O que a tomada de decisão no jogo do Ultimato revela sobre a explicação do comportamento?

No chamado jogo do Ultimato (Ultimatum Game), dois jogadores têm a oportunidade de dividir uma quantia de dinheiro. Um deles recebe a quantia e decide qual será sua oferta sobre como o dinheiro será dividido entre os dois. Por exemplo, se for atribuído a ele uma quantia de R$100,00, ele pode fazer uma oferta de distribuição igual (R$50,00 para cada um), ou de distribuição desigual (por exemplo, R$90,00 para si mesmo, e apenas R$10,00 para o outro). Então, o segundo jogador terá duas opções: aceitar ou rejeitar a oferta. Se aceita, o dinheiro é dividido conforme a oferta. Se rejeita, ambos os jogadores nada receberão.

A teoria econômica padrão prevê que agentes auto-interessados, e cujas escolhas são racionais (ou seja, consistentes entre si, de modo que se você prefere A à B e B à C, você também prefere A à C), aceitarão qualquer oferta, desde que recebam uma quantia maior que zero. Isso porque, por exemplo, mesmo R$1,00 é melhor do que não ganhar nada.

Ocorre que é sabido que, ao menos em sociedades industrializadas, geralmente as ofertas giram em torno de 50% para cada, enquanto as ofertas de baixo valor (em torno de 20-30% do total para o 2º jogador) tem uma chance de 50% de serem rejeitadas. A tendência, portanto, é que os jogadores rejeitem ofertas cuja consequência seja a de que eles ganharão apenas 30% ou menos da quantia estipulada. Trata-se de um achado experimental bastante robusto.

Como se explica este desvio em relação à previsão da teoria econômica padrão?

Nos experimentos já realizados em relação a este jogo, notou-se que a rejeição das ofertas de baixo valor era acompanhada por declarações de que referida oferta era injusta ou não equitativa.

Esta “aversão à desigualdade” é encontrada em primatas não-humanos, como os macacos-capuchinhos, e o pronunciado desenvolvimento deste senso de equidade em seres humanos foi uma vantagem evolucionária, uma vez que, durante a evolução da cooperação, se tornou crítico para os indivíduos comparar seus próprios esforços e recompensas com aqueles dos outros, e ser capaz de reações negativas quando as expectativas são violadas.

Deve-se destacar que nossos ancestrais eram caçadores-coletores que praticavam caça conjunta e, portanto, o desenvolvimento de regras que governassem a distribuição do alimento obtido era crucial à cooperação para sua realização, que, por sua vez, era indispensável para fornecer uma dieta com quantidade substancial de carne que pudesse “custear” as necessidades energéticas aumentadas de um cérebro mais pesado (WILSON, 2013, p. 63).

De fato, como Gerald Gaus nos comenta, há uma tendência no ser humano em tratar o produto de modernas economias complexas de mercado como se fosse o produto de uma caçada conjunta que devesse ser distribuído conforme normas distributivas que evoluíram para esse cenário ancestral – ainda que isso possa piorar a condição dos mais pobres, por conta do conflito entre equidade e bem-estar humano gerado por esta aplicação indevida.

Mas qual seria o mecanismo causal próximo desse comportamento de rejeitar ofertas injustas, não equitativas, no jogo do Ultimato?

No clássico estudo de neuroeconomia “The neural basis of economic decision-making in the Ultimatum Game“, os pesquisadores (Sanfey AG, Rilling JK, Aronson JA, Nystrom LE, Cohen JD) usaram técnicas de Ressonância Magnética Funcional  (RMf) para monitorar a atividade cerebral dos jogadores. A RMf  é uma “técnica de imagem que usa campos magnéticos para construir uma representação detalhada, em três dimensões, dos níveis de atividade nas várias partes do cérebro em determinado momento (…) se baseia no aumento do consumo de oxigênio para produzir imagens da atividade cerebral” (STENBERG, Psicologia Cognitiva, p. 229). Duas áreas do cérebro destacaram-se neste experimento: córtex pré-frontal dorsolateral (sistema cognitivo) e ínsula anterior (sistema emocional).

O resultado foi bastante interessante: durante as ofertas de baixo valor, o 2º jogador apresentava ativação em ambas as áreas do cérebro, como se o cérebro estivesse em conflito entre a racionalidade de otimização econômica (ao qual tenderia o córtex pré-frontal dorsolateral) e a aversão emocional à distribuição não equitativa (ao qual tenderia a ínsula anterior).

Dessa forma,eles encontraram que a rejeição de ofertas injustas implica em maior ativação da ínsula anterior do que do córtex pré-frontal dorsolateral, enquanto ofertas aceitas apresentavam maior ativação do córtex pré-frontal dorsolateral que da ínsula anterior.

Importante destacar ainda, ao comparar-se ofertas não equitativas feitas por jogadores humanos com ofertas não equitativas similares feitas por computadores, percebeu-se que a ativação foi maior quando a oferta provinha de outro ser humano, o que sugere que a magnitude da ativação não é somente uma função da quantidade de dinheiro oferecida ao participante, mas que é sensível ao contexto de um tratamento (percebido como) injusto recebido de outra pessoa.

Portanto, o comportamento de aceitar ou rejeitar uma oferta não equitativa é explicado por meio da interação entre duas áreas do cérebro, sendo que o resultado específico será determinado por qual área tiver maior ativação.

Isso lança luz sobre um equívoco comum no entendimento da ciência comportamental humana: pensar que, como postulamos mecanismos psicológicos específicos para exercer funções específicas (sendo o conjunto desses mecanismos a mente), isso significa que o comportamento será determinado exclusivamente por um único mecanismo.

Por exemplo: Um conhecido resultado da psicologia evolucionária afirma que o mecanismo psicológico masculino ligado ao sexo tem uma predisposição para interação sexual de curto prazo com múltiplas parceiras. Isso apresenta evidentes vantagens evolucionárias como estratégia reprodutiva, conforme a teoria da seleção natural.

Mas isso não significa que todos os homens trairão ou terão uma vida sexual mais “promíscua”. Presumivelmente, o comportamento masculino nessa seara dependerá não somente do mecanismo psicológico ligado ao sexo, mas também, hipoteticamente, do mecanismo psicológico ligado à observância de regras culturais, ou a um mecanismo de empatia (nesse caso, para com uma parceira à qual se prometeu fidelidade), os quais tenderiam a um comportamento menos “promíscuo”.

Portanto, neste exemplo, o comportamento sexual masculino resultaria da interação entre mecanismos psicológicos que atuam como “vetores” em direções distintas. E, se esta hipótese for correta, poderíamos observar este conflito com técnicas de neuroimagem, caso soubéssemos as áreas cerebrais pertinentes.

Conclusão: A tomada de decisão no Jogo do Ultimato mostra uma importante faceta da explicação do comportamento humano, qual seja, a necessidade de levar-se em conta a interação entre processos neurobiológicos/psicológicos distintos (e até mesmo em direções contrapostas quanto ao resultado comportamental almejado) na determinação da resposta comportamental.

Coração mole e bom x cérebro frio e calculista: substitutos ou complementos?

Algumas pessoas parecem não conseguir pensar além de dicotomias e maniqueísmos simplistas. Uma dessas dicotomias é poderia ser aquela entre, de um lado, fazer análise econômica rigorosa de uma situação ou de uma política desejada, e, de outro lado, a preocupação com as pessoas mais pobres e vulneráveis em nossas sociedades.

Daí que essas pessoas interpretam que, por exemplo, se alguém acredita que não devemos ter um salário mínimo legalmente imposto e para isso usa de argumentos econômicos, este “economista” deve ser um sujeito sem coração, sem preocupação com os pobres, que talvez mesmo odeie os pobres, já que se preocupa apenas com dinheiro. O jargão favorito é acusar aquele que utiliza de argumentos econômicos de ser um “economicista” ou um “fundamentalista de mercado”.

Mas isso apenas mostra a falta de compreensão que a pessoa tem sobre o que é realmente ajudar as pessoas, em especial as mais pobres e vulneráveis. Aparentemente, as pessoas acham que ajudar as pessoas se trata de consultar gurus, mas é preciso dar à César o que é de César e a Deus o que é de Deus:

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(Sábio da montanha: “Criar empregos? Consertar a economia? Eu pensei que você fosse perguntar algo mais fácil, como o sentido da vida!” / Site do cartoon aqui)

David Schmidtz (um liberal neoclássico) pontua que, se a sua preocupação é estar com o coração no lugar certo, seu coração não está no lugar certo. Ele falou isso querendo dizer que, se você defende uma política com base apenas em que ela mostra o quão bom seu coração é em querer ajudar a todos com problemas, você não quer realmente ajudar as pessoas.

Não adianta “achar” que uma política é boa, nós precisamos saber como uma política funciona, como as pessoas reagem no curto e longo prazo à sua implementação, seus efeitos colaterais etc. E, muitas vezes, o que parece obviamente ajudar os pobres e dar certo, não ajuda de verdade. Políticas não devem ser simbólicas, mas sim funcionais.

O já citado David Schmidtz menciona (em um paper e em um livro) que existem duas formas diversas de encarar a riqueza social e a justiça na sua produção e distribuição, com profundas diferenças em como você pensa que poderá ajudar os pobres:

a) A visão estática, onde você analisa um momento isolado no tempo, e é inquietante que  que haja pessoas com muito e pessoas com tão pouco. A questão primordial aqui seria: como conseguir os recursos necessários para ajudar as pessoas necessitadas? O que terá de passar pela redistribuição dos recursos existentes.

b) A visão dinâmica, onde você analisa a sociedade como um processo onde um momento evolui para outro. A questão primordial aqui seria: que instituições, ao longo do tempo, fazem com que se torne menos provável que as pessoas precisem de ajuda? O que terá que passar pela produção de mais recursos/oportunidades/renda no longo prazo, para a criação de melhores “momentos” no futuro. E isso significa que a redistribuição deve ser pensada em termos de suas consequências para esse processo de produção.

