CONFER ET AL, p. 110).

O objetivo do paper é clarificar alguns dos princípios dessa disciplina e afastar vários mal entendidos a respeito dela, bem como prover um arcabouço conceitual que facilite a integração da pesquisa nessa área com a pesquisa e teoria da psicologia mainstream, tendo em vista que, apesar de o campo da psicologia evolucionária ter crescido bastante, alguns dentro da psicologia mainstream ainda continuam não familiarizados com seu panorama teórico e os mal entendidos ainda são comuns (CONFER ET AL, p. 110).

A base fundamental da psicologia evolucionária é a teoria da seleção natural, desenvolvida por Charles Darwin, que postula a maior frequência de uma determinada característica herdável nas gerações futuras do que suas alternativas, desde que aquela ajude mais na sobrevivência e reprodução do organismo, no sentido de que as variantes com traços que levam a menos efeitos benéficos não persistirão, porque se reproduzirão em taxas mais baixas.(CONFER ET AL, p. 110)

Como resultado desse processo, existem três produtos: 1) adaptações: traços herdados que, seguramente, resolvem problemas relativos à sobrevivência e reprodução melhor do que as alternativas concorrentes durante o período de tempo em que elas evoluíram (exemplo: medo de cobras perigosas); 2) subprodutos: características sem valor funcional que persistem, porque elas estão inerentemente ligadas às adaptações (exemplo: medo de cobras que não são perigosas); 3) ruído: variações em uma dada característica relacionadas com eventos ambientais randômicos ou mutações genéticas (exemplo: taxas baixas aleatórias de medos, como medo do sol ou da luz solar). (CONFER ET AL, p. 110)

Esse arcabouço teórico, já bastante desenvolvido para o estudo da fisiologia e da anatomia, é transposto para o estudo da psicologia e do comportamento: tal como adaptações fisiológicas resolvem problemas específicos associados com sobrevivência e reprodução (exemplo: o sistema imunológico para defesa contra doença), adaptações psicológicas também evoluíram da mesma forma (exemplo: preferências por pistas estatisticamente confiáveis de fertilidade em potenciais parceiros), e são definidas como circuitos de processamento de informação que pegam unidades delimitadas de informação e transformam-na em outputs (resultados) funcionais, designados para resolver um problema adaptativo específico (CONFER ET AL, p. 110-111).

Um exemplo bem assentado empiricamente são de adaptações para sentir certos medos, já tendo sido demonstrado que um intenso medo de cobras existe em humanos e em outros primatas, e que cobras e aranhas embutidas em arranjos visuais complexos automaticamente chama atenção mais rápido do que objetos não perigosos fazem, de modo que sugere a possibilidade de que o medo de serpentes seja realizado por um circuito neural especializado (CONFER ET AL, p. 111). Perigos evolucionariamente antigos aparecem, de modo sistemático, em maior frequência em listas de medos e fobias comuns do que os perigos evolucionariamente modernos, como armas e carros, mesmo que armas e carros sejam mais perigosos à sobrevivência no ambiente moderno; e os resultados funcionais das adaptações para sentir medo, tais como lutar e fugir, servem para resolver os problemas adaptativos posto por ameaças evolucionariamente recorrentes à sobrevivência (CONFER ET AL, p. 111).

A psicologia evolucionária, de outro lado, sugere que a mente humana é um conjunto complexo e integrado de muitas adaptações psicológicas funcionalmente especializadas, que evoluíram como soluções para numerosos e qualitativamente distintos problemas adaptativos, tendo em vista que isso é uma premissa sobre adaptações compartilhada pelos biólogos evolucionários para entender animais não humanos e que soluções para um problema, como o da seleção de alimento, podem falhar em resolver outro, como a escolha de parceiro ou de habitat (CONFER ET AL, p. 111).

Apesar da especialização, e em face da integração dos mecanismos psicológicos, estes podem interagir para produzir comportamento adaptativo: por exemplo, se a pessoa se defronta simultaneamente com os problemas adaptativos de “sentir fome” e “risco de vida por causa de um leão ameaçador”, o medo do leão temporariamente suspenderá a sensação de fome até que a ameaça de morte iminente tenha passado (CONFER ET AL, p. 111).

Cabe esclarecer dois pontos: 1) a lista de problemas adaptativos inclui, além de evitar cobras, escolher comida que satisfaça as necessidades alimentares e favorecer parceiros férteis, também problemas de investimento parental, parentesco, amizade, cooperação em coalizão, agressão seletiva, negociação em hierarquias de status, entre muitas outras; 2) adaptações psicológicas não são módulos separados no sentido de Fodor, ou seja, separação por encapsulamento de informação, sendo que, ao contrário, eles frequentemente compartilham componentes e interagem entre si. (CONFER ET AL, p. 111)

Mas a psicologia evolucionária também é aberta às diferenças científicas em determinadas questões, tal como a importância e significado das diferenças individuais, a existência e funções de mais mecanismos psicológicos de domínio geral (não especializado) tal como a inteligência fluida, e a importância da seleção de grupo (CONFER ET AL, p. 111).

A base incontroversa e definidora da psicologia evolucionária é a necessidade, para uma ciência psicológica madura, de explicação dos mecanismos psicológicos enquanto funções evoluídas, para saber o porquê de sua existência (explicação remota, última), complementando assim a compreensão sobre os detalhes de como os mecanismos funcionam (explicação próxima), e possibilitando que ambos os níveis de análise se informem mutuamente, para conferir maior completude às explicações dentro da psicologia, levando-se em conta a interdependência de ambos os questionamentos (CONFER ET AL, p. 111-112).

Por fim, é preciso salientar que a psicologia evolucionária usa todos os métodos padrão de investigação disponíveis para teste de hipóteses por psicólogos, incluindo experimentos de laboratório, técnicas observacionais, questionários, técnicas fisiológicas, dispositivos de gravação mecânica (mechanical recording devices), métodos genéticos e técnicas de imageamento do cérebro, mas também acresce métodos não muito comuns na psicologia, como análise comparativa entre espécies, registros etnográficos, registros arqueológicos, dados paleontológicos e dados de “história da vida” (life-history data). (CONFER ET AL, p. 112).

Referências:

COYNE, Jerry. Is evolutionary psychology worthless? 10/12/2012 –> http://whyevolutionistrue.wordpress.com/2012/12/10/is-evolutionary-psychology-worthless/

CONFER, Jaime C; EASTON, Judith A.; FLEISCHMAN, Diana S.; GOETZ, Cari D.; LEWIS, David M. G.; PERILLOUX, Carin; BUSS, David M. Evolutionary Psychology: Controversies, Questions, Prospects, and Limitations. In: American Psychological Association, Vol. 65, No. 2, 2010, p.110 –126 –> http://homepage.psy.utexas.edu/homepage/group/busslab/pdffiles/evolutionary_psychology_AP_2010.pdf

Daqui do blog: “O ‘estado da arte’ da psicologia evolucionária – parte 1 (introdução)”, 28/06/2013 –> https://libertarianismoedarwinismo.wordpress.com/2013/06/28/o-estado-da-arte-da-psicologia-evolucionaria-parte-1-introducao/