Da justificativa para aceitação do neodarwinismo e da natureza das objeções ao neodarwinismo

Nesse texto apresentarei um argumento meu acerca do que as objeções ao neodarwinismo efetivamente fazem e o que não fazem (pelo menos até o presente momento e dentro de meus conhecimentos sobre tais objeções). De antemão, agradeço ao professor André Coelho, graduado em Direito pela UFPA e mestre em filosofia pela UFSC, atualmente fazendo doutorado em filosofia na UFSC, e dono dos blogs “Filósofo Grego”, “André Coelho’s  Philosophy Blog” e “Constitucionalidades Virtuais”, pela profícua discussão travada sobre o meu argumento original e sua relação com um argumento semelhante de Dennet, e as objeções que ele apresentou foram importantes para que eu refinasse o argumento.

Minha preocupação central é saber de que forma uma objeção ao neodarwinismo deve ser para que possa, ao menos potencialmente, refutar o neodarwinismo. Isso está ligado à questão da justificação para aceitarmos o neodarwinismo como melhor explicação para todas as mudanças evolucionárias de uma forma específica (sistematicamente funcional), mesmo que não tenhamos em todos os casos uma explicação sem dificuldades.

Como pensei a questão, inicialmente, em face do problema se a seleção natural poderia causar  mudanças evolucionárias ocorridas na macroevolução (mesmo que não tenhamos explicações em todos os casos, ou haja dificuldades em fazer explicações para certos casos), o argumento será apresentado dessa forma mais específica e, depois, será generalizado:

Enunciado 1 – Se várias microevoluções juntas formam uma macroevolução (pela ausência de obstáculos genéticos para essas mudanças evolucionárias graduais acumuladas em largas escalas de tempo; ou talvez em alguns casos não graduais), e se o único mecanismo  que é conhecido por causar mudanças em nível microevolutivo, em uma direção sistemática para a formação de arranjos cada vez mais funcionais, é a seleção natural (existem outros mecanismos de mudança evolucionária, mas que não sistematicamente levam a arranjos mais funcionais), logo, a seleção natural é o único  mecanismo que poderia causar a formação de arranjos cada vez mais funcionais na macroevolução.

Isso implica que:

Enunciado 2 – Uma objeção contra uma explicação neodarwiniana para a macroevolução deve demonstrar que, ou várias microevoluções juntas não levam à macroevolução por si só (de modo que existe alguma razão que impede a seleção natural de operar no nível macroevolutivo como faz no microevolutivo), ou que existe outro mecanismo que possa causar mudanças sistematicamente na direção de uma maior funcionalidade do organismo.

Agora, vamos fazer um enunciado generalizado:

Enunciado 3 – Se não existe nenhum impedimento para que a seleção natural leve a mudanças evolucionárias em larga escala (como, por exemplo, não há obstáculos genéticos), e se existe apenas um mecanismo conhecido por causar sistematicamente mudanças evolucionárias na direção da maior funcionalidade do organismo, então estamos justificados em considerar que uma explicação neodarwiniana para a evolução está correta.

Isso implica que:

Enunciado 4 – Uma objeção contra uma explicação neodarwinana para a evolução deve demonstrar que, para certo fenômeno evolutivo específico em que se incrementa/foi incrementada a funcionalidade do organismo (não explicado ainda satisfatoriamente pelo neodarwinismo ou existindo dificuldades para tal explicação), ou existe um impedimento na natureza para que a seleção natural opere seus efeitos, ou existe outro mecanismo que incrementa sistematicamente a funcionalidade que não seja a seleção natural.

Vamos agora justificar os enunciados 3 e 4.