A visão dinâmica é aquela que a economia favoreceria, uma vez que é um retrato mais fiel do mundo, onde os recursos não são fixos e em que um aumento nos recursos pode melhorar em larga escala a vida dos mais pobres. Mas também porque às pessoas deve ser dada a chance de ganharem sua renda a partir de sua própria agência econômica e de contribuir para a produção da riqueza, não podendo ser tratadas eternamente como crianças, como agentes meramente passivos e que não precisariam de inclusão.

Para entender melhor o porquê do paradigma dinâmico ser melhor que o estático, pode-se usar um exemplo hipotético, de Jason Brennan. Suponha dois países, “Terra do Superior de Pareto” e “Terra da Equidade”. Ambos são democracias liberais, e são divididos em três classes: pobre, média e rica. Contudo, em 1900, o governo da Terra da Equidade resolve, sem aumentar o estoque de riqueza disponível, diminuir a desigualdade e aumentar a renda dos mais pobres, de tal modo que esta se tornasse 50% mais rica que a classe pobre do outro país. Isso significa que é melhor os pobres viverem na Terra da Equidade?

Depende. Digamos que o crescimento econômico anual na Terra do Superior de Pareto seja de 4%, para uma distribuição inicial (em 1900) de 10 – 20 – 40 (pobre, média e rica, respectivamente), enquanto o crescimento econômico anual na Terra da Equidade seja de 2%, para uma distribuição inicial de 15 – 19 – 24. O que aconteceria ao longo do tempo está descrito na tabela abaixo:

Terra do Superior de Pareto 4% Terra da Equidade 2%
Pobres  Classe média Ricos Pobres Classe média Ricos
1900 10 20 40 15 19 24
1901 10.4 20.8 41.6 15.3 19.4 24.5
1902 10.8 21.6 43.2 15.6 19.8 25.0
1925 26.7 53.3 106.6 24.6 31.2 39.4
1950 71.1 142.1 284.3 40.4 51.2 64.6
2000 505.1 1010.1 2020.2 108.7 137.7 173.9

Em 1925, a renda dos pobres da Terra do Superior de Pareto fica maior que a dos pobres do outro país. Em 2000, a renda da classe pobre da Terra do Superior de Pareto é aproximadamente 5 vezes maior que a da classe pobre da Terra da Equidade, e 50 vezes maior que a renda de 1990. Onde o padrão de vida dos pobres é realmente melhorado?

E se você pensa que esse exemplo foi irrealista e exagerado, você precisa conhecer o gráfico feito por Branko Milanovic, um dos maiores pesquisadores de desigualdade global na atualidade, em seu livro de 2010, que compara a renda média dos 5% mais pobres dos Estados Unidos com as faixas de renda das populações do Brasil, China e Índia.

Milanovic divide a população desses países em vinte“ventiles” (grupos de 5% da população), ordenados de forma crescente em relação à renda (Ex: O primeiro ventile representa a parcela mais pobre da população, enquanto o vigésimo representa a mais rica). Esses “ventiles” estão representados no eixo horizontal do gráfico. No eixo vertical, a população do mundo inteiro é dividida em grupos de 1% (“percentis”), também ordenados de forma crescente em relação à renda. Com isso, ele calcula a renda média de determinado “ventile” e verifica em qual “percentil” do mundo esse “ventile” fica.

O resultado é incrível.

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(A discussão sobre esse gráfico, com dados de 2005, pode ser encontrada aqui e aqui)

Os 5% mais pobres dos Estados Unidos estão situados no 68º percentil da distribuição de renda do mundo; ou seja, os mais pobres dos pobres americanos têm uma renda maior do que 68% da população mundial. Sua renda média supera a da maioria da população de três economias emergentes. Aproximadamente metade dos “ventiles” do Brasil, agregando no conjunto praticamente 50% da população brasileira, tem renda média inferior àquela dos 5% mais pobres dos EUA.

David Schmidtz comenta, inclusive, que, se a taxa de crescimento anual do PIB dos Estados Unidos, entre 1870 e 1990, tivesse sido apenas 1% menor, o PIB per capita dos Estados Unidos em 1990 seria apenas de um terço do que ele era à época, o que equivaleria ao México! Imagine como estariam os 5% mais pobres dos Estados Unidos se a renda per capita deste fosse igual à do México. Muito pior.

Matt Zwolinski, em seu twitter, escreveu que “Concern for the poor and vulnerable is a good complement to hard headed economic analysis, but a terrible substitute for it.” Em uma tradução livre: “Preocupação com os pobres e vulneráveis é um bom complemento para análise econômica rigorosa, mas um terrível substituto para esta.”

Absolutamente. Ter um coração mole e bom, e por isso preocupar-se com os mais pobres e vulneráveis (como estaria pressuposto no termo “libertaranismo bleeding heart“) deve ser a atitude de todos nós, contudo, é particularmente danoso e desastroso usar essa atitude para descartar um cérebro “frio e calculista” necessário para fazer análise econômica rigorosa.

Ao contrário, um coração mole e bom, com sua preocupação pelos pobres e vulneráveis, de um lado, e um cérebro frio e calculista, apto para fazer análise econômica rigorosa, são complementos, são os parceiros ideias na tarefa árdua, e muitas vezes não bem vista socialmente, de não apenas parecer estar ajudando os mais pobres e vulneráveis, mas sim de realmente ajudá-los.

Verdades e mitos sobre desigualdade de renda nos Estados Unidos

Em uma postagem daqui do blog “A saúde privada seria uma mentira por causa do desempenho dos EUA em relação aos demais países desenvolvidos?“, eu mencionei o tema da desigualdade de renda nos Estados Unidos, apenas bem resumidamente, deixando claro que é um assunto muito mais complexo do que simplesmente atacar esse incremento na desigualdade como algo completamente ruim.

Apesar do fenômeno ser complexo, quero tratar do mesmo brevemente aqui, introduzindo o leitor para que, ao menos, já saiba afastar pseudo-explicações do tipo “isso é a prova de que o capitalismo neoliberal deixa os ricos mais ricos e os pobres mais pobres” ou “o livre mercado irrestrito cria desigualdades extremas”. Ao contrário, tentarei mostrar que há um lado bom e um lado ruim por trás disso.

A chave para entender o incremento da desigualdade de renda nos Estados Unidos, desde a década de 70 para cá, é perceber sua íntima relação com o aumento da desigualdade salarial. Basicamente: maior demanda por trabalhadores qualificados.

Como os trabalhadores altamente qualificados não são a média da população, isso significa que a desigualdade de renda aumentou, uma vez que estes assalariados são muito melhor pagos do que o trabalhador mediano ou o trabalhador de baixa remuneração.

Por que os ganhos salariais dos trabalhadores altamente qualificados dos Estados Unidos (muitos dentre os quais tem um diploma universitário ou uma carreira de negócios) aumentaram?

Para responder isso, você deve pensar o seguinte: que mudança ocorreu da década de 70 para cá?

Se você pensou em “computador”, você está certo. Para colocar em termos amplos: de 1970 para cá, houve um processo de inovação tecnológica ligada à informática e afins que trouxe muito lucro àqueles que investiram com sucesso no setor, e, por isso mesmo, a procura por profissionais altamente qualificados aumentou, o que levou para cima a remuneração destes profissionais. Os Estados Unidos foram um pivô neste tipo de inovação.

A transição para uma economia fundamentada em trabalho qualificado, em grande medida voltado à inovação, gerou um aumento da renda desses assalariados qualificados que impulsionou o processo de inovação.

Assim, você pode até se queixar de que a desigualdade de renda nos Estados Unidos aumentou, mas entenda que o mesmo fenômeno – a transição para uma economia de inovação tecnológica de ponta -, que, em grande medida é responsável por essa desigualdade, também é responsável por grandes avanços tecnológicos, que beneficiam muitas pessoas (inclusive as mais pobres). Os Estados Unidos também são importantes inovadores em tecnologia médica, para dar um exemplo.

Aliás, a desigualdade de consumo não é tão alta quanto a de renda, e vários estudos mostram que a inclusão dos americanos mais pobres em melhorias propiciadas pelas dinâmicas de mercado é um fato bem estabelecido. Veja o vídeo abaixo:

Por isso não gosto de discursos que meramente constatam um aumento na desigualdade, para automaticamente concluir que isso é ruim e que não deveria ser assim. Sendo que parte desta desigualdade decorre de um processo que, por si mesmo, é fundamentalmente benéfico para a humanidade, seria no mínimo irresponsável defender que, para livrar-se da desigualdade, você teria que livrar-se da dinâmica de mercado que sustentou esses avanços tecnológicos. Aliás, se interrompermos essa dinâmica, nós prejudicaremos ainda mais as pessoas mais pobres.

Aliás, um estudo interessante mostrou que, entre os países desenvolvidos, aqueles países com maior densidade sindical, maior proteção ao trabalho e setores públicos que contribuem com uma grande parte do PIB, sistematicamente, recompensam de forma menor o investimento individual nas próprias habilidades (medidas em três categorias: “ser letrado”, habilidade matemática e resolução de problemas em ambientes ricos em tecnologia).

Como você poderia esperar do que eu falei acima, os Estados Unidos são os que melhor remuneram o investimento individual nas próprias habilidades. Veja o gráfico:

recompensa para as habilidades(vide o estudo aqui)

Perceba que países bastante igualitários como Noruega e Suécia estão entre os que menos remuneram o investimento pessoal em habilidades importantes para a dinâmica de inovação e melhora dos padrões de vida. Os países nórdicos não são campeões de inovação que ajuda e melhora a vida de milhões de pessoas, mas são campeões em ajudar apenas seus próprios povos com serviços públicos invejáveis – populações tão pequenas quanto, por exemplo, 9,5 milhões de habitantes da Suécia (isso é menor que a cidade de São Paulo – 11,5 milhões – e metade da região metropolitana de São Paulo – 19 milhões). Pare e pense: qual desses processos faz mais diferença positiva na vida das pessoas ao redor do mundo? na sua vida? em um mundo de 7 bilhões de pessoas?

Agora você pode estar se perguntando: mas não há outras causas que contribuem para esse incremento na desigualdade? Poderíamos citar alguns processos mais específicos: um mercado de universidades que atrai professores e pesquisadores elevando seus salários, um mercado de hospitais que remunera muito bem os médicos, um mercado financeiro com altos lucros e alto risco moral, uma regulação mais complexa das empresas que aumentou a demanda por serviços advocatícios especializados, etc.

Preste atenção nos dois últimos exemplos, acerca do setor financeiro e do setor jurídico: aqui já começamos a ver o que há de desigualdade ruim nos Estados Unidos.

Parte da amplitude desse crescimento da desigualdade de renda – da concentração de renda no topo – nos Estados Unidos relaciona-se com remunerações extremamente elevadas para pessoas que trabalham no setor financeiro, muitas dentre as quais fazem parte do famoso “1% mais rico”. Setor este cuja elevação nos lucros teve muita relação com estratégias de alto risco em relação às quais se tinha a confiança de que o governo norte-americano não deixaria que as perdas fossem completas, em caso de falhas. (tanto que, na crise de 2008, o governo de fato interveio para ajudar grandes bancos)

Esse cartoon da The Economist , traduzido para o português, fala tudo:

 

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(créditos da imagem, Kevin Kallaugher, que trabalha para o The Economist; você pode encontrar o cartoon original, em inglês, clicando em cima do nome dele)

Os advogados entram aí também, em grande medida, como atuantes neste setor. Muitos advogados de alto poder aquisitivo fazem negócios financeiros, e outros estão defendendo corporações contra ações judiciais, acionando ou ajudando as corporações a lidarem com regulamentos complexos.

Perceba, portanto, que a elevação extraordinária dos retornos para essas atividades são resultado do apoio governamental à expansão do crédito e às estratégias de alto risco (por conta da garantia implícita de que o governo impediria qualquer eventual chance do sistema financeiro colapsar), bem como à crescente complexidade da lei e crescimento do governo. O conto aqui não é um apenas sobre mercados, mas como relações entre certos setores e o governo – algo que todo libertário condena (e por isso que a maioria é bastante desconfiada em relação ao setor financeiro das economias) – prejudica o público, inclusive possibilitando, no caso de grandes bancos, “a privatização dos lucros, a socialização dos prejuízos”,

Além de separar o governo do setor financeiro e de simplificar a lei, para evitar essa captura artificial da renda pelo setor financeiro e jurídico, o que mais os Estados Unidos poderiam fazer para melhorar?

Se você lá leu meu texto sobre a justiça social ao estilo de livre mercado (um aqui e outro no Mercado Popular), talvez você tenha uma resposta na ponta da língua: maior crescimento da renda para a maioria das classes de renda, por intermédio de crescimento econômico acelerado.

Aqui cabe mencionar que, apesar dos Estados Unidos ainda ser um pivô na inovação, essa primeira década do século XXI foi marcada pelo baixo crescimento econômico, a “recuperação sem emprego” da crise e menor inovação. (os Estados Unidos também vem passando por um processo de diminuição na liberdade econômica, e agora no Ranking de Liberdade Econômica da Heritage Foundation já está fora dos 10 primeiros).

Outras reformas importantes seriam em seu sistema educacional, em sua política urbana e em seu sistema de patentes/propriedade intelectual. Também o fim da guerra às drogas e a interrupção do crescimento do déficit governamental com as guerras trariam benefícios incomensuráveis ao povo americano, em especial aos mais pobres. A reforma no sistema de bem-estar também seria valiosa.

Os Estados Unidos precisam de mais justiça social, não em moldes igualitários, mas no estilo de livre mercado: maximizar o feixe de riqueza pessoalmente controlada pelos trabalhadores de menor remuneração, por intermédio de instituições que apoiem o livre mercado para todos e impeçam o controle do governo pelas elites econômicas. Se isso for aplicado, veremos a emergência do dinâmico e inclusivo sistema de livre empresa de que o mundo tanto precisa.

Eleitores motivados pelo bem comum, mas cognitivamente enviesados: de boas intenções, o inferno está cheio (mas apostas nos tirariam de lá?)

Hoje li dois textos interessantes: um é uma resenha crítica do Bryan Caplan sobre o livro “The Ethics of Voting” do Jason Brennan (um libertário bleeding heart) e o outro é um paper do próprio Caplan denominado “Sociotropes, Systematic Bias, and Political Failure: Reflections on the Survey of Americans and Economists on the Economy“.

Tanto o livro do Brennan (que tive acesso pela revisão do Caplan) quanto o paper do Caplan mostram que a distinção entre o aspecto volitivo e o aspecto cognitivo do comportamento do eleitor é crucial para os resultados da política democrática.

Poderíamos resumir na seguinte pergunta o que eles estão procurando responder com ciência social empírica robusta: se os eleitores estão motivados à promoção do bem comum, eles conseguirão fazê-lo?

A resposta deles é: não, porque não adianta estar motivado a promover o bem comum, se os eleitores sofrem, sistematicamente, de vieses que afetam a discussão pública de vários temas e, assim, promovem políticas prejudiciais. Ou seja, mesmo que os eleitores estejam em geral volitivamente adequados, eles são bastante insatisfatórios no campo cognitivo.

Brennan revisa a literatura empírica sobre motivação e cognição dos eleitores. Encontra que os eleitores se saem bem na dimensão da motivação, usualmente tentando promover o bem comum e o que percebem como sendo o interesse nacional comum. Por exemplo, os mais idosos não são significativamente mais prováveis de apoiar programas de previdência social que os trabalhadores mais jovens, portanto, o contrário do que se esperaria se a principal motivação fosse o auto-interesse. (BRENNAN, p. 162 apud CAPLAN, p. 14)

Contudo, essa mesma literatura demonstra que os eleitores falham na outra dimensão relevante, a da cognição. O “bem comum percebido” e o “bem comum real” divergem, na teoria e na prática, estando as crenças dos eleitores distantes do que seria a melhor maneira de promover o bem comum, e não ocorre nenhum “milagre da agregação” (BRENNAN apud CAPLAN, p. 14), porque os eleitores são sistematicamente enviesados, não randomicamente enviesados. Vale destacar que, por bem comum, Brennan entende uma combinação de instituições – tais como ordem social, normas sociais/éticas compartilhadas, a regra de Direito, e mercados – que geralmente funcionam para vantagem de todos (WENZEL, p. 35).

Já Caplan, em seu paper, mostra que, ao contrário de pressupostos usados em modelos econômicos da política de que os eleitores seriam egocêntricos e deteriam crenças racionais não sujeitas a erros sistemáticos, ambas as premissas falham no âmbito de crenças econômicas (CAPLAN, p. 416), que são mais ligadas com ideias do que com auto-interesses, e cujos maiores preditores são a educação e a ideologia, não a renda (CAPLAN, p. 433) E isso é uma razão para temer os resultados da política democrática: eleitores “sociótropos” (não egoístas, motivados pelo bem comum) com crenças econômicas sistematicamente enviesadas são mais prováveis de produzir severas falhas políticas do que eleitores egoístas com expectativas racionais. (CAPLAN, p. 416)

Para Caplan, o melhor caso encontra-se em eleitores sociotrópicos racionais, uma vez que eleitores egocêntricos se oporão às políticas que pessoalmente os afetem, mas que sejam socialmente benéficas (CAPLAN, p. 430). Contudo, uma falha na cognição é mais grave que uma falha na motivação, uma vez que, por uma questão de teoria básica da otimização, se você estiver errado sobre o verdadeiro estado do mundo, seus esforços serão mal direcionados, e, assim, quanto mais severo o viés que afeta o raciocínio, mais pobre provavelmente será o ajuste entre a política popular e a política eficiente (CAPLAN, p. 431). Outro motivo é que existem duas maneiras de reconciliar a política majoritária com o bem-estar social: auto-sacrifício (disponível aos “sociótropos”) e barganha política (disponível aos egocêntricos), o que significa que mesmo eleitores egocêntricos, mas racionais, podem favorecer políticas socialmente benéficas (CAPLAN, p. 430 e 432).

De fato, eleitores voltados para o bem-comum, mas sob influência de ideias sistematicamente erradas sobre o funcionamento real da economia, apoiarão políticas danosas que agentes egocêntricos racionais nunca apoiariam. (CAPLAN, p. 432)

Com isso teríamos o seguinte ranking de eficiência:

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Pela análise do Caplan, estaríamos no pior dos mundos possíveis em termos de comportamento eleitoral que esteja causalmente relacionado com política eficiente. E isso inclusive me faz pensar na possibilidade de que Robin Hanson poderia estar certo quanto à superioridade comparativa da “futarchy” (futurarquia ou futarquia) em relação à democracia.

Com o provocativo título “Shall We Vote on Values, But Bet on Beliefs?” (ver o resumo da ideia aqui), Hanson nos instiga a pensar se realmente poderíamos votar em valores, mas apostar nas crenças. A ideia dele é que poderíamos utilizar o conhecido sucesso em agregação de informação dos “mercados de previsão” para sustentar melhores decisões políticas, limitando assim os danos colaterais advindos do funcionamento padrão da democracia.