Segundo Edward O. Wilson, um traço é adaptativo se ele é mantido na população por seleção e um traço é não adaptativo se ele reduz o fitness dos indivíduos que  consistentemente manifestam-no em circunstâncias ambientais que são usuais para a espécie (WILSON, p. 21). Aptidão é a contribuição média para o pool gênico da geração seguinte. Para Robert Foley, seleção natural é “sucesso reprodutivo diferenciado, ou seja, que dada uma população de organismos reprodutores, e dado que os indivíduos pertencentes àquela população têm proles de diferentes tamanhos, a seleção natural é o mecanismo que determina esse índice diferenciado de reprodução e sobrevivência” e depende de quadro condições (reprodução, hereditariedade, variação na população e competição) e sofre limitações da genética, meio ambiente e história evolutiva pretérita (FOLEY, p. 43-45).

Segundo Foley, e John Tooby e Leda Cosmides, a teoria darwiniana da evolução consiste em princípios causais logicamente deriváveis que governam a dinâmica dos sistemas reprodutivos (TOOBY; COSMIDES, p. 52) e a seleção natural é consequência lógica necessária da existência de certas condições na natureza (FOLEY, p. 44), sendo que o conjunto de princípios (TOOBY; COSMIDES, idem) e as condições (FOLEY, idem) já foram testados, validados e são bem compreendidos. Dennet considera que a idéia fundamental de Darwin é que, se algumas condições gerais operarem ao longo de certo tempo (condições para as quais Darwin trouxe evidências), o processo resultante necessariamente levaria  na direção de indivíduos nas gerações futuras que tenderiam a estar melhor equipados para lidar com os problemas de limitação de recursos com os quais eles se deparam, em relação aos indivíduos da geração de seus pais (DENNET, p. 41).

John Tooby e Leda Cosmides consideram que, na moderna biologia evolucionária, são conhecidos vários processos de mudança evolucionária, tais como deriva, hitchhiking, macromutation e by-product (subproduto) developmental (TOOBY; COSMIDES, p.57), que eles relacionam como processos orientados por “chance” (em inglês., sorte, acaso) pela ausência de consequências funcionais em relação à reprodução, de modo que conduzem o design do organismo de uma maneira randômica (TOOBY; COSMIDES, p. 52). Como esses processos não levam em conta a funcionalidade, são propriamente considerados como “chance processes” com respeito à evolução da complexidade adaptativa (idem, p. 57), pois sua contribuição para esta seria apenas por “sorte”, por acaso, pela probabilidade de assim ocorrer. Mecanismos não-selecionistas de mudança evolucionária não podem prover uma explicação alternativa razoável para o olho ou qualquer outra adaptação complexa (idem). Já a seleção natural é o único mecanismo conhecido que dá conta da ocorrência natural de funcionalidade complexamente organizada no design herdado de organismos não domesticados (idem, p. 53), e organização complexa funcional é a assinatura da seleção (idem, p. 57). Características do design específico de uma espécie estão ali, ou por incorporação randômica, ou por sua contribuição à operação funcional da arquitetura (idem, p. 52). Dessa forma, o domínio da biologia evolucionária sumariza nosso conhecimento sobre os princípios de engenharia que governam o design dos organismos e, em efeito, é uma teoria sobre o design de organismos (idem, p. 52-53).

Por outro lado, não existe na genética nada que impeça que a seleção natural pudesse causar mudanças evolucionárias. Não existe nenhuma espécie de “tipo pré-existente” às quais uma população de determinada espécie não possa ir além, por exemplo, uma população de cachorros que não pudesse ir além de um “tipo” platônico que seria “O cachorro”. A seleção natural depende apenas de outros processos que fornecem material para ficar à disposição dela (como as mutações, o crossing over, etc.) que ocorrem com certa frequência. Tempo, dada a dimensão do tempo geológico, também não é outro problema. Sem exaurir a questão, não há nada na natureza que impeça a seleção natural de produzir seus efeitos, não se podendo presumir a priori que em determinado âmbito de mudança evolucionária a seleção natural não tenha como operar (ainda que se possa discutir até que ponto é atribuível a ela, e até que ponto, por exemplo, é atribuível a deriva genética).