De forma bastante simplificada, esse sistema funcionaria assim: representantes eleitos definem formalmente o que constituiria o bem-estar nacional como função de uma variável objetiva (como o PIB per capita, o IDH ou o coeficiente de gini) e fazem uma medição após a tomada de uma política particular, enquanto os especuladores de mercado apostam nas políticas que eles esperam que elevasse o bem-estar nacional (seu incentivo é ganhar retorno do investimento “apostado” se de fato a política em que se apostou elevou o bem-estar), sendo que a regra que une isso é a de que “quando um mercado de apostas estima claramente que uma política proposta aumentaria o bem-estar nacional, a proposta se torna lei” (dentro de restrições constitucionais que impedissem violações aos direitos individuais por meio da política, é claro).

Portanto, veja que nesse cenário de futarquia proposta por Hanson a democracia continua a nos dizer aonde queremos chegar, mas o mercado de previsões é que nos diz como chegar lá. Claro que esses mercados de previsão poderiam falhar, mas eles falhariam menos do que a democracia.

Eu não sei se a proposta da futarquia realmente funcionaria. Gostaria de ver mais discussão em torno disso, em especial, por exemplo, que, mesmo que os mercados de previsão falhem menos do que a democracia, em termos de eficiência alocativa, os tipos de falha dos mercados de previsão aplicados à política poderiam ser distributivamente mais danosos do que a própria democracia (exemplo: dadas as distribuições más, D1 e D2, e a distribuição boa D3,  os mercados de aposta levariam mais frequentemente para D3 do que a democracia, contudo, nos casos de falha, levariam à D1, que é percebido como muito mais danoso do que D2, que seria mais frequentemente causado pela democracia normal). Outro ponto residiria na discussão entre bem-estar nacional e bem-estar do resto do mundo, na hora de definir essa medida objetiva de bem-estar.

Mas é certamente muito interessante a possibilidade de que um mercado de previsão aplicado à política poderia ser muito mais eficiente que a democracia em alcançar o bem comum. E esse resultado  faz sentido, pelo menos em nível teórico, porque a democracia atual, dada a condição cognitiva do eleitorado em associação com sua postura motivacional, seria a forma menos eficiente no ranking do Caplan, enquanto o mercado de previsões teria o condão de dar um peso considerável à racionalidade, no mínimo, àquela dos egocêntricos racionais, aumentando a eficiência da política.

De qualquer forma, você pode estar seguro que o bem-estar de um país depende mais de suas instituições e da estabilidade destas do que das oscilações da política partidária padrão (alguns casos brasileiros de oscilação abordados neste blog aqui e aqui). Instituições importam. A política padrão está sujeita a sérios problemas, como o comportamento eleitoral sociotrópico, mas cognitivamente enviesado, como discutido acima, a ignorância racional do eleitor (ou talvez sua irracionalidade racional) e a exploração política promovida por grupos de interesses especiais organizados em face da massa desorganizada.

Mas as instituições estáveis de uma sociedade, tanto econômicas como políticas, realizam um papel crucial em assegurar a infra-estrutura básica em que a cooperação social e troca econômicas voluntárias podem ocorrer, isto sim sendo a verdadeira fonte da prosperidade e de ganhos explosivos em liberdade positiva, consistindo também no núcleo libertador do liberalismo clássico. Onde os mercados prosperam e somos mais livres para transacionar, as pessoas prosperam.

Dessa forma, o Homo Economicus não é o melhor modelo para abordar o comportamento do eleitor, mas ter um sentimento forte em relação ao bem comum está muito longe de realmente promover o bem comum. O comportamento de sinalização predomina. Sem nenhum tipo de restrição, a política frequentemente assumirá caminhos duvidosos, danosos. E isso independente de estarmos em países desenvolvidos ou subdesenvolvidos, ainda que os efeitos mais graves sejam sentidos naqueles que tem menos riqueza (potencial ou real) para desperdiçar/destruir/perder, disponível para suas populações.

Portanto, desconfiar da política majoritária e projetar limites constitucionais (incluindo direitos de secessão às comunidades locais) que restrinjam o potencial danoso da democracia inclusive na medida em que este seja derivado da ignorância política, não é uma opção, é uma necessidade – em especial para quem pretende ser motivado pelo bem comum, mas também racional, quando discute política responsavelmente.

A saúde privada seria uma mentira por causa do desempenho dos EUA em relação aos demais países desenvolvidos?

A busca por um atendimento de saúde eficiente e distributivamente inclusivo é uma das questões mais importantes de nosso tempo. Colocar grandes avanços da medicina e das ciências da saúde à disposição de todos, inclusive de trabalhadores de baixa renda, é uma meta fascinante. O problema é que, por outro lado, também é um tema mal compreendido. Perguntas relevantes sobre até onde vai a eficácia real de mais gastos médicos ou quem seriam o “todos” são geralmente negligenciadas. Esse texto pretende colocar alguns pontos nesse sentido, sem esgotar a temática.

Nesse sentido, li recentemente um texto denominado “A Grande Mentira da Saúde Privada em 8 Gráficos“, cujo argumento é o seguinte: comparando-se os Estados Unidos, que fazem a elegibilidade para programas públicos de saúde muito restrita (cobrindo apenas 27,4% da população total com os mesmos), em relação aos demais países desenvolvidos, cujos programas públicos em alguma medida cobrem praticamente toda a população, ocorre que: 1) os norte-americanos são os que mais gastam com cuidados de saúde, em proporção ao PIB; 2) os EUA tem o pior índice de mortalidade infantil; 3) a expectativa de vida é menor; 4) taxa mais alta de amputação de membros por causa de diabetes; 5) apesar do alto gasto, não se fazem mais idas ao médico do que em vários outros países ricos e a taxa é menor que a média daquela dos países da OCDE; 6) apesar de mais caro, ainda há listas de espera; 7) mais de um terço dos pacientes têm de parar o tratamento por razões econômicas.

Mostrando os gráficos encadeados da maneira exposta acima, o autor do texto conclui que a saúde pública estatal da maioria dos países desenvolvidos é um sistema muito melhor que a saúde privada enfatizada pelos Estados Unidos.

O problema é que a análise feita é superficial e é um exemplo de como não examinar um tema tão importante assim. Vendo os gráficos, e fazendo a correlação com sistemas predominantemente privados ou públicos de saúde, o texto afirma precipitadamente que os resultados retratados no gráfico são causados pelo caráter “público” ou “privado” dos sistemas de saúde do mundo desenvolvido, sem examinar outras possíveis causas, explicações e questionamentos. Então, faremos isso aqui:

1 – Sem considerar a regulação do mercado privado de saúde dos EUA:

1.1. A interação entre o sistema predominantemente privado dos EUA e os sistemas predominantemente públicos dos demais países desenvolvidos como explicação

Muitos países desenvolvidos conseguem tornar mais acessível remédios e  cuidados médicos aos seus cidadãos do que os EUA conseguem. Não somente aqueles que seriam difíceis para um trabalhador de baixa renda pagar, mas também aqueles que pessoas da classe média esgotariam seus recursos se tivessem de arcar com os custos. Os sistemas são diferentes na medida em que combinam ou não provisão pública e privada, mas são geralmente alinhados no sentido de que o Poder Público controla de forma bastante acentuada essas transações, em especial por meio do controle de preços dos remédios e cuidados médicos.

Mas a importante pergunta é: os remédios e tecnologia de cuidados médicos são produzidas por quem? Quem é o maior produtor de inovação nesta área?

Resposta: os EUA. Como bem pontua Tyler Cowen, nos últimos dez anos de quando ele escreveu o artigo, 12 prêmios Nobel em medicina foram para cientistas estadunidenses trabalhando nos Estados Unidos, 3 para cientistas estrangeiros trabalhando nos Estados Unidos e apenas 7 para pesquisadores de fora do país; das 6 mais importantes inovações médicas dos últimos 25 anos, uma veio da Europa, quatro foram desenvolvidas em hospitais americanos ou por companhias americanas e a outra foi primeiro desenvolvida na Alemanha, mas aperfeiçoada nos Estados Unidos. Um ponto importante: mesmo quando a pesquisa inicial é feita fora, o sistema americano é melhor em converter novas ideias dentro de tecnologias comercialmente viáveis. (COWEN, 2006)

Em termos de gasto com pesquisa, o gasto de pesquisa biomédia dobrou desde 1994 (considerado o ano de 2006), sendo que, em 2003, o gasto total foi de 94,3 bilhões de doláres, sendo que 57% dele veio da indústria privada. O National Institutes of Health dos EUA, uma entidade pública que patrocina pesquisa médica, tem orçamento anual para pesquisa de 28 bilhões, enquanto os governos da União Europeia, em contraste, gastaram 3,7 bilhões em 2000. Logo, resta muito claro que os Estados Unidos gastam mais em pesquisa e desenvolvimento em saúde, especialmente em remédios, mesmo tendo uma população menor que os países centrais da União Européia. De 1998 até 2002, quatro vezes mais dinheiro foi investido em companhias privadas de biotecnologia nos EUA em relação ao investido na Europa. (COWEN, 2006)

Cowen cita um paper denominado “How Can We Explain the American Dominance in Biomedical Research and Development?”, do Dr. Thomas Boehm, um pesquisador de uma companhia biomédica alemã, no qual este argumenta que o ambiente de pesquisa nos Estados Unidos, comparado ao europeu, é muito mais rico, mais competitivo, mais meritocrático e mais tolerante ao desperdício e ao caos, o que leva na direção de mais descobertas médicas. Aliás, 400.000 pesquisadores europeus estão vivendo nos Estados Unidos, frequentemente por facilidades de pesquisa e remuneração financeira superiores (guarde esta informação, será importante mais abaixo). (COWEN, 2006)

Perceba aqui que, enquanto os Estados Unidos não usam a lei ou o seu tamanho para impor preços menores aos cuidados médicos, os demais países desenvolvidos geralmente recorrem ao controle de preços, deixando, por exemplo, os preços de remédios mais próximos dos custos diretos de produção e diminuindo o excedente de lucro disponível para investimento em Pesquisa & Desenvolvimento – R&D (ALDONAS, p. 11).

Mesmo aqueles que elogiam as medidas tomadas pelos governos europeus para um controle efetivo dos custos com cuidados de saúde, reconhecem que há desvantagens nisso, como aumentar a dificuldade de manter o passo com a inovação médica e, em países com sistemas de saúde financiados por impostos, isso ser parcialmente responsável pelo comprimento das listas de espera para procedimentos hospitalares específicos (SALTMAN, 2009). Aliás o próprio gráfico apresentado no texto que estou criticando já demonstrava que os EUA tem menores listas de espera.

Aliás, é sabido também que, para além do sistema de saúde em específico, os EUA e a Europa em geral divergem nos incentivos para a inovação: sem negar que existem diferenças em inovação entre os países, é correto dizer que o sistema europeu adota um modelo paradigmático de corporativismo econômico, baseado na negociação coletiva entre parceiros sociais (federação de indústrias, grandes sindicatos e governo) e o resguardo de terceiros afetados, que favorece bem menos a inovação, uma vez que o inovador precisa convencer muito mais gente para conseguir que sua inovação seja posta em prática, ao invés de simplesmente ter a liberdade de tentá-la em um ambiente amplamente aberto às inovações (PHELPS, 2010, p. 403; PHELPS, 2009, p. 3; PHELPS, 2010).

Dessa forma, o quadro geral já está bem claro: permitindo maior provisão privada, sem tentar controlar os preços e nem impedir o desperdício ocasionado pelo processo de tentativa e erro bem como de divulgação publicitária, os EUA produzem a maior parte da inovação em remédios e tecnologia médica que é adquirida – e cujos preços são controlados – na Europa e em outros países desenvolvidos. Ao produzir essa imensa externalidade positiva, os EUA acabam também sofrendo os efeitos colaterais dessa política, com a desvantagem de muitas pessoas não estarem adequadamente cobertas e dos preços cobrados lá serem mais altos (Destaque-se que existem críticas sim ao modelo norte-americano, que falarei mais abaixo, mas o desincentivo à inovação em outros países desenvolvidos é algo bastante incorreto e pouco mencionado).

Então, pode-se dizer que muitos países desenvolvidos financiam o bem-estar de seus nacionais por meio da inovação produzida nos EUA, fazendo com que a quantidade global de inovação médica no mundo seja menor. Imagine se a Europa fosse um centro de inovação médica na mesma proporção que os EUA: teríamos muito mais remédios e tecnologias médicas disponíveis, e muitos mais ganhos seriam obtidos para a saúde em nível global.

1.2 Desigualdade nos EUA e cuidados de saúde

Outra causa para os problemas dos EUA é o incremento da desigualdade nas últimas décadas, considerando que os trabalhadores de baixa renda, e mesmo parte da classe média, têm experimentado rendas estagnadas ou mesmo com alguma queda, e o modelo de regulação da saúde nos EUA  não está adequadamente projetado para levar em conta isso. (COWEN, 2013; COWEN, 2011).

Essa desigualdade precisa ser avaliada mais de perto. Geralmente as pessoas falam da desigualdade nos EUA focando na remuneração dos CEOs das grandes empresas, mas é importante reconhecer que o o que está ocorrendo nos EUA é que o investimento no próprio capital humano, com a aquisição de formação universitária, está sendo recompensando em valores crescentes nos Estados Unidos.

Compare com o que você vê no Brasil, onde a impressão que se tem (claro que a depender da região) é que muitas pessoas com formação universitária não têm salários condizentes com isso.

Já nos EUA, os salários de pessoas com educação superior são muito elevados. Isso implica também que os médicos ganham remunerações muito altas, o que por sua vez também incrementa os gastos com saúde.

Por outro lado, muitas empresas levaram suas fábricas para o terceiro mundo o que, mesmo possibilitando que pessoas pobres ao redor do mundo tivessem mais uma opção disponível para si, também significou que a demanda por trabalhadores desqualificados nos EUA diminuiu.

Aqui eu não pretendo aprofundar o tópico da desigualdade, mas insistir em que é um assunto muito mais complexo do que simplesmente atacar esse incremento na desigualdade como algo completamente ruim.

Penso que muitas pessoas no Brasil concordariam que seria ótimo que pessoas que investiram em sua educação e qualificação profissional fossem muito melhor remuneradas, mas que, ao mesmo tempo, não desejariam que as rendas das pessoas mais pobres ficassem estagnadas ou que houvesse menos demanda por seu trabalho.

O mesmo “conflito de valores” surge se você olhar a questão da globalização: ao mesmo tempo que é ruim a diminuição da demanda por trabalhadores desqualificados nos EUA, é bom que aumente a demanda por trabalhadores desqualificados em países pobres, ainda mais levando em conta que mesmo os mais pobres entre os pobres dos EUA (5% mais pobres) são, em média, mais ricos que 68% da população mundial (falei sobre isso aqui).

1.3. Mais acesso ao atendimento de saúde faz a população ser mais saudável?

O texto associa, sem maiores digressões, que a população de um país é mais saudável caso tenha maior acesso ao atendimento de saúde, e, inversamente, que será menos saudável caso tenha menor acesso.

O problema é que existem várias evidências de que não há uma correlação segura entre mais acesso ao cuidado de saúde e/ou mais gastos médicos e uma população mais saudável (HANSON, 2007). O mais importante nesse sentido foi o denominado experimento RAND.

É importante destacar, de antemão, que isso não significa que determinadas intervenções específicas não podem melhorar os resultados de saúde de certos subconjuntos da população, mas sim que, globalmente, isso não ocorre, não há efeitos significativos.

Ou seja, para ilustrar: gastar 10% do PIB em saúde não necessariamente leva a uma população mais saudável, contudo, gastar mais em atenção neonatal pode reduzir a mortalidade infantil.

Agora, se considerado globalmente, maior acesso ao cuidado de saúde não faz a população – ou a pessoa média – ser mais saudável, que variáveis efetivamente interferem nesta última? Tabagismo, hábitos alimentares, exercícios físicos, renda, são exemplos de variáveis com uma correlação estável.

Isso significa, portanto, que parte da diferença entre os resultados de saúde dos EUA em relação a outros países desenvolvidos está relacionada com fatores completamente alheios em relação ao acesso ao seguro-saúde, como hábitos alimentares e estilo de vida.

E sempre é importante lembrar que muitos desses fatores que são seguramente relacionados com maior ou menor saúde da população estão no âmbito das escolhas pessoais das pessoas. Seria correto obrigar que mais pessoas tenham hábitos mais saudáveis para melhorar os resultados de saúde de seu país?

E, para finalizar este tópico, deixo para o leitor um trecho do livro “Descubra o seu economista interior”, de Tyler Cowen:

” Em MarginalRevolution.com, escrevi certa vez uma frase ditada pelo bom senso-econômico: ‘É preciso admitir que não podemos cuidar de todo mundo e que temos de encarar duras trocas.’ Um leitor escreveu respondendo: ‘Não. Não. Precisamos. Sim. Podemos.’ Outro leitor escreveu: ‘Por que não podemos? Outros países industrializados conseguem [estava se referindo à previdência social nacional]. Teríamos de elevar os impostos de uma maneira significativa, sem dúvida, mas sem dúvida seríamos capazes, se quiséssemos.’ ”

” Mas, ai de mim. Não podemos. ”

” Todos os dias cerca de 155 mil pessoas morrem. Morrem na Europa, também, mesmo nas democracias sociais. As pessoas morrem de ataque do coração e de gripe. Crianças se afogam em baldes e pessoas morrem em batidas de carro. Não chamamos isso de problemas de previdência social, mas são coisas que nos matam mesmo assim. Poderíamos gastar todo nosso dinheiro em saúde da população e elas ainda morreriam, mais cedo ou mais tarde. A maioria mais cedo. Poderíamos revogar os ‘cortes de impostos Bush’ e elas ainda assim morreriam. Existem no mundo também vários bilhões de pessoas muito pobres e outros bilhões relativamente com recursos, mas mesmo assim longe de ricos. Eles também contam e, sim, também vão morrer, muitas vezes tragicamente, com pouca idade. ”

” Podemos pegar um grupo limitado dessas pessoas e tornar sua vida melhor com intervenções seletivas de saúde. Deveríamos fazer isso. Mas temos de escolher os objetivos de nossa benevolência cuidadosamente. Por melhor que seja o trabalho que fizermos, muitos vão escapar por entre nossos dedos. E esses ‘de quem cuidamos’ recebem apenas aperfeiçoamentos marginais por períodos temporários. ”

” Nossa tendência natural é querer sentir que estamos cuidando de todo mundo. Vamos favorecer políticas que nos reconfortem. No processo, vamos muitas vezes rejeitar políticas que abarquem um número maior de pessoas. Muita gente se queixa de que os Estados Unidos têm mais de 45 milhões sem seguro de saúde. Pouca gente (além dos médicos pesquisadores) se queixa de que o orçamento dos National Institutes of Health, que apoia pesquisa médica básica, não é alto. Encorajar a inovação – uma fonte a longo prazo de ganhos imensos para a saúde – não nos proporciona o mesmo sentimento de controle imediato do sofrimento humano. Em outras palavras, graças à autoilusão não nos dedicamos verdadeiramente a cuidar dos verdadeiros problemas de longo prazo, e às vezes deixamos de gastar mais dinheiro do que deveríamos. ” (COWEN, p. 141-142)

Sinalizar que você se preocupa com os outros não é ajudar efetivamente os outros. Não podemos confundir as duas coisas.

2. Levando em conta a regulação do mercado privado de saúde nos EUA:

Por outro lado, também o desempenho dos EUA não pode ser atribuído, precipitadamente, ao livre mercado de saúde privada. A rigor, os EUA não são um país de exclusiva gasto privado com saúde. Seu sistema é melhor caracterizado como “muito gasto público, muito gasto privado, principalmente provisão privada” (COWEN, 2013). Além disso, o mercado de saúde privado é regulado em várias formas (BARRO, 2013), a venda de novos remédios ao público está sujeito à aprovação da FDA e a proteção do sistema de patentes é bastante robusta. Descontos tributários incentivam os empregadores a adquirir o seguro-saúde para os seus empregados, mas uma queixa frequente é a falta de portabilidade do seguro quando a pessoa troca de emprego. Então essas variáveis precisam ser examinadas também.

Primeiro, foquemos nas patentes. Existem evidências de que o atual sistema de patentes tem atrapalhado a inovação, contudo, no caso dos remédios, a evidência diz o contrário (BOLDRIN, LEVINE, p. 4), portanto, as patentes no setor farmacêutico efetivamente incentivam a inovação. Ainda assim há algumas manipulações problemáticas do sistema, como as patentes sobre remédios apenas ligeiramente modificados a partir de um anterior, que não caracterizam uma inovação, mas são vendidos mais caro, para dar apenas um exemplo. E, querendo ou não, patentes são monopólios concedidos legalmente, e isso é uma desvantagem importante deste sistema.

A saída aqui teria de ser, ou reformar o sistema de patentes de remédios de um modo que ficasse menos manipulável e menos vinculado aos interesses especiais da indústria farmacêutica, ou substitui-lo por algum regime alternativo que também desse conta de incentivar a inovação farmacêutica na mesma proporção. Algumas propostas existem, e, por seu caráter de menor interferência à liberdade econômica, eu as defenderia em preferência ao sistema de patentes, contudo, ainda não tenho opinião formada sobre a viabilidade das mesmas.

Aliás, outro ponto que afeta a discussão sobre a patente de remédios é o próprio fato de que novos remédios estão sujeitos à aprovação do FDA, o que torna ainda mais custoso e demorado o processo de colocar um novo remédio no mercado e obter lucros a partir do mesmo.

De fato, não tenho como discutir extensivamente sobre os problemas da regulação dos EUA, mas queria pontuar aqui que mesmo pessoas da esquerda norte-americana sabem que o grande problema do sistema de saúde de lá é não seguir adequadamente as lições da economia de mercado.

Em seu livro “Economia Levada a Sério”, Dean Baker, um economista ligado à esquerda norte-americana, defende que “por demais ignorados, os princípios econômicos básicos da equivalência entre o preço e o custo marginal e do livre comércio têm muito a oferecer na área da saúde” (BAKER, p. 28).

Ele por exemplo comenta que “o setor [farmacêutico] também se decida com regularidade a lutar pela extensão e pelo aprofundamento de suas patentes. O alargamento do prazo ou a intensificação da proteção às patentes podem acarretar grande aumento de lucros. E as empresas trabalham para garantir acesso fácil (e idealmente sem custo) às pesquisas financiadas pelos contribuintes por meio dos National Institutes of Health e outras instituições públicas. Além disso, a indústria farmacêutica tem por certo que o governo norte-americano vai representá-la nas negociações com outros países. As medidas que impõem a esses países a proteção das patentes de medicamentos se destacam em praticamente todos os acordos de comércio negociados nos últimos anos” (BAKER, p. 33-34).

Baker menciona outros exemplos de manipulação política do sistema pela indústria farmacêutica, como a influência sobre quais medicamentos serão cobertos pelo Medicaid e outros programas estaduais de assistência médica, ações judiciais para fazer valer ou ampliar a proteção oferecida pelas patentes, entre outros (BAKER, p. 84-85).

Também Baker defende a abertura do mercado de saúde norte-americano:

“Todo economista especializado em comércio deveria ter em mente a abertura dos Estados Unidos a profissionais da medicina. Os médicos norte-americanos, sobretudo os especialistas, ganham muito mais que seus iguais na Europa Ocidental e no Canadá. Isso ocorre, pelo menos em parte, porque é muito difícil para um médico – mesmo que para os que atendem aos altos padrões norte-americanos – formar-se em outro país e trabalhar nos Estados Unidos. O processo de credenciamento atua como uma barreira comercial” (BAKER, p. 46)

Recomendo também a leitura sobre a questão da reforma do sistema de saúde dos EUA aqui, aqui, aqui e aqui, e sobre o interessante sistema de Singapura que, apesar de predominante público, é bastante competitivo e os subsídios governamentais são voltados para aqueles que realmente precisam: aqui, aqui , aqui e aqui.

Apesar de eu não ter uma opinião formada sobre até que ponto deve ir o governo no que diz respeito à saúde (ainda que eu com certeza defenda maior abertura e liberdade de mercado nesse setor), me parece que o melhor seria uma cesta específica de cobertura e serviços garantidos bem selecionada e não tão ampla como muitas vezes se pretende que ela seja, sob um princípio realista de “alguns cuidados de saúde para todos, mas não muitos“, que, apesar de parecer avarento e mesquinho, poderia melhorar muito mais o bem-estar humano do que as alternativas, consideradas todas as variáveis em jogo.

O erro científico do keynesianismo e a emergência da macroeconomia novo-clássica

Geralmente se lê ou se escuta pessoas falando do “keynesianismo”, como se este tivesse sido uma “ideologia”. Independente da medida em que os “keynesianos” tenham propensão para determinadas posturas ideológicas ou valorativas, é sempre importante reiterar que o keynesianismo era uma hipótese científica e que como tal precisa ser avaliada. A demonstração de erros científicos em sua formulação veio a fortalecer o caso para uma macroeconomia novo-clássica, de que falarei também.

(P.s. Em texto daqui do blog, usei o termo “nova macroeconomia (neo)clássica” para traduzir o termo do inglês, mas agora vejo que a tradução como “macroeconomia novo-clássica” é melhor. Por isso o título daquela outra postagem foi alterado)

Robert E. Lucas, um notável macroeconomista novo-clássico, escreveu, junto com Thomas L. Sargent, um texto denominado “After Keynesian Macroeconomics“, onde mostram qual foi o erro científico do keynesianismo e a necessidade de repensar a macroeconomia com base em fundações em microeconomia (daí falar-se de macroeconomia novo-clássica, por ser uma refundação da macroeconomia com base em premissas neoclássicas da microeconomia, como veremos mais abaixo).

Apesar de não ser o propósito do próprio Keynes, a revolução keynesiana em economia foi uma revolução no método, possibilitando a evolução da macroeconomia em uma disciplina científica e quantitativa, com o desenvolvimento de explícitos modelos econométricos (LUCAS; SARGENT, p. 50). Lembre que econometria é a mensuração de dados econômicos, que lida o estudo de observações empíricas usando métodos estatísticos de estimativa e teste de hipóteses (CHIANG,  p. 5).

Um modelo econométrico é um sistema de equações envolvendo um número de variáveis endógenas (determinadas pelo modelo), variáveis exógenas (não determinadas pelo modelo) e choques randômicos (acaso). A ideia é usar dados históricos para estimar o modelo, e então utilizar essa versão estimada para obter estimativas das consequências de políticas alternativas. (LUCAS; SARGENT, p. 50) A macroeconomia keynesiana se caracterizava por modelos estruturais que impunham vários tipos de restrições a priori sobre as variáveis endógenas, exógenas e aos choques randômicos, como fazer de muitas das variáveis endógenas e exógenas equivalerem a zero ou uma categorização a priori de variáveis dentro da categoria de “endógenas” ou “exógenas” (LUCAS; SARGENT, p. 52-53).

Parece meio nebuloso dito assim, mas vejamos um exemplo: a Teoria Geral de Keynes trazia uma “lei fundamental” relacionando despesas de consumo à renda, que sugeria uma equação no modelo “1” (vide p. 51) envolvendo consumo atual, renda atual e nenhuma outra variável, o que é o mesmo que dizer que as outras variáveis seriam zeradas (LUCAS; SARGENT, p. 53).

Quais seriam os problemas decorrentes desse tipo de análise? Primeiro, sem conhecimento de quais parâmetros estruturais permanecem invariantes sob uma mudança na política (por exemplo, fiscal ou monetária), e quais mudam (e como mudam), um modelo econométrico não seria de nenhum valor para avaliar políticas alternativas. Isso porque uma mudança na política poderá alterar alguns dos parâmetros estruturais. (LUCAS; SARGENT, p. 53) Ou seja, não se pode supor a priori que uma relação funcional entre determinadas variáveis (isto é, a relação em que, se uma muda, a outra muda também em certa proporção) persistirá com a mudança na política.

Ainda mais, não se pode ignorar o papel das “expectativas” dos agentes econômicos, que influencia a dinâmica da economia, e não é possível determinar restrições sobre as variáveis que os agentes econômicos utilizarão para formar suas expectativas sobre os mercados (LUCAS; SARGENT, p. 55). Do postulado do auto-interesse, é de se esperar que os agentes econômicos potencialmente usarão os valores de várias variáveis endógenas e exógenas para formar suas expectativas sobre qualquer outra variável (LUCAS; SARGENT, p. 55), sem qualquer restrição.

E aqui entra o decisivo teste sofrido pelo keynesianismo, na década de 1970, que demonstrou onde estava seu equívoco: o “trade-off” (troca) entre inflação e desemprego, de modo que, quanto mais alta a taxa de inflação, mais alto será o produto da economia e consequentemente menor a taxa de desemprego. (LUCAS; SARGENT, p. 56). Dito de outra forma: haveria uma troca estável entre desemprego e inflação, a chamada “curva de Phillips” (BORJAS, p. 578), que poderia ser manipulada por meio de políticas governamentais de modo a aumentar a inflação para chegar ao pleno emprego.

Com base em recomendações formuladas a partir de modelos keynesianos, era de se esperar que o viés inflacionário na política fiscal e monetária dos EUA na década de 70 produzir as mais baixas taxas médias de desemprego para qualquer década desde 1940, mas, o que ocorreu foi a mais alta taxa de desemprego desde a década de 1930, ou seja, falha econométrica em larga escala (LUCAS; SARGENT, p. 57).

Agora é importante pontuar que o panorama teórico keynesiano era mais amplo que um conjunto particular de equações, e houve tentativas de refinar os modelos baseado sobre os mesmos pressupostos. Ironicamente, alguns que recomendavam que uma política fiscal seria uma alternativa mais eficiente do que uma política protecionista de “salvar empregos” para alcançar o mesmo fim, ao notarem que essa recomendação não fazia mais sentido, resolveram favorecer esses “controles diretos protecionistas” como “complementos” à política keynesiana, como se estivesse supondo que, se as pessoas se recusam a obedecer as equações que nós ajustamos ao seu comportamento no passado, nós podemos passar leis para obrigá-las a fazer isso! (LUCAS; SARGENT, p. 57)

Contudo, mais e mais economistas resolveram desenvolver teorias alternativas para o ciclo de negócios, baseados em princípios teóricos distintos. (LUCAS; SARGENT, p. 57) A macroeconomia novo-clássica surge, então, para formular uma macroeconomia fundada em pressupostos clássicos presentes na microeconomia, dentro os quais os mercados transparentes (“clear”) e o comportamento de otimização dos agentes. (LUCAS; SARGENT, p. 60)

O passo chave para conseguir fazê-lo era relaxar o postulado, também clássico, de que agentes têm informação perfeita (que é assumida nos modelos microeconômicos). Dessa forma, cada agente é pensado como tendo informação limitada e recebendo informação sobre alguns preços mais frequentemente do que sobre outros, e, mesmo com essas limitações, o agente ainda “otimiza”, o que significa que suas decisões de oferta e demanda devem ser funções de variáveis reais, incluindo os preços relativos percebidos. Com base na informação limitada possuída – “listas” contendo os preços absolutos, passados e presentes, de vários bens – os agentes fariam a melhor estimativa possível de todos os preços relativos que influenciam suas decisões de oferta e demanda. Como eles não possuem toda a informação para computar perfeitamente os preços relativos pertinentes, os agentes cometem erros na sua estimativa. Mais especificamente, sobre certas circunstâncias, os agentes tenderão temporariamente a errar no sentido de que o aumento geral em todos os preços absolutos significaria um aumento no preço relativo do bem que eles estão vendendo e, na média, todo mundo está cometendo o mesmo equívoco, o produto agregado aumentará acima do que poderia ter sido. (LUCAS; SARGENT, p. 60)

Ou seja, isso é a hipótese das expectativas racionais: os agentes fazem o melhor uso possível da informação limitada que possuem e conhecem a distribuição da probabilidade pertinente. O produto médio da economia diminuirá sempre que o nível agregado de preços vier a ser mais baixo que os agentes esperavam, e, da mesma forma, o produto  aumentará acima do que poderia ter sido sempre que o nível agregado de preços estiver acima do que os agentes teriam esperado com base na informação prévia. (LUCAS; SARGENT, p. 60)

Desse modo, há uma grande importância nas mudanças inesperadas em variáveis macroeconômicas, mudanças que não estejam dentro das “expectativas” dos agentes: 1) correlação positiva entre mudanças inesperadas no nível de preços e revisões no produto agregado em relação ao seu nível previamente planejado; 2) correlação entre revisões no produto agregado e mudanças inesperadas em quaisquer variáveis que ajudem a determinar a demanda agregada, por exemplo, a oferta monetária, de modo que inesperados aumentos na oferta monetária estão positivamente relacionados com revisões no produto agregado. (LUCAS; SARGENT, p. 60)

O que se percebe então é que esses modelos podem aceitar a correlação positiva entre a taxa de inflação ou a oferta monetária, de um lado, e o nível do produto da economia, de outro, mas o que não se aceita é que possa haver uma “troca” estável entre essas variáveis que possa ser explorada por uma autoridade política. Não há nenhuma maneira pela qual a autoridade monetária poderia seguir uma política ativista sistemática e alcançar uma taxa do Produto que seja, na média, mais alta no ciclo de negócios que poderia ocorrer se uma regra percentual fixa, sem alteração, fosse estabelecida para a oferta monetária. (LUCAS; SARGENT, p. 60-61) Flutuações no ciclo de negócios devem-se principalmente a choques não antecipados (LUCAS; SARGENT, p. 69).

Isso não significa que se esteja defendendo que a política não tem nenhum efeito, porque os mercados sempre se ajustariam e tirariam o efeito que a política poderia ter tido. O que fica sugerido por esses modelos é uma mudança na maneira de pensar a política. A concentração deve estar na escolha de “regras do jogo” estáveis, bem entendidas pelos agentes econômicos. Por outro lado, políticas que afetam o comportamento principalmente porque suas consequências não podem ser corretamente diagnosticadas, como instabilidade monetária e financiamento do défict, têm efeitos degenerativos e, portanto, a deliberada provisão de mal informação não pode ser usada de maneira sistemática para melhorar o ambiente econômico. (LUCAS; SARGENT, p. 69-70)

“Você pode enganar algumas pessoas o tempo todo ou todas as pessoas durante algum tempo, mas você não pode enganar todas as pessoas o tempo todo”, já teria dito Abraham Lincoln. Logo, políticas baseadas em  “enganar” as pessoas levando a resultados que elas não anteciparam, serão ineficazes tão logo os agentes econômicos aprendam a ajustar suas expectativas em relação a elas. (HOOVER)

Referências:

Daqui do blog: “Economia neoclássica, Nova Macroeconomia Neoclássica e libertarianismo bleeding heart”, 08/05/2013 –> https://libertarianismoedarwinismo.wordpress.com/2013/05/08/economia-neoclassica-nova-macroeconomia-neoclassica-e-libertarianismo-bleeding-heart/

LUCAS, Robert E.; SARGENT, Thomas L. After Keynesian Macroeconomics. –> http://www.bostonfed.org/economic/conf/conf19/conf19d.pdf

CHIANG, Alpha C. Fundamental Methods of Mathematical Economics. McGraw-Hill, Inc., 1984 –> http://www.drchristiansalas.org.uk/BusinessandEconomics/Economics/FundamentalMethods.pdf

HOOVER, Kevin. Verbete “New Classical Macroeconomics”. In: The Concise Encyclopedia of Economics –> http://www.econlib.org/library/Enc1/NewClassicalMacroeconomics.html

BORJAS, George. Economia do Trabalho. Tradução: R. Brian Taylor. Porto Alegre: AMGH, 2012.

Justiça social, no estilo de livre mercado

O filósofo político John Tomasi é um dos principais expoentes da concepção de que justiça social e livre mercado são compatíveis entre si e que andam juntos (libertarianismo bleeding heart ou liberalismo neoclássico). Ele escreveu o livro “Free Market Fairness”, em 2012, que poderia ser traduzido como “Equidade de Livre Mercado”, onde defende uma concepção “democrática de mercado” para a justiça social, o qual ainda estou lendo.

Um ensaio muito interessante que ele escreveu, e que gostaria de expor aqui, é denominado de “Social justice, free market style”, em 2012. Aqui ele faz um resumo de sua posição, que vale muito a pena conhecer.

Tomasi desafia a dicotomia tradicional entre, de um lado, aqueles que aceitam robustos direitos de propriedade privada e liberdade econômica e por isso rejeitam o conceito de justiça social ou distributiva, denominados de liberais clássicos ou libertários, e, do outro lado, aqueles que aceitam o conceito de justiça social ou distributiva e por isso rejeitam robustos direitos de propriedade privada e liberdade econômica, denominados de liberais igualitários ou liberais de esquerda (TOMASI, p. 26).

No primeiro campo, a defesa da propriedade privada é pautada ou na eficiência econômica  ou na auto-propriedade, e os indivíduos devem tomar responsabilidade por suas escolhas (TOMASI, p. 27). No segundo campo, justiça é aplicada à ordem social por inteiro, não apenas às ações dos indivíduos, e se pauta na ideia de que as instituições legais devem passar no teste de aceitabilidade por todos os cidadãos, para que estes possam ser autores de si mesmos e ninguém seja deixado para trás (TOMASI, p. 27-28).

Tomasi explica que, em seu novo livro “Free Market Fairness”, pretende-se romper com esta ortodoxia, uma vez que ele, como os libertários, acredita que a liberdade econômica é uma parte vital da liberdade humana, mas também, como os liberais igualitários, está comprometido com a noção de justiça social, no sentido de que as instituições legais devem estar arranjadas para expressão do respeito que cidadãos democráticos tenham um para com o outro, a despeito de sua classe econômica ou social (TOMASI, p. 28).

Ele ilustra isso como se ele cruzasse a fronteira e assumisse a noção liberal igualitária de pessoa, enquanto relativa à cidadania democrática, mas, uma vez que trouxe consigo insights do campo libertário, convida os liberais de esquerda a pensar se nós realmente respeitamos da melhor forma nossos concidadãos quando restringimos suas liberdades econômicas privadas (TOMASI, p. 28-29). Com isso ele espera alcançar um ideal democrático e uma teoria liberal de justiça moralmente mais ambiciosa, que ele denomina de “equidade de livre mercado” (TOMASI, p. 29).

Como podemos desenvolver essa nova abordagem liberal sobre a justiça? Precisamos de duas coisas: um argumento democrático/deliberativo para liberdade econômica privada e uma concepção de justiça distributiva que seja consistente com a afirmação da liberdade econômica, os quais, em conjunto, forneçam uma nova interpretação de justiça social em condições de rivalizar as abordagens de justiça social dos liberais igualitários (TOMASI, p. 29).

Ao começar a falar do primeiro elemento, ele menciona o que o liberalismo de esquerda fez com esse argumento democrático. Mill definiu a propriedade como condicionada à utilidade social e Keynes previra que, no futuro, as velhas virtudes da ambição econômica pessoal, trabalho duro e parcimônia abnegada seriam reveladas como os vícios, neuroses mórbidas, que sempre foram; Rawls não inclui as liberdades econômicas na sua lista de liberdades básicas, com exceção da escolha ocupacional e do direito de propriedade pessoal não produtiva (TOMASI, p. 29). Então,  esse liberalismo de esquerda se tornou compatível com um Estado de bem-estar social expansivo e mesmo com o socialismo (TOMASI, p. 29).

Mas essa concepção é problemática: em muitas democracias liberais da atualidade, quanto mais as rendas aumentam, cada vez mais cidadãos das classes trabalhadores se tornam menos dispostos a pagar impostos para apoiar programas e serviços estatais, demandando assim a capacidade de decidir por si mesmos acerca da composição de seu padrão de vida (TOMASI, p. 30)

Este sentimento moral, essa demanda democrática, não é adequadamente trabalhado pelas noções libertárias tradicionais de auto-propriedade e direitos absolutos de propriedade, mas pode ser afirmado que liberdades econômicas privadas são um sinal de respeito às decisões dos cidadãos sobre poupança, trabalho e gasto à luz de seus próprios valores e ideais (TOMASI, p. 30). Isso porque tais opções são intrinsecamente dependentes dos valores possuídos por cada qual e do tipo de pessoa que são, e o desenvolvimento dos poderes morais dos cidadãos demanda que eles possam fazer essas escolhas por si mesmos (TOMASI, p. 30).

E quanto ao segundo elemento, que diz respeito à justiça distributiva? A questão aqui reside em que, se respeitamos a condição de nossos concidadãos como livres e iguais, deveríamos também estar interessados em que todos tenham meios materiais suficientes para tornar valiosas as suas liberdades (TOMASI, p. 30). À primeira vista, parece difícil relacionar esse compromisso com o respeito pelas liberdades econômicas, mas essa dificuldade pode ser resolvida (TOMASI, p. 30).

A noção de justiça social significa o seguinte: uma sociedade é distributivamente justa se, além de proteger direitos e liberdades básicos, suas instituições operam de tal maneira que nenhum grupo seja deixado para trás, de tal forma que devam trabalhar para gerar a mais larga “cesta” possível de benefícios para os mais pobres (TOMASI, p. 30-31). A controvérsia principal reside, então, em definir o que conta como um benefício para aqueles em maior desvantagem, o que é denominado por Philippe van Parijs como o “distribuendum” da justiça distributiva (TOMASI, p. 31).

Uma das respostas é aquela que foi delineada por liberais de esquerda, como Mill, Keynes e Rawls. No nível da imaginação moral, resta claro que esses três pensadores foram atraídos para um ideal moral de uma economia de baixo ou de nenhum crescimento (TOMASI, p. 31), ainda que o crescimento econômico seja reconhecido como importante para obter prosperidade, e exatamente isto gera uma disparidade no seio da teoria (TOMASI, p. 31).

Ao longo do tempo, uma economia de crescimento mais rápido faria com que mais benefícios financeiros estivessem disponíveis para os mais pobres (seja por meio de uma crescente maré de trocas de mercado ou mesmo programas estatais redistributivos espalhando cada vez mais riqueza disponível), em comparação com uma economia em estado estacionário. Então como pode o ideal da economia estacionária ser compatível com a justiça social? (TOMASI, p. 31)

Os liberais igualitários pretendem solucionar esse problema postulando que, em última instância, riqueza não é o distribuendum primário da justiça distributiva, no sentido não de que não queiram que os pobres tenham mais riqueza, mas sim de que, se forçados a escolher qual combinação de benefícios a maximizar, em algum ponto defenderão que outros valores são mais importantes do que maximizar as porções materiais privadas das pessoas: por exemplo, alguns pensam que é mais importante que a riqueza material seja igualitariamente distribuído, mesmo se ao longo do tempo as pessoas terão menos em termos reais, ou que experimentar certos tipos de ambiente de trabalho vale mais do que possuir mais renda privadamente (TOMASI, p. 31). Ou seja, a ideia é que economias de baixo crescimento permitiriam que cidadãos experimentassem mais um sentido de solidariedade, seja por maior igualdade econômica ou maior compartilhamento de autoridade em seus empregos (TOMASI, p. 31).

Tomasi toma nota de como aquela concepção contrária foi desenvolvida ao longo do século XX pelos liberais de esquerda : 1) criaram o princípio de legitimação democrática e, sob fogo pesado de liberais clássicos e libertários, criaram o ideal de justiça social; 2)  a única maneira que parecia a eles de afirmar justiça social era restringir e reduzir as liberdades econômicas, então assim defenderam; 3) pensaram que poderiam fazer um julgamento, pelos demais concidadãos, de que em algum momento o prazer seria mais civilizado e enobrecedor que os desafios e o aspecto inquieto das conquistas na vida econômica; 4) instados a determinar quais eram os benefícios distributivos devidos aos trabalhadores pobres, geralmente destacavam uma maior democracia no ambiente de trabalho, ao invés de maior riqueza pessoal para os mais pobres. (TOMASI, p. 32)

Por outro lado, a concepção de justiça distributiva que Tomasi defende é bem diferente: a equidade de livre mercado sugere que nós não respeitamos os outros quando impomos algum padrão particular de organização do ambiente de trabalho que seja de nossa preferência pessoal, ou se truncamos suas liberdades econômicas para perseguir “solidariedade” (TOMASI, p. 31-32). Ao contrário, além de proteger os direitos básicos, a melhor forma de respeitar nossos concidadãos é quando buscamos aquelas instituições que maximizam a riqueza controlada pessoalmente por cada um (TOMASI, p. 32).

Assim, estabelecido um esquema adequado de direitos, a melhor forma de respeitar os pobres é adotar instituições designadas para maximizar o feixe de riqueza pessoalmente controlada pelos trabalhadores de menor remuneração, e não para reduzir desigualdades entre grupos. O ideal da igualdade relativa é rejeitado em prol da melhoria da posição absoluta dos pobres. (TOMASI, p. 32-33)

Portanto, a porção justa é o mais largo possível feixe de riqueza real que pode ser procurada pelos menos afortunados, consistentes com o respeito ao direito dos outros cidadãos, e esta porção é gerada pelo livre mercado, enquanto possa também ser complementada por uma rede de segurança governamental para assistir aqueles que estejam genuinamente em necessidade (TOMASI, p. 33).

Mas a rede de segurança deve ser tratado com cautela, no que diz respeito à sua função. Quando buscamos beneficiar os mais pobres, temos de preferir maneiras que também protejam sua autonomia como cidadãos, e isso significa que o ideal moral não é apenas o de que os menos afortunados tenham bens, mas sim que eles tenham tais bens como resultado de sua própria agência econômica. Assim, a oportunidade para uma vida de liberdade e independência é devida não apenas aos mais ricos, mas sim para cidadãos de todas as classes econômicas. (TOMASI, p. 33)

Levando em conta isso, que instituições sociais se ajustam a essa busca? É uma questão complexa, mas alguns elementos podem ser destacados: 1) proteger um vasto domínio de liberdade econômica privada; 2) limitar o alcance paternalista do governo; 3) criar um ambiente em que as capacidades comerciais criativas dos indivíduos estejam desimpedidas para beneficiar a todos, sem limites artificiais. (TOMASI, p. 33)

Logo, esta é a justiça social no estilo de livre mercado, para John Tomasi: maximizar o feixe de riqueza pessoalmente controlado pelos trabalhadores de menor remuneração (TOMASI, p. 33).

E para entender como isso pode ocorrer, recomendo as seguintes postagens daqui do blog: “Custos de oportunidade arcados pelos pobres na opção entre redistribuição e produção”. E, de preferência, acessando também o texto do Jason Brennan usado como referência, denominado de “Fairnessland and Economic Growth”.

Referências:

TOMASI, John. Social Justice, Free Market Style. In: Public Policy Research, vol. 19, issue 1, 16/05/2012, p. 26-33 –> http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1744-540X.2012.00678.x/pdf

Daqui do blog: “Custos de oportunidade arcados pelos pobres na opção entre redistribuição e produção” em 25/05/2013 –>  https://libertarianismoedarwinismo.wordpress.com/2013/05/25/custos-de-oportunidades-arcados-pelos-pobres-na-opcao-entre-redistribuicao-e-producao/

BRENNAN, Jason. Fairnessland and Economic Growth. 15/3/2011 –>  http://bleedingheartlibertarians.com/2011/03/fairnessland-and-economic-growth/