Desse modo, temos razões suficientemente poderosas para afirmar que, dado qualquer fenômeno evolucionário que tenha sistematicamente (e não randomicamente) uma direção funcional, a seleção natural explicará a mudança na medida em que esta ocorra sistematicamente (e não randomicamente) em uma direção funcional.

Claro que permanece possível que, no futuro, se encontre outro mecanismo ou a prova de que a seleção não pode explicar certo âmbito do fenômeno evolucionário sistematicamente em uma direção funcional, mas isso também significa que essas são as únicas  formas válidas de se fazer uma objeção ao neodarwinismo.

Daí que uma objeção ao neodarwinismo que tenha a seguinte estrutura “como não há uma explicação selecionista bem clara para certo fenômeno evolutivo específico (que tenha sistematicamente uma direção funcional), ou há dificuldades a serem enfrentadas por uma explicação selecionista, isso significa que a seleção natural não pode ser a explicação para aquele fenômeno” é invalida, é um argumento de ignorância. Ela pretende dizer que, por não conseguirmos imaginar como a seleção natural pode explicar, ela não pode explicar. E o que se vê em muitas objeções ao neodarwinismo é exatamente isso: argumentos de ignorância sofisticados por uma linguagem técnica.

Não é porque a seleção natural não explica ainda certo fenômeno evolucionário que conduza à organização complexamente funcional, que ela não possa explicar isso. Ainda mais, temos razões muito fortes para admitir que a seleção natural, salvo muito improvavelmente alguma condição absolutamente imprevista que ainda não foi detectada ou algum outro mecanismo ainda por ser descoberto, pode sim explicar aquele fenômeno evolucionário, só que ainda não conseguimos imaginar uma forma de modelar o fenômeno. Em abstrato, ela pode, e, na natureza, sabemos que existem condições para que ela opere, nenhuma limitação intransponível à sua operação e, traduzindo a frase de Tooby e Cosmides, de sua existência  como único mecanismo conhecido que dá conta da ocorrência natural de funcionalidade complexamente organizada no design herdado de organismos não domesticados (COSMIDES; TOOBY, p. 53).

A teoria neodarwinista não é perfeita, tem dificuldades em certos campos, e ainda pode melhorar mais (inclusive talvez quanto aos processos que fornecem material para os processos evolucionários). Mas as dificuldades para, ou a ausência de uma explicação neodarwiniana precisa em certos âmbitos, não são razões para considerar que o neodarwinismo esteja falido, ou que seja incapaz de explicar a evolução funcional naqueles âmbitos. Às vezes, pode haver razões para complementar o neodarwinismo, mas até agora nenhuma objeção decisiva foi feita contra o mesmo.

Uma objeção decisiva precisa mostrar que haja alguma barreira intransponível na natureza à seleção natural, ou que exista outro mecanismo que possa fazer o mesmo que ela. As tentativas de fazê-lo, até o momento, foram falhas. Dessa forma, pelo menos até onde conheço e consigo avaliar, até o presente momento não temos objeções decisivas contra o neodarwinismo, mas apenas objeções circunstanciais, que são argumentos de ignorância baseados na inexistência de uma explicação precisa ou nas dificuldades à formulação de uma, ou complementações (como a ocorrência de transferências horizontais de genes em bactérias como mais uma forma de prover material para a evolução).

Daniel Dennet, em “Darwin’s Dangerous Idea” apresenta uma ideia semelhante à minha: os cientistas, quando confrontados com uma objeção poderosa prima facie à seleção natural, são orientados pelo raciocínio de que “eu não posso (ainda) ver como refutar essa objeção, ou sobrepujar essa dificuldade, mas desde que eu não posso imaginar como qualquer outra coisa que não a seleção natural poderia ser a causa dos efeitos, eu terei de assumir que a objeção é espúria e que de alguma forma a seleção natural deve explicar seus efeitos”. Dennet complementa ainda que isso não significa que o darwinismo seria uma fé não comprovável como religião naturalista, porque há uma diferença fundamental: os cientistas têm tomado à frente para mostrar como essas dificuldades com sua visão poderiam ser sobrepujadas e, cada vez mais, eles conseguiram enfrentar o desafio. No processo, a idéia fundamental de Darwin foi articulada, expandida, clarificada, quantificada, em várias formas, tornando-se mais forte toda vez que ela enfrentou com sucesso os desafios. É razoável acreditar que uma ideia que fosse, no final das contas, falsa tivesse sucumbido a tantos ataques. Isso não é uma prova conclusiva, mas uma consideração persuasiva poderosa, e um dos objetivos de seu livro é mostrar o porquê de a seleção natural parece ser claramente a tese vencedora, mesmo enquanto ainda haja controvérsias não resolvidas sobre como ela pode lidar com alguns fenômenos. (DENNET, p. 47)

Mas há um problema aqui. Não fica claro até que ponto Dennet considera que podemos considerar uma objeção contra o neodarwinismo como espúria. Inclusive, essa adjetivação como “espúria” não permite distinguir adequadamente se Dennet considera válido rejeitar a objeção inclusive quanto ao seu “poder problematizador e desafiador” para mostrar que há fenômenos ainda não explicados, âmbitos que ainda não foram dominados pela teoria e de que talvez (improvavelmente) alguma teoria alternativa não conhecida fosse superior à neodarwinista da seleção natural, mesmo sendo certo que eu e ele concordamos com o fato de que tais objeções carecem de “poder refutador ou rivalizador” no sentido de dar razões suficientes para rejeitar a seleção natural como teoria falta ou para preferirmos outro tipo de explicação (essa contraposição entre espécies de “poderes” e a definição deles devo ao professor André Coelho).

Eu considero que as objeções ao neodarwinismo não têm poder refutador ou rivalizador se elas não atendem as condições que eu descrevi aqui para que elas, de fato, fossem objeções decisivas. Entretanto, objeções que não atendam a essas condições ainda tem o condão de expor os desafios ainda existentes ao neodarwinismo, por isso são  inválidas apenas na medida em que pretendam ter poder refutador ou rivalizador real. Talvez Dennet pense o mesmo, mas não li o livro inteiro dele para dar um parecer definitivo acerca disso.

Logo, temos razões suficientes para considerar que, apesar das dificuldades ainda existentes, o neodarwinismo seja a melhor explicação disponível para a ocorrência natural de organização funcional complexa e que a seleção natural é a única forma de produzir esse resultado. De outro lado, objeções ao neodarwinismo que apenas destaquem as dificuldades ainda existentes não são objeções reais, não demonstram a falsidade ou a falência do neodarwinismo como modelo teórico, caso não demonstrem que exista outro mecanismo que produza os mesmos efeitos da seleção ou a impossibilidade da seleção natural operar para produzir seus efeitos na natureza em certos aspectos do fenômeno evolucionário, sendo que, até hoje, não se conseguiu fazer nada disso. Longe de estar morto, o neodarwinismo gera contribuições robustas para o avanço do conhecimento humano sobre o mundo vivo e nós mesmos.

Referências:

FOLEY, Robert. Os Humanos Antes da Humanidade: uma perspectiva evolucionista. Tradução: Patrícia Zimbres. São Paulo: Editora UNESP, 2003.

TOOBY, John; COSMIDES, Leda. The Psychological Foundations of Culture. In: COSMIDES, Leda; TOOBY, John; BARKOW, Jerome H. (org.). The Adapted Mind: evolutionary psychology and the generation of culture. Oxford University Press, 1992.

WILSON, Edward. O. Sociobiology: the new synthesis. The Belknap Press of Harvard University Press, 1975.

DENNET, Daniel. Darwin’s Dangerous Idea: evolution and the meanings of life. Penguin Books, 1996.

3 respostas em “Da justificativa para aceitação do neodarwinismo e da natureza das objeções ao neodarwinismo

